Os túmulos esquecidos de Oman

Texto e fotografias  Oriol Alamany

Início da década de 1990: o antigo piloto da Força Aérea Britânica, John Nowell, que realizava voos turísticos na região do golfo Pérsico, ficou boquiaberto. Ao sobrevoar de helicóptero um longínquo planalto rochoso nas montanhas de Al-Hajar ash-Charqiyah, no sultanato de Oman, surgiram-lhe diante dos olhos dezenas de torres de pedra cuja existência e significado eram até então desconhecidos.

Ao inspeccionarem posteriormente as fotografias aéreas de Nowell, os peritos confirmaram a sua notável importância arqueológica. Tratava-se de um conjunto de aproximadamente sessenta torres surpreendentemente bem conservadas, com uma altura máxima de oito metros, cuja antiguidade foi calculada em cinco mil anos. Como passaram despercebidos estes monumentos aos investigadores?

Posicionado no extremo sudeste da península Arábica, Oman é, em termos arqueológicos, um dos países menos explorados do planeta. Como esteve isolado do exterior até à década de 1970, as primeiras escavações sistemáticas só começaram nesse período. Uma das causas para a escassez de explorações científicas foi a guerra civil e as rebeliões que grassaram no país até 1975, dificultando quaisquer prospecções e pesquisas no terreno.

Posicionado no extremo sudeste da península Arábica, Oman é, em termos arqueológicos, um dos países menos explorados do planeta.

No entanto, Oman tem uma história rica. Durante séculos, este território foi uma rota essencial de comércio para várias civilizações. Há milhares de anos, enormes caravanas de camelos transportavam incenso, um dos produtos de luxo mais importantes da Antiguidade, através dos desertos do Médio Oriente até à Mesopotâmia, enquanto o cobre e os minerais seguiam por mar a bordo de navios. Esse passado de intercâmbio económico e cultural deu origem ao considerável potencial arqueológico da região. Depois de o actual sultão Qabus ter tomado o poder em 1970, o país iniciou uma época de paz e os seus caminhos abriram-se aos investigadores. Nas quatro décadas entretanto decorridas, fizeram-se importantes achados, mas ficou ainda muito por descobrir, seja nos escarpados maciços montanhosos do Norte, seja nos desolados desertos de dunas e de rocha que abrangem o restante território omanita.

Novembro de 2013. Não era fácil localizar o conjunto de torres-túmulos de Chir descobertos do ar por John Nowell. Para lá de alguns artigos científicos, a informação de que dispúnhamos, eu e a minha colega Eulália, era escassa. Partindo da cidade costeira de Sur, precisávamos de percorrer a complexa rede de trilhos pedregosos que atravessa o maciço de Al-Hajar ash-Charqiyah, no Nordeste do país, cujo cume mais elevado ultrapassa os 2.200 metros de altitude. É fácil ceder às vertigens nestes trilhos impróprios para gente receosa, pois são apenas transitáveis em viatura todo-o-terreno e com um condutor experiente ao volante.

Deixamos para trás a costa luminosa do golfo de Oman, munidos de um mapa geral, dos artigos publicados em 1998 pelos arqueólogos Paul Yule e Gerd Weisgerber e de um GPS. No ar, abutres vigiam-nos com alguma insistência. O nosso veículo transpõe ziguezagues vertiginosos que, passados poucos quilómetros, nos elevaram do nível do mar até um planalto a mais de mil metros de altitude. Ali começou a aventura, que consistiu em percorrer as montanhas abruptas em busca das torres cónicas de Chir. Pelo caminho, fomos encontrando pequenos enclaves habitados, com moradias que aproveitavam o refúgio de grutas naturais. Devido à escassez de água, a agricultura não tem lugar neste território rochoso e o primeiro trilho, aberto em 1985, destinou-se ao abastecimento de água aos povoados de montanha e à tarefa ciclópica de permitir que as crianças pudessem ser transportadas até à escola.

Cerca de cinco mil anos haviam decorrido desde que os habitantes da Terra de Magã haviam empilhado rocha sobre rocha nesta imponente construção com mais de seis metros de altura e 5,75 metros de diâmetro.

Após várias horas de condução, de buracos na estrada e de muitos suores frios, atingimos finalmente a primeira torre, erguida no cume de um monte calcário a 1.800 metros de altitude. Subimos a pé até alcançá-la: encontrava-se num extraordinário estado de conservação. Cerca de cinco mil anos haviam decorrido desde que os habitantes da Terra de Magã haviam empilhado rocha sobre rocha nesta imponente construção com mais de seis metros de altura e 5,75 metros de diâmetro. A sua função cerimonial é desconhecida, mas merece respeito: é muito provável que a sua origem seja anterior à mais antiga das pirâmides do Egipto!

Depois de mais uma hora infernal ao volante, chegamos ao núcleo principal da necrópole ao entardecer. Avistamos dezenas de torres de alturas variadas, dispersas pelas colinas e penhascos circundantes. O altímetro apontava para 1.750 metros. Atingíramos o nosso destino.

O escritor e fotógrafo Jordi Esteva, perito em temas orientais e africanos, narra as impressões colhidas ao visitar estas torres, no seu livro “Los Árabes del Mar”: “Aquele podia bem ter sido o cenário onde Javé deteve no ar o braço de Abraão no instante em que este se dispunha a sacrificar, de punhal erguido, o seu próprio filho. Por nada neste mundo, disse para comigo, ficaria sozinho naquele lugar. E não devo ter sido o único porque, no preciso momento em que se levantava um repentino vento fresco que, ao penetrar nas torres cónicas, gerava um ulular dissonante, todos se dirigiram para os automóveis para iniciar a lenta descida.”

Ao contrário do escritor, eu quis inspeccionar e fotografar aqueles inquietantes monumentos do passado, pelo que procurámos um sítio plano onde pudéssemos acampar. Ao entardecer, de noite e durante a madrugada, entre a névoa gelada, fotografei as intrigantes torres. Por vezes, reconheço-o, o coração apertava-se-me, tal era a impressão sobre mim exercida por aqueles túmulos, no meio da desolação absoluta.

No seu livro, Esteva refere a lenda do lugar, segundo a qual as torres foram construídas por um gigante de nome Estemsah que aterrorizava todas as comunidades do vale, devorando-lhes os rebanhos. Ocasionalmente, o gigante tomava para si um ou outro homem. Um dia, um jovem pastor conseguiu derrotá-lo, graças à ajuda de um velho yinn (génio, ou ser fantástico, da mitologia semítica). A história real é, evidentemente, outra, mas será tão intrigante como a quimera popular.

III milénio a.c.: as florescentes cidades-estado da Mesopotâmia, que se desenvolveram nas férteis terras entre os rios Tigre e Eufrates, no actual Iraque, dispunham de matérias-primas como argila, betume, cereais, lã ou linho, mas careciam de minerais e rocha. Desde a proto-história que estes materiais foram importados de outros países.

Os textos cuneiformes das tabuinhas sumérias de cerca de 2300 a.C. descrevem o intenso comércio existente com a Terra de Magã, de onde importavam cobre mas também diorite negra, uma rocha escura e extraordinariamente dura utilizada na escultura. Falam de navios cargueiros que transportavam 20 toneladas de mercadoria e atravessavam o golfo Pérsico para alcançar a Mesopotâmia; e identificam as altas montanhas de Magã, de onde eram extraídas estas matérias-primas. Segundo diversas investigações, o período mais activo da extracção deste metal aconteceu entre 2200 e 1900 a.C., época historicamente conhecida como período Umm an-Nar. Há provas evidentes de que só nas montanhas de Al-Hajar foram extraídas 48 a 60 mil toneladas de cobre negro (assim chamado devido às suas impurezas). Com a passagem do tempo, a extracção provocaria a destruição das florestas autóctones e terminaria, de forma repentina, no século X da nossa era. A história daquele lugar perdeu-se no pó dos séculos.

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