Fortalezas esquecidas

Texto  Tom O’Neill   Fotografias  Michael Yamashita

Contar as tulou.

Tudo começou como um jogo. Quantas daquelas estruturas estranhas, semelhantes a fortalezas, conseguiria eu contar a partir da janela de uma viatura? Eram enormes e erguiam-se como naves espaciais na região rural da província de Fujian, no Sudeste da China. Em cada aldeia, parecia existir uma, duas ou até mais.

Em Hekeng, povoado com várias centenas de habitantes, contabilizei 13 tulou. Tulou significa “estrutura de terra” em mandarim, uma definição bastante modesta, como se nos bastasse descrever o Coliseu de Roma como um círculo de pedras!

Os edifícios assemelham-se a estruturas medievais, compostos por altos muros castanhos e lamacentos, com janelas minúsculas nos andares de cima. A entrada normalmente faz-se por uma única porta de madeira forrada a chapa metálica.

O exterior não nos prepara para o que encontramos no interior. Se o exterior sombrio se assemelha a uma penitenciária, o interior abre-se de rompante como um salão de concertos.

Pouco depois, já não me contentava em ficar de fora, contemplando-as embasbacado a partir do exterior, nas suas formas diversas, mas sobretudo quadradas ou circulares. Resolvi entrar em cada tulou que contabilizava. A porta da rua encontrava-se normalmente aberta e, por isso, eu entrava e tornava a entrar. E vou contar-vos o que descobri.

O exterior não nos prepara para o que encontramos no interior. Se o exterior sombrio se assemelha a uma penitenciária, o interior abre-se de rompante como um salão de concertos. Galerias de madeira erguem-se, majestosas, até cinco andares de altura, em torno de um pátio cheio de luz. Cada piso está construído em madeira escura, formando pequenas salas iguais, dispostas uma após outra. Os corredores viram ou formam esquinas, no final de cada piso.

No pátio exterior, sem cobertura e calcetado com pedras arredondadas, existem normalmente um ou dois poços, mais um recinto fechado ornamentado para o culto dos antepassados. O espaço manda-nos virar e virar de novo, maravilhando--nos perante a sequência estonteante de salas, o panorama de céu e montanha que se avista no alto e o arrojo de um design que abriga uma comunidade inteira dentro de um edifício inexpugnável.

Embora se conheçam pretensões de tulou mais antigas, o arquitecto Huang Hanmin, que tem publicado muito sobre este tipo de construção, defende que o primeiro registo de um edifício destes data de 1558. A sua edificação coincidiu com uma época de batalhas pelo controlo da terra entre o clânico povo hakka, que para ali migrara oriundo das planícies da China Setentrional, e os grupos há mais tempo fixados na região.

“Desde o início, a sua função principal visava a segurança das comunidades”, diz Huang. “O registo histórico menciona ameaças de animais selvagens, bandidos e senhores da guerra.”

Para as repelir, os construtores conceberam muralhas de adobe, termo técnico para uma amálgama de argila, calcário e areia comprimidos, a qual, uma vez seca, forma um revestimento quase tão duro como betão. Muitas destas muralhas tinham pelo menos 1,5 metros de espessura.

O crescimento demográfico e os tumultos associados à revolução comunista de 1949 na China permitiram que a construção das tulou se prolongasse no século XX. Os hakka contaram-se entre os mais fervorosos adeptos da revolução. Em Hekeng, as datas de construção das 13 tulou variam entre a década de 1550 e a década de 1970.

No interior do Lou Dongsheng (“Nascer do Sol”), uma tulou finalizada em 1961, a única diferença estrutural relativamente às mais antigas foi a dimensão ligeiramente maior das salas, embora continuassem a ter um tamanho quase insuficiente para nelas caber uma cama de casal.

Em Hekeng, travei conhecimento com um plantador de chá chamado Zhang, que me contou que o pai, engenheiro, supervisionara a construção do Lou Dongsheng. Cada andar, com as suas espessas vigas de suporte e 22 salas, demorou um ano a edificar. Perguntei-lhe se conseguia imaginar a construção de nova tulou na cidade. Zhang contemplou o prédio imponente, com os muros de adobe de textura semelhante a pele enrugada.

Nas terras altas de Fujian, as aldeias são povoados de base clânica, onde predomina um único apelido. Hekeng era uma aldeia Zhang. Também existem aldeias Su, aldeias Li e aldeias Jian, entre outras.

“É impossível”, respondeu, abanando a cabeça. “O custo seria cinco vezes superior ao de um edifício de betão e aço. Além disso, calcule a mão-de-obra necessária. E onde conseguiria agora encontrar árvores tão grandes?”

Quase todas as pessoas que conheci em Hekeng chamavam-se Zhang. Nas terras altas de Fujian, as aldeias são povoados de base clânica, onde predomina um único apelido. Hekeng era uma aldeia Zhang. Também existem aldeias Su, aldeias Li e aldeias Jian, entre outras.

Para satisfazer as necessidades destas comunidades estreitamente unidas, a tulou transformou--se numa estrutura dentro da qual braços inteiros de um clã, que juntava frequentemente mais de cem pessoas, podiam viver todos juntos num só edifício. Na Europa Ocidental, os castelos abriam os portões aos aldeãos apenas em tempos de ataque ou de cerco. Uma tulou protegia e alojava sempre as pessoas.

Dentro de uma tulou, o espaço de convívio organizava-se na vertical, imperativo numa região com quantidades limitadas de terreno plano. Cada família podia ser proprietária de uma ou mais salas. No primeiro piso, aberto ao pátio, ficava a cozinha e a zona de refeições; o segundo era uma área de armazenagem; o terceiro piso e os superiores continham os quartos. Huang compara a planta do edifício a uma laranja dividida em gomos virados para um ponto central.

Toda a comunidade servia-se do mesmo corredor e escadarias. As regras de comportamento (limpar resíduos, respeitar os anciãos, contribuir para as festividades) encontravam-se afixadas à entrada. Derradeiro símbolo de atitude comunitária, as salas eram idênticas em tamanho e decoração, quer pertencessem ao chefe do clã hakka quer a um vulgar criador de porcos. Curiosamente, outro povo da província de Fujian, os minnan, optou por uma disposição mais privada, com fracções de habitação verticais equipadas com escadarias individuais e corredores particulares.

Não há muitas tulou encarrapitadas em cumes de montanha. Quase todas se localizam no fundo de vales, idealmente com uma montanha à retaguarda e água à frente. Foram instaladas em obediência aos princípios de feng shui (“vento e água”), a arte chinesa da adivinhação ambiental.

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