Alguns foram heróis. Outros foram vítimas. Outros ainda combateram pelos fascistas que tentaram dominar o planeta. Com a sua geração a desaparecer gradualmente 75 anos após o fim dos combates, as suas recordações permanecem tão dolorosas como sempre.

Introdução: Lynne Olson
Fotografias: Robert Clark

Completam-se agora 75 anos desde que a mais destrutiva e mortífera guerra da história chegou ao fim. A Segunda Guerra Mundial fez jus ao seu nome: foi um conflito global que opôs as potências aliadas – Reino Unido, Estados Unidos, União Soviética, China e outros aliados de menor dimensão – à Alemanha, Japão, Itália e mais um punhado de nações do Eixo. Cerca de setenta milhões de homens e mulheres prestaram serviço militar nas forças armadas, participando na maior mobilização militar da história.

Fomos enviados para a morte pelo imperador e pela nação imperial e todos agiram como se acreditassem nisso. Porém, quando estavam a morrer, os soldados mais novos gritavam pelas mães e os mais velhos chamavam pelos nomes dos filhos. Nunca ouvi ninguém chamar pelo imperador ou pela nação. -Nobuo Nishizaki

Contudo, quem mais sofreu foram os civis. Dos 66 milhões de pessoas que pereceram, quase 70% (cerca de 45 milhões) eram civis, incluindo seis milhões de judeus assassinados no Holocausto. Outras dezenas de milhões de pessoas foram desenraizadas de suas casas e dos seus países, refugiando-se durante vários anos em campos para pessoas deslocadas. Os efeitos da guerra foram tão terríveis como a sua escala. A guerra lançou as bases do mundo que conhecemos durante mais de sete décadas, desde o início da era nuclear à criação do Estado de Israel e à emergência dos Estados Unidos e da União Soviética como superpotências mundiais em competição. Desencadeou igualmente a formação de alianças internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), concebidas para evitar que um cataclismo semelhante voltasse a acontecer. Com o tempo, a consciência do público relativamente à guerra e às suas consequências foi-se esbatendo, tornando-se tão ténue como os tons de sépia de uma fotografia antiga. Ao mesmo tempo, o número de testemunhas presenciais vai diminuindo. Segundo estatísticas oficiais dos EUA, menos de 400 mil dos 16 milhões de norte-americanos que prestaram serviço militar na guerra (2,5%) ainda estavam vivos em 2019. Graças à disponibilidade de alguns dos últimos sobreviventes para partilhar as suas histórias, recebemos uma dádiva preciosa: a oportunidade de observarmos novamente a guerra com nitidez, através dos seus olhos.

Sem acesso à Internet, nem aos outros meios de comunicação instantâneos da actualidade, antes da guerra, a maior parte destes homens e mulheres pouco sabiam do mundo que existia para lá das suas comunidades. Ao arrancá-los do seu enquadramento familiar, a guerra expô-los a terríveis novas experiências e pô-los à prova de maneiras previamente inimagináveis. Para muitos, esses desafios foram entusiasmantes.

decifradora

Betty Webb, de 97 anos, tinha 18 anos quando começou a trabalhar em Bletchley Park, o centro secreto de decifração britânico.

Analise-se por exemplo o caso de Betty Webb, de 18 anos, recrutada para integrar o serviço britânico de operações secretas de decifração em Bletchley Park. Betty foi uma de muitas mulheres cujo trabalho se revelou crucial para o esforço de guerra dos seus países e que, nesse percurso, descobriram uma noção de amor-próprio e independência que nunca tinham conhecido.

Eu queria fazer algo mais pelo esforço de guerra do que cozinhar folhados de salsicha. - Betty Webb

Harry T. Stewart, Jr., de 20 anos, neto de um homem nascido na escravatura, também provou o seu valor. Esse nova-iorquino que nunca conduzira um automóvel tornou-se piloto de caças dos Tuskegee Airmen, o famoso esquadrão de combate exclusivamente constituído por negros, participando em 43 missões de combate e sendo condecorado com a Distinguished Flying Cross.

piloto

Harry T. Stewart, Jr.  Piloto da Força Aérea dos EUA, com um modelo feito à mão de um P-51 Mustang, pilotou 43 missões de combate num desses aviões.

Estes triunfos são inspiradores e devem ser comemorados. Porém, aquilo que domina as histórias dos sobreviventes são as tragédias sofridas por muitos, quer em representação das forças aliadas quer do Eixo. Os seus relatos testemunham o horroroso inferno da Segunda Guerra Mundial, a brutalidade, o sofrimento e o terror vividos e infligidos pelos dois lados. Particularmente impressionante é o depoimento de Victor Gregg, um soldado britânico capturado pelos alemães. A sua prisão foi destruída pelas bombas lançadas pelos Aliados sobre Dresden em Fevereiro de 1945. Gregg assistiu à morte de civis alemães carbonizados (cerca de 25 mil morreram) ficou para sempre marcado por um sentimento de culpa e de vergonha. “Eram mulheres e crianças”, disse. “Eu nem queria acreditar. Nós éramos, supostamente, os bons da fita.” A sua história, como tantas outras, deve deixar uma marca indelével nas nossas memórias.

atirador

Victor Gregg,  Atirador britânico

A oferta de um brioche e de uma chávena de chá quente pareceu encantadora aos ouvidos de Victor Gregg, naquela manhã fria e húmida de Outubro de 1937. Foi suficientemente aliciante para ir atrás de um recrutador até ao seu escritório e alistar-se no Exército Britânico. “Fazia 18 anos nesse dia”, recorda Gregg, hoje com 100 anos. “E tanto quanto me consigo lembrar nunca me ofereceram a chávena de chá!”

Em vez disso, deram-lhe um lugar na fila da frente da Segunda Guerra Mundial, do princípio ao fim. Depois de se qualificar como atirador, Gregg foi destacado por um curto espaço de tempo na Índia e prestava serviço militar na Palestina quando a guerra rebentou, em Setembro de 1939. Passou os três anos seguintes no deserto norte-africano, em missões clandestinas na retaguarda das linhas inimigas.

Mais tarde, tornou-se pára-quedista e participou na invasão de Itália. Em Setembro de 1944, saltou na batalha de Arnhem, numa tentativa fracassada dos Aliados para controlarem uma ponte sobre o rio Reno. “Disseram-nos que a vitória estava garantida”, recorda. “Em vez disso, encontrámos algumas divisões Panzer de cuja existência, aparentemente, ninguém se apercebera.” Os combates foram brutais, corpo a corpo, e os pára-quedistas britânicos foram derrotados. Gregg foi capturado e enviado para um campo de trabalhos forçados nos arredores de Dresden, na Alemanha.

Nesse Inverno, fez duas tentativas de fuga falhadas e, como castigo, foi transferido para uma fábrica de sabão. Ele e outro prisioneiro de guerra sabotaram a fábrica, provocando um incêndio e a sua destruição total, acto que lhes valeu uma sentença de morte. “Transferiram-nos para uma prisão em Dresden e anunciaram-nos que seríamos fuzilados na manhã seguinte”, recorda Gregg. Interveio então o destino. Nessa noite, aviões britânicos e norte-americanos lançaram bombas incendiárias sobre Dresden. A prisão foi directamente atingida e Gregg escapou através de um muro derrubado. Nas suas palavras, os horrores que testemunhou ao longo dos dias que se seguiram assombraram-no para o resto da vida, enchendo-o de culpa e de vergonha. “Até então, a minha guerra consistia em soldados a combater contra soldados, mas aqui eram mulheres e crianças, civis”, conta. “Não conseguia acreditar. Nós éramos, supostamente, os bons da fita.” Gregg fugiu de Dresden no rescaldo dos bombardeamentos e, esgueirando-se para leste, reuniu-se às forças soviéticas que avançavam sobre o terreno. Estava com elas em Leipzig no dia em que a Alemanha se rendeu.

Depois de viver seis anos em condições extremas, pareceu-lhe impossível acomodar-se à vida civil. Procurou o risco e o perigo, ora participando em corridas de motos, ora fazendo trabalho clandestino para os serviços secretos britânicos do MI6, ora envolvendo-se ele próprio nos movimentos clandestinos pró-democracia por detrás da Cortina de Ferro.

Gregg foi recentemente convidado a dar uma palestra sobre as suas experiências. Entre o público encontrava-se uma mulher octogenária que, na juventude, sobrevivera ao bombardeamento de Dresden, mas perdera uma perna. Ao conversarem depois da palestra, Gregg descobriu a paz interior que procurara durante décadas. “De certa forma, senti-me finalmente perdoado.”

Nota:  
Exprimimos o nosso especial agradecimento ao fotógrafo Robert Clark e ao seu pai, “Russell” Clark, veterano da Marinha de Guerra dos EUA, R.R., que inspirou esta história, e às numerosas pessoas que  acolheram Robert e os nossos jornalistas em suas  casas e partilharam as suas recordações.

veteranos

R.R. “Russell” Clark, Marinha de Guerra dos EUA

Quando uma lesão contraída a jogar futebol americano deixou Russell Clark com uma hérnia, ele soube que seria dispensado do serviço militar. Então com 18 anos, nascido e criado numa quinta do Kansas, Russell estava decidido a juntar-se aos dois irmãos na guerra. Pagou para ser operado, a fim de corrigir o seu problema e, de seguida, alistou-se.

No início de 1945, encontrava-se algures no Atlântico Norte, trabalhando na casa das máquinas do contratorpedeiro de escolta USS Farquhar. “Lá em baixo, havia calor e vapor: 380C”, recorda Clark, agora com 95 anos.

Apesar das longas horas de calor passadas abaixo do convés, Russell considerava-se um felizardo. “Os pobres rapazes que andavam lá em cima, no convés, em pleno  Atlântico  Norte, tinham muito frio”, conta. A única refrega com o inimigo aconteceu na manhã seguinte à rendição da Alemanha. Um submarino nazi que, aparentemente, não recebera as notícias, avançou contra o Farquhar. “Não tivemos alternativa”, diz. “Lançámos um torpedo contra eles.” Tudo o que restou foi uma mancha de óleo.

Texto: Roff Smith

"Foi naquela sala que eu assinei o Documento Oficial de Confidencialidade.” Betty Webb, de 97 anos, aponta com a bengala para uma sala do rés-do-chão da mansão aristocrática de Bletchley Park, a lendária instalação secreta de descodificação britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Uma enorme secretária é visível através da janela panorâmica. “Um oficial de alta

patente dos serviços secretos estava sentado atrás daquela secretária”, conta. “Lembro-me de ele ter junto de si uma pistola, pousada descontraidamente, onde está agora aquela xícara de café. Mandaram-me assinar o documento e disseram-me, em termos muito precisos, que eu nunca poderia dizer nada sobre o trabalho que aqui fazia. Assinei. Foi um momento solene. Eu tinha 18 anos na altura.”

Corria o ano de 1941. A Grã-Bretanha encontrava-se em guerra. As tropas alemãs já tinham conquistado grande parte da Europa.

decifrador

Arthur Maddocks, Decifrador britânico

“Acho  que  eles  pensaram que, se eu entendia teoria económica, também conseguiria decifrar códigos”, resume Arthur Maddocks, de 98 anos, um dos melhores alunos da Universidade de Oxford quando foi recrutado pelos serviços secretos britânicos. À semelhança de Betty Webb, Arthur foi destacado para Bletchley Park.

Puseram-no a decifrar o código Lorenz, o sistema de mensagens encriptadas utilizado por Hitler e pelos seus generais mais graduados. O Lorenz tinha duas camadas de encriptação e milhões de possibilidades de descodificação. No entanto, perto do final da guerra, Arthur e os colegas (auxiliados pelo Colossus, o primeiro computador digital de grande escala do mundo) já conseguiam ler as comunicações entre os dirigentes nazis com tanta antecedência que a rendição da Alemanha em Maio de 1945 foi uma espécie de anticlímax, conta Arthur. “Nós já sabíamos que a guerra terminara.” 

Betty frequentara um curso de economia do lar, mas alistara-se no Serviço Territorial Auxiliar (o contingente feminino) porque, como diz, “queria fazer algo mais pelo esforço de guerra do que cozinhar folhados de salsicha”. Betty era bilingue, pois crescera com uma preceptora alemã e fora aluna de intercâmbio na Alemanha. Por isso, recebeu ordens para se apresentar em Bletchley, localizado a cerca de uma hora a norte de Londres. “Era tão secreto que eu nem fazia ideia do que era – ninguém fazia! – muito menos de onde me iria meter.”

Ao início, Betty recebeu a missão de catalogar os milhares de mensagens de rádio encriptadas em alemão que os postos de escuta britânicos interceptavam todos os dias. À medida que a guerra avançava, porém, foi-lhe atribuído um papel mais criativo: parafrasear pedaços valiosos de informação secreta recolhidos pelos decifradores, de modo a que ninguém suspeitasse que tinham sido obtidos através da desencriptação de mensagens.

“Precisávamos de dar a impressão de que se tratava de informação obtida por nós, através de espiões, de documentos roubados ou de reconhecimento aéreo”, disse. “O facto de termos decifrado os códigos militares alemães e japoneses era um segredo guardado a sete chaves, conhecido apenas por um punhado de pessoas.”

Betty apreciava o seu trabalho. “Gostava do lado clandestino”, afirma, com um sorriso. Trabalhava com mensagens japonesas interceptadas e era tão boa a parafrasear o conteúdo que, em Junho de 1945, terminada a guerra na Europa, foi enviada para Washington a fim de contribuir para o esforço de guerra norte-americano no Pacífico. “Fiz a viagem num hidroavião”, recorda. “Foi a primeira vez que andei de avião. Mandei aos meus pais um postal de Washington. Tenho a certeza de que se interrogaram sobre o que andaria eu a fazer, mas nunca mo perguntaram e, de qualquer maneira, eu nunca poderia contar-lhes a verdade.”

Só muitas décadas mais tarde é que os funcionários de Bletchley Park foram autorizados a falar sobre o seu trabalho durante a guerra. “Nessa altura, já os meus pais tinham morrido e, por isso, nunca souberam”, conta Betty. “Todo esse secretismo dificultou bastante a tarefa de encontrar emprego depois da guerra, particularmente para os homens, uma vez que ninguém podia dizer nada aos empregadores sobre os anos da guerra, excepto que tinham trabalhado num sítio chamado Bletchley Park.”

Betty Webb acabou por arranjar trabalho numa escola cujo director trabalhara também em Bletchley Park. “Não o conhecera nessa época, mas, quando ele viu na minha candidatura que eu também estivera em Bletchley, não foram precisas mais palavras, nem perguntas complicadas”, conta. “Fiquei com o emprego.” 

Texto: Eve Conant 

Os combates acabaram há 75 anos, mas Maria Rokhlina, hoje com 95, ainda sente a guerra nas suas mãos, em cada dedo. Nascida na Ucrânia, sonhou tornar-se piloto. Em 1941, quando tinha 16 anos, os nazis infiltraram-se profundamente no território da sua pátria. “Passei da carteira da escola para a guerra”, diz. Tornou-se médica de combate e prestou serviço nas forças armadas soviéticas durante quatro anos.

Um dia, quando ajudava a transportar um soldado ferido através das águas agitadas do rio Dniepre, o remo partiu-se e teve de remar com as mãos nas águas geladas. As dores que sente nos dedos continuam a ser tão fortes que ainda hoje é injectada nas articulações para aliviar o sofrimento.

Não sepultámos os corpos mortos durante o Inverno em Estalinegrado. Os cadáveres jaziam empilhados. Não havia onde enterrá-los. - Maria Rokhlina

Em 1942, Maria ficou retida na cidade cercada de Estalinegrado. A batalha arrastou-se durante mais de seis meses, reduzindo a cidade a escombros e dizimando a população. As temperaturas de Inverno costumavam descer até -20ºC. Maria refugiou-se com os soldados soviéticos numa fábrica de tractores, mas não havia sequer um pedaço de papel ou lenha para queimar. “Tínhamos de aquecer-nos uns aos outros com os nossos corpos”, diz. “Fizemos ali um juramento: nunca nos esquecermos de Estalinegrado, nunca nos esquecermos daqueles a quem ficámos abraçados” naquilo a que chama “círculos de aquecimento”.

Depois, há ainda aquelas recordações que Maria Rokhlina tentou esquecer, mas não conseguiu: o calor dos intestinos de um soldado moribundo, enquanto tentava reintroduzi-los no seu abdómen. Ou como uma colega médica sua foi violada e assassinada pelos alemães, que lhe cortaram os seios. “Não consigo perdoar-lhes aquilo que fizeram e aquilo que vi.”

No entanto, à semelhança dos círculos de aquecimento, também os horrores forjaram vínculos. Um soldado soviético prometeu-lhe que a pediria em casamento se ambos sobrevivessem à guerra na primeira vez que a viu. Estiveram casados durante 48 anos. 

médico

Boris Smirnov, Médico soviético 

“Sentíamo-nos cheios de patriotismo soviético”, afirma Boris Smirnov, de 93 anos, que viu muitos dos seus camaradas de armas morrerem durante o conflito a que os soviéticos chamaram a Grande Guerra Patriótica. Em certa ocasião, o pelotão de Smirnov estava a construir uma ponte sobre o rio Neman quando o comandante foi atingido por uma bala, possivelmente disparada por um atirador furtivo inimigo.

“Havia outro soldado a meu lado enquanto eu tentava ajudá-lo”, recorda Boris. “Ele disse-me: ‘Doutor, ajude-o, eu dou-lhe cobertura’.” Enquanto o médico enfaixava com ligaduras o oficial atingido, ouviu-se um tiro disparado da outra margem que matou instantaneamente o soldado que lhe dava protecção. “Ele tombou em silêncio”, conta Boris, ainda hoje entristecido pela morte do seu protector.

Mais traumático foi um dia de Outubro de 1944 em que o pelotão de Boris se viu cercado. “Vi os soldados alemães rirem-se à gargalhada, sentados a cerca de 50 ou 60 metros de nós”, conta. “Nós corríamos na direcção deles, gritando, e eles riam-se e acenavam com os capacetes. Os meus amigos iam caindo à minha volta.”

Há um documento dos arquivos russos que emociona particularmente Boris Smirnov: é uma lista dos seus camaradas abatidos. 

Texto: Katie Sanders

Cerca de mil pilotos afro-americanos que prestaram serviço militar na Segunda Guerra Mundial aprenderam a pilotar em Tuskegee, no Alabama, a única base aérea dos EUA que dava formação a cadetes negros. Só dez desses famosos pilotos de Tuskegee ainda estão vivos e o tenente-coronel Harry T. Stewart, Jr., que celebrou o seu 95.º aniversário no último Dia da Independência, é um deles.

Quero apenas que eles sejam recordados como bons cidadãos que ajudaram a proteger o seu país mesmo sendo alvo de discriminação. - Harry T. Stewart, Jr.

Criado em Queens, no estado de Nova Iorque, Harry deslocava-se até uma pista de aviação das proximidades para admirar aqueles gigantescos pássaros de alumínio, acalentando a fantasia de voar. Concretizou finalmente o seu sonho em 1944, ao começar a escoltar bombardeiros norte--americanos até aos seus alvos em toda a Europa. No decurso de uma dessas missões, no domingo de Páscoa de 1945, Harry e seis companheiros de esquadrão voavam a 1.500 metros de altitude sobre a Áustria ocupada pelos nazis quando, de repente, se viram perseguidos por um número superior de aviões da Luftwaffe. Seguiram-se combates mortíferos. Harry disparou rajadas consecutivas com as seis metralhadoras de 12,7 milímetros do seu P-51 Mustang. De regresso à base em Itália, foi recebido com fanfarra e felicitado por ter abatido três aviões inimigos, proeza que lhe valeu a condecoração com a Distinguished Flying Cross.

Contudo, o experiente piloto de combate não deixava de pensar nos três companheiros abatidos durante a batalha. Um morreu de imediato, outro conseguiu conduzir a aeronave até à Jugoslávia, despenhando-se ao aterrar, e o terceiro ejectou-se: o seu corpo foi, alegadamente, descoberto depois de o país ser libertado do domínio nazi duas semanas depois.

A seguir à guerra, Harry Stewart manteve-se na Força Aérea. O presidente Harry Truman tornou entretanto obrigatória a integração racial nas forças armadas em 1948. Em 1949, Harry venceu o primeiro concurso “Top Gun” com dois colegas pilotos da esquadrilha Tuskegee. Um ano mais tarde, os cortes orçamentais do pós-guerra forçaram milhares de oficiais, incluindo Harry Stewart, a abandonar a Força Aérea. Obteve a sua licença de piloto da aviação comercial e concorreu à Pan American e à Trans World Airlines, sendo rejeitado por ambas. Nessa época, as companhias aéreas não contratavam pilotos negros.

Texto: Nina Strochlic 

A perda das asas e da dignidade afectaram-no muito. Mas Harry Stewart é um lutador. Candidatou-se à Universidade de Nova Iorque e licenciou-se em engenharia mecânica. Arranjou emprego e alcançou sucesso como engenheiro, viajando pela América do Norte, pelo Extremo Oriente e pela Europa. O seu último emprego levou-o a Michigan, onde foi promovido no quadro de uma das maiores empresas de gasodutos do país, reformando-se como vice-presidente.

Em 2018, Harry Stewart deslocou-se à Áustria pela primeira vez desde a guerra, desta feita como convidado do governo austríaco. A equipa que investigava o destino dos pilotos aliados abatidos descobrira que Walter Manning, o colega de esquadrão de Harry Stewart que se ejectara de pára-quedas durante a sangrenta missão da Páscoa, fora capturado vivo.

aviões

Mallie Mellon, Construtora de aviões de guerra dos EUA

Nascida numa quinta do Kentucky, Mallie Osborne Mellon, juntamente com o marido e o seu jovem filho, embarcou num autocarro rumo a Detroit em 1943, em resposta a um anúncio radiofónico de empregos para civis em tempo de guerra. Por essa altura, já mais de trezentas mil mulheres norte-americanas participavam no fabrico de aeronaves, muitas das quais cravando rebites em aviões de guerra nas fábricas da cidade.

Mallie foi trabalhar para a Briggs Manufacturing, polindo peças para os bombardeiros que saíam da linha de montagem da gigantesca fábrica de Henry Ford situada em Willow Run.

Actualmente com 100 anos, Mallie nunca ouvira falar no termo “Rosie Rebitadora”, utilizado para descrever as mulheres que trabalhavam nas fábricas da indústria de defesa. Há cinco anos, explicaram-lhe que ela tinha sido uma dessas operárias. Hoje frequenta as reuniões da Associação Americana das Rosies Rebitadoras. Ainda preserva o seu sotaque sulista arrastado, mas o Michigan é o seu lar e as Rosies são como se fossem família. 

Enquanto aguardava transferência para um campo de prisioneiros de guerra, o piloto de 24 anos fora linchado por uma multidão incitada pela propaganda racista nazi. Exactamente 73 anos depois, Harry Stewart e a sua filha viram os dignitários austríacos pedir perdão pela atrocidade, dedicando-lhe um memorial.

Harry reconhece que nunca imaginou que os Tuskegee Airmen seriam reconhecidos em museus e memoriais e figurariam em livros de história e filmes. Que expectativas tem quanto ao seu legado? “Quero apenas que sejam lembrados como bons cidadãos, bons americanos que se sentiram obrigados pelo dever a alistar-se para proteger o seu país em tempos de necessidade, mesmo sendo alvo de discriminação.”

Pouco depois de chegar a Terezin, um campo de concentração nazi, em 1943, Fred Terna começou a fazer desenhos. Desenhou beliches com três camas, filas de pessoas aguardando a vez de receberem as parcas rações de alimentos e as linhas de caminho-de-ferro que transportavam os prisioneiros para Auschwitz. Assinou alguns dos esboços com um símbolo, para não ser possível identificá-lo como autor. Desenhar, veio ele a descobrir, era uma maneira de se lembrar da sua humanidade. Fred tinha 16 anos quando as tropas alemãs avançaram sobre Praga, a sua cidade natal, em 1939. Quando os soldados norte-americanos o libertaram, seis anos mais tarde, era “um daqueles esqueletos que se arrastavam”, conta. Esteve preso em quatro campos de concentração e passou fome, fugiu e foi capturado. Quase morreu de frio e subnutrição. Regressado a Praga, soube que mais nenhum membro da sua família imediata sobrevivera à guerra.

Vestíamos pijamas infestados de piolhos. Mas éramos educados, dizíamos a verdade e conversávamos sobre como deveria ser o mundo. - Fred Terna

Casou-se com uma sobrevivente, sua colega no campo, e acabou por instalar-se em Nova Iorque, onde se tornou artista a tempo inteiro. Hoje com 96 anos, ainda pinta e dá aulas. No estúdio, situado no último andar da sua casa de Brooklyn, cria as suas próprias misturas de tinta acrílica. “É a minha tentativa de alcançar a imortalidade”, diz sobre a pintura. As telas de Fred Terna, espessas em textura e cenas incandescentes, cobrem os corredores. “Deixamos um registo. O meu registo é visual.” Quase 40 anos após o fim da guerra, Fred encontrou uma pessoa que guardara os seus desenhos de Terezin e os levara para Israel. “Na altura, não sabíamos que eu estava, de facto, a criar documentos históricos.” Tal como o número tatuado no seu braço – 114974 – os desenhos eram prova do que lhe acontecera e aos seis milhões de judeus que pereceram no Holocausto. “Sim, as nossas famílias partiram, mas a sua memória mantém-se viva”, diz. “É minha obrigação – e, num certo sentido, é agora a vossa – lembrá-lo ao mundo.” 

Texto: Andrew Curry

Mesmo enquanto criança, Waltraud Pless não pôde deixar de perceber a maneira como muitos alemães beneficiavam do regime nazi. Não teve de esforçar-se muito: os pais estavam falidos quando Hitler ascendeu ao poder em 1933. Seis anos mais tarde, o pai era oficial das Waffen-SS, a divisão militar de elite do partido nazi. Quando partiu para combater na invasão de França, a família possuía dois automóveis, uma bela casa e um armazém cheio de mobiliário valioso “em segunda mão”.

“De onde veio todo aquele dinheiro?”, pergunta Waltraud. “Agora, tudo me parece claro: só poderia ter vindo dos agregados familiares judaicos. Ninguém me pode dizer que não sabia que os judeus eram perseguidos.”

Um dia, o pai levou-a consigo de carro até ao campo de concentração de Sachsenhausen, nos arredores de Berlim. “Eu vi as pessoas que lá estavam, a maneira como viviam”, conta. E sentiu-se chocada? A mulher de 84 anos, impecavelmente vestida, abanou a cabeça e encolheu os ombros. “Coisas como aquela eram aceites como factos.”

veteranos

Igor Morshtein e Valentina  Lukianova, Veteranos soviéticos.

As suas vidas foram entrelaçadas pela guerra, pelo cerco de Leninegrado e por 40 anos de amizade, trabalhando na mesma fábrica. Mas o amor só floresceu depois de ambos enviuvarem. Valentina foi criada em orfanatos. A mãe de Igor morreu ao tentar fugir da cidade, devastada pela fome. Um dia, Igor e alguns rapazes ouviram uma criança chorar. “Fomos espreitar”, recorda. “Encontrámos um bebé de um ano a tentar mamar na sua mãe, que jazia morta a seu lado.” Esse “foi o início das nossas missões. Andávamos de porta em porta, em busca de crianças que tivessem ficado órfãs”.

Organizámos um local de recolha e os bebés recebiam o apelido da criança que os encontrava. “Nem sequer pensávamos em procurar documentos de identificação”, conta Igor, de 92 anos. “Éramos rapazes, com 12 a 14 anos. Sentíamos que era o dever.” Quando atingiram a idade para combater, “estávamos desnutridos e nem força tínhamos para pegar nas armas”. O exército alimentou-os e, por fim, ele contribuiu para libertar Leninegrado do estrangulamento nazi. Há quatro anos, recebeu um telefonema de uma comissão de veteranos. Havia uma mulher à procura dele. “Fora ele que a encontrara, durante o cerco, e a conduzira ao local de recolha dos bebés.” Ela recebera o seu nome. 

Até que, de repente, deixaram de o ser. No Outono de 1944, Waltraud viu as estradas em redor da sua casa, cerca de 200 quilómetros a leste de Berlim, encherem-se de famílias que fugiam ao exército soviético. Durante várias semanas, dormiu com a roupa vestida, pronta para se juntar ao rio de refugiados a qualquer instante. Por fim, numa gélida noite de Fevereiro de 1945, chegou a ordem de evacuação.

“Achei que era temporária”, recorda. “Logo que os russos fossem derrotados, regressaríamos a casa. Era assim, poderosa, a propaganda [nazi] nessa época.”

Depois de várias semanas em viagem, dormindo em apartamentos de estranhos e em estações ferroviárias, ela, a mãe, o irmão e a irmã embarcaram para uma península na costa do mar Báltico, onde existiam muitas camas num destino turístico. No entanto, em Abril, o rápido avanço dos soviéticos cortou o acesso ao continente e não havia nada para comer.

“Discriminavam-nos e rogavam-nos pragas só porque éramos refugiados…eu tinha 9 anos e não tinha culpa da guerra.” - Waltraud Pless

Sem electricidade nem rádio, Waltraud e os seus familiares só se aperceberam da rendição da Alemanha ao ouvirem tiros de comemoração nas unidades soviéticas aquarteladas nas casas vizinhas. Sempre com fome, Waltraud passou essa Primavera à procura de alimento. Um dia, seguiu a carroça de um agricultor, que ia pela estrada oscilando sobre o empedrado, e recolheu as batatas que caíam para a sua saia. Sem dar por isso, viu-se no meio de um campo, longe da cidade. “Foi então que um soldado russo me agarrou e me violou”, diz. Ela tinha 9 anos. Waltraud conta que fugiu para casa para contar o sucedido à mãe, mas os seus gritos foram recebidos com silêncio. Nesse Outono, a família soube que o pai de Waltraud sobrevivera à queda de Berlim e estava preso pelos britânicos no Norte da Alemanha. No entanto, eles não tinham como regressar a casa: a sua aldeia pertencia agora ao território da Polónia. Ao longo da década que se seguiu, a família reunida passou dificuldades, vivendo em pocilgas e celeiros, acotovelando-se, mais tarde, em pequenos apartamentos com outras famílias. Nos anos de escassez após a guerra, muitos alemães olhavam para Waltraud e milhões de outras pessoas deslocadas pelo conflito com rancor, considerando-as bocas a mais para alimentar. “Discriminavam-nos e amaldiçoavam-nos porque éramos refugiados”, conta.

piloto alemão

Wilhelm Simonsohn, Piloto alemão

Orientando os tanques e a artilharia em direcção aos alvos, a partir da cabina de um avião de reconhecimento, Wilhelm Simonsohn assistiu à invasão alemã da Polónia, em 1939, de um ponto muito acima dos combates.

Os primeiros dias da guerra pareceram-lhe uma aventura. Tudo isso mudou quando Wilhelm entrou em Varsóvia. A capital estava em ruínas. Milhares de pessoas foram abatidas durante o ataque. Agora com 100 anos, Wilhelm diz que ainda se lembra do fedor dos cadáveres em decomposição, presos debaixo dos escombros. “Causou-me tal impressão que disse para mim mesmo: ‘Nunca mais largarei uma bomba em cima de um ser humano’.”

Recebeu formação como piloto de caças e participou em dezenas de missões nocturnas, esforçando-se por interceptar os bombardeiros britânicos. “Movia-me pela ideia de impedir os ingleses de pegarem fogo às nossas cidades”, diz. “Tinha 22 anos e era ingénuo.” Na Primavera de 1944, depois de ver as cidades alemães em chamas, Wilhelm percebeu que a guerra estava perdida. “Compreendi que precisava apenas de sobreviver.” As notícias da rendição foram recebidas com alívio. “O dia 8 de Maio de 1945 representou o fim de todas as matanças, de todo o medo”, recorda. “As cidades incendiadas transformaram-me num pacifista. E, à medida que os anos passam, sou-o cada vez mais.” 

Setenta e cinco anos mais tarde, Waltraud não sente raiva nem culpa. “Contam-se histórias verdadeiramente mágicas. A minha, em comparação, é quase banal”, diz. “Eu tinha 9 anos e a guerra não foi culpa minha. Mas também não sou uma vítima.”

Hoje, Waltraud visita escolas na zona de Hamburgo para contar as suas experiências do tempo da guerra. “Olhem para o mundo: as pessoas não aprenderam. É horrível assistir ao regresso dos neonazis, não só na Alemanha, mas também nos EUA e na Escandinávia. As pessoas ainda são tão facilmente manipuladas.”

oficial alemão

Hans-Erdmann Schönbeck, Oficial alemão

Sobreviveu a uma das mais sangrentas batalhas da história. Olhou Adolf Hitler nos olhos. Dormiu a poucos metros da bomba que quase tirou a vida ao Führer e escapou à purga sangrenta que aconteceu a seguir.

Hoje com 98 anos, tem uma única explicação. “Tive, ao longo da minha vida, esquadrões de anjos da guarda a velar por mim. Só pode ter sido isso.”

Destacado para um regimento de tanques alemão no Verão de 1940, Hans-Erdmann afirma ter sentido que pertencia ao melhor exército do mundo. Durante um ano, a sua unidade atravessou a União Soviética, deixando um rasto devastador. Oito tanques disparavam sob o seu comando e ele foi recebendo sucessivas promoções de combate. Quando o seu tanque venceu uma colina de onde se avistava Estalinegrado, em Agosto de 1942, já chefiava uma companhia inteira. Nem sequer tinha 20 anos. Os cinco meses que se seguiram foram um ponto de viragem, para a Alemanha e para Hans-Erdmann. Centenas de milhares de soldados alemães ficaram isolados. A situação tornou-se desesperada no Inverno, quando as temperaturas desceram para níveis mortais.

Hans-Erdmann e os seus homens demoliram casas e usaram os materiais como lenha para se aquecerem, expulsando os moradores russos para a neve. Com os tanques sem combustível e os homens a morrerem de fome, Hans-Erdmann encolheu, deixando de ser um jovem cheio de vigor para se tornar uma sombra de 45 quilogramas. Foi acometido por uma emoção desconhecida: a dúvida.

Durante as noites frias, o jovem oficial ouvia os seus homens amaldiçoarem Hitler por tê-los abandonado. Meses antes, tais palavras teriam implicado a execução. Agora, porém, dava por si a concordar com eles em silêncio.

No dia 19 de Janeiro de 1943, Hans-Erdmann foi ferido por uma salva de artilharia que lhe perfurou os pulmões e estilhaçou o ombro. Um sargento enfiou o jovem oficial num bombardeiro alemão. Poucos minutos depois, o avião levantou voo e Hans-Erdmann foi um dos poucos soldados alemães a sobreviver a Estalinegrado. A batalha assinalou o princípio do colapso da Wehrmacht na Frente Leste e do fim da Alemanha nazi.

Dez meses depois da sua fuga, o jovem oficial foi destacado por um breve período para orientar a comitiva de Hitler nas ruas de Breslau. Hans-Erdmann recorda-se de correr para abrir a porta do automóvel do Führer, perfilando-se em sentido e saudando Hitler quando este saiu do carro. Enquanto seguia Hitler até uma sala de reuniões, os pensamentos turvaram-se ao recordar as vidas perdidas em Estalinegrado. Levou a mão à pistola que trazia no coldre e, de seguida, voltou a lembrar-se de Estalinegrado. “Pensei que me tinha sido dada outra oportunidade de viver. Se o fizesse, morreria e eles matariam toda a minha família.”

Hans-Erdmann foi destacado para uma unidade dos serviços secretos no quartel-general de Hitler. Certo dia, o seu comandante fez-lhe uma pergunta estranha.

“Se algo importante acontecer, podemos contar consigo, certo?”, recorda. Soube mais tarde que os oficiais preparavam uma conspiração para assassinar Hitler. O sobrevivente de Estalinegrado guardou segredo. “É o que acontece numa ditadura”, diz. “Nunca se sabe em quem confiar.” Quando a conspiração fracassou, ocorreu uma purga sangrenta. Depois da guerra, mudou-se para Munique e arranjou emprego na indústria automóvel alemã do pós-guerra. Foi subindo na hierarquia e, na década de 1980, foi director da Associação Alemã da Indústria Automóvel. “Sobrevivi”, diz. “Não ia desperdiçar isso.”  

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Valentin Shorin, Sobrevivente de Leninegrado

Tinha apenas 5 anos quando os nazis iniciaram a sua campanha de quase novecentos dias de cerco para submeter Leninegrado pela fome e pela acção de bombardeamentos.

No início, a mãe de Valentin Shorin continuou a trabalhar, levando-o até ao jardim de infância no carrinho de bebé todos os dias. Depois os bombardeamentos começaram. Altifalantes instalados nas ruas faziam soar o alarme antiaéreo, seguido de um som sibilante e do estrondo dos edifícios a desmoronarem-se. Mãe e filho passavam constantemente fome, “mas eu descobri mais tarde que ela dava-me também as suas rações”, conta Valentin, hoje com 83 anos.

Por fim, a mãe ficou demasiado fraca para andar. Ele lembra-se de ver a tia puxar com a mão um trenó de madeira coberto de andrajos, com a mãe no interior, empurrando o carrinho dele com a outra. Chegaram ao jardim de infância. “Olhei para a minha mãe e ainda hoje me dói pensar nisso. Ela tinha lágrimas enormes a correr-lhe pelo rosto, como rios, e eu senti na minha alma que era a última vez que a via.” Valentin mordeu a tia para fugir, mas a mãe levantou-lhe a voz: “Valya, vai, vai. Eu vou ficar melhor e depois venho buscar-te.” Em vez disso, “o meu jardim de infância tornou-se o meu primeiro orfanato”.

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Shizuyo Takeuchi, Sobrevivente japonesa

Não é possível fugir às recordações de 25 de Fevereiro de 1945, o dia em que os B-29 lançaram bombas incendiárias sobre Tóquio. Nesse dia, Xizuyo Takeuchi, então com 13 anos, encontrou apenas cinzas no lugar onde ficara a sua casa. Apenas uma panela de arroz sobrevivera. O seu dicionário de língua inglesa, proibido, que lhe fora oferecido pelos pais, transformara-se em cinza.

Ela pegou numa só página, que o vento rapidamente fez voar, arrancando-lha das mãos.

Um segundo bombardeamento incendiário, a 10 de Março, forçou-a a fugir do torvelinho de destroços, fumo e cadáveres carbonizados. Lembra-se de avistar uma mãe que tentava proteger o seu bebé sob o seu corpo. “Senti-me assustada porque perdi as emoções durante algum tempo”, recorda Xizuyo.

Hoje com 89 anos, casada, com um filho e uma filha, trabalha como contadora de histórias num centro destinado a conservar a memória dos horrores da guerra.

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