Grande dilema no Sudeste Asiático: como aproveitar o rio Mekong

Há barragens em construção ao longo de todo o Mekong. O Sudeste Asiático precisa de energia eléctrica, mas também de peixe e arroz que um rio não represado proporciona.

Texto Michelle Nijhuis   Fotografia David Guttenfelder

China - Em 2012, ano em que esta fotografia foi captada, a construção da barragem de Miaowei já avançara. Quando ela estiver terminada, em 2016, será a oitava barragem erguida no rio Lancang, o nome dado pela China ao troço de 2.100 quilómetros do Mekong no seu território. Panorâmica composta por duas imagens.

Pumee Boontom Boontom vive no Norte da Tailândia, mas sintoniza a televisão no boletim meteorológico chinês. As grandes tempestades na região meridional da China implicam a descarga de grandes volumes de água pelas barragens chinesas a montante e, consequentemente, probabilidades elevadas de inundações na sua aldeia. Em teoria, o Estado chinês deveria avisar os países a jusante. A experiência de Pumee diz-lhe que os avisos costumam chegar tarde ou nem sequer chegam.
“Antes das barragens, as águas subiam e desciam gradualmente, acompanhando as estações”, afirma. “Agora, as águas sobem e descem drasticamente e nós não sabemos quando a situação vai mudar. Só se vigiarmos as tempestades.”

Sustento ameaçado - A sobrevivência de sessenta milhões de pessoas depende do peixe capturado no Mekong e do arroz cultivado no seu delta. No entanto, o rio está a mudar. A China construiu sete grandes barragens nas duas últimas décadas e há mais 21 em construção ou em projecto. A jusante, prevê-se a construção de onze novas barragens no curso do rio no Laos e no Camboja. Estes planos vão confrontar as necessidades de electricidade da região com a sua necessidade de alimento e o modo de vida dos pescadores e agricultores. Gráfico Ryan Morris. Fontes: Centro Worldfish; International Rivers; Comissão do Rio Mekong; Instituto de Botânica Kunming, Academia Chinesa das Ciências.

Pumee é o chefe da aldeia de Ban Pak Ing, um povoado disperso de casas construídas com blocos de cimento e arruamentos sem asfalto que se ergue da margem ocidental do Mekong até um bem cuidado templo budista. Há 20 anos, tal como muitos dos seus vizinhos, Pumee pescava para sobreviver. No entanto, depois de a China construir sete barragens a montante, as escassas centenas de moradores de Ban Pak Ing sentiram na pele a mudança do rio. As oscilações bruscas do nível das águas provocam interferências na migração e desova dos peixes. Embora a aldeia tenha criado locais de desova protegidos, deixou de existir peixe em quantidade suficiente para todos.

Na China, estão em construção mais cinco barragens. A jusante, no Laos e no Camboja, onze grandes barragens (a maior das quais no curso principal do baixo Mekong) foram projectadas ou já estão em construção.

Nos últimos anos, Pumee e muitas outras pessoas venderam as suas embarcações, trocando a pesca pelo cultivo de milho, tabaco e feijões. Trata-se de um modo de vida arriscado e no qual não são especialistas. Além disso, há agora desafios acrescidos devido à frequência das cheias. Em 2008, algumas casas ficaram inundadas até ao segundo andar, tal como o templo.
Ban Pak Ing pode ser uma visão do futuro. Na China, estão em construção mais cinco barragens. A jusante, no Laos e no Camboja, onze grandes barragens (a maior das quais no curso principal do baixo Mekong) foram projectadas ou já estão em construção. Perturbando a migração e a desova dos peixes, as novas barragens ameaçarão a disponibilidade de alimentos de um número estimado de sessenta milhões de pessoas. A energia eléctrica gerada pelas barragens do baixo Mekong destina-se em grande parte a centros urbanos em crescimento explosivo na Tailândia e no Vietname. O activista e antigo senador tailandês Kraisak Choonhavan classifica as barragens do baixo Mekong como uma “catástrofe de proporções épicas”.
Uma das barragens, com construção prevista para o Laos, localiza-se a apenas 60 quilómetros a jusante de Ban Pak Ing. Construí-la significará encurralar a aldeia entre as cheias provenientes do Norte e uma albufeira em crescimento a sul. Pumee mostra-se preocupado com a próxima geração. “Experimente fechar os olhos e imaginar”, afirma. “Imagine o que nos irá acontecer.” Bate as palmas das mãos, uma contra a outra.  

China - Com 292 metros de altura, a barragem de Xiaowan (a sexta mais alta do mundo) fornece electricidade sobretudo às cidades e unidades industriais em crescimento explosivo da costa meridional da China. Finalizada em 2010, a barragem forçou a transferência de mais de 38 mil pessoas.

O Mekong nasce no planalto do Tibete e percorre cerca de quatro mil e duzentos quilómetros, atravessando a China, Myanmar, a Tailândia, o Laos, o Camboja e o Vietname, antes de desaguar no mar da China Meridional. É o rio mais extenso do Sudeste Asiático e o mais rico pesqueiro interior do planeta. Os cambojanos e os laosianos capturam mais peixe de água doce do que todas as outras nações da Terra: em muitos lugares ribeirinhos, peixe é sinónimo de alimento. O peixe das mais de quinhentas espécies conhecidas no Mekong tem alimentado milhões de pessoas durante secas, dilúvios e, até, durante o genocida regime cambojano de Pol Pot.

Actualmente, o Sudeste Asiático vive relativamente em paz e a grande maioria das suas economias fervilha de actividade. No entanto, só cerca de um terço dos cambojanos e pouco mais de dois terços dos laosianos têm acesso à electricidade.

E contudo os estreitos desfiladeiros e cataratas tonitruantes do Mekong há muito que atraem os construtores de barragens. Na década de 1960, os Estados Unidos propuseram a construção de centrais hidroeléctricas no curso inferior do Mekong, na esperança de desenvolver a economia da região e de travar o avanço do comunismo no Vietname. Os planos desvaneceram-se, a região mergulhou na guerra e, na década de 1990, foi a China e não o Sudeste Asiático que ergueu barragens no curso principal do rio.
Actualmente, o Sudeste Asiático vive relativamente em paz e a grande maioria das suas economias fervilha de actividade. No entanto, só cerca de um terço dos cambojanos e pouco mais de dois terços dos laosianos têm acesso à electricidade e, frequentemente, essa energia é muito dispendiosa. O crescimento económico e demográfico criará pressões acrescidas sobre a oferta de electricidade: segundo um estudo realizado em 2013 pela Agência Internacional da Energia, prevê-se que a procura de electricidade da região venha a aumentar 80% ao longo dos próximos 20 anos. Parece evidente que a região precisa de mais energia e, se houver vontade de evitar os piores efeitos do aquecimento global, o planeta precisa que essa energia gere as menores quantidades possíveis de carbono. O potencial hidroeléctrico do Mekong afigura-se cada vez mais tentador.

 

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