Há mais de uma década que se conhece uma jazida única em Porto de Mós. É um portal de acesso a um fundo marinho com cerca de 169 milhões de anos.

Texto e Fotografia Gonçalo Lemos

 

Alguns exemplares foram recolhidos no início deste ano para protecção, limpeza e investigação. Entre o espólio, agora à guarda do Museu Geológico do Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia, encontra-se provavelmente uma nova espécie de equinóide.

Cinco graus e a manhã já vai a meio. O vento frio cortante e as nuvens carregadas antecipam a queda de chuva a qualquer momento, mas os técnicos, no terreno, não parecem notar. Trabalham metodicamente, limpando com látex pequenas depressões no solo. Estamos numa pedreira de calcário desactivada e, se aprendemos algo com as pistas de dinossauro da Pedreira do Galinha, em Ourém, classificadas há exactamente 23 anos, a rocha nua, por vezes, esconde outras histórias.

Os muros labirínticos característicos das serras de Aire e Candeeiros conduzem-nos a uma pequena pedreira com pouco mais de dois mil metros quadrados.

Os muros labirínticos característicos das serras de Aire e Candeeiros conduzem-nos a uma pequena pedreira com pouco mais de dois mil metros quadrados. Imersos nos seus afazeres e indiferentes ao tesouro natural que ali se encontra, passam transeuntes nas imediações. Talvez se interroguem sobre esta aparente demência que leva algumas pessoas a colocarem-se de cócoras no solo, protegidas por impermeáveis, em tarefas invulgares. De todo o modo, poucos acreditariam que o mar já ali esteve. Afinal, a geologia é uma ciência que exige capacidade de imaginação.
No solo, são agora visíveis dezenas de fósseis de ouriços, estrelas, lírios-do-mar e serpentes-do-mar, organismos estranhos para o mar de pedra e montanha que marca a paisagem actual da serra. Aqui também houve ondas. Sabemo-lo pelas ripple marks, marcas de correntes marítimas preservadas na rocha, indicadores incontestáveis do ambiente de há 168 a 170 milhões de anos.
O mar inundava então esta área – não o mar como o conhecemos hoje, mas um mar interior de águas pouco profundas, testemunho do processo de separação da Península Ibérica e continente europeu relativamente à América do Norte.
A velha pedreira do Cabeço da Ladeira pareceria desprovida de interesse, não fosse este instantâneo do passado geológico inesperado captado na rocha. Por breves momentos, conseguimos imaginar o local, com as suas águas calmas e temperaturas amenas. No Jurássico Médio, a região, na altura mais próxima do equador, estaria submersa por um braço de mar de pouca profundidade, com razoável luminosidade e sujeita a uma ondulação constante, deixando impressas no fundo carbonatado as marcas de ondulação.
Em 2003, durante uma visita de rotina dos técnicos do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros à pedreira, no concelho de Porto de Mós, foram descobertos os primeiros fósseis. “A identificação de uma escavadora giratória nas imediações dois anos depois sugeriu uma actividade esporádica de exploração e pior: verificou-se que havia fósseis já marcados com tinta e até indícios da tentativa de remoção de alguns exemplares”,  lembra a geóloga Helena Fonseca, do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).  
O achado fora acidental, mas o proprietário de então mostrava-se interessado em preservá-lo.
 

De todo o modo, agora expostos à acção dos agentes meteorológicos que provocam a sua erosão, os fósseis estavam mais ameaçados do que nunca.

Entre 2005 e 2006, técnicos do Museu Geológico do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), da Universidade Aberta e do então ICN visitaram o local e compreenderam de imediato a sua importância. Identificado o valor paleontológico do local, procurou-se conciliar todos os interesses em causa.
Entretanto, a propriedade da pedreira mudou e a jazida foi beneficiando indirectamente da qualidade reduzida do calcário que ali se explorava, pois a actividade de extracção nunca foi intensiva. De todo o modo, agora expostos à acção dos agentes meteorológicos que provocam a sua erosão, os fósseis estavam mais ameaçados do que nunca. Foi por isso proposta a sua remoção, que gerou alguma controvérsia no final de 2013, embora já tivesse sido sugerida desde 2006.
De Londres, entretanto, chegavam notícias promissoras. Andrew Smith, investigador do Departamento de Paleontologia do Museu de História Natural de Londres, confirmava a raridade mundial da jazida, cujas características e idade só têm paralelo noutro local da Suíça. A descoberta de uma praia jurássica em pleno coração do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros surpreendeu. “É um local único a nível mundial”, comenta, orgulhoso, António José Teixeira, autarca local, que divulgou publicamente o achado no final de 2013, após a desactivação da pedreira e consequente remoção das escombreiras.

Os achados de fósseis de equinodermes são relativamente comuns em Portugal. Não foi por essa circunstância que a jazida ganhou fama nacional em poucas semanas. A importância dos fósseis da jazida do Cabeço da Ladeira deve-se “ao estado de conservação e abundância dos moldes e restos fossilizados dos animais, sem equivalente no contexto geológico português”, diz Bruno Pereira, doutorando da Universidade de Bristol e da Universidade Nova de Lisboa e especialista em equinodermes. “A ocorrência de restos fossilizados destes organismos não é rara. Raro é muitos desses restos ainda se encontrarem em semiarticulação, preservando a conexão anatómica original. Uma jazida deste género é mais uma peça para melhorar o conhecimento, uma fotografia parcial de um habitat daquele tempo.”

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