Novos achados, teorias e descobertas genéticas estão a revolucionar o nosso entendimento sobre os primeiros Americanos.

Texto: Glenn Hodges

 

Os mergulhadores que descobriram os ossos chamaram-lhe Naia. A reconstituição facial revela que os primeiros americanos não partilhavam grandes parecenças com os nativos americanos mais tardios, apesar de existirem provas genéticas que confirmam a ascendência comum. Reconstituição: James Chatters, Applied Paleoscience; Tom McClelland. Fotografia: Timothy Archibald

Este rosto corresponde a uma adolescente que morreu de uma queda numa gruta do Iucatão há 13 ou 12 mil anos.

O seu azar foi a sorte da ciência. Em 2007, uma equipa de mergulhadores chefiados por Alberto Nava fez uma descoberta surpreendente: uma enorme caverna submersa a que chamaram Hoyo Negro, o “buraco negro”. No fundo do abismo, os seus holofotes revelaram uma camada de ossadas pré-históricas, incluindo pelo menos um esqueleto humano quase completo.

Nava comunicou o achado ao Instituto Nacional de Antropologia e História do México, que formou uma equipa internacional de arqueólogos e outros investigadores para inspeccionar a caverna e o seu conteúdo. O esqueleto (afectuosamente baptizado como Naia, nome das ninfas aquáticas da mitologia grega) revelou-se o mais antigo alguma vez encontrado em todo o continente americano, bem como o mais antigo suficientemente incólume para servir de base a uma reconstituição facial. Os especialistas em genética conseguiram aliás obter uma amostra do DNA.

Em conjunto, estes vestígios contribuem para explicar um mistério que há muito nos intriga sobre o povoamento do continente americano: se as populações indígenas descendem de exploradores asiáticos que migraram para a América no final da última glaciação, por que motivo não se parecem com os seus antigos antepassados?

A avaliar pelas aparências, os primeiros colonos eram gente rija. Se olharmos para os restos ósseos dos paleoamericanos, mais de metade dos indivíduos do sexo masculino possui lesões causadas por actos violentos e quatro em cada dez têm fracturas do crânio. As feridas não parecem ter sido provocadas por acidentes de caça. Ao invés, sugerem que estes homens combatiam com frequência e violência. Este tipo de lesões não se encontra nas mulheres: as suas feridas são mais pequenas do que as dos homens e mostram indícios de subnutrição e violência doméstica.

Segundo o arqueólogo Jim Chatters, co-responsável pela equipa de investigação de Hoyo Negro, tudo aponta para que os mais antigos americanos fossem populações de um grupo que ele designou como “tipo bravio do hemisfério norte”: arrojados e agressivos, com características hipermasculinas nos homens e dimensões diminutas nas mulheres. Eis a razão, segundo ele, para o facto de as feições dos mais antigos americanos serem tão diferentes das dos nativos americanos posteriores. Eram pioneiros que corriam riscos e os homens mais duros apossavam-se dos despojos e reivindicavam direitos sobre as mulheres. Por consequência, os seus traços e atributos de robustez eram seleccionados em detrimento das características mais brandas e mais domésticas patentes em populações posteriores e mais sedentarizadas.

Naia possui as feições típicas dos primeiros americanos, bem como as assinaturas genéticas comuns aos nativos americanos da actualidade. Isto mostra que os dois grupos não parecem diferentes entre si pelo facto de as mais antigas populações terem sido substituídas por grupos migratórios provenientes da Ásia, como alguns antropólogos têm afirmado. Parecem diferentes porque os primeiros americanos mudaram depois de aqui terem chegado.

A investigação de Jim Chatters é apenas um avanço interessante. Novos achados arqueológicos, novas hipóteses e um acervo de dados genéticos fizeram incidir luz sobre a identidade dos primeiros americanos e sobre a maneira como eles poderiam ter chegado ao novo continente. No entanto, apesar de todos os progressos alcançados, a história dos primeiros americanos continua a ser, em grande medida, um mistério.

 

Pousado em posição invertida, a fim de manter os dentes incólumes, o crânio de uma jovem mulher encontrado numa caverna subaquática no México deu um rosto aos primeiros habitantes do Novo Mundo. Fotografia: Paul Nicklen

 

Durante grande parte do século XX partiu-se do princípio de que o mistério se encontrava praticamente resolvido. Em 1908, um vaqueiro de Folsom, no estado do Novo México, descobriu os vestígios de uma subespécie extinta de bisonte gigante que deambulara por esta região há dez mil anos. Mais tarde, investigadores museológicos encontraram pontas de seta entre as ossadas, provando que a presença humana na América do Norte começara muito antes do que anteriormente se imaginava. Pouco depois, pontas de seta datadas de há 13 mil anos foram descobertas perto de Clóvis, no Novo México. A partir de então, “pontas de Clóvis” foram encontradas em dezenas de sítios arqueológicos em toda a América do Norte.

A Ásia e a América do Norte estavam unidas por uma ampla massa terrestre, a Beríngia, durante a última glaciação. Os primeiros americanos foram aparentemente caçadores nómadas de animais de grande porte, o que legitimou a conclusão de que eles teriam seguido os mamutes e outras presas no seu caminho para fora da Ásia, cruzando a Beríngia e dirigindo-se depois para sul através de um corredor aberto entre dois gigantescos mantos de gelo canadianos. E uma vez que não existiam provas convincentes de ocupação humana anterior aos caçadores de Clóvis, desenvolveu-se uma nova ortodoxia: eles tinham sido os primeiros americanos.

A situação mudou por completo quando, em 1997, uma equipa de arqueólogos famosos visitou um sítio arqueológico chamado Monte Verde, no Sul do Chile. Tom Dillehay, da Universidade Vanderbilt, afirmou ter descoberto provas de ocupação humana com mais de 14 mil anos, ou seja, um milénio mais antigas do que o aparecimento dos caçadores de Clóvis na América do Norte. À semelhança de todos os achados pré-Clóvis anteriormente feitos, tratou-se de uma descoberta polémica e Dillehay foi mesmo acusado de enterrar artefactos e inventar dados. No entanto, depois de rever as provas, a equipa de peritos chegou à conclusão de que os argumentos eram sólidos.

Como conseguiram as pessoas percorrer todo o caminho até ao Chile antes de os mantos de gelo no Canadá recuarem suficientemente para permitir uma travessia terrestre? Teriam eles chegado num período anterior da glaciação, quando este corredor continental estava livre de gelo? Ou teriam descido a costa do Pacífico de barco, da mesma forma que os seres humanos alcançaram a Austrália há cerca de 50 mil anos?

Nos 18 anos decorridos desde a deflagração da bomba Monte Verde, não apareceu resposta para estas perguntas. No entanto, a pergunta original (seriam os Clóvis os mais antigos?) tem sido repetidamente respondida, e vários sítios arqueológicos na América do Norte reivindicam ocupações anteriores a Clóvis. Um local em especial, o sítio arqueológico Debra L. Friedkin, na região central do Texas, talvez seja mesmo o lugar de mais antiga ocupação humana comprovável nesta região.

 

Ossos de pelo menos 26 animais da Idade do Gelo, incluindo os de um gonfotério semelhante a um elefante, juncam o solo de Hoyo Negro, a caverna inundada onde os mergulhadores descobriram os restos mortais de Naia. Fotografia: Paul Nicklen

Em 2011, o arqueólogo Michael Waters, da Universidade A&M do Texas, anunciou que ele e a sua equipa tinham escavado provas de ocupação humana generalizada com 15.500 anos de idade. O sítio arqueológico Friedkin situa-se num pequeno vale, onde um minúsculo riacho, o Buttermilk Creek, algumas árvores e um afloramento de sílex, um tipo de rocha útil para fabrico de ferramentas líticas, tornaram a zona atraente para as comunidades que ali permaneceram durante milhares de anos.

“Este vale tem algo verdadeiramente singular”, diz o arqueólogo. Pensava-se há muito que os mais antigos americanos se dedicavam sobretudo à caça grossa, perseguindo mamutes e mastodontes por todo o continente, mas este vale era o lugar ideal para os caçadores-recolectores. Aqui, as pessoas alimentar-se-iam de nozes e raízes, lagostins de água doce e tartarugas, caçando veados, perus e esquilos. Por outras palavras, estas pessoas não estavam, provavelmente, de passagem. Viviam mesmo cá.

Se Michael Waters tiver razão e as pessoas tiverem levado aqui uma existência sedentária há 15.500 anos, em que momento teriam tido lugar as primeiras chegadas ao Novo Mundo, provenientes da Ásia? Não se sabe ao certo, mas é possível que os seres humanos se tenham fixado noutras regiões do continente pela mesma época. O arqueólogo sugeriu que os milhares de artefactos pré-Clóvis descobertos em Buttermilk Creek assemelham-se a outros descobertos em sítios arqueológicos da Virgínia, Pensilvânia e Wisconsin.

“Existe aqui um padrão”, diz Michael Waters. “Acho que os dados demonstram com clareza que viviam seres humanos na América do Norte há 16 mil anos. O tempo dirá se isto corresponde ao início da ocupação humana ou se existiu algo antes disso.”

De uma maneira ou de outra, os achados arqueológicos mais recentes são compatíveis com uma série de provas de importância crescente. Nos últimos anos, os especialistas em genética têm comparado o DNA dos nativos americanos contemporâneos com o de outras populações de todo o mundo e chegaram à conclusão de que os antepassados dos nativos americanos eram asiáticos que se separaram de outras populações asiáticas e se mantiveram isolados durante cerca de dez mil anos, baseando-se para tanto nas taxas de mutação do DNA humano. No decurso desse período, teriam desenvolvido atributos genéticos únicos que só os nativos americanos possuem na actualidade.

Estes marcadores genéticos foram encontrados não só no DNA recuperado do esqueleto de Naia como também nos restos mortais de uma criança sepultada há cerca de 12.600 anos na região ocidental do estado de Montana, num pedaço de terra hoje conhecido como sítio arqueológico Anzick. No ano passado, o dinamarquês Eske Willerslev logrou obter um genoma paleoamericano completo através da análise dos restos mortais da criança.

“Temos agora dois espécimes, Anzick e Hoyo Negro, ambos descendentes de um antepassado comum oriundo da Ásia”, diz Michael Waters. “E, à semelhança de Hoyo Negro, o genoma de Anzick demonstra sem margem para dúvidas que os paleoamericanos estão geneticamente relacionados com os povos nativos.”

Embora algumas vozes críticas afirmem que dois indivíduos são uma amostra demasiado pequena para dela se retirarem conclusões definitivas, existe um forte consenso em torno da ascendência asiática dos primeiros americanos.

Então, quando e de que forma chegaram ao Novo Mundo os seus mais antigos habitantes? Embora se trate de uma questão em aberto, parece provado que seres humanos percorreram todo o caminho até à região austral do Chile há mais de 14 mil anos. Seria surpreendente se não tivessem viajado de barco.

 

Durante a maior parte do curto tempo de vida de Naia, a caverna manteve-se seca. Ela pode ter sofrido uma queda mortal enquanto explorava a escuridão da gruta. Arte: Jon Foster

 

Ao largo da costa meridional da Califórnia, as ilhas do Canal são acidentadas e selvagens. No arquipélago, há milhares de sítios arqueológicos, a maioria dos quais ainda intactos.

Em 1959, enquanto explorava a ilha de Santa Rosa, o conservador museológico Phil Orr descobriu ossos de um indivíduo baptizado como homem de Arlington Springs. Nessa época, atribuiu-se aos ossos uma idade de dez mil anos, mas quatro décadas mais tarde, os investigadores recorreram a métodos de datação aperfeiçoados e fixaram essa idade em 13 mil anos – um dos mais antigos conjuntos de vestígios humanos descobertos no continente.

Há 13 mil anos, as ilhas setentrionais do Canal estavam separadas do continente por oito quilómetros de mar aberto. O homem de Arlington Springs e os restantes ilhéus possuíam sem dúvida capacidade de navegação em mar alto.

Jon Erlandson, da Universidade de Oregon, realiza escavações há três décadas em sítios arqueológicos locais. Ainda não descobriu nada tão antigo como o homem de Arlington Springs, mas encontrou indícios de que as pessoas que aqui viveram há cerca de 12 mil anos possuíam uma cultura marítima desenvolvida. Segundo ele, os habitantes das ilhas do Canal poderiam ter descendido de populações que viajavam por aquilo a que ele chama uma auto-estrada de kelp, um ecossistema formado por um leito de laminárias relativamente contínuo, abundante em peixe e mamíferos que unia a Ásia ao continente americano, talvez com uma escala na Beríngia. “Temos conhecimento do uso de barcos por povos marítimos no Japão há 30 a 25 mil anos. Faz sentido em termos lógicos argumentar que eles poderiam ter prosseguido para norte, seguindo a orla costeira do Pacífico, até alcançarem o continente americano.”

É fácil imaginar os caçadores a bordo de pequenas embarcações deslocando-se velozmente. Mas a imaginação dificilmente se substitui a provas concretas e, por enquanto, estas não existem. O nível dos mares encontra-se 90 a 120 metros acima do que se registava em finais do derradeiro máximo glaciar, o que significa que os antigos povoados costeiros podem encontrar-se submersos por dezenas de metros de água.

 

Utensílios líticos descobertos num local de acampamento com 15.500 anos no Texas forneceram provas irrefutáveis de que os primeiros americanos chegaram pelo menos 2.500 anos mais cedo do que se pensava. O sílex era uma pedra importante para o fabrico de utensílios devido à maneira como lasca. Fotografia: David Coventry

 

Por ironia, talvez, as melhores provas de uma migração costeira poderão encontrar-se no interior do continente, uma vez que os viajantes teriam provavelmente explorado os rios e enseadas que encontravam pelo caminho. Existem já provas sugestivas de que isso teria sucedido na região central do Oregon, onde foram descobertos projécteis numa série de grutas, juntamente com aquilo que certamente são as menos elegantes provas de ocupação humana na América do Norte anterior às populações de Clóvis: fezes humanas fossilizadas.

Em 2008, Dennis Jenkins, da Universidade de Oregon, anunciou a descoberta de coprólitos humanos, o termo exacto para descrever os excrementos antigos, datados de há 15 a 14 mil anos, numa série de grutas baixas com vista para o leito de um antigo lago perto da cidade de Paisley. As análises ao DNA permitiram identificar os coprólitos como fezes humanas nas grutas de Paisley. O arqueólogo aponta para uma pista existente nos coprólitos: sementes de Lomatium dissectum, uma planta com raízes comestíveis que se esconde 30 centímetros debaixo do solo. “Para a obter, é preciso saber que a raiz existe lá em baixo e é preciso um pau para escavá-la”, diz. “Para mim, isso quer dizer que estas pessoas não se limitaram a chegar aqui.” Por outras palavras: seja quem for que aqui tenha vivido, não estava só de passagem. Conhecia intimamente a terra e os seus recursos.

Esta parece ser a história não só das grutas de Paisley, mas também de Monte Verde e do sítio arqueológico texano de Friedkin. Nestes três casos, os habitantes pareciam sedentarizados, bem instalados no seu ambiente e competentes a explorá-lo. E isto sugere que, muito antes de a cultura dos Clóvis ter começado a disseminar-se pela América do Norte, existiam já no continente diversas comunidades humanas que poderiam ter chegado aqui num número indeterminado de migrações e através de um número indeterminado de rotas.

“Há muito que não sabemos e que poderemos nunca vir a saber”, resume o arqueólogo David Meltzer, da Universidade Metodista do Sul. “Mas estamos a desenvolver novos métodos para descobrir mais.” Esta história ainda não acabou.”

 

Chefes tribais reúnem-se no estado de Montana para enterrar de novo as ossadas de 12.600 anos de um rapaz conhecido como criança de Anzick. O seu DNA confirmou que os nativos americanos de hoje são descendentes directos dos primeiros americanos. Fotografia: Erika Larsen

 

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