Fabulosa coluna de Trajano

Jon Coulston, especialista da Universidade de Saint Andrews, na Escócia, estudou de perto a coluna durante meses a partir dos andaimes montados durante os trabalhos de restauro das décadas de 1980 e 1990. Redigiu a sua dissertação de doutoramento sobre este marco histórico e, desde então, tem permanecido obcecado por ele, embora as suas interpretações sejam radicalmente diferentes das de outros peritos. “Há um impulso de comparação deste registo com revistas e filmes”, diz. “Mas isso é uma extrapolação e sempre o foi. É tudo genérico. Não podemos acreditar numa única palavra.”

Jon defende que não existiu um responsável único pela concepção das esculturas. Pequenas diferenças de estilo e erros evidentes, como janelas abertas no meio de cenas e cenas com proporções descoordenadas, convencem-no de que os escultores foram criando a coluna de improviso, baseando-se naquilo que haviam ouvido sobre as guerras. “Em vez de termos aquilo que os historiadores da arte adoram, um grande mestre e uma mente criativa superior, a composição foi sendo executada por gente rude, em cima da rocha e não sobre o estirador de um estúdio”, comenta.

Na sua opinião, a obra de arte foi mais “inspirada por” do que “baseada em”. Vejamos as prioridades da coluna. Não existe muito combate nesta representação das duas guerras. Menos de um quarto do friso mostra batalhas ou cercos e o próprio Trajano nunca figura em combate.

Por seu lado, os legionários ocupam-se da construção de fortes e pontes, da limpeza de estradas e, até, das colheitas. A coluna retrata-os como uma força de ordem e civilização, não de destruição e conquista. Seria de esperar que fossem também invencíveis, uma vez que não existe um único soldado romano morto na coluna.

A COLUNA SUBLINHA a imensidão do império de Roma. O exército de Trajano inclui tropas de cavalaria africanas, iberos lançando pedras com fundas, arqueiros levantinos com capacetes pontiagudos e germanos com o peito descoberto e de calças, que deveriam parecer exóticas para os romanos com as suas togas. Todos combatem os dácios, sugerindo que qualquer um, por mais louco que fosse o seu penteado ou maneira de vestir, poderia tornar-se romano. Trajano, aliás, nascera no actual território de Espanha, filho de pais romanos.

Algumas cenas permanecem ambíguas e de interpretação polémica. Estarão os dácios cercados a tentar alcançar um cálice para cometerem suicídio bebendo veneno em vez de enfrentarem uma humilhação pública às mãos dos conquistadores romanos? Ou terão apenas sede?

Para os políticos romanos, “dácio” era sinónimo de dúplice. O historiador Tácito chamou-lhes “um povo no qual nunca se pode confiar”.

E o que dizer da chocante representação de mulheres a torturarem prisioneiros amarrados e em tronco nu com tochas em chamas? Os italianos consideram-nos prisioneiros romanos, sofrendo às mãos de mulheres bárbaras. Ernest Oberländer-Târnoveanu, responsável pelo Museu de História Nacional da Roménia, discorda: “São definitivamente prisioneiros dácios torturados pelas viúvas furiosas dos soldados romanos mortos.” Tal como acontece com muitos elementos da coluna, o que vemos depende da forma como pensamos acerca dos romanos e dos dácios.

Para os políticos romanos, “dácio” era sinónimo de dúplice. O historiador Tácito chamou-lhes “um povo no qual nunca se pode confiar”. Eram conhecidos por extorquir dinheiro a troco de protecção ao Império Romano, ao mesmo tempo que enviavam guerreiros para atacar as cidades de fronteira. No ano 101, Trajano avançou para punir os desordeiros dácios. Após quase dois anos de combate, Decébalo, o rei dácio, negociou um tratado com Trajano, para logo de seguida o desrespeitar.

Roma já fora traída demasiadas vezes. Durante a segunda invasão, Trajano não teve contemplações. Basta olhar para as cenas que retratam o saque de Sarmizegetusa ou as aldeias em chamas.

“As campanhas foram terríveis e violentas”, afirma Roberto Meneghini, o arqueólogo italiano responsável pela escavação do Fórum de Trajano. “Repare nos romanos que combatem com cabeças cortadas na boca. Guerra é guerra. As legiões romanas eram conhecidas pela sua violência e ferocidade.”

Uma vez derrotados, os dácios tornaram-se um dos temas preferidos dos escultores romanos. O Fórum de Trajano tinha dezenas de estátuas de guerreiros dácios barbudos: um orgulhoso exército de mármore mesmo no coração de Roma.

A mensagem parece destinada aos romanos e não aos dácios sobreviventes, a maioria dos quais vendidos como escravos. “Não havia dácios para admirar a coluna”, explica Roberto Meneghini. “Ela destinava-se aos cidadãos romanos e pretendia mostrar a força da maquinaria imperial, capaz de conquistar um povo tão nobre e feroz.”

A COLUNA DE TRAJANO pode ser um veículo de propaganda, mas os arqueólogos acreditam que ela contém uma dose de realidade. As escavações em sítios arqueológicos dácios continuam a revelar alguns vestígios civilizacionais muito mais sofisticados do que sugere o termo “bárbaro”, pejorativo usado pelos romanos.

Os dácios não possuíam língua escrita e, portanto, conhecemos a sua cultura pelo filtro das fontes romanas. Segundo um grande número de provas, mantiveram-se como potência regional durante séculos, atacando e exigindo tributo aos seus vizinhos. Eram metalúrgicos exímios, extraindo e fundindo ferro e extraindo ouro para fabricar magníficas jóias e armas ornamentadas.

Sarmizegetusa era a sua capital política e espiritual. A cidade em ruínas situa-se no alto das montanhas da região central da Roménia. No tempo de Trajano, a viagem de 1.600 quilómetros desde Roma demoraria, pelo menos, um mês. Actualmente, para alcançar o sítio arqueológico, os visitantes têm de percorrer uma estrada esburacada de terra batida atravessando o mesmo vale ameaçador enfrentado por Trajano.

As bétulas altíssimas que cresceram sobre a cidade de Sarmizegetusa tapam a luz do Sol, lançando sombras frias mesmo em dias quentes. Uma larga estrada empedrada parte das muralhas grossas e semienterradas de uma fortaleza, descendo até um prado amplo e plano.

Esta zona verde era o coração religioso do mundo dácio. Ainda se avistam vestígios de edifícios antigos, uma mistura de rochas originais e uma reprodução de betão, o legado de uma tentativa abortada da época comunista para reconstruir o local. Um anel triplo de pilares de pedra delineia um templo, eco distante dos edifícios dácios redondos da Coluna de Trajano. A seu lado, encontra-se um altar circular baixo de pedra esculpido com o desenho de um sol raiado, o centro sagrado do universo dácio.

NOS ÚLTIMOS SEIS ANOS, a arqueóloga Gelu Florea, da Universidade de Babeș-Bolyai, em Cluj-Napoca, passou cada Verão escavando o sítio. As ruínas expostas, juntamente com artefactos recuperados a saqueadores, revelam um centro vibrante de fabrico e ritual religioso. Gelu e a sua equipa encontraram provas de conhecimentos militares romanos e influências artísticas e arquitecturais gregas. Utilizando imagens aéreas, os arqueólogos identificaram mais de 260 socalcos artificiais, que se prolongam por quase cinco quilómetros vale adentro. O povoado inteiro ocupava mais de 280 hectares. “É fabuloso ver quão cosmopolitas eram no cimo das montanhas”, comenta a arqueóloga. “É o maior, mais representativo e mais complexo povoado da Dácia.”

Neste local, não existem sinais de cultivo de plantas alimentares pelos dácios. No entanto, os arqueólogos encontraram vestígios de conjuntos densos de casas e oficinas, juntamente com fornalhas para refinar minério de ferro, toneladas de pedaços de ferro e dezenas de bigornas. Aparentemente, a cidade era um centro metalúrgico e forneceria armas e ferramentas a outros dácios em troca de ouro e cereais.

A pouca distância do altar, ergue-se uma pequena fonte que poderia fornecer água para rituais religiosos. Partículas de mica fazem os caminhos de terra batida brilhar ao sol.

É difícil imaginar as cerimónias que aqui tiveram lugar. Enquanto Gelu Florea recorda o fumo, o saque e a carnificina, os suicídios e o pânico retratados na Coluna de Trajano, ouve-se o som de um trovão. O céu fica subitamente ameaçador.

Um contemporâneo afirmou que Trajano tomou 500 mil prisioneiros, conservando cerca de dez mil em Roma para lutarem nos jogos de gladiadores que tiveram lugar durante 123 dias de comemorações.

A destruição dos templos da Dácia aconteceu após a queda de Sarmizegetusa. “Foi tudo desmantelado pelos romanos”, diz Gelu. “Não restou um único edifício. Foi uma exibição de poder: nós temos o poder, nós é que mandamos.”

O resto da Dácia foi igualmente devastada. Junto ao topo da coluna, vislumbra-se uma aldeia incendiada, dácios em fuga, uma província esvaziada de vida, restando apenas vacas e cabras.

As duas guerras devem ter provocado a morte a dezenas de milhares de pessoas. Um contemporâneo afirmou que Trajano tomou 500 mil prisioneiros, conservando cerca de dez mil em Roma para lutarem nos jogos de gladiadores que tiveram lugar durante 123 dias de comemorações.

O orgulhoso governante da Dácia evitou a humilhação da rendição. O seu fim está gravado na coluna. Ajoelhando-se sob um carvalho, levou uma faca comprida e curva ao pescoço. “Quando a sua capital e todo o seu território tinham sido ocupados e ele próprio corria risco de captura, Decébalo cometeu suicídio e a sua cabeça foi levada até Roma”, escreveu o historiador Cassius Dio um século mais tarde. “E desta maneira a Dácia foi subjugada pelos romanos.” 

Um Tesouro em Arte “Bárbara”: Os dácios moldavam metais preciosos em jóias, moedas e arte, como o copo de prata debruado a ouro à esquerda. Estas moedas de ouro com iconografia romana e braceletes que chegam a pesar um quilograma foram saqueadas nas ruínas de Sarmizegetusa, a capital dácia, e recuperadas há poucos anos.

 

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