Texto d Robert Draper   Fotografias  Robin Hammond

 

Posando na Fundação dos Artistas Africanos, Almaz aprecia a vida cultural da cidade. “Lagos é uma sociedade muito animada”, diz. “Quem quiser muito uma coisa, mas mesmo muito, venha para Lagos. E as coisas acontecem, acreditem em mim.”

AOS 15 ANOS, DAVID ADEOTI TRABALHAVA NUM CIBERCAFÉ EM SATELLITE TOWN, UMA CIDADE OPERÁRIA ONDE ERA QUASE POSSÍVEL VISLUMBRAR AS TORRES RELUZENTES DA ILHA DE LAGOS, ALGUNS QUILÓMETROS A LESTE.

Satellite Town foi um degrau na escada da vida de David. Nascera mais a norte, em Orile, uma aldeia miserável de ruas sujas e edifícios arruinados. A tecnologia foi a sua fuga. O café de Satellite Town era o negócio paralelo de um banqueiro que reconhecera no jovem uma habilidade natural para lidar com computadores. O banqueiro pagava-lhe cerca de 175 euros por mês para gerir o estabelecimento e David, determinado a evitar que o cibercafé se transformasse no seu destino final, investiu o dinheiro em cursos num instituto técnico.

Era este o seu novo negócio, disse Jason: uma versão indígena do Netflix que transmitiria filmes para os computadores nigerianos e levaria filmes nigerianos ao mundo.

Certo dia, em 2010, os clientes do café levantaram os olhos dos monitores para verem a quem pertencia o sotaque britânico que acabara de entrar. O seu nome era Jason Njoku, um londrino de 30 anos que acabara de regressar à terra natal dos seus antepassados, a Nigéria. Jason pediu a David para digitalizar alguns documentos. Enquanto o funcionário manuseava o equipamento, o requintado visitante mencionou que andava à procura de investidores para um novo negócio e perguntou-lhe se gostava do trabalho. Trocaram números de telemóvel. Alguns meses mais tarde, David perguntou-lhe se tinha trabalho para ele e foi chamado ao apartamento de Jason. Ao entrar, encontrou seis jovens ensanduichados entre mesas, com cabos de computador emaranhados à volta dos pés. Era este o seu novo negócio, disse Jason: uma versão indígena do Netflix que transmitiria filmes para os computadores nigerianos e levaria filmes nigerianos ao mundo. Jason precisava de alguém como David para converter DVD de “Nollywood” (a indústria nigeriana de cinema) num formato compatível com o YouTube. Como transparecia da pequenez do espaço, o projecto tinha um orçamento perigosamente baixo, mas David aceitou, convicto de que a ideia vingaria.

David Adeoti tinha 24 anos quando o conheci na Primavera de 2014. Vestia uma elegante camisola de malha e calças de ganga de marca e estava sentado atrás de um computador portátil no sofisticado escritório de três pisos que aloja actualmente a iROKOtv, em Lagos. A empresa de Jason Njoku tem cerca de oitenta funcionários, com sucursais em Joanesburgo, Londres e Nova Iorque. David ganha o dobro do que ganhava como gerente do cibercafé, mas todo este contacto com dinheiro e cinema abriu-lhe o apetite. “Tenciono abrir o meu próprio negócio relacionado com a indústria cinematográfica”, disse. Estava a poupar dinheiro para ir para Hollywood. Quer ser cineasta e um dia, quem sabe, executivo de um estúdio de Nollywood.

“Há uma grande distância entre a classe média e a classe abastada”, disse David. Com um sorriso rasgado, acrescentou: “Mas a classe média esforça-se. Todos estão desesperados por serem muito ricos nos dias que correm.”

Em Lagos, a ânsia de riqueza transformou-se no lema da cidade. O país reviu recentemente o cálculo do PIB de modo a ter em conta sectores da economia que mal existiam há duas décadas. Como resultado, ultrapassou a África do Sul, tornando-se a maior economia do continente. Aqui, vivem 15.700 milionários e meia dúzia de multimilionários – mais de 60% reside em Lagos.

À semelhança de outras metrópoles africanas, a cidade de Lagos, enriquecida pelo petróleo, alimenta uma elite que não parece incomodada com a miséria que grassa na cidade. A classe alta encontra-se em expansão e, apesar da persistente desigualdade de rendimentos, a classe média também. O crescimento desta, segundo um levantamento realizado em 2013 pela empresa Ciuci Consulting, sediada em Lagos, é impulsionado pelos sectores em expansão da banca, telecomunicações e serviços, sobretudo em Lagos. A classe média nigeriana cresceu de 480.000 pessoas em 1990 para 4,1 milhões de indivíduos em 2014, representando 11% dos agregados familiares.

É uma extraordinária história africana de sucesso. E como seria maravilhoso contar este belo e animador relato ignorando ao mesmo tempo a saga sombria dos grotescos terroristas da Nigéria, que ocultou do conhecimento mundial, qual eclipse da Lua, a narrativa do florescimento desta cidade. Contudo, Lagos não existe num universo paralelo, nem o grupo extremista islâmico Boko Haram. Ambos fazem parte da Nigéria, um enorme país africano repleto de gente batalhadora como David Adeoti, mas também de pobreza, desespero e violência. Quando muito, o milagre de Lagos reside na capacidade de a sua economia galopar em frente, apesar de entravada pela mesma incompetência federal que permite ao terrorismo prosperar. Uma cidade mais fraca sofreria com isto. E, em certa medida, Lagos também sofre.

“O problema da Nigéria e de Lagos é a imagem. Esse é o maior problema. Qualquer pessoa imagina que esta é uma zona de guerra semelhante ao Afeganistão se ler o que se escreve sobre Lagos! Mas diga-me: sente-se minimamente ameaçado?”

Até esse momento, no entanto, Lagos fora poupada. A violência parecia a um mundo de distância.

 Não, confessei a Kola Karim, o vistoso multimilionário de 45 anos, com interesses nos sectores dos géneros alimentares, nas telecomunicações e na construção civil. As suas empresas empregam mais de três mil pessoas. Na verdade, eu sentia-me bastante seguro em Lagos – uma enorme surpresa, já que embarcara para a cidade no mesmo dia em que dezenas de pessoas foram mortas por uma bomba num parque de autocarros na capital do país, Abuja. Fora o mais recente episódio de uma sucessão de ataques terroristas cuja responsabilidade foi assumida pelo Boko Haram. Até esse momento, no entanto, Lagos fora poupada. A violência parecia a um mundo de distância.

Kola Karim leva a sério a tarefa de divulgar o milagre de Lagos, no qual desempenhou um papel destacado. Nesse dia, mais tarde, uma estação televisiva francesa filmou-o a jogar pólo, como metáfora da prosperidade de Lagos. Na semana seguinte, visitou o Instituto Milken, na cidade californiana de Santa Mónica, para discursar sobre o sector energético de África. Tem proferido palestras semelhantes em Harvard e Yale, no âmbito daquilo que ele classifica como “o seu dever moral de promover a Nigéria e Lagos”. Quando gracejei que ele poderia estar a ganhar muito dinheiro no circuito das conferências, o empresário respondeu solenemente: “Começarei a cobrar quando o mundo tiver ouvido a nossa história.”

Aqui fica um resumo dessa história. Após séculos de domínio tribal por reis e imperadores territoriais e 99 anos de domínio colonial britânico, a Nigéria conquistou a independência em 1960 e foi intermitentemente governada por chefes de estado das forças armadas até 1999, ano em que finalmente se tornou uma democracia instável. Entre os seus 36 estados, Lagos (que integra a vasta cidade portuária do mesmo nome) foi sempre o centro de poder do país, mesmo depois de a capital federal ser transferida, em 1991, para Abuja, a 725 quilómetros de distância. Apesar disso, Lagos foi-se degradando ao longo de décadas de domínio militar. As suas escolas, estradas e hospitais foram deixados ao abandono. Quando Kola Karim regressou de Inglaterra para a sua terra natal em 1996 para gerir o negócio de cacau da família, havia poucas pessoas como ele, “porque esta não era uma economia aberta e havia poucos serviços financeiros”, contou. “Na altura, a totalidade do capital social de um banco era de 1,7 milhões de euros. Imagine se quisesse abrir um negócio em Lagos. Quanto poderia um banco destes emprestar-lhe? Hoje, os bancos emprestam-lhe até 440 milhões de euros!”

Quando a recessão económica mundial interrompeu o investimento na Europa e nos EUA, Lagos apresentou-se como uma nova fronteira para empresários ambiciosos.

A mudança ocorrida em Lagos deve-se à convergência de dois fenómenos. Em primeiro lugar, depois de só conhecerem incompetência política, os habitantes de Lagos elegeram dois governadores estatais invulgarmente eficazes: o antigo contabilista Bola Tinubu, em 1999, e Babatunde Fashola, o seu sucessor, em 2007, a quem foi reconhecido o mérito de ter contribuído para a supressão do surto de Ébola em Lagos. Os dois políticos proporcionaram saúde orçamental a Lagos, investindo simultaneamente em pontes e vias rápidas. Entretanto, iniciava-se uma diáspora invertida – o regresso a casa de emigrantes nigerianos. Quando a recessão económica mundial interrompeu o investimento na Europa e nos EUA, Lagos apresentou-se como uma nova fronteira para empresários ambiciosos.

Situada na costa atlântica em redor de uma lagoa e várias ilhas, a cidade de Lagos é um ecossistema improvisado repleto de gente em busca de riqueza. Não se vêem praticamente turistas, pois visita-se Lagos por razões estritamente profissionais, mas a cidade também é estranhamente convidativa, uma cidade de optimistas.

Isto não quer dizer que a vida em Lagos seja simples. À semelhança do que acontece em todas as cidades de crescimento explosivo, Lagos sente dores de crescimento: a população está a aumentar tão depressa e é tão instável que se torna impossível estimar o número de habitantes com maior precisão do que um intervalo entre 13 milhões e 18 milhões. Os núcleos comerciais são as duas pequenas ilhas de Lagos e Victoria, onde só os muito ricos têm dinheiro para viver.

Ao mesmo tempo que os promotores imobiliários erguem construções em todas as zonas húmidas, florestas e aterros (e, no caso de Eko Atlantic 9, cidade projectada para os mais ricos da elite, nove quilómetros quadrados de terra conquistada ao oceano), os ambiciosos habitantes de Lagos esforçam-se por conciliar a sua consciência social com o preço absurdo da habitação no centro e as taxas de juro de 20% habitualmente pedidas pelos bancos para créditos à habitação. Invariavelmente, os residentes acabam por se instalar num apartamento distante, que implica viagens diárias de ida e volta no trânsito insuportável. O trajecto chega a demorar duas horas. Outros esperam que o engarrafamento acalme enquanto bebem cervejas e fumam cigarros com os seus jovens colegas num bar algures nas ilhas.

Certa tarde, sentei-me num desses bares com meia dúzia de bancários bem vestidos, de pouco mais de 30 anos, numa reunião de cavalheiros que aperfeiçoaram a arte de beber para passar o tempo. Um deles, particularmente falador, contou que um apartamento na ilha custava o quádruplo do que ele pagara pela sua casa no continente. “Se eu tivesse rendimentos condizentes, claro que viveria na ilha”, disse. “Se eu vivesse na ilha, ia para casa, ajudava os meus filhos com os trabalhos de casa, jogava videojogos com eles e, se calhar, jantava fora com a minha mulher. Durante a semana não posso fazer isso.”

Depois, o jovem bancário riu-se do seu dilema e pediu mais uma rodada.

A CRENÇA DE QUE O SOL BRILHARÁ está profundamente enraizada na Nigéria, sobretudo em Lagos, terra de comerciantes e colonos, logo terra de temperamento trabalhador. Os habitantes de Lagos consideram-se mais determinados e resistentes do que é habitual na África Ocidental.

Enquanto vivi três semanas em Lagos, contratei Daniel Sunday como motorista. Um dia, ele levou-me ao bairro onde nascera e crescera: Makoko, um bairro de lata fétido na lagoa de Lagos, mordazmente apelidado de “Veneza de África”. Daniel contou que saiu da barraca da sua família quando era adolescente e arranjou emprego como motorista de autocarros.

Dormia no chão em casa do patrão e, poucos anos depois, juntara dinheiro suficiente para comprar o seu primeiro automóvel. Agora, é casado, vive no continente e, todas as manhãs, durante duas horas, sem se queixar, conduz clientes como eu pelos bairros comerciais. O cartão-de-visita ostentava o seu lema: “In God I Trust” [Confio em Deus].

“Se der uma oportunidade a um nigeriano, ele dará o seu melhor”, proclamou um homem de 36 anos chamado Onyekachi Chiagozie numa tarde quente, enquanto me mostrava, com orgulho, a sua oficina móvel de electricista. Na verdade, a carrinha esventrada com o pára-brisas rachado não parecia grande coisa. Onyekachi comprara a carrinha usada por cerca de 3.800 euros. Com ela, podia transportar as suas ferramentas por toda a cidade, contribuindo e beneficiando do crescimento explosivo da construção civil em Lagos.

O menino das barracas conseguira alcançar sucesso na vida. Outra história de sucesso de Lagos, mas, também com Onyekachi, o sucesso ainda não era suficiente.

Tudo isto parecia um desfecho improvável para um jovem que, aos 18 anos, se tornara aprendiz não remunerado de um electricista, fazendo trabalhos ocasionais para sobreviver. Durante algum tempo, dormiu numa paragem de autocarro. Os seus únicos bens eram as roupas que trazia no corpo. Quatro anos depois, Onyekachi juntara dinheiro suficiente para arrendar uma casa minúscula no bairro de Ojota, onde fizera a sua aprendizagem. “Poupar, poupar, poupar: fiz o sacrifício e começou a recompensar”, recorda. “Registei a minha empresa. As pessoas do ramo conheciam-me. Ora arranjava uma tomada, ora percebia por que razão uma lâmpada não funcionava. Os clientes confiavam cada vez mais e começaram a arranjar-me trabalhos bons, como a montagem da instalação eléctrica de vivendas, a reparação de terminais multibanco e aparelhos de ar condicionado. Como é caro montar escritório em Lagos, decidi ter a primeira oficina móvel do país.”

Onyekachi é o proprietário da Varied Pace Enterprises e irradiava felicidade enquanto me contava que agora é casado e possui uma casa com três quartos em Ojota e um terreno nos arredores da cidade, investimento prudente no seu entender. Conduziu-me através do bairro, apontando as casas onde ele e os seus dois aprendizes trabalhavam actualmente. O menino das barracas conseguira alcançar sucesso na vida. Outra história de sucesso de Lagos, mas, também com Onyekachi, o sucesso ainda não era suficiente. “Tenho ganho dinheiro, mas o dinheiro é melhor do lado de lá da ponte, na ilha”, disse o electricista. “E eu ainda não conheço as pessoas certas lá.”

Banke Meshida Lawal conhece as pessoas certas. Quando a visitei no BM Pro, o seu salão de beleza na ilha de Lagos, a jovem maquilhadora fazia uma transformação visual numa cliente que fora convidada para um casamento em Chicago (EUA). Uma vez que Banke não poderia afastar-se do seu negócio e voar até Chicago propositadamente para o evento, uma colega estava a filmar o procedimento para depois enviarem uma cópia a um dos seus representantes nos EUA, que copiaria a maquilhagem no dia do casamento. O valor cobrado por Banke Lawal por um único trabalho era superior ao que Onyekachi gastara na compra da sua oficina móvel de electricista.

A maquilhadora partilha a feroz motivação empresarial do electricista, embora tenha começado num patamar acima da escala social. O pai era professor universitário e a mãe radiologista. Enquanto estudava inglês na Universidade de Lagos, começou a maquilhar as colegas a troco de uma pequena remuneração. “Não havia nada parecido com artes de maquilhagem naquele tempo, era absolutamente inédito”, contou.

Banke Meshida Lawal tem aquilo que Onyekachi Chiagozie deseja: um lugar mesmo no centro de prosperidade da ilha.

“Quando ia de férias ao Reino Unido, comprava todo o tipo de maquilhagem e era viciada em revistas femininas. Como tinha formação em Belas-Artes, creio que isso me ajudou a misturar cores e a desenhar linhas.” Durante o seu ano de serviço cívico obrigatório cumprido após a licenciatura (imposto pelo governo nigeriano), Banke decidiu abrir um pequeno cubículo no bairro de Ikoyi. Em 2000, maquilhou as senhoras convidadas para o casamento do filho do novo presidente. Começou a ser referida na imprensa. Mudou-se para um estúdio maior. Outras celebridades solicitaram os seus serviços, que incluem agora cabeleireiro e manicura. Hoje, o salão de beleza BM Pro tem quatro sucursais e 32 funcionários. Banke Meshida Lawal tem aquilo que Onyekachi Chiagozie deseja: um lugar mesmo no centro de prosperidade da ilha.

“Sei que aquilo que faço é ostensivo. É um luxo”, resumiu. “Qualquer pessoa consegue maquilhar-se sozinha. Mas se quiserem uma coisa especial, um factor de impacte, um toque extra, vêm ter comigo. Vivemos numa economia de dinheiro e existem pessoas dispostas a pagar esse dinheiro.”

Com um sorriso um pouco triste, a maquilhadora acrescenta: “O fosso entre ricos e pobres é tão grande. Estou contente por me encontrar do lado que recebe o dinheiro.”

Crescendo em torno de uma lagoa, Lagos, a maior cidade da Nigéria e centro comercial do país, situa-se na costa atlântica. Os principais bairros empresariais encontram-se nas ilhas de Lagos e Victoria.

NUMA MANHÃ DE PÁSCOA SOALHEIRA, subi a bordo de um barco a motor atracado na ilha de Victoria e naveguei durante uma hora junto à costa de Lagos até o piloto me levar à entrada de um caminho de terra batida que conduzia a uma casa de praia onde duzentos jovens habitantes da cidade dançavam e bebiam conhaque.

Todos estavam integralmente vestidos de branco, seguindo as instruções do convite para a festa – pelo menos até uma chuvada forte cair sobre o pátio e muitos deles se despirem até ficarem apenas em fato de banho e saltarem para a piscina. Pareciam conhecer-se dos mesmos clubes nocturnos, ou dos mesmos negócios, da mesma universidade londrina ou do salão de beleza de Banke Lawal. Poucos, ou nenhum, tinham alguma vez confraternizado com trabalhadores ambiciosos como Onyekachi Chiagozie, nem conheciam o duro caminho por ele trilhado até à classe média.

Fiquei várias horas ao lado do DJ de hip-hop, observando esta paisagem impenetrável de beleza e riqueza, uma cena que poderia perfeitamente desenrolar-se na outra metade do globo. Onde não poderia certamente desenrolar-se, dei por mim a pensar, era a mais de 1.100 quilómetros a noroeste, nas florestas setentrionais da Nigéria, onde aproximadamente o mesmo número de raparigas estudantes eram reféns do Boko Haram, depois de terem sido raptadas seis dias antes.

Se a Nigéria é o maior exportador de petróleo de África, como pode haver uma contínua escassez de combustível, de tal modo que os habitantes de Lagos ficam periodicamente parados em filas de abastecimento que se prolongam por quatro horas?

Os ricos e os roubados. Poucos dias depois, a revista do “New York Times” publicou uma reportagem aprofundada sobre os primeiros no mesmo instante em que o activismo da hashtag #bringbackourgirls fazia soar os alarmes por causa dos últimos. Como poderiam estes dois mundos coexistir? Como consegue Lagos prosperar enquanto o Norte da Nigéria é assolado pelo caos?

É difícil discernir uma ligação. Após algumas semanas na cidade, porém, começaram a formar-se interrogações na minha cabeça. Se a Nigéria é o maior exportador de petróleo de África, como pode haver uma contínua escassez de combustível, de tal modo que os habitantes de Lagos ficam periodicamente parados em filas de abastecimento que se prolongam por quatro horas? Por que razão todos os edifícios da cidade – não apenas as palhotas do continente, mas também os hotéis mais requintados na ilha de Lagos — dependem de geradores para fornecimento de energia 24 horas por dia? Por que razão os residentes continuam a pagar pela electricidade que nunca chega? Por que razão as forças policiais da cidade montam postos de controlo nas pontes e extorquem dinheiro às pessoas que as atravessam? Por que razão os principais académicos da Universidade de Lagos fazem greves que duram semestres inteiros? O que está errado neste filme?

O que está errado é a corrupção a nível federal. Lagos não consegue vencê-la. Os professores grevistas e os agentes policiais mal pagos são funcionários federais.

Se a Nigéria, um titã petrolífero, tem de importar combustível para satisfazer a procura dos consumidores é porque o Ministério do Petróleo está de mãos atadas enquanto as refinarias do país se degradam e os fornecedores de combustível retêm a produção para aumentar os preços. E as falhas crónicas de energia que afectam toda a cidade são igualmente imputáveis aos burocratas de Abuja, segundo Abike Dabiri-Erewa, da Câmara dos Representantes da Nigéria. “Eles não extraem o combustível que têm. Por isso, as centrais eléctricas não são alimentadas”, acrescentou o representante de Lagos.

Em tempos, Abike Dabiri-Erewa foi repórter de televisão. Na qualidade de legisladora federal, é testemunha em primeira mão do tipo de corrupção desenfreada que a Autoridade Televisiva da Nigéria nunca a teria deixado noticiar. “Trata-se de um fenómeno real”, disse com seriedade. “E é praticada com impunidade. Há um indivíduo  no governo que tem um jacto privado. Um funcionário público rouba mil milhões de naira [5,3 milhões de euros] em fundos de pensões e anda por aí em liberdade. Não há um único funcionário federal que tenha sido punido por corrupção – nem um! Aqui em Lagos vemos muita inventividade no dia-a-dia. Vemos pessoas que sobrevivem a vender laranjas ou cartões telefónicos. Mesmo assim, toda esta corrupção é desmoralizante para o nigeriano comum.”

É mais do que desmoralizante: quem paga esta falta de escrúpulos são os trabalhadores de Lagos, a não ser, claro, aqueles que estão dispostos a pagar para entrar no jogo. Onyekachi disse-me que a corrupção burocrática afectava rotineiramente o seu modo de subsistência. “A maioria dos electricistas como eu procura trabalho com empreiteiros”, disse. “Mas alguns não são engenheiros. São professores ou outra coisa qualquer, mas têm um irmão que trabalha no governo. Por isso, quando arranjam um trabalho, contratam um subempreiteiro. E o subempreiteiro consegue meter imenso dinheiro ao bolso utilizando materiais de qualidade inferior. E não me contratam a mim porque eu insisto em usar os melhores materiais. Se eu usasse materiais de qualidade inferior, o edifício poderia ruir e o governo prendia-me e retirava-me a licença e fazia-me pagar pelos danos. Isto está sempre a acontecer.”

Quando pergunto a Kola Karim se a má reputação do governo tornava os investidores ocidentais receosos, ele desvalorizou essa hipótese com um discurso elaborado. As empresas aliavam-se a empresas e não a burocratas, insistiu. “O que faz o governo por nós, além de cobrar mais impostos?”, perguntou. “A questão deixou de ser quem manda. Lagos é um comboio que já partiu da estação. E só podemos abrandá-lo, não o podemos travar. Por isso, não importa quem virá a seguir. É por isso que a democracia é divertida! Não é [o presidente] Goodluck Jonathan que interessa! O que interessa é o progresso! Esqueçam a política!”

Saí do escritório de Shoreline a reflectir nas palavras de Kola Karim, um verdadeiro patriota que doa generosamente o seu tempo e dinheiro a causas nigerianas. Torna-se difícil sentirmo-nos ressentidos contra ele por possuir um Ferrari amarelo, casas de férias em Miami e Marbella e pelo facto de as suas filhas viverem em Londres, tendo poucas probabilidades de serem raptadas pelo Boko Haram. Apesar disso, nas palavras do próprio Kola Karim, não se pode travar Lagos, mas é possível abrandá-la. Lagos não é imune às forças que paralisam outras regiões menos afortunadas da Nigéria. E quando comentei com Abike Dabiri-Erewa que os ataques do Boko Haram pouparam Lagos, ela sacudiu freneticamente a mão e abanou a cabeça.

Afinal de contas, o Boko Haram não era uma organização terrorista distante, marcada como alvo por mísseis telecomandados: nascera na Nigéria e era devastadoramente eficaz. “Neste preciso instante, enquanto falamos, não sabemos onde eles vão atacar a seguir”, disse. “E o governo federal parece não fazer a menor ideia do que se passa enquanto eles fazem os seus planos.”

E a verdade é que adoro este país. As pessoas de cá estão a sofrer. Eu estou a sofrer. E o governo é incapaz de agir bem. Mas é tudo uma questão de atitude. Consigo alimentar-me. E um dia destes hei-de fazer outra coisa qualquer.”

POR ENQUANTO, a cidade mantém-se segura e continua a servir de lar a gente audaz: aqui, até aqueles que poderiam, compreensivelmente, entregar-se ao desespero, estão de olho no próximo degrau da escada dourada de Lagos. Falaram-me da existência de um vigarista chamado T.J. que, aparentemente, tinha um jeito especial para adquirir colecções de roupa usada de criadores que vendia numa banca imunda em Market Street, a poucos passos da Bolsa de Valores da Nigéria. O empresário, de constituição magra, avaliou o meu tamanho e começou a abrir vários sacos de plástico, carregados de camisas para homem.

“Até quando era pequeno, acreditava que havia qualquer coisa atrás de mim, a empurrar-me”, disse T.J. enquanto vasculhava as camisas em busca de uma apropriada para mim. “Sou um optimista incurável. Não acredito em negatividade. Os meus clientes adoram isso em mim. Não posso dizer que sou um pastor, mas digo a verdade. E a verdade é que adoro este país. As pessoas de cá estão a sofrer. Eu estou a sofrer. E o governo é incapaz de agir bem. Mas é tudo uma questão de atitude. Consigo alimentar-me. E um dia destes hei-de fazer outra coisa qualquer.”

Ainda a revirar o seu saco de roupas usadas, o vendedor resume: “Neste momento, ando só à procura dessa oportunidade.”

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