matagi

Os matagi, uma comunidade de caçadores em risco de extinção reaviva as suas tradições em prol da sobrevivência e admite a primeira mulher ao fim de cinco séculos de existência.

Texto: Alex Rodal
Fotografias: Javier Corso Oak Stories

“Seremos os últimos. Quando nos reformarmos, ninguém ocupará o nosso lugar.”

Haruo Endo, líder espiritual de um grupo de caçadores matagi em Oguni, na prefeitura de Yamagata, tomara a palavra. Os outros ouviam-no com atenção. “Isto acaba com a nossa geração”, sentenciou. Um silêncio tenso apoderou-se dos anciãos ali presentes, que fixam o olhar no solo e concordam, taciturnos. Só o calor do fogo reconforta os corações nesta noite fria de Primavera. Um forte odor a guisado impregna a casa animada. Reuniram-se apenas meia dúzia de homens na pequena cabana de Takeshi Sato, conhecido pelo apelido de “Capitão”. Nos seus rostos enrugados, vê-se uma mistura de tristeza e resignação, pois a batalha contra o tempo não deverá ser vencida.

Os matagi são caçadores tradicionais cujas origens remontam ao século XVI e vivem em aldeias nos planaltos do Norte do Japão. Cada comunidade tem as suas próprias características, mas todos são herdeiros de um legado transmitido oralmente de pais para filhos. Partilham códigos de conduta e uma cosmovisão segundo a qual se consideram guardiães do equilíbrio natural. Um reduto cultural, desconhecido até pelos restantes japoneses, que se encontra agora em perigo de extinção.

Uma das principais causas do seu mais do que provável desaparecimento é o êxodo rural dos jovens, um fenómeno demográfico comum em todo o mundo. Tomeo Abe, um dos caçadores mais veteranos, serve-se de outra dose de carne de urso e murmura: “Os jovens de hoje renegam tudo aquilo que infunda medo ou exija esforços. Quando andamos pela montanha durante uma semana sem êxito, costumam abandonar-nos e nunca mais voltam.” A escassez de sucessores evidencia-se pela análise do envelhecimento da população. Segundo dados do próprio governo, mais de 20% supera os 65 anos de idade – com uma média de idades de 48,5, é a segunda mais elevada do mundo, atrás do Mónaco – e prevê-se que nas próximas quatro décadas, o país perca um terço dos seus habitantes devido à baixa natalidade. As prefeituras de Aomori, Iwate, Akita e Yamagata são as mais afectadas: nelas poderão desaparecer 80% dos municípios actualmente existentes. E é precisamente nelas que vivem as comunidades matagi.

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A terra original desta subcultura, segundo os autóctones, é a aldeia de Ani, ou Animatagi, na prefeitura de Akita. Os matagi são um povo heterogéneo, que vive disperso pela região de Tohoku, em Honshu, a principal ilha do Japão. É praticamente impossível localizá-los num mapa e mais ainda elaborar um registo preciso das comunidades. Existem apenas vagas estimativas do seu declínio.

O trajecto entre Oguni e Ani transporta-nos para um Japão reminiscente da época em que os daimios ostentavam o poder e os samurais o encarnavam. Aldeias repletas de residências minka com telhados curvos e negros, ladeados por cerejeiras em flor convidam a uma reflexão sobre as origens históricas dos matagi.

Em meados do século XVI, durante o período Sengoku, o Japão estava imerso numa longa e sangrenta guerra civil. A escassez de alimentos e de matérias-primas acabou por ser inevitável. Neste contexto, convergiram os factores propícios para que a caça se transformasse numa actividade económica e um meio de subsistência de importância vital. Os habitantes das zonas rurais começaram a penetrar nas montanhas para caçar, sobretudo no Inverno, quando a agricultura se tornava impraticável. Satisfaziam deste modo a necessidade de carne e peles. Terá sido nesta altura que nasceu a subcultura dos matagi, nas regiões montanhosas do Norte de Honshu.

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Haruo Endo, um veterano matagi de Oguni, segura uma das primeiras caçadeiras usadas pelos seus antepassados em vez das lanças tradicionais. Junto dele, encontra-se a pele de um urso-negro.

Após um túnel longo e escuro, um manto de neve e uma densa neblina anunciam a chegada à prefeitura de Akita. Hideo Suzuki, o afável e sorridente líder da comunidade de Ani, é o nosso anfitrião. A sua casa, que poderia perfeitamente ser um museu, reúne relíquias e engenhocas matagi usadas por ele e pelos seus antepassados há mais de nove gerações, embora actualmente a maioria esteja em desuso.

Em 2011, houve um acontecimento que parece ser o último prego no caixão destas comunidades já em declínio: o acidente nuclear de Fukushima. Devido ao risco inerente de os animais selvagens estarem contaminados por radioactividade, o governo proibiu o consumo e a venda da carne durante quase cinco anos. Durante esse período, os matagi abandonaram aquela que fora a sua principal actividade durante mais de cinco séculos. Caçar um animal para transportar o seu corpo até ao incinerador provoca-lhes não só uma sensação de vazio, como causa um dilema que vai contra as suas crenças: dar morte para conservar a vida.

Desde então, Hideo articula a caça esporádica com o seu trabalho como guia de turismo rural. É igualmente membro da associação local de protecção florestal e executa trabalhos de manutenção do espaço natural: “Passo mais de vinte dias por mês na montanha e ainda sinto que ela me mantém vivo.” Depois de servir uma chávena de chá, reconhece que talvez a mudança tenha sido para melhor, pois o estilo de vida matagi não tem futuro: “Digo sempre aos jovens que não venham, têm de dar prioridade à sua vida e ao trabalho diário.” De forma quase reverencial, dispõe sobre o tatami algumas fotografias antigas enquanto relata com orgulho: “No passado, íamos caçar em grupos de 20 ou 30 pessoas, armados de lanças e armas de fogo rudimentares. Rezávamos antes de entrar no reino sagrado da montanha e passávamos horas à escuta, à espera, em busca do menor sinal perceptível de que o urso estava por perto.”

Naquela época, Hideo acabara de concluir a escolaridade obrigatória e nem sequer tinha uma arma. Como os outros seko, o seu papel era levantar a voz na altura certa para conduzir o urso ao local onde deveria ser cercado e abatido por caçadores mais velhos: “Com um único golpe e sem fazer sofrer a presa. Foi assim que me ensinou o meu avô.” O venerado ancião termina a sua história levando aos lábios um cartucho de bala e assobiando com força. Uma amos  tra de como comunicavam entre si os matagi nas cordilheiras cobertas de neve quando ainda não usavam transmissores de rádio nem caçadeiras modernas, instrumentos que foram adoptando gradualmente a partir da Segunda Guerra Mundial.

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Grupo de caçadores matagi fotografado em finais do século XIX. As tácticas de caça com lança exigiam força e o compromisso do grupo para abater o urso, pois era preciso uma aproximação a curta distância do animal para o abater com um único golpe, reduzindo assim o seu sofrimento.

Tradição e modernidade convivem numa frágil harmonia no Japão do século XXI. Duas faces da mesma moeda que interessam particularmente ao antropólogo norte-americano Scott Schnell, um dos maiores especialistas do mundo nestas comunidades. Scott está hospedado numa pousada no sopé das montanhas nevadas de Oguni, local que conhece bastante bem, pois já visitou o país em mais de trinta ocasiões.

“Não são, obviamente, como os caçadores tradicionais de há 40 ou 50 anos”, explica. Evoluíram em vários aspectos, mas ainda conservam muitos ideais e costumes que os distinguem dos caçadores desportivos modernos A sua característica mais marcante é a relação íntima mantida com o ambiente que os rodeia, ao qual reconhecem consciência própria e a veneração da figura personificada por essa natureza: Yama-no-Kami, a deusa da montanha. Estas comunidades consideram que devem comportar-se de forma responsável e consciente, nos territórios da divindade, de modo a não provocarem a sua ira. Do mesmo modo que lhes concede privilégios, permitindo-lhes que se alimentem de tudo o que a montanha oferece, a deusa exige-lhes em troca que sigam um código de conduta rigoroso. No essencial, podem caçar porque ela assim o permite, afirma o especialista: “Os matagi sentem que a sua sobrevivência depende de Yama-no-Kami. É por essa razão que não tiram mais do que aquilo de que precisam e isso distingue-os dos demais.” No entanto, existe um debate aberto quanto ao grau de interferência futura do progresso tecnológico no seu sistema de crenças. “Isso pode acontecer com o tempo, mas até agora conseguiram manter a sua consciência e responsabilidade”, acrescenta o antropólogo.

Uma das exigências impostas pela divindade aos seus caçadores traduz-se nos diferentes tabus que há séculos são impostos às mulheres da comunidade. A deusa da montanha é descrita de forma recorrente no xintoísmo como uma bruxa velha e maliciosa, algo que lhe causa uma virulenta aversão e inveja pelo resto das mulheres. Por este motivo, nunca foi permitida a presença do sexo feminino no território sagrado. Apesar disso, a premente necessidade de perpetuar o seu legado levou alguns destes caçadores em perigo de extinção a renegociar o seu acordo tácito com Yama-no-Kami e a considerarem a inclusão de algumas mulheres. “Encontramo-nos num momento realmente interessante, porventura um ponto de viragem na sua história”, afirma Scott Schnell. “Um sistema de crenças que se adapta a uma mudança social. Não seria genial que outras religiões conseguissem fazer o mesmo?”

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Hiroko Ebihara sob  um torii na sua visita a um dos santuários do sopé das montanhas, no dia antes da caçada. Foi rezar a Yama-no-Kami, uma divindade que os matagi descrevem como um ser de aspecto horripilante, com inveja das mulheres, às quais impediu o acesso aos seus territórios.

Depois de pronunciar estas palavras, abandona deliberadamente a incómoda postura seiza ditada pela formalidade japonesa para continuar a conversa de forma mais descontraída. O norte-americano pensa em voz alta sobre as práticas ou conceitos que os matagi podem ensinar-nos: “Sabemos há algum tempo que estamos prestes a destruir numerosas espécies, incluindo a nossa. Porém, a ciência e a educação não vão servir de muito. O que nos falta é o sentimento, a emoção que se obtém quando as pessoas acreditam e se comportam como se realmente existisse uma deusa da montanha.”

Moral e ética são questões impossíveis de evitar quando se aborda o tema da caça. Os matagi receberam muitas críticas por parte dos sectores conservacionistas, uma vez que a sua principal presa é o urso-negro-japonês, uma subespécie classificada como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

No entanto, o relatório mais recente desta organização mostra que, apesar da tendência global, o Japão é um dos poucos casos excepcionais de países onde as populações do urso-negro-asiático são estáveis ou até estão a aumentar.

Hiromi Taguchi, que lecciona Antropologia e Estudos Ambientais na Universidade de Arte e Design de Tohoku (UADT) comenta este assunto: “Em Tóquio, as pessoas vivem como se fossem caçadores-recolectores, mas protegidos pela estrutura espacial de uma cidade.” Após uma pausa intencionalmente longa, própria de quem medita e escolhe bem as suas palavras, acrescentou: “Matamos o gado, mas não os animais selvagens. A nossa sociedade funciona assim.”

A simples dicotomia caça vs. conservação torna-se complexa quando a fronteira entre natureza e espaço urbano se esbate. Segundo dados do Ministério do Ambiente do Japão, entre 2008 e 2016 registaram-se 764 vítimas devido a encontros com animais selvagens, incluindo 12 mortes. Para entender melhor o contexto actual e o papel desempenhado pelos matagi, Hiromi Taguchi recomenda uma visita a estas comunidades para conhecer o seu estilo de vida. “Coexistem com o urso, por isso não permitirão que se extinga”, disse. Taguchi limpa os óculos enquanto suspira profundamente. “Quando os matagi desaparecerem, é provável que o mesmo aconteça ao animal”, sentencia. Uma vez chegado o inexorável fim, só o tempo determinará se os matagi foram uma comunidade romantizada ou se, pelo contrário, eram os verdadeiros guardiões do equilíbrio natural.

Hiroko Ebihara, a primeira mulher matagi, é uma jovem que decidiu aceitar o conselho do professor Taguchi e explorar o mundo rural. “Foi ele quem me introduziu nesta região e entre a sua gente há quase uma década”, afirma. Nascida e criada em Kumamoto (que, por acaso, significa “origem do urso” em japonês), na ilha Kyushu, na outra extremidade do país, sempre se interessou pela pintura e pelo desenho. Mudou-se assim para Yamagata para estudar na UADT, onde conheceu Taguchi. Nessa altura, fazia obras de estilo japonês, principalmente de animais, que de algum modo lhe pareciam inanimadas: “No jardim zoológico, não conseguia captar a sua verdadeira essência. Precisava de compreender como vivem e se comportam no seu habitat. Quis experimentar a natureza autêntica.” Fascinada pelo estilo de vida da comunidade matagi, começou a frequentar a aldeia de Oguni. Iniciou-se então um lento processo no qual os caçadores, transgredindo uma tradição secular em prol da sua sobrevivência cultural, introduziram Hiroko de forma progressiva até que a jovem foi, finalmente, aceite e instruída. “Depois de me tornar uma deles, revelaram-me que eu era a primeira mulher matagi. Cada vez tenho mais consciência do que isso significa”, confessa.

Evitando protagonismo, sugere uma reunião com oseu mentor, Saito Shigemi, que pratica oestilo de vida matagi há mais de 50 anos: “No passado, referíamo-nos a nós como yamando, que significa ‘homem da montanha’, ou teppo-uchi, algo parecido com ‘caçador com arma de fogo”. Com um gesto subtil, convida-nos a entrar no santuário onde prestam culto à deusa, na encosta da montanha, enquanto acrescenta: “Quando o professor Taguchi nos visitou pela primeira vez,  há cerca de 35 anos, explicou-nos que os matagi de Akita tinham importado a caça tradicional para esta região. Desde então usamos o termo matagi.”referíamo-nos a nós como yamando, que significa ‘homem da montanha’, ou teppo-uchi, algo parecido com ‘caçador com arma de fogo”. Com um gesto subtil, convida-nos a entrar no santuário onde prestam culto à deusa, na encosta da montanha, enquanto acrescenta: “Quando o professor Taguchi nos visitou pela primeira vez,  há cerca de 35 anos, explicou-nos que os matagi de Akita tinham importado a caça tradicional para esta região. Desde então usamos o termo matagi.”

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A média de idades dos caçadores matagi varia entre 60 e 70 anos. Uma vez terminada a caçada, os homens reúnem-se sob o tecto do líder, Takeshi Sato, para dar início ao ritual que precede o jantar comunitário. Haruo Endo faz a oração em frente do coração do urso e de uma garrafa de sake.

Mestre e discípula fazem uma oração em perfeita sincronia, num sinal de que a caçada começou. Só com arma ao ombro, empreendem uma exigente subida pelas ladeiras cobertas de neve. A meio da expedição, Hiroko admite que nunca teve intenção de se tornar matagi. Na verdade, no princípio tinha escassos conhecimentos sobre a sua cultura: “Quando os acompanhei pela primeira vez, nem sequer sabia que as mulheres estavam excluídas do seu mundo.”

Depois de alcançar o cume da montanha, a jovem, considerada a melhor batedora do grupo, faz uma acção de reconhecimento. Avista o urso-negro num vale próximo e informa os outros esquadrões através do rádio. Hiroko e Shigemi trocam um sorriso cúmplice, só partilhável entre duas pessoas unidas, tardiamente, pelas circunstâncias da vida e pelo destino, como pai e filha adoptiva.

Nota:

O fotógrafo Javier Corso, explorador da National Geographic, é fundador e director da OAK STORIES, agência produtora de documentários, da qual Alex Rodal é chefe de investigação. O projecto sobre os matagi foi apoiado pela NGS, no âmbito do programa de exploradores da National Geographic.

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