arqueologia

O incêndio que deflagrou na serra do Caramulo em Outubro de 2017 foi particularmente trágico. Queimou povoações e floresta e vitimou cerca de três dezenas de pessoas. As cinzas, porém, revelaram um mundo pré-histórico intenso e desconhecido.

Nem tudo é mau num incêndio florestal. Na zona centro, um mundo revela-se.

Texto: Pedro Sobral de Carvalho

Ilustrações: Anyforms

Estávamos em 1991 quando, após um violento incêndio no alto do “Monte Branco”, na serra da Muna, mesmo ao lado do aeródromo de Viseu, deparámos com um achado invulgar. À nossa frente, encontravam-se dois pequenos montículos de quartzo branco que contrastavam com o negro resultante do fogo. Era a ponta do icebergue de um mundo que mal se conhece: os túmulos dos meados e finais da Idade do Bronze. A partir de então, a comunidade arqueológica tem observado centenas destes túmulos espalhados pelos ambientes montanhosos do interior e até nas serranias mais ocidentais.

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Mapa: Anyforms. Fonte: Pedro Sobral de Carvalho

Curiosamente, os arqueólogos têm tido um aliado insólito para a descoberta de grande parte destes monumentos: os incêndios florestais despem de vegetação as serras, colocando a descoberto um imenso mundo usualmente imerso na natureza. O recente e violento incêndio de Outubro de 2017, que fustigou a região centro de Portugal, teve também este lado positivo, apesar da imensa e trágica destruição e desolação que provocou nas populações da região. Só no concelho de Vouzela foram identificados cerca de cem novos monumentos deste género. Ciente do valor que o património arqueológico pode assumir no desenvolvimento territorial, a autarquia local tem vindo a promover um intenso e profícuo projeto de investigação desenvolvido pela Universidade Nova de Lisboa e pela Universidade do Algarve.

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A reconstituição hipotética de um ritual no período de transição entre a Idade do Bronze Médio e a Idade do Bronze Final.

António Faustino Carvalho, professor e investigador da Universidade do Algarve, com ampla investigação na área da Pré-história, tem promovido trabalhos de prospecção arqueológica que permitiram a identificação de 133 monumentos pré-históricos, entre os quais 101 túmulos da Idade do Bronze. O seu estudo, ainda em curso, vem confirmar a extrema complexidade do mundo funerário e de rituais associados à morte que se desenrolaram num período entre os séculos XV e IX antes de Cristo, na transição da Idade do Bronze Médio para o Bronze Final. Este é um período em que se afirmaram as práticas de incineração dos corpos que implicaram não apenas alterações de rituais, mas, sobretudo, parafraseando Raquel Vilaça, uma das mais eminentes especialistas desta temática, alteraram o entendimento da materialidade do corpo humano que perdeu importância, pois passou a ser total ou parcialmente destruído e não necessariamente depositado no seu todo ou em parte num túmulo.

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A fotografia aérea representa o afloramento monumentalizado da Malhada do Cambarinho, desconhecido até à data e identificado no concelho de Vouzela após os grandes incêndios de Outubro de 2017 na região Centro. Fotografia: Vouzelar

Algumas das comunidades humanas desta época reutilizavam velhos monumentos megalíticos para depositarem as cinzas dos corpos cremados, como aconteceu no monumento do Rapadouro 1 (Pendilhe, Vila Nova de Paiva) ou no Monumento 2 da Fonte da Malga (Viseu). A grande maioria, porém, construiu pequenos túmulos que se distribuem pelas cumeadas e plataformas sobranceiras a vales férteis. São pequenos montículos circulares, a maioria de quatro ou cinco metros de diâmetro, baixos, com cerca de meio metro de altura. No centro, geralmente, podem estar cistas (pequenas caixas de pedra) com urnas ou apenas cinzas, fossas com carvões ou blocos de pedra a definirem um espaço central. Um dos aspectos mais curiosos destes túmulos é a utilização do quartzo leitoso (branco) e do xisto luzente para se destacarem na paisagem, através do contraste cromático.

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Reconstituição de um ritual funerário, com a deposição de uma urna com cinzas no interior de uma cista, ao centro de um espaço ritual circular. Vários destes monumentos concentram-se nas imediações de templos megalíticos já conhecidos. Com os trabalhos em curso nas últimas décadas, identificaram-se centenas de estruturas desta natureza na região Centro.

Muitos destes monumentos são encontrados na órbita de monumentos megalíticos, recriando cenários em lugares com uma forte carga simbólica construída ao longo de milhares de anos numa verdadeira “temporalidade de sequência”, nas palavras de Gavin Lucas. Exemplos deste fenómeno, foram encontrados em Castro Daire, na necrópole da Senhora da Ouvida, com mais de três dezenas de monumentos, ou nas necrópoles de Caramêlo-Mazugueira, em Tondela, e da Fonte da Malga, em Viseu, entre tantas outras.

Contudo, a grande maioria destes monumentos forma grandes necrópoles com várias dezenas de monumentos, como é o caso da recém-descoberta necrópole das Almas do Capitão, em Vouzela, ou na conhecida necrópole da Casinha Derribada, em Viseu. O mapa da página anterior, aliás, representa bem o volumoso corpo de conhecimento agora disponível e inacessível aos investigadores enquanto o manto florestal se manteve, pujante e denso, sobre a superfície rochosa.

Estas necrópoles assumem-se como lugares sagrados, onde convivem túmulos com outro tipo de estruturas que começam agora a ser identificadas. Essa variabilidade indicia complexos rituais que se repartem entre construções com funções distintas, umas funerárias e outras relacionadas com rituais ou práticas associadas à morte. Existe um número cada vez maior de monumentos não estritamente funerários cujo estudo se encontra ainda no início. É o caso do monumento de Vale de Mós 1, em Oleiros, que mais não é do que um espaço empedrado delimitado por um anel pétreo, como que uma plataforma a céu aberto onde se desenrolariam cenários performativos relacionados com a morte. Seria uma plataforma para uma pira?

Outro exemplo é um novo tipo de monumento que emergiu em Vouzela após os incêndios, designado por “afloramento monumentalizado”.

São penedos graníticos ou xistosos, destacados na paisagem, alguns gravados, envolvidos por um volume de terras e pedras (tumuli), por vezes circundados por um anel de pedras.

Parece, de facto, haver uma tendência para se demarcarem os espaços da morte desta época com anéis de pedra. É neste contexto que começam, igualmente, a ser identificados os recintos circulares marcados com pedras fincadas, desprovidos de tumuli (mamoa).

Estão nessa situação o monumento da Lameira da Travessa de Lobos, em Castro Daire, reconstituído no Museu Arqueológico do Alto Paiva, em Vila Nova de Paiva, um recinto com cerca de cinco metros de diâmetro demarcado com pedras fincadas, muitas das quais decoradas com símbolos reticulares e semicirculares, ou do recém-descoberto monumento da Morra Loba, em Vouzela, um recinto também com cinco metros de diâmetro ainda por estudar.

 cerca de três mil anos, as serras do interior foram tomadas pela construção de pequenos túmulos, mas também de misteriosos espaços cerimoniais relacionados com a morte. Para já, apenas levantámos a ponta do véu, identificando a densidade dessas estruturas, mas ainda se pondera a sua função ritual. Vamos ter de aguardar por projectos de investigação que nos mostrem a verdadeira complexidade deste mundo e das comunidades a ele associadas. Estas comunidades viviam no alto dos montes num período de apogeu económico suscitado pela exploração do estanho abundante na região, mas essa é outra história...

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