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Um trabalhador prepara-se para mais um dia numa grande superfície de venda grossista em São Francisco.

A COVID-19 mudou a forma como vivemos e trabalhamos, destruindo alguns dos nossos rituais mais acarinhados. E, a par das manifestações mundiais em prol da justiça social, também nos recordou a necessidade desesperada de resolvermos a injustiça na nossa sociedade e de protegermos melhor os mais vulneráveis que vivem entre nós.

Ensaio:Phillip Morris
Fotografias: Pari Dukovic

Sem saber bem como, Ruby Moss conseguiu reunir forças para se ajoelhar e rezar. Embora estivesse gravemente debilitada pelo vírus, pediu a Deus para salvar a vida de Adolphus Moss, seu marido há 32 anos.

Ele estava a degradar-se rapidamente. Um enfermeiro acabara de lhe telefonar do hospital em Tuscaloosa, no Alabama (EUA), para a avisar que Adolphus já não conseguia respirar por si.

“Ouve o meu apelo, Senhor. Poupa-lhe a vida”, repetia Ruby em desespero. Vários minutos mais tarde, recebeu a resposta. “Lamento. Ele não sobreviveu”, disse-lhe uma voz do outro lado do telefone.

A cerimónia fúnebre realizou-se em Abril, junto da sepultura de Adolphus Moss no cemitério da Igreja Baptista de Fourth Creek, na cidade de York. Sem fanfarra nem qualquer celebração pública da sua vida, Adolphus, de 67 anos, diácono da sua igreja e respeitado líder cívico da sua comunidade rural, baixou à terra. O enterro durou dez minutos.

“Não pude dar ao meu marido a cerimónia de despedida que ele merecia”, disse Ruby. “Disseram-nos que podíamos ter a presença de dez pessoas e que duas teriam de ser agentes funerários. Parecia que estávamos num mundo completamente diferente. Não parecia real.”

O ano de 2020 trouxe mudanças inimagináveis à maneira como vivemos e à maneira como morremos. Os moribundos morrem sozinhos. Os sobreviventes choram solitários. O ritual da morte mudou tanto que deixou de ser reconhecível. O velório irlandês, com as suas tradições que reuniam pessoas a cantarem, a abraçarem-se e a brindarem ao falecido em redor do caixão aberto, foi drasticamente simplificado. A lavagem ritual dos corpos dos mortos, amplamente praticada nas religiões do Extremo e do Médio Oriente, é agora feita com equipamentos de protecção ou nem sequer é praticada.

Os últimos suspiros são agora rotineiramente dados sem um toque familiar reconfortante, nem um abraço de despedida. A COVID-19 transformou a morte na viagem mais solitária da experiência humana partilhada.

“Os funerais são extraordinariamente importantes para gerir a dor”, comentou William Hoy, professor da Universidade de Baylor. “Um funeral por Zoom não é a mesma coisa. Temo que vamos pagar um preço elevado pela nossa incapacidade de nos abraçarmos, chorarmos e sofrermos juntos no mesmo espaço físico.”

William salientou que “alguns sobreviventes que perderam familiares durante os ataques terroristas de 11 de Setembro ainda não recuperaram do facto de os corpos dos seus entes queridos nunca terem sido encontrados, nem devidamente sepultados. As pessoas de luto precisam mesmo do contacto humano”.

Tornou-se dolorosamente claro que o vírus já alterou a vida tal como a conhecemos. Além de um assustador número de mortos, o vírus roubou-nos os tesouros mais essenciais da nossa experiência partilhada. Rotinas bem enraizadas, de trabalho, de estudo e de vida em família, estão agora estranhamente desfiguradas. Os hábitos diários foram virados de pernas para o ar. Os rituais comemorativos de marcos importantes das nossas vidas foram destroçados. Desde Março que, movidos pelo medo, assumimos frequentemente comportamentos invulgares, como comprar papel higiénico ou discutir com estranhos sobre a probidade de usar máscaras em público.

As desigualdades estruturais e os valores perigosamente mal alinhados de sociedades de todo o mundo estão a ser examinados e avaliados. O que se qualifica como trabalho essencial? Quem é um trabalhador essencial? E por que razão se encontram os trabalhadores pobres tão desproporcionadamente nas linhas da frente e tão inadequadamente protegidos?

Cerca de 1,9 milhões de turistas desembarcaram no Rio de Janeiro para um fim-de-semana de diversão em Fevereiro. É altamente provável que os foliões não estivessem a pensar nas dificuldades dos pobres enquanto bebiam caipirinhas e se divertiam nas famosas praias de Copacabana. No entanto, as dezenas de milhares de pessoas que se juntaram no Sambódromo Marquês de Sapucaí, um estádio na baixa da cidade, para assistir aos 13 desfiles do domingo de Carnaval de 2020 foram presenteadas com uma celebração de mulheres brasileiras pobres.

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Repensando a nossa Sociedade: Equilíbrio do trabalho e da vida
No futuro, as pessoas não trabalharão totalmente à distância, mas também não trabalharão amontoadas em escritórios. “Será um híbrido”, prevê Martine Ferland, director-geral da Mercer, uma empresa de recursos humanos. Instalações mais pequenas serão centros para colaborações presenciais esporádicas e ferramentas digitais aperfeiçoadas darão apoio para o teletrabalho. Haverá mais ênfase no equilíbrio entre a produtividade e as necessidades pessoais, permitindo que os trabalhadores organizem o horário de trabalho e encaixem-mo nos seus compromissos. A flexibilidade será o derradeiro benefício profissional, diz Martine Ferland. — Texto: Daniel Stone. Ilustração: Rachel Levit Ruiz

A prestigiada escola de samba Unidos do Viradouro aproveitou o desfile para prestar homenagem às trabalhadoras negras pobres, descendentes de escravos africanos e conhecidas como lavadeiras da cidade brasileira de Salvador. Unidos do Viradouro foi considerada a melhor concorrente do concurso. O seu desfile foi aclamado pela audiência internacional.

Aquele momento feliz acabou abruptamente. O Brasil registou o seu primeiro caso de COVID-19 nesse dia. Um empresário de 61 anos que visitara recentemente o Norte de Itália dirigiu-se a um hospital em São Paulo, queixando-se de febre, tosse e dores de garganta. Foi o paciente zero da América Latina. A sua infecção mostrou aos especialistas da doença que o coronavírus já deveria estar a propagar-se na América do Sul. De súbito, os hospedeiros médica e economicamente vulneráveis ao vírus, como as lavadeiras, e milhões de outras pessoas amontoadas nas favelas do Brasil passavam a correr riscos graves.

1. A nível mundial, 61% das pessoas trabalham na economia informal, como empregadas domésticas, vendedoras de rua, motoristas de serviços de entregas e trabalhadores à jorna.

Se a humanidade quiser vencer a COVID-19 e outros vírus futuros, os pobres e os socialmente desamparados terão de ser incluídos na rede de segurança que nos protege a todos. (1) Em finais de Agosto, o Brasil só era superado pelos EUA em número total de infectados e mortes confirmadas. Este é um vírus astuto. As pessoas afectadas por antigas desigualdades sociais enraizadas em diferenças de classe, casta, raça e riqueza são particularmente vulneráveis. O vírus aproveitou-se de problemas previamente existentes. E quando se cruzou com a agitação civil que eclodiu nos Estados Unidos no Verão passado deu origem a uma sucessão de crises sobrepostas. Enquanto um novo vírus atacava os pulmões, um vírus muito mais familiar continuava a travar a guerra contra a vida dos negros. Depois de ver George Floyd morrer lentamente debaixo do joelho de um agente da polícia de Minneapolis, o mundo reagiu com fúria e determinação. No Médio Oriente, na Europa e nas zonas mais inesperadas da América rural, ouviu-se o cântico “Black Lives Matter”. (2) Esta frase de ordem proporcionou reconhecimento global ao facto de a vida ser sagrada, estar interligada e precisar de protecção. Pessoas de todos os grupos demográficos e de culturas bastante diferentes decidiram abandonar o silêncio perante os abusos sistemáticos das forças policiais e dos pontos de vista latentes dos supremacistas brancos.

2 . Houve manifestações de Black Lives Matter em 40% dos condados norte-americanos, 60 países e em todos os continentes, excepto na Antárctida.

Tudo isto revelou uma conclusão simples, que teremos agora de enfrentar: para sobreviver a este vírus e aos outros que se seguirão teremos de criar sociedades mais equitativas e justas. Há uma verdade óbvia que foi posta a nu: na guerra viral, a humanidade é tão forte como o seu elo mais fraco. A nossa sobrevivência colectiva dependerá da capacidade para darmos mais valor à relação directa que existe entre a saúde universal e a justiça social. Também vai exigir vontade para darmos passos decisivos no sentido de aliviarmos essa interminável pandemia de pobreza esmagadora que é o calcanhar de Aquiles do planeta.

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Protegido da cabeça aos pés, Sterling  Johnson higieniza um comboio da Bay Area Rapid Transit nas instalações de Concord, na Califórnia.

Algumas comunidades subestimaram o vírus, considerando-o ligeiro, senão mesmo benigno. O mundo assistiu ao vaivém das suas investidas e reagiu frequentemente de forma trágica. No quarto domingo de Março, quando as taxas de infecção subiam vertiginosamente, o bispo Gerald Glenn, de 66 anos, destacado pastor evangélico de Chesterfield, no estado da Virgínia, exortava a congregação a não temer o vírus. À semelhança de muitos líderes ecuménicos, este antigo agente policial não seguiu os conselhos do governador da Virgínia, Ralph Northame, e das outras pessoas que se manifestavam contra ajuntamentos de mais de dez pessoas. “Creio firmemente que Deus é maior do que este temido vírus”, disse Gerald aos seus paroquianos. “Se tivesse de fazer o meu próprio elogio fúnebre, diria ‘Deus é maior do que qualquer desafio que enfrentemos.’ Seria o meu epitáfio.” Gerald morreu de COVID-19 três semanas mais tarde. A sua convicção religiosa nunca pareceu vacilar e a determinação letal do vírus também não.

Passadas algumas semanas, a hajj anual reduzia-se a uma proporção ínfima para contrariar o risco sanitário representado pela cerimónia. A peregrinação, que todos os muçulmanos com capacidades físicas e financeiras estão obrigados a fazer uma vez na vida, é um dos cinco pilares do islão.

Por norma, mais de dois milhões de peregrinos fazem, todos os anos, a viagem até Meca. Este ano, a multidão limitou-se a mil pessoas. O vírus visa não apenas os corpos das vítimas, mas também o espírito daqueles que são obrigados a permanecer separados e isolados. 

Um homem de Columbus, Ohio, publicou no Verão passado, no Facebook, uma canção com a qual esperava reconfortar os amigos solitários e idosos. O meu pai, com 78 anos completados em Junho, aproveitou o seu aniversário para cantar com a sua guitarra acústica. Sentou-se em frente do computador e filmou-se a interpretar uma canção que compusera há 30 anos. Chamava-se “God’s been good to me” [Deus tem sido bom para mim]. Era uma canção de louvor e gratidão.

Frank Morris, outrora pastor de uma igreja rural no sopé dos Apalaches, sentiu-se entristecido por já não poder participar, em segurança, nas cerimónias de culto semanais.

Não podia igualmente  comemorar  o seu aniversário com os seus entes queridos, mas isso não o impediu de tentar contactar outras pessoas.

Depois de ver o vídeo, perguntei ao meu pai por que razão decidira partilhá-lo. A sua resposta foi simples. “Quis comunicar com as pessoas que estão aflitas, ou doentes, e transmitir-lhes que estava a pensar nelas e que não estão sozinhas. Quis que se recordassem dos Salmos de David: ‘Nunca vi o justo desamparado, nem os seus filhos mendigando o pão’”, disse, citando uma escritura que o ouço evocar com frequência.

Espero que as suas palavras sejam mais do que um estereótipo bíblico. Talvez a morte causada pelo vírus nos tenha despertado de uma maneira que não podemos ignorar. Esta catastrófica ameaça sanitária, que expõe as nossas fraquezas como espécie, também ilumina a nossa ligação. É esse o lado positivo do que está a acontecer neste momento. Sob a ameaça da peste, é-nos dada a oportunidade de reflectir sobre a forma como as comunidades e as sociedades dependem umas das outras, apesar de velhas querelas. (3)

3 . A COVID-19 exacerbou o problema da fome nos EUA. Mais de 54 milhões de pessoas, incluindo  18 milhões de crianças, não têm comida suficiente. Entre Março e Junho, os bancos alimentares norte-americanos distribuíram 1.900 milhões de refeições.

Não é uma hipérbole dizermos que somos todos peças num jogo de dominó global. Alguns de nós são mais susceptíveis, mas todos corremos perigosamente o risco de cair.

Poucas cidades norte-americanas foram atingidas pela pandemia com tanta força como Detroit. A cidade vai aguentando investidas que incinerariam a esperança noutros locais. Antiga capital automóvel do mundo, declarou falência em 2013. Antes dessa crise, sofrera já durante décadas com o desespero de ser uma das grandes cidades mais pobres dos EUA. Mesmo assim, recuperou.

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Angel Chavez arruma fruta num mercado semanal de produtores em São Francisco.

Moradores apaixonados ressuscitaram a sua amada cidade, investindo dinheiro nos bairros  de  Detroit. A zona ribeirinha da baixa da cidade parecia prestes a rugir de vida, com o ressurgimento de restaurantes e condomínios caros. Bairros arruinados, dados como perdidos, tinham conseguido atrair promotores imobiliários e pioneiros urbanos ricos. Foi então, em meados de Março, que a COVID-19 atacou.

Nesse mesmo instante, a doença pôs a descoberto todos os problemas preexistentes que tornavam Detroit vulnerável. Milhares de pessoas pobres da cidade, sobretudo os moradores afro-americanos, não tinham acesso a água canalizada nas suas habitações por falta de pagamento das contas. Como poderiam lavar as mãos para ajudar a manter o vírus à distância?

Semanas após o início da pandemia, mais de 40% dos habitantes da cidade que antes do vírus tinham trabalho perderam os seus empregos, muitos dos quais definitivamente. Com base num inquérito realizado pela Universidade de Michigan a mais de setecentos inquiridos, a taxa de desemprego de Detroit em finais de Abril era quase de 48%. A morte entrou na cidade como um desfile.

A história trágica de Jason Hargrove é um aviso exemplar sobre a interligação entre estranhos e a forma como a morte espreita os encontros mais banais. Casado e pai de seis filhos, Jason conduzia um autocarro da rede pública de Detroit. O seu trabalho era considerado essencial numa cidade onde quase 20% dos moradores dependem dos transportes públicos. No início de Março, Jason começou a ficar preocupado. Disse à mulher e aos colegas ter receio de que o seu trabalho se tivesse tornado arriscado.

O pior pesadelo materializou-se quando uma mulher de meia-idade entrou no seu autocarro, instalou-se atrás dele e tossiu repetidamente. Não fez qualquer esforço para tapar a boca. Numa publicação no Facebook datada de 21 de Março, Jason Hargrove desabafou, zangado, contra a mulher não identificada. “Sinto-me violado. Sinto-me violado pelas pessoas que iam no autocarro quando isto aconteceu”, disse no vídeo.

Onze dias depois de o vídeo ser publicado, Jason Hargrove morreu numa unidade de cuidados intensivos, num hospital de Detroit. Era um trabalhador da linha da frente que, em tempos de pandemia, assumiu os riscos de um emprego perigoso.

“O Jason era profundamente dedicado ao seu emprego”, disse a sua mulher, Desha Johnson-Hargrove. “Não ganhava milhões, mas sentia-se directamente responsável pela segurança dos passageiros e gostava sempre de se relacionar com eles. Cumprimentava todos. Foi este o tipo de pessoa que perdemos.”

À semelhança de legiões de operadores de transportes públicos de cidades superlotadas como Tóquio, Nova Iorque ou Mumbai, Jason Hargrove não podia dar-se ao luxo de trabalhar a partir de casa. Muitos passageiros também eram trabalhadores essenciais, deslocando-se aos empregos que pagavam pouco mas que exigiam a sua presença física – uma fábrica, uma mercearia ou um lar de idosos. Os autocarros transformaram-se em pratos de petri sobre rodas.

Sabemos, com toda a certeza, que alguns grupos de pessoas vão continuar a correr grandes riscos de adoecer, ou morrer, devido ao vírus. Pela mais simples das razões: não têm acesso a cuidados de saúde ou, como Jason Hargrove, são trabalhadores essenciais cuja exposição é praticamente certa.

Isto acontece em todo o mundo. Sempre que entramos numa mercearia, reparamos nos olhos de uma mãe desesperada ou de outras pessoas sem possibilidades de se resguardarem. É essa a interligação de que, subitamente, nos apercebemos: algumas das pessoas mais vulneráveis que nos rodeiam são também as mais essenciais.

“O contrato social foi violado em demasiados países e as próprias instituições globais criadas para reforçar os direitos, a igualdade, o crescimento e a estabilidade global contribuíram para a convergência de crises que o mundo enfrenta neste momento”, afirmou Sharan Burrow, secretária-geral da Confederação Internacional dos Sindicatos, uma organização sindical internacional que representa 200 milhões de trabalhadores em 163 países e territórios.

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Repensando a nossa Sociedade: Novas formas de aprender
Com o encerramento das escolas, os agrupamentos inovaram para melhorar a aprendizagem a partir de casa. Embora a igualdade de acesso à tecnologia continue a ser um obstáculo, vão ser concebidas ferramentas para encurtar as distâncias. Nos anos de escolaridade obrigatória, a tecnologia será utilizada para apoiar os trabalhos de casa, definir objectivos e avaliar progressos. A ida aos campus das faculdades poderá tornar-se opcional para os estudantes universitários, diz Michael Crow, presidente da Universidade Estadual do Arizona. Várias universidades prevêem a transição para modelos com mais vagas, oferecendo ensino de alta qualidade e baixo custo a maior escala. — Texto: Daniel Stone. Ilustração: Rachel Levit Ruiz

Como é evidente, o vasto âmbito da pobreza global já era impressionante muito antes da chegada da COVID-19. Quase metade da população mundial vive na pobreza, segundo a Oxfam, uma instituição de caridade internacional que dedica os seus esforços a mitigar a pobreza global. A fortuna combinada das 2.153 pessoas mais ricas do mundo excede a riqueza de 4.600 milhões. O coronavírus exacerbou este espectáculo de terror de maneiras ainda por determinar. Em Julho, a Oxfam estimou que, até final do ano, poderão morrer 12 mil pessoas por dia devido a fome relacionada com a COVID. Esse número poderá exceder o número de mortes causadas pela doença propriamente dita.

Está a proliferar o número de novos lugares críticos onde se passa fome, não só em países desfavorecidos, mas também em países de rendimento médio. (4) Milhões de pessoas que conseguiam sobreviver com dificuldade antes da pandemia estão agora em risco. Os Estados Unidos não são imunes à fome. Com as lojas obrigadas a fechar e as escolas relegadas para o ensino à distância, os agregados familiares raramente enfrentaram tantas dificuldades.

4 . Os dez países onde se passa mais fome são o Iémen, a República Democrática do Congo, o Afeganistão, a Venezuela, a região do Sael da África Ocidental, a Etiópia, o Sudão, o Sudão do Sul, a Síria e o Haiti.

O inquérito de saúde da Fundação da Família Kaiser, realizado em Maio, concluiu que 26% dos norte-americanos declararam ter passado sem refeições, ou dependido da ajuda de acções de caridade ou programas do Estado, para obterem alimentos, incluindo 13% que afirmaram ter visitado um banco alimentar para obter provisões.

“A dolorosa verdade é que a insegurança alimentar está a explodir no nosso próprio quintal”, disse Abby Maxman, da Oxfam America, num comunicado de imprensa. “Neste momento, há pessoas a irem para a cama com fome em todas as cidades. Aqueles que antes já viviam aflitos, estão agora a esforçar-se muito para não irem ao fundo. No estado do Mississípi, quase um quarto dos habitantes sofre de insegurança alimentar. No Louisiana, mais de um terço das crianças têm as despensas vazias.”

Num tempo em que tantas comunidades norte-americanas se esforçam por sobreviver sem danos (5), as pessoas que protegem os mais vulneráveis tornaram-se ainda mais fundamentais.

5 . Em apenas um mês, logo no início da pandemia, quase 20% dos adultos norte-americanos afirmaram ter perdido o seu salário devido à COVID-19.

Num dia quente de Julho, Vince Cushman, director do Banco Alimentar da Área Metropolitana de Cleveland, encharcado em suor, orientava o trânsito num parque de estacionamento municipal. Poucas pessoas iriam trabalhar nos escritórios da cidade por causa do vírus e,  por  isso, o enorme parque de estacionamento tornara-se palco de uma distribuição semanal de alimentos que recebia cerca de duas famílias da zona de Cleveland à quinta-feira.

Vince trabalha há oito anos para um dos bancos alimentares mais concorridos dos EUA. Considera o seu trabalho um serviço público e acredita que o serviço comunitário é uma característica definidora de Cleveland. Essa é uma das razões pelas quais ficou desolado quando contraiu COVID-19 em Março. Faltou ao trabalho quase seis semanas até recuperar. “Temos passado por várias épocas muito difíceis. É por isso que, em tempos de crise, acho que conseguimos reagir melhor do que em muitos lugares que não precisam de estar constantemente a lidar com a adversidade. Também temos o cuidado de não julgar as pessoas em tempo de necessidade”, afirmou.

“Digo sempre aos meus voluntários: nunca conhecemos as circunstâncias que levaram uma pessoa a estar na fila à espera de receber alimentos. Não me interessa se chegaram ao parque de estacionamento num Lexus, não sabemos se são pessoas sem abrigo e vivem naquele carro. A nossa missão é tratá-las com dignidade e civismo, sabendo que temos a oportunidade de as servir”, disse.

No entanto, não é apenas a fome das famílias desesperadas que preocupa os educadores em todo o mundo. A probabilidade de um número incontável de crianças estarem a sofrer reveses irrecuperáveis na sua educação é uma preocupação.

Um inquérito realizado em Março, pelo Centro para Investigação dos Assuntos Públicos da Associated Press-NORC, apurou que, quando as escolas norte-americanas abandonaram as salas de aula em prol do ensino à distância, os progenitores dos agregados familiares com rendimentos inferiores a 50 mil dólares anuais ficaram particularmente preocupados com as perspectivas de futuro dos seus filhos. Cerca de 72% desses pais disseram estar preocupados com a possibilidade de os filhos serem prejudicados em termos académicos.

“Já sabemos que em igualdade de circunstâncias os alunos, em média, são beneficiados por frequentarem a escola a nível académico e a nível de desenvolvimento social e emocional”, disse Aaron Pallas, presidente do Departamento de Políticas de Educação e Análise Social do Teachers College da Universidade de Columbia. “Até as interrupções planeadas, como as férias de Verão, podem abrandar os estudantes e estas interrupções afectam mais os alunos das classes baixas do que as crianças e jovens de classe média.”

Apesar de a pandemia ter encerrado as escolas e os locais de trabalho e de ter remodelado o nosso quotidiano, prossegue a revisão da história. O planeta está a transbordar de correntes de agitação racial, insurreições sociais e apelos continuados a uma reparação imediata da desigualdade social.

Depois da morte de George Floyd, o afro-americano de 46 anos que morreu depois de ser detido em Minneapolis por suspeita de usar uma nota falsa de 20 dólares, teve início um dos maiores e mais sérios protestos da história norte-americana. Segundo vários inquéritos, nas cinco semanas decorridas após a sua morte em Maio, 15 a 26 milhões de pessoas participaram em manifestações públicas e milhões de outras, em todo o mundo, juntaram-se em solidariedade.

“A escala das manifestações de protesto a que assistimos não tem precedentes”, disse Deva Woodly, professora associada da Nova Escola de Investigação Social em Nova Iorque. “São esforços coordenados que estão a acontecer em todo o lado, em cidades, subúrbios e zonas rurais. Em mais de 40% dos condados norte-americanos, houve uma manifestação do movimento Black Lives Matter.”

Um ponto de ruptura com mais de quatro séculos de idade foi finalmente atingido quando o mundo se viu obrigado a enfrentar a verdade brutal: as vidas dos negros não têm sido importantes. O caso de Floyd privou finalmente os alegremente indiferentes do privilégio da ignorância.

A vida de Floyd pode não ter sido importante para alguns. A sua morte foi importante para muitos. Jovens da América rural, estudantes brancos ricos e multidões de pessoas comuns juntaram-se em solidariedade aos fundadores do Black Lives Matter e aos activistas dos direitos civis de todo o mundo, apelando à justiça racial e social. Os laços que nos unem enquanto seres humanos foram forjados no ar tão cruelmente roubado a Floyd.

A COVID-19 mudou radicalmente muitos dos nossos comportamentos sociais, mas irá ela mudar também os valores das nossas culturas? As lições da história contemporânea são encorajadoras. Ao longo do século passado, registaram-se grandes avanços em matéria de direitos humanos e progresso social imediatamente após mortes horrendas e terríveis episódios de agitação social.

As mulheres norte-americanas conquistaram o direito ao voto no rescaldo da devastação da Primeira Grande Guerra e da pandemia da gripe de 1918. As crises gémeas abriram as portas do mercado de trabalho norte-americano às mulheres e expuseram injustiças de género que eram impraticáveis quando a guerra acabou e a gripe abrandou.

A Organização das Nações Unidas, dedicada a manter a paz entre os países e a promover os direitos humanos e sociais, foi fundada pouco depois da Segunda Guerra Mundial. Continua a ser um árbitro do conflito e das disputas globais.

Os soldados norte-americanos negros, regressados daquela mesma guerra travada contra a tirania e o fascismo, foram um catalisador precoce e poderoso do movimento dos direitos civis e da abolição de sistemas enraizados de racismo legalizado.

Agora, outra crise grave persiste devido às investidas incansáveis de um vírus. Ela exige uma reacção universal. A COVID-19 começou por atacar os mais vulneráveis entre nós e depois ganhou forças, saltando para as cavalitas dos mais fracos, para nos atacar de forma indiscriminada. Casos do vírus continuaram a aparecer em todo o mundo. O vírus investiu implacavelmente sobre os problemas de saúde previamente existentes e as desigualdades sociais alimentaram um inferno global.

São claras as lições a retirar para o fundo: exigir mudança e trabalhar em prol da justiça global são as melhores esperanças de sobrevivência da humanidade.

Estamos todos ligados às lavadeiras negras do Brasil. Estamos universalmente vinculados a trabalhadores essenciais não valorizados, como Jason Hargrove, que continuou a conduzir um autocarro em Detroit até poucos dias antes de morrer de COVID-19.

Com um elevado custo humano, financeiro (6) e social, o coronavírus ilumina os laços inextricáveis que nos unem a todos. Pessoas que há muito são invisíveis demonstraram ser indivisíveis.

6 . Segundo um grupo ligado ao mundo do trabalho, calcula-se que terão sido perdidos 400 milhões de empregos em todo o mundo devido à COVID-19, empurrando possivelmente meio milhão de pessoas para a pobreza. As mulheres e os jovens são os mais afectados.

“O Jason sempre tomou medidas concretas para garantir a segurança dos seus passageiros e a higienização do seu autocarro”, disse Desha sobre o seu falecido marido. “Ele preocupava-se com a protecção dos seus passageiros e, em troca, os passageiros protegiam-no dos desordeiros. Eles sabiam que estavam todos juntos no mesmo autocarro.”

A morte pôs este espelho inclemente no nosso rosto: estamos todos juntos no mesmo autocarro.

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