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Os arqueólogos Maysa Rabeeh (à esquerda) e Mohammed Refaat (à direita) estudam o caixão de madeira degradado de um sacerdote chamado Aianet que foi enterrado de braços cruzados, uma posição geralmente reservada apenas aos faraós.  Fotografia: Piers Leigh 

Numa oficina de mumificação em Sakara, nos arredores do Cairo, os sacerdotes eram hábeis empresários que ofereciam uma gama variada de pacotes funerários à medida de todas as bolsas.

Texto: Andrew Curry

A descoberta alimentou manchetes noticiosas em todo o mundo, após o primeiro anúncio oficial em Julho de 2018: os arqueólogos tinham escavado uma “casa funerária” egípcia antiga nas profundezas das areias de Sakara, uma vasta necrópole (ou cidade dos mortos) situada nas margens do Nilo, a cerca de 30 quilómetros do Cairo. Nos dois anos entretanto decorridos, a reanálise de descobertas anteriores e de novos achados que estavam num poço tumular das imediações forneceu um acervo de informações valiosas sobre o negócio da morte no Antigo Egipto. Durante séculos, a arqueologia praticada na terra dos faraós preocupou-se mais com a procura de inscrições e artefactos em túmulos reais e menos com pormenores da vida quotidiana. As oficinas de mumificação existiam em necrópoles de todo o Egipto, mas muitas foram ignoradas por sucessivas gerações de investigadores, ansiosos por alcançar os túmulos que se encontravam por baixo.

Agora, devido às descobertas produzidas em Sakara, a situação está a alterar-se, à medida que os vestígios arqueológicos de uma vasta indústria funerária são escavados e documentados em pormenor pela primeira vez.

“A informação que escavámos revela que os embalsamadores tinham um excelente sentido de negócio”, diz Ramadan Hussein, um egiptólogo da Universidade de Tübingen, na Alemanha. “Eram muito inteligentes e ofereciam diferentes opções.” Caso a família do cliente não pudesse comprar uma máscara funerária de ouro e prata, talvez lhe fosse proposta a opção de “gesso branco e folha de ouro”, acrescenta.

Não tinha dinheiro suficiente para armazenar as suas vísceras em vasos requintados de alabastro do Egipto? Que tal substituí-los por um belo vaso de barro pintado?

“Já tínhamos lido sobre isto em textos [antigos]”, diz Ramadan. “Agora, porém, podemos contextualizar o negócio da morte.”

Ramadan Hussein começou a trabalhar em Sakara em 2016, procurando túmulos escondidos no subsolo, numa camada correspondente a 600 antes de Cristo. Os poços fundos foram maioritariamente ignorados pelos primeiros egiptólogos, que frequentemente se concentravam em sepulturas dos períodos mais antigos da história egípcia. O trabalho desta equipa figurou numa recente série de quatro episódios do canal National Geographic, intitulada O Reino das Múmias”. Ao inspeccionar uma área que não era examinada desde o fim do século XIX, Ramadan e a sua equipa descobriram um poço escavado no leito rochoso repleto de areia e detritos.

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Uma antiga necrópole. A cerca de trinta quilómetros do Cairo, as ruínas de Sakara acolhem uma oficina de mumificação recém-descoberta que ajuda a explicar as práticas funerárias dos antigos egípcios.

Depois de retirarem 38 toneladas de areia, os arqueólogos chegaram ao fundo do poço com 12 metros de comprimento e encontraram uma espaçosa e ampla câmara. Também esta se apresentava cheia de areia e rochas que tiveram de ser removidas. Entre o entulho, havia milhares de fragmentos de cerâmica: foram todos cuidadosamente documentados e preservados. A meticulosa escavação demorou meses.

Por fim, quando a câmara ficou vazia, a equipa descobriu que não se tratava de um túmulo. A divisão tinha uma área elevada, semelhante   a uma mesa, e canais ocos cortados no leito rochoso junto da base de uma das paredes. Num dos cantos, havia uma bacia do tamanho de um barril. Estava repleta de carvão, cinzas e areia escura. Um túnel mais antigo – parte de uma rede de passagens semelhante a alvéolos existente na rocha sob Sakara – permitia a circulação de ar fresco no espaço.

Os vestígios encontrados sugeriram aos arqueólogos que a câmara fora uma oficina de mumificação, com um queimador de incenso de potência industrial, um sistema de ventilação e canais de drenagem para retirar os fluidos corporais.

“Para a evisceração poder realizar-se lá em baixo, teria de se garantir a circulação do ar para eliminar os insectos”, comenta Ramadan. “Nós próprios precisamos de um movimento constante do ar quando estamos a mexer em cadáveres.” Ao longo do último ano, peritos em cerâmica conseguiram juntar os fragmentos, reconstruindo centenas de tigelas e vasos, todas com etiquetas de identificação gravadas. “Cada copo ou tigela tem o nome da substância guardada no interior” e o momento em que deverá ter sido utilizado no processo de embalsamamento, diz o arqueólogo. “As instruções estão escritas directamente nos objectos.”

Este achado foi uma bênção para os especialistas em práticas funerárias do Antigo Egipto, pois forneceu uma perspectiva única sobre os ritos sagrados e as realidades sombrias da mumificação. Embora exista abundante documentação sobre este processo sofisticado nas fontes antigas e até representações artísticas nas paredes dos túmulos egípcios, tem sido difícil encontrar provas arqueológicas.

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“Poucas oficinas dedicadas ao processo foram devidamente escavadas”, diz Dietrich Raue, curador do Museu Egípcio da Universidade de Leipzig. “Isto produziu uma grande lacuna no nosso conhecimento.” As descobertas de Sakara estão a contribuir para preencher essa lacuna, diz Hussein. “Pela primeira vez, podemos falar em arqueologia do embalsamamento.”

Convictos de que o corpo teria de permanecer intacto para albergar a alma após a morte, os antigos egípcios consideravam o embalsamamento um rito sagrado. O processo era cuidadosamente orquestrado, com ritos e orações específicos para cada um dos 70 dias necessários à transformação de uma pessoa morta em múmia.

Primeiro, os órgãos internos eram removidos e colocados em recipientes denominados vasos de vísceras. De seguida, procedia-se à desidratação do corpo, através de sais especiais como o natrão. O falecido era então ungido com óleos fragrantes e envolto em panos. Vários amuletos eram aconchegados entre as dobras do tecido. Por fim, a múmia era depositada no seu local de descanso, num túmulo com provisões para a vida após a morte, tão requintadas quanto a sua fortuna pudesse comprar. As pirâmides dos faraós e o ouro do túmulo do rei Tutankhamon são lembranças de quão longe os egípcios ricos estavam dispostos a ir para assegurarem a transição para a eternidade. “Era uma indústria colossal”, diz Ramadan Hussein.

No entanto, o embalsamamento e o sepultamento não assinalavam o fim da viagem da múmia. Além de exercerem funções como sacerdotes e agentes funerários, os antigos embalsamadores egípcios também eram agentes imobiliários.

Enquanto os Faraós e os membros da elite eram mumificados e sepultados em caixões ornamentados e túmulos espaçosos repletos de artigos funerários, a investigação de Ramadan Hussein mostra que os antigos agentes funerários ofereciam pacotes com desconto adequados a todas as bolsas. Utilizando a gíria empresarial da actualidade, o negócio era verticalmente integrado, oferecendo todo o tipo de serviços, desde evisceração de cadáveres e seu sepultamento ao cuidado e manutenção das almas dos falecidos. Tudo por um preço, evidentemente.

A poucos passos da oficina de mumificação de Sakara, os arqueólogos descobriram um segundo poço, com acesso a seis túmulos. No interior dessas câmaras, encontraram mais de cinquenta múmias. No fundo do poço, os sepultamentos eram mais sofisticados. Uma das sepulturas incluía uma mulher dentro de um sarcófago que pesava quase sete toneladas. Na câmara vizinha, outra mulher tinha o rosto revestido com uma máscara de ouro e prata: foi a primeira máscara do género descoberta no Egipto em mais de meio século.

No entanto, o complexo também acolhia egípcios de classe média ou operária, enterrados em caixões de madeira simples ou envoltos em tecido e depositados em caixas de areia.

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Um modelo digital criado por um scanner 3D revela o poço principal que dá acesso a um complexo de câmaras funerárias. Os túmulos com mais prestígio ficam na parte profunda, mais perto do  submundo. A oficina de mumificação tem uma área sobreelevada semelhante a uma mesa, canais de drenagem para canalizar os fluidos corporais e um sistema de ventilação.

Recorrendo a ferramentas de mapeamento tridimensional, Ramadan Hussein reconstituiu a disposição das sepulturas. As suas conclusões confirmam a informação sugerida por papiros recuperados em Sakara há mais de um século que davam conta de embalsamadores intrépidos que depositavam dezenas de corpos no poço e cobravam dinheiro ou parcelas de terra em troca da prestação de cuidados espirituais a cada múmia.

A sociedade do Antigo Egipto integrava uma classe sacerdotal dedicada ao cuidado dos espíritos dos mortos. Entre outras funções, cabia-lhe assegurar a manutenção dos túmulos e invocar os proprietários falecidos. Alguns eram donos de dezenas de túmulos com centenas de múmias.

“As comunidades deveriam trazer oferendas semanais aos mortos para mantê-los vivos”, diz o egiptólogo Koen Donker van Heel, da Universidade de Leiden, que passou vários anos a estudar os contratos firmados entre os sacerdotes e as famílias dos mortos. “Os mortos são um negócio. É basicamente isso.” Pela primeira vez, as provas arqueológicas confirmam aquilo que até agora pertencia ao domínio da suposição. É este conhecimento que torna tão especial a escavação em Sakara, fazendo parte de uma mudança na egiptologia: os investigadores examinam de maneira meticulosa os pormenores que lançam luz sobre as vidas dos egípcios comuns em vez de se concentrarem nos túmulos mais requintados. “Ramadan está a obter informação que se encontrava perdida”, afirma Dietrich Raue. “Havia uma infra-estrutura acima do solo que foi simplesmente removida sem ser documentada.”

Isso significa que o futuro talvez reserve mais achados aos investigadores com paciência suficiente para as procurarem. Enquanto examinava relatórios de escavações antigas, Ramadan Hussein apercebeu-se de que o poço de acesso à oficina de mumificação se situava a menos de um metro do local onde as equipas francesas e egípcias tinham parado os trabalhos em 1899. A câmara e o seu conteúdo ficaram escondidos pela areia apressadamente atirada para o lado nessa fase.

“Talvez seja preciso regressarmos aos sítios explorados no século XIX e escavá-los novamente”, diz o investigador.

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