Texto  Elizabeth Royte

Os alimentos desperdiçados por uma família típica americana de quatro membros pesam, ao fim de um ano, meia tonelada. Compilados na sala de estar dos Waldt, de New Jersey, estes produtos representam os 1,2 milhões de calorias que uma família desperdiça todos os anos – mais do que o suficiente para alimentar outra pessoa. Fotografia  Robert Clark

Estamos na época da alface no vale de Salinas, uma região no centro da Califórnia que produz cerca de 70% dos legumes de folha verde vendidos nos EUA. Numa manhã típica de nevoeiro, uma procissão de veículos carregados de plantas sai das unidades transformadoras e dirige-se para norte, sul e leste.

Entretanto, um camião entra lentamente na estação de transferência de Sun Street, perto da baixa de Salinas. O condutor detém-se sobre uma balança e, de seguida, posiciona a caixa amolgada do camião sobre uma plataforma de betão. Depois de manobrar uma alavanca, ouve-se um silvo pneumático e cerca de 15 metros cúbicos de alface e espinafres são descarregados no solo. Acondicionados em caixas e sacos de plástico e empilhados a dois metros de altura, os legumes parecem frescos, rijos e incólumes. Mas devido a vários pequenos erros, irão em breve ser condenados ao aterro sanitário: as suas embalagens foram irregularmente cheias, rotuladas, vedadas ou cortadas.

Entre Abril e Novembro, a Autoridade para os Resíduos Alimentares do Vale de Salinas envia para o aterro sanitário dois a quatro milhões de quilogramas de legumes frescos vindos dos campos.

Qualquer observador diria que esta montanha do tamanho de dois elefantes africanos representa um desperdício horrível, talvez mesmo criminoso. Mas isto não é nada. Ao longo desse mesmo dia, a estação de transferência receberá mais dez a vinte carregamentos de legumes perfeitamente comestíveis, provenientes de agricultores das redondezas. Entre Abril e Novembro, a Autoridade para os Resíduos Alimentares do Vale de Salinas envia para o aterro sanitário dois a quatro milhões de quilogramas de legumes frescos vindos dos campos. E é apenas uma de muitas estações de transferência que prestam serviço aos vales agrícolas da Califórnia.

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), que mantém sob vigilância tudo o que é cultivado e consumido como alimento em todo o mundo, calcula que, todos os anos, um terço dos géneros alimentares produzidos para consumo humano no planeta perde-se ou é desperdiçado ao longo da cadeia que vai das quintas às unidades transformadoras, aos mercados, aos pontos de venda, aos restaurantes e às nossas cozinhas. Representando 1.300 milhões de toneladas, esse total seria suficiente para alimentar três mil milhões de pessoas.

O desperdício é gerado em lugares diferentes por razões diferentes. Em geral, os países industrializados desperdiçam mais alimentos nas fases de retalho e consumo da cadeia alimentar do que os países menos desenvolvidos. Nos países em vias de desenvolvimento, que muitas vezes não possuem infra-estruturas para distribuir todos os seus géneros alimentares em boas condições, as perdas ocorrem, na sua maioria, durante as fases de produção, pós-safra e transformação.

 

Fruta e hortaliça aguardam por comprador no mercado de Dodoma, na Tanzânia. Em África, a perda de alimentos produz-se nas primeiras fases da cadeia produtiva e deve-se, entre outras causas, aos deficientes sistemas de armazenamento e transporte. Fotografia  Jake Lyell/ACI

Tomemos África como exemplo. Sem instalações de armazenagem nem transportes adequados, 10 a 20% dos cereais produzidos na região subsaariana do continente são destruídos pelo bolor, por insectos e por roedores. Isso representa 2,9 mil milhões de euros em alimentos, suficientes para nutrir 48 milhões de pessoas durante um ano. Na ausência de refrigeração, os produtos lácteos azedam e o peixe apodrece. Se não existir capacidade para fazer conservas, enlatar, secar ou engarrafar os excedentes de produtos perecíveis como quiabos, mangas e couves, não é possível transformá-los em géneros alimentares com um prazo de validade aceitável. As más condições do transporte rodoviário e ferroviário tornam lento o percurso dos tomates desde a quinta até ao mercado.

Segundo a FAO, os países industrializados desperdiçam 670 milhões de toneladas de géneros alimentares por ano, um volume quase equivalente ao total líquido da produção de géneros alimentares na África subsaariana.

Nos países desenvolvidos, as práticas agrícolas eficientes, a abundância de refrigeração e a disponibilidade de excelentes meios de transporte, armazenagem e comunicações asseguram que os géneros alimentares cultivados chegam às lojas (apesar das pilhas na estação de transferência de Sun Street). Mas é a partir daí que a situação piora. Segundo a FAO, os países industrializados desperdiçam 670 milhões de toneladas de géneros alimentares por ano, um volume quase equivalente ao total líquido da produção de géneros alimentares na África subsaariana.

Desperdiçam-se calorias nos restaurantes onde se deita tudo para o lixo à hora do encerramento, mesmo que os alimentos tenham estado sob a vitrina de protecção apenas durante cinco minutos. Os operadores de retalho alimentar dos EUA costumam registar, dentro das suas lojas, perdas de 19 mil milhões de quilogramas de géneros alimentares por ano. Os gerentes de loja têm por rotina exagerar nas encomendas por receio de que se esgote determinado produto.

 

Desperdício alimentar na Europa

Os países industrializados desperdiçam 670 milhões de toneladas de géneros alimentares por ano, um volume quase equivalente ao total líquido da produção na África subsaariana. Comparado com os restantes países europeus, Portugal não está entre os maiores desperdiçadores. Essa posição pouco invejável cabe ao Chipre, à Holanda e à Estónia.

Fonte do gráfico: Instituto Nacional de Consumo (INC)/HISPACCOP, 2013.
Mapa: NGM-E. Fonte:
technology options for feeding 9.000 billion people,
Parlamento Europeu, Relatório de opções científicas e tecnológicas (STOA).

 

Em Portugal, a situação não é muito diferente. O Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar (CES/UNL) apurou que 17% da comida produzida no país é desperdiçada antes de chegar à mesa do consumidor. Do milhão de toneladas anuais de comida desperdiçada em Portugal, o projecto apurou que 324 mil perdem--se em casa dos consumidores.

Nos EUA o desperdício custa muito dinheiro: uma em cada quatro famílias americanas deita fora, em média, 1.089 euros de alimentos comestíveis por ano.

Na verdade, os consumidores são cúmplices: compram produtos a mais porque há alimentos atraentemente embalados e baratos ao virar de quase todas as esquinas. Guardam os alimentos de maneira desadequada: interpretam à letra as datas de validade, embora as etiquetas tenham sido concebidas para indicar a data de máxima frescura e não a segurança alimentar. Esquecem-se de comer os restos da refeição, esquecem-se dos sacos com restos nos restaurantes e são pouco penalizados (ou não o são de todo) por deitar para o caixote do lixo alimentos comestíveis.

Independentemente do local onde ocorra, cada desperdício representa uma oportunidade perdida de alimentar seres humanos. E nos EUA o desperdício custa muito dinheiro: uma em cada quatro famílias americanas deita fora, em média, 1.089 euros de alimentos comestíveis por ano. O desperdício de géneros alimentares provoca o desperdício de enormes quantidades de combustíveis, produtos químicos agrícolas, água, terra e mão-de-obra necessários para produzi-los. Em 2007, 1.400 milhões de hectares, uma superfície maior do que o Canadá, foram lavrados para produzir géneros alimentares para animais de criação ou para dar apoio à produção de lacticínios… que ninguém acabaria por comer. Para agravar a situação, os alimentos enterrados nos espaços anaeróbicos das lixeiras geram metano, um gás com efeito de estufa mais potente do que o dióxido de carbono. Se o desperdício mundial de géneros alimentares fosse um país, seria o terceiro maior responsável pela emissão de gases com efeito de estufa do mundo, logo a seguir à China e aos EUA!

A regra de que os alimentos que produzimos devem ser ingeridos parece uma equação simples e um requisito prévio para um sistema de alimentação sustentável. No entanto, a lógica económica não gosta das soluções simples. É evidente que, quanto mais iogurtes os consumidores deitarem fora depois de lerem a data de validade, maiores serão as vendas dos retalhistas de iogurtes. Para os supermercados, talvez faça mais sentido deitar para o lixo os excedentes de maçãs do que baixar o seu preço, o que faria diminuir as vendas das maçãs a preço não reduzido. Apavorados com a possibilidade de não terem quantidade suficiente para abastecer os supermercados, os grandes operadores da agricultura comercial costumam plantar 10% de excedentes. Os agricultores também deixam talhões inteiros de fruta ou legumes nos pomares e nos campos por receio de inundarem o mercado e fazerem baixar os preços. Por vezes, o custo da mão-de-obra para fazer uma colheita supera o valor da sua venda.

É verdade: a tecnologia avançada disponibiliza uma quantidade de géneros alimentares cada vez maior ao mercado, mas a abundância daí resultante que mantém os preços dos alimentos baixos só incentiva mais desperdício.

Depois de a FAO ter disponibilizado 18 mil pequenos silos metálicos aos agricultores no Afeganistão, a perda de cereais e de leguminosas diminuiu de 15 a 20% para menos de 2%.

Há uma dimensão positiva no escândalo do desperdício mundial de géneros alimentares: ele gera diversas oportunidades para melhorarmos. Nos países em vias de desenvolvimento, por exemplo, as organizações de assistência fornecem aos pequenos agricultores silos de armazenagem e sacas multicamadas para guardar cereais, ferramentas para secar e preservar os legumes e a fruta e equipamento tecnologicamente pouco sofisticado para arrefecimento e embalagem dos produtos. No estudo de caso do tomate no Afeganistão, as perdas diminuíram de 50 para 5%.

Os agricultores também estão a aprender a tratar ou embalar a sua safra para garantir um armazenamento mais longo. “Em termos históricos, os agricultores com quem trabalhamos na África Oriental nunca registaram excedentes: eles comem tudo o que produzem no espaço de três meses”, afirmou Stephanie Hanson, vice-presidente sénior para as políticas públicas e parcerias da organização One Acre Fund, sediada em África. “Agora que têm capacidade para cultivar mais alimentos, precisam de aprender novas técnicas de armazenamento.” Depois de a FAO ter disponibilizado 18 mil pequenos silos metálicos aos agricultores no Afeganistão, a perda de cereais e de leguminosas diminuiu de 15 a 20% para menos de 2%. A armazenagem de cereais e leguminosas também permite que os agricultores possam vender as suas colheitas a um preço duas ou três vezes superior ao da época da safra, durante a qual os mercados se encontram saturados.

Nos EUA, a vigilância do desperdício alimentar por parte da comunicação social, dos organismos públicos e dos grupos ambientalistas tem incentivado um número crescente de restaurantes a calcular quanto deitam para o lixo, um primeiro passo decisivo para a redução do desperdício. Noutros pontos do mundo, alguns restaurantes foram ao ponto de experimentar proibir que os clientes deixassem restos no prato sob pena de lhes cobrarem mais dinheiro por isso.

Mais a montante na cadeia alimentar, os fruticultores colaboram com os produtores e embaladores de sumos para desenvolver mais mercados secundários para a fruta imperfeita. A inovação também está a poupar ovos. Durante muitos anos, a cadeia Walmart considerou mais prático deitar fora uma embalagem inteira de ovos se um estivesse rachado, em vez de substituir esse ovo por outro de igual frescura. Agora, a empresa lançou um programa-piloto que utiliza um sistema de laser para gravar em cada ovo informação sobre o produto, permitindo que se possa facilmente substituir cada ovo por outro com as mesmas especificações. Se o sistema for adoptado em toda a rede, a Walmart crê que poderá impedir o desperdício de cinco mil milhões de ovos por ano.

Vislumbram-se outras soluções sistémicas. No Reino Unido, onde o governo adoptou a redução do desperdício alimentar como prioridade, a organização Feeding the 5000 recolhe em explorações agrícolas e embaladores produtos de qualidade elevada rejeitados pelos supermercados e cozinha-os, transformando-os em almoços sofisticados que servem para alimentar gratuitamente cinco mil felizes comensais, como medida de sensibilização e de promoção de soluções criativas.

Tristram Stuart, fundador desta organização, lançou um apelo às mercearias para fazerem descontos nos produtos próximos do fim de prazo, partilhando com os fornecedores de maneira justa o custo das suas encomendas excessivas. Pediu também aos transformadores e retalhistas para divulgarem ao público os valores em toneladas do seu desperdício de alimentos. Mostrando-se à altura destes desafios, a Tesco diminuiu as variedades de pão disponíveis, retirou as datas de validade da fruta e dos legumes, pendurou as bananas dentro de redes protectoras e começou a comprar mais fruta directamente aos produtores, o que prolonga o tempo de prateleira.

“Temos de parar de desperdiçar alimentos a esta escala”, diz Tristram Stuart, explorador emergente da National Geographic, de pé em cima de uma pilha de alimentos deitados para o lixo em Londres. A sua campanha de consciencialização ajudou a reduzir em 21% o desperdício de comida no Reino Unido entre 2007 e 2012. Fotografia  Murdo Macleod

Mais recentemente, Tristram lançou “The Pig Idea” para pressionar a União Europeia no sentido de levantar a proibição de alimentação dos suínos com restos de géneros alimentares, imposta após um surto de febre aftosa na Grã-Bretanha, em 2001, ter sido associado à ingestão pelos porcos de resíduos não cozinhados.

Segundo Tristram, a recolha e esterilização de resíduos alimentares comerciais baixaria os custos das rações para os criadores, impediria que vastas extensões de floresta tropical fossem abatidas para plantar soja utilizada em rações de suinicultura e pouparia às empresas o custo de eliminação dos resíduos alimentares.

Em 2014, a organização de beneficência Feeding America prevê distribuir cerca de dois milhões de toneladas de géneros alimentares, a maioria dos quais doados por fabricantes, supermercados, grandes produtores e administração federal.

O uso dos nossos excedentes para alimentar os animais faz sentido em termos económicos e ambientais, mas o melhor destino para os géneros alimentares em excesso é, evidentemente, a sua canalização para as famílias famintas, cujo número se eleva a 842 milhões de habitantes em todo o planeta. Nos EUA, a insegurança alimentar afecta, segundo as estatísticas oficiais, 49 milhões de pessoas; estas, por definição, nem sempre sabem como vão obter a próxima refeição. Em 2014, a organização de beneficência Feeding America prevê distribuir cerca de dois milhões de toneladas de géneros alimentares, a maioria dos quais doados por fabricantes, supermercados, grandes produtores e administração federal.

A nível de base, equipas de voluntários pertencentes a uma organização de recolha esquadrinham os campos agrícolas na época de cultivo, colhendo milhões de quilogramas para bancos alimentares, cantinas e despensas de alimentos. E em algumas grandes explorações agrícolas da Califórnia os trabalhadores rurais acondicionam o produto ideal em embalagens destinadas ao mercado, ao mesmo tempo que empacotam o produto com aparência imperfeita em embalagens encaminhadas para bancos alimentares. Mesmo assim, segundo o intermediário de Ron Clark, pioneiro deste programa no vale de Salinas, os géneros alimentares recuperados por meio deste processo são uma gota de água no oceano.

O problema da produção excessiva de alimentos parece uma situação irreal, típica das sociedades industrializadas.

O primeiro passo para reduzir o desperdício alimentar e a perda de géneros alimentares consiste em levar as pessoas a compreender a existência do problema. A negação reina sem contestação. Mas as atitudes mudam lentamente, à medida que o preço dos géneros alimentares vai aumentando e à medida que tomamos consciência, por um lado, das inúmeras maneiras como as alterações climáticas diminuirão a produção de alimentos e, por outro, do imperativo de extrairmos, de forma sustentável, um volume cada vez maior de calorias do solo já cultivado.

O problema da produção excessiva de alimentos parece uma situação irreal, típica das sociedades industrializadas. Em contrapartida, o preenchimento de aterros com uma abundância que não será consumida por ninguém é algo que o mundo já não pode tolerar. Custa demasiado dinheiro e enche o planeta de lixo, ao mesmo tempo que milhões de pessoas passam fome. “O desperdício de alimentos é um problema estúpido”, reconhece Nick Nuttall, do Programa das Nações Unidas para o Ambiente. “Mas as pessoas adoram problemas estúpidos, pois sabem que podem fazer qualquer coisa para resolvê-los.”

 

Quando caduca um alimento

A confusão frequente entre os conceitos de “data de validade” e “consumo preferencial” na etiquetagem dos alimentos provoca um grande desperdício de comida. Há alimentos que rapidamente se deterioram, mas muitos aguentam. É essencial que o consumidor saiba quanto pode durar o produto que compra para garantir a sua máxima durabilidade. Mas também devemos saber armazenar correctamente os nossos alimentos. A redução da temperatura no frigorífico e no congelador, por exemplo, aumenta a durabilidade dos produtos. E o condicionamento de muitos produtos na despensa em locais secos e frescos também. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos recomenda uma data de validade específica para cada um destes produtos alimentares (conservados a uma temperatura igual ou inferior a 4,44ºC).

Fotografia: ShutterStock
Fonte: Departamento de Agricultura dos EUA (USDA)/ABC NEWS, 2013

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