Índice do artigo

Harald Dente Azul

“Up Helly Aa” (ou “festa para todos”) é o nome dado pelos habitantes das ilhas Shetland a esta comemoração do mês de Janeiro, durante a qual, vestidos com disfarces de outras épocas, queimam a réplica de um barco viking enquanto entoam cânticos de guerra. Fotografia: David Moir / Reuteurs

Texto: Siebo Heinken
Fotografias Heiner Müller-Elsner
Ilustrações: Franziska Lorenz e Jochen Stuhrmann

Aproximadamente no ano 960, em algum ponto do que hoje é a Dinamarca, um guerreiro viking chamado Harald Blåtand (Harald “dente azul”) recebeu na sua corte um eclesiástico proveniente do sul, enviado pelos germânicos para cristianizar as gentes do norte pagão.

Tratou-se de um encontro de importância transcendente. No decurso de um banquete, o rei e o monge Poppo discutiram sobre quem tinha mais poder, se o deus dos cristãos se os deuses dos vikings. Poppo, provavelmente procedente de Würzburg, viajava por aquelas paragens para anunciar a palavra de Cristo. Porém, ao céptico chefe não bastava a mensagem da Bíblia. “Dá-me uma prova!”, exigiu. O monge pegou então num ferro em brasa (sistema popular durante a Idade Média para apurar a verdade perante a justiça). Rezam as crónicas que quando Poppo retirou a mão do metal incandescente não sofrera nenhuma lesão. Sinal de Deus! Nada mais foi preciso para que Harald se convertesse.

O seu baptismo, celebrado em 965, inaugurou uma nova era para Harald Dente Azul e para os vikings, dando início à sua integração definitiva na Europa medieval. “Harald Dente Azul era um visionário”, explica Jörn Staecker, arqueólogo da Universidade de Tübingen e perito em cultura viking. “As suas políticas transformaram para sempre a Escandinávia e serviram de base às monarquias nórdicas tal como hoje as conhecemos.”

A ideia de um líder de tal envergadura entre os vikings choca com alguns preconceitos que a cultura popular construiu sobre os navegadores do Norte. Não existe provavelmente em toda a história da Europa um povo com pior fama do que os vikings. Eles saquearam e mataram a bel-prazer, semeando o terror à sua passagem, desde o mar do Norte até ao Mediterrâneo. Durante quase três séculos, boa parte do continente viveu sob a ameaça das suas temidas incursões.

Irromperam no cenário alto-medieval em princípios do Verão de 793, ao desferirem um ataque contra o mosteiro de Lindisfarne, na costa oriental de Inglaterra. “No oitavo dia do mês de Junho, a ira dos pagãos destruiu a igreja de Deus de Lindisfarne com latrocínio e matança.” É com estas palavras que a “Crónica Anglo-Saxónica” comenta o assalto lançado contra aquele centro espiritual do reino de Nortúmbria, um dos mais importantes da cristandade céltica.

Nesse dia, avistaram-se no mar barcos velozes e leves cujo recorte denotava origem estrangeira. Pouco antes de alcançarem a costa, os seus tripulantes arriaram as velas quadradas, saltaram para terra e lançaram-se ao ataque com machados, lanças e espadas. Ninguém poderia travar a sua marcha naquela indefesa fortaleza da fé. No espaço de poucas horas, os atacantes, que tinham atravessado o mar do Norte provenientes da Dinamarca ou da Noruega, acabaram com a vida de grande parte dos monges de Lindisfarne.

Depois da investida, levaram consigo os sobreviventes, na qualidade de cativos: os escravos rendiam sempre bom dinheiro. Os vikings profanaram os altares, apoderaram-se do ouro e das jóias e foram-se pelo mesmo caminho por onde tinham chegado. “No templo de Deus, espezinharam os corpos dos santos como quem pisa excrementos pelo caminho”, lamentava-se Alcuíno de York, conselheiro inglês de Carlos Magno.

Incursões deste tipo, nas quais o arqueólogo dinamarquês Ole Crumlin Pedersen vislumbra o primeiro “conflito entre civilizações”, tornaram-se conhecidas como “saídas à viking”. Para os antigos escandinavos, que prestavam culto a Odin e a Thor, os preceitos e proibições dos cristãos não tinham a menor relevância.

No ano de 841, os víkingr (assim denominados em norso antigo, talvez com origem em vík, “baía”, ou wik, “mercado”) atacaram a cidade de Rouen, no Norte de França, e, quatro anos mais tarde, saquearam Hamburgo. Seguiram-se Paris, York, Dublin e Londres. Dorestad, importante entreposto comercial localizado onde hoje fica a Holanda, era saqueado praticamente todos os anos. Ao longo dos grandes rios e do litoral, as populações locais foram construindo postos de vigilância, que contudo não proporcionavam qualquer protecção contra o fogo e a morte vindos do Norte. De vez em quando, os vikings atacavam os mosteiros francos. Eram um tesouro fácil de pilhar e que servia para recompensar os guerreiros e dar graças aos deuses.

Foi então que surgiu Harald Dente Azul e os cristianizou. Em poucas décadas, todos os antigos traços de identidade do orgulhoso povo viking sofreram mudanças profundas. Quem seria aquela personagem que alterou o futuro do seu povo? Como seria o universo por si governado? Como consolidou o seu poder? E que legado deixou?

Os historiadores deste Rei dos dinamarqueses baseiam-se sobretudo na investigação arqueológica. A grande maioria das crónicas dessa época foi escrita pela pena dos monges evangelizadores e, em geral, são (tal como as sagas, recolhidas mais de dois séculos depois) pouco rigorosas, tendenciosas e, por vezes, inverosímeis. “Monges como Adão de Bremen apresentavam sempre as comunidades pagãs como rudes e brutais, para maior glória do seu próprio labor”, afirma Jörn Staecker. Por esse motivo, afigura-se fundamental uma interpretação científica quando se trata de reconstituir o mundo que Harald Dente Azul veio revolucionar.

OS DOMÍNIOS DE DENTE AZUL: A partir da sua corte em Jelling, Harald Dente Azul construiu um reino que abrangia, além da actual Dinamarca, a costa ocidental da Suécia e o Sul da Noruega. A fronteira meridional denominava-se Danevirke, um complexo defensivo com 30 quilómetros de extensão, nas imediações do enclave comercial de Haithabu, formado por sete muralhas e por um sistema de imobilização de embarcações no rio Schlei cujas origens, segundo as investigações mais recentes, remontam ao século VII. Mapas: Ralf Bitter / NGM-DE

Nos alvores da Idade Média, a Europa encontrava-se em plena transformação. Roma não só havia legado ao continente as suas cidades, as estradas empedradas e a cultura, mas também o cristianismo como religião dominante na maior parte do seu território. Na segunda metade do primeiro milénio, a nova fé foi-se consolidando gradualmente no coração do Ocidente europeu. O baptismo do rei dos francos Clóvis em Reims, no ano de 498, é um marco que assinala o arranque da cristianização. Os monges viajavam anunciando a palavra de Deus. Trezentos anos mais tarde, Carlos Magno encabeçava uma Europa cristã unida pela primeira vez desde o mar do Norte até ao Mediterrâneo, desde a Normandia até ao Sul de Itália. Em 804, integrou igualmente os saxões do Elba. A sua área de influência chegava até ao Danevirke, a muralha fronteiriça dos vikings. Foi neste pano de fundo que, em 962, Otão I assumiu a liderança do Sacro Império Romano-Germânico. O complexo de muralhas que se erguia nas imediações da actual cidade de Schleswig (hoje em território alemão) separava a Europa cristã do território pagão, onde Harald Dente Azul exercia o seu governo.

Para lá do Danevirke, espraiava-se uma paisagem dura e inóspita. A Jutlândia era uma extensa planura sulcada por rios e pântanos. Para norte, ficava a península da Escandinávia, uma sucessão infindável de florestas e lagos. Nas cordilheiras ermas e ao longo do recortado litoral da actual Noruega, o transporte de mercadorias era particularmente complicado. O único solo fértil encontrava-se em vales apertados e nas zonas ribeirinhas. Grande parte da população vivia em condições deploráveis, sujeita ao jugo dos chefes locais. As incursões melhoravam um pouco essas condições, mas, em regra, serviam sobretudo para granjear fama e honra.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar