Em Mares Bravios

Texto e fotografias de Pepe Brix

O fotógrafo açoriano Pepe Brix, de 30 anos,  documentou durante três meses e meio a vida a bordo do Joana Princesa, um dos 13 sobreviventes da frota portuguesa de navios de pesca longínqua. Chamou ao trabalho “Código Postal: A2053N”, a matrícula do navio. Construída em 1970, esta embarcação de 80 metros por 12,5 continua a desafiar os mares gelados do Atlântico Noroeste, como tantas outras antes dela.

Passados 800 anos de uma guerra entre cristãos e muçulmanos que se arrastava desde a Idade Média, caiu finalmente a última dinastia muçulmana na Península Ibérica. Em Janeiro de 1492, o sultão Boabdil, rendeu-se à dinastia católica do rei Fernando II de Aragão e da rainha Isabel I de Castela. A Península Ibérica era finalmente reconquistada e estava agora sob o poder firme daqueles que ficaram conhecidos como os “reis católicos”.

Com a Europa sujeita a uma igreja católica severa, que proibia o consumo de carne em dois dias da semana, deu-se início à grande demanda do peixe. As águas ibéricas ficaram curtas para a quantidade de pescado agora exigido.Em 1497, Giovanni Caboto, natural de Génova, em Itália, partiu de Bristol ao serviço do império inglês, convencido de que seria mais curto o caminho marítimo para a Ásia rumando a oeste. Contra os planos do explorador, acabou por chegar à Terra Nova, onde desembarcou no dia de São João Baptista. Em homenagem ao santo, Giovanni Caboto atribuiria depois o nome de “Saint John’s” àquele que seria mais tarde o porto seguro das tremendas odisseias dos pescadores portugueses na Terra Nova.

Durante séculos a fio, a frota branca, como era conhecida a frota portuguesa de navios bacalhoeiros, aproveitou os ventos de leste predominantes na Primavera para navegar até aos pesqueiros da Terra Nova. A mais de duas mil milhas de casa, os homens permaneciam na faina por largos meses enfrentando condições inimagináveis. Ora entre o espaço apertado que existia entre os pequenos botes empilhados (comummente designados por dóris) e as passadeiras para o corte do bacalhau no convés, ora nas camaratas iluminadas por candeeiros a petróleo, a tripulação rezava com o coração nas mãos para que o número de homens a bordo no momento do embarque fosse o mesmo à chegada ao cais dos bacalhoeiros em Aveiro. Foram muitas as vezes em que o nevoeiro cerrado e o mar gelado venceram a pequenez dos botes com pouco mais de quatro metros de comprimento. A angústia dos homens que experimentaram a fragilidade desses botes e a desolação na imensidão gélida do Atlântico Noroeste jamais será compreendida. No sepulcrário de Saint John’s, as tripulações prestavam as últimas homenagens aos que já não voltavam para descarregar o peixe no fim da campanha.

No final da primeira metade do século XX, a frota portuguesa viu os míticos bacalhoeiros à vela progressivamente substituídos por navios a motor. A pesca longínqua entrava agora numa nova fase, mais industrial e maciça, em que as técnicas de utilização da linha e anzol foram também substituídas por aparelhos de pesca de arrasto. Hoje, embora com melhores condições a bordo, esses corajosos pescadores, maioritariamente oriundos da Torreira e da Murtosa, continuam a prescindir do conforto das suas casas para embarcar nessas longas jornadas piscatórias rumo aos grandes bancos da Terra Nova.

Cem dias no Atlântico: Leia o elogio do director da National Geographic Portugal, aqui.

 

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