Pujante no Império Romano, incógnita nos séculos seguintes, Ammaia sempre lutou por permanecer no mapa. De muitas maneiras, ela reflecte a evolução da arqueologia portuguesa.

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A Porta Sul de Ammaia constitui uma das principais estruturas já escavadas e consolidadas. Por aqui, entravam pessoas e mercadorias na cidade romana. Acumulam-se evidências que certificam a intensa actividade comercial desta cidade da Lusitânia com outras urbes do Império Romano. Fotografia: Miguel Claro

Texto: Gonçalo Pereira

1994, Universidade de Coimbra. Da cronologia, poderíamos escolher outros marcos, mas atentemos neste. Nas aulas de Arqueologia sobre o Império Romano, o historiador Vasco Mantas tem por hábito colocar um desafio aos alunos: propõe o levantamento exaustivo de bibliografia e sugestões de linhas de investigação para vários sítios arqueológicos portugueses. Fornece apenas o nome do local e um título.

Sentados entre colegas, os então estudantes de licenciatura Joaquim Carvalho e Sofia Borges escolhem uma das propostas sem adivinhar que ela mudará as suas carreiras e vidas. “Um Monumento Nacional esquecido: A cidade luso-romana de Ammaia,” é o desafio.

Um espólio invejável. As peças de vidro recuperadas perto de São Salvador da Aramenha são de cortar a respiração. uma pedra de anel com a representação da menorah demonstra que afinal o judaísmo é muito mais antigo na área e que não necessitaria de se ocultar, como sucedeu em época moderna, na vizinha castelo de Vide; uma moeda representa Vitória, conduzindo uma biga, segurando as rédeas e uma coroa; e uma das mais intrigantes descobertas na zona das termas: uma pedra de anel com um elefante saindo de uma cornucópia.

“Não sabia quase nada sobre a cidade”, confessa Joaquim Carvalho, nascido bem longe, em Caldas das Taipas, perto de Guimarães. “Conhecia os trabalhos sobre epigrafia de José d’Encarnação e pouco mais.” Sofia, natural de Castelo de Vide, ficou entusiasmada. Crescera a passo e meio do sítio arqueológico, onde hoje dirige o Museu. O destino estava portanto inscrito nas estrelas… ou nas aras que celebrizam este sítio romano. Hoje, 21 anos depois, continuam em Ammaia. E aqui participam numa das mais complexas e cativantes histórias da arqueologia portuguesa recente.

 

De muitas maneiras, a sorte de Ammaia, cidade imperial romana fundada no século I d.C. e habitada provavelmente até meados do século VI, como o testemunha o achado de uma moeda e uma epígrafe correspondentes a esse período, reflecte um mosaico de acidentes e acasos, apostas claras e silêncios peculiares. “Pujante e planificada, a cidade pode ter tido dois mil habitantes no seu período áureo”, propõe Carlos Fabião, arqueólogo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Abandonada depois, foi progressivamente saqueada ao longo dos séculos. “Há vestígios de materiais provenientes daqui em todos estes povoados circundantes e as fontes escritas do século XVI testemunham que estes monumentos foram um depósito particular onde a população vinha buscar rochas e materiais nobres”, diz numa tarde de calor escaldante, no intervalo das escavações matinais e quando o campo arqueológico é subitamente inundado pelo aroma inesperado, mas bem-vindo, de uma feijoada.

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Coordenado pela universidade de Évora, o Projecto Radio-Past permitiu reconstituir digitalmente o perímetro da cidade, os arruamentos principais e sugerir volumetrias de alguns dos principais edifícios. e foi possível fazê-lo com apenas 1% de Ammaia escavado. Projecto Radio-Past. Ilustração de Michael Klein 7reasons Medien Gmbh. Coordenação: Cristina Corsi (Universidade De Évora)

No século XVI, a instalação no local da Casa do Deão, associada ao bispo de Portalegre, e a intenção de aqui construir um convento (travado pela excessiva humidade do local) intensificaram a destruição do sítio romano. Muitas igrejas desse tempo incorporaram materiais retirados daqui, da pedreira dos bispos.

 

As notícias dispersas até ao início do século XX comprovam a popularidade do local entre coleccionadores de antiguidades e proto-arqueólogos. A localização da cidade romana chegou a ser proposta erroneamente pelo cronista André de Resende para Portalegre até a descoberta de um pedestal, hoje no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), certificar a localização de Ammaia em São Salvador da Aramenha.

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A zona das termas foi uma das primeiras estruturas identificadas no perímetro de Ammaia, mas a sua localização, nas imediações de uma estrada já rasgada, motivou a destruição de muita informação. Projecto Radio-Past. Ilustração de Michael Klein 7reasons Medien Gmbh. Coordenação: Cristina Corsi (Universidade De Évora)

Extraímos mais uma data improvável da cronologia: 1913, Lisboa. António Maçãs, proprietário rural e pequeno industrial da serra de São Mamede, visita o MNA em Lisboa e encanta-se com a colecção. Tem experiência directa com artefactos desta natureza e até já viu melhores em São Salvador da Aramenha. Corresponde-se com Leite de Vasconcelos, primeiro director do MNA, e em breve estabelece-se entre os dois homens uma linha improvável de comunicação de achados e informação sobre o que vai emergindo nas cercanias de Marvão. Por comboio, chegam a Lisboa peças notáveis. Vidros intactos, cerâmicas, jóias – falta-lhes o contexto arqueológico, bem-entendido, mas são documentos palpáveis e irrepetíveis do que as necrópoles romanas continham à data da sua reabertura. Parte desse espólio, recolhido incansavelmente por António Maçãs e mantido pela filha Delmira, faz parte da recém-inaugurada exposição Ad Aeternitatem no Museu da Fundação Cidade de Ammaia.

Classificado como Monumento Nacional em 1949, o sítio permaneceu quase meio século imóvel. “Ficou a dormitar, à maneira alentejana”, brinca um dos estudantes de Arqueologia, deitado no solo, em delicado trabalho de limpeza. Não foi escavado, nem quase motivou trabalhos de investigação até 1994. As três primeiras campanhas rápidas, todas de 1994, foram promissoras. Rapidamente se percebeu que a cidade era muito mais ampla do que as expectativas. “Começámos por pensar que eram dez hectares”, lembra Joaquim Carvalho, que participou nos trabalhos inaugurais. “Hoje, a geofísica sugere que a área urbana se espalhava por 25 hectares e a envolvente deverá ter cerca de cem.” Aos poucos, porém, o fulgor inicial de escavação diminuiu. Houve entusiasmos e recuos. Em 1997, constituiu-se a Fundação Cidade de Ammaia, com um conselho de curadores de que fazem parte Carlos Melancia, o Município de Marvão e a Universidade de Évora, entre outras individualidades, esforçando-se desde sempre por assegurar as receitas mínimas de funcionamento. Mas tão depressa Ammaia foi uma prioridade científica, como teve de atravessar obstáculos tecidos pela inexplicável filigrana da política cultural portuguesa. Talvez nem tudo seja inexplicável: desde 1994, o país contou com 13 secretários de Estado da Cultura, a uma média de menos de ano e meio de mandato por cada um. Num interessante artigo recente sobre a elite governante da cultura, os politólogos Patrícia Oliveira e Carlos Vargas concluíram que, nestas circunstâncias de rápida sucessão, “a acção política faz uma leitura morfológica das situações e actua de forma sectorial, circunscrita, sem visão de conjunto, logo sem capacidade agregadora”. E, no entanto, em Ammaia, apesar dos escolhos, muito está a mudar. Longe da vista, talvez. Mas com alicerces profundos.

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PASSADO E PRESENTE. As reconstituições digitais têm a dupla vantagem de não serem invasivas e representarem, ao mesmo tempo, uma ferramenta pedagógica para projectar volumetrias e ajudar a interpretar o espaço arqueológico. Naturalmente, a geofísica e os levantamentos dela decorrentes não substituem o trabalho de campo nem a sensação de realismo conferida pelo lajeado com marcas de rodados ou a imponência da Porta Sul, enquadrada ao longe pela serra. Projecto Radio-Past. Ilustração De Michael Klein 7reasons Medien Gmbh. Coordenação: Cristina Corsi (Universidade De Évora); Fotografia: Miguel Claro 

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“O futuro da preservação passa por restrições à escavação”, disse Cristina Corsi ao serviço noticioso da National Geographic internacional. A frase da arqueóloga da Universidade de Cassino e antiga investigadora da Universidade de Évora fez correr tinta nos fóruns arqueológicos. Mas será mesmo absurda? Depois de redescoberta e escavada, Pompeia é visitada há mais de dois séculos e meio por turistas. O impacte da erosão, da massificação e até de alterações climáticas na cidade tem sido palpável. Poderá a exposição à atmosfera de ruínas escavadas constituir um risco de conservação?

 

Até há poucos anos, a questão era meramente teórica, mas hoje existem ferramentas não-intrusivas de investigação que permitem perspectivas científicas válidas e intensivas sobre estruturas soterradas. O que se deve fazer num caso como o de Ammaia, um exemplo (como Miróbriga e Conímbriga) em Portugal de uma cidade romana não sobreposta por povoados modernos?

Cristina Corsi conhece bem Ammaia. Ela foi a coordenadora, com Frank Vermeulen, do projecto Radio-Past, uma escavação digital em Ammaia divulgada em 2013, depois de cinco anos de trabalho no terreno. A equipa agregada no projecto, sob a égide da Universidade de Évora, começou por criar um mapa topográfico da região. Seguiu-se um intenso levantamento geofísico integrando diversas técnicas com a resistividade eléctrica e prospeção geomagnética e com um georradar (GPR), que permitiu identificar a planta da cidade e arredores, com pormenores notáveis sobre as principais ruas e monumentos.

Tecnologia e epigrafta

Conhecem-se inscrições provenientes de Ammaia há mais de um século e o próprio debate sobre a localização da cidade roma- na foi muito influenciado pela interpretação deficiente de uma estela, cuja leitura parecia remeter a urbe para a área urbana de Porta- legre. Desde a década de 1980, têm ocorrido publicações frequentes com propostas de interpretação dos diversos materiais epigráficos da cidade, com destaque  para os trabalhos de José d’encarnação, Vasco mantas (universidade de coimbra) e Amílcar guerra (universidade de Lisboa).

No último Verão, Hugo Pires,  do centro  de Investigação  em  ciências  geoespaciais da universidade do Porto, aplicou o seu modelo de Resíduo morfológico (mRm) a várias estelas, aras e lápides que constituem o acervo da fundação cidade de Ammaia. Digitalizou tridimensionalmente cada objecto, fazendo depois ressaltar diferentes profundidades da superfície e permitindo leituras de maior sensibilidade. “É importante sublinhar que este método não é milagroso, uma vez que em muitas situações o estado do monumento não permite resultados satis- fatórios – porque existe uma condicionante inerente ao próprio objecto de análise”, diz Amílcar guerra. “mas não restam dúvidas de que fornece material útil para o trabalho do epigrafista.” A sua principal vantagem reside no facto de ser “neutro”, isto é, liberto das sombras que o tradicional método da luz rasante gera. este tipo de imagem é, por isso, depurado desses elementos que podem perturbar a leitura. Por outras palavras, “não está ‘viciado’ pela escolha de uma foto colhi- da em determinadas condições de luz, que podem condicionar a leitura”.

Apresentamos três exemplos: dois nos quais o mRm permitiu chegar a conclusões diferentes e um que corresponde a um caso ainda não resolvido.

Disparando impulsos electromagnéticos para o solo, a equipa mediu os sinais reflectidos pelas estruturas e comparou-os com os de cidades já conhecidas – algumas escavadas, outras não.

A partir dessa informação, o austríaco Michael Klein, da empresa 7Reasons, com vasta experiência na cidade soterrada de Carnuntum entre outras, construiu um impressionante modelo 3D da cidade e das suas infra-estruturas. “O Michael tem a capacidade de juntar engenheiros, arquitectos e arqueólogos e interpretar soberbamente dados geofísicos e estruturas arqueológicas”, diz Joaquim Carvalho. O resultado foi uma reconstituição preciosa da cidade, embora menos de 1% da área urbana esteja efectivamente escavada.

No Verão passado, Carlos Fabião iniciou trabalhos arqueológicos na zona mais promissora para a localização do Fórum e comprovou in loco que ali se ergueu uma estrutura com 88 metros por 66, que ocupará as próximas campanhas. “A detecção do Fórum foi importante porque talvez permita estabelecer uma data mais precisa para a fundação da cidade, visto ser este um elemento fundamental para a constituição da comunidade e presumivelmente uma das primeiras edificações”, diz.

A geofísica sugeriu igualmente a existência de dois aquedutos e uma pedreira nos arredores da área urbana, mas ainda não há pistas sobre estruturas que deveriam igualmente existir numa urbe desta dimensão: o teatro e o anfiteatro. “A geofísica é uma ferramenta interessante, que permite delimitar a cidade e identificar as suas características, mas não substitui o trabalho de avaliação da dinâmica de ocupação de Ammaia”, diz o arqueólogo. “Precisamos de informação sobre como foi construída e como foi planificada. Terá a desafectação do Fórum correspondido ao fim da cidade? Em Conímbriga, isso não sucedeu.”

“quer ver o ouro de ammaia?” A pergunta colhe de surpresa, sobretudo porque provém de Carlos Fabião, um dos arqueólogos mais activos no combate à “tesourificação” – a associação da arqueologia a tesouros, jóias e materiais preciosos. O espanto, porém, esbate-se rapidamente. Somos conduzidos ao depósito do moderno laboratório onde operam a tempo inteiro Dulce Osório e Carina Maurício, duas bolseiras especializadas em conservação e restauro de materiais arqueológicos (cerâmica, moedas, vidros, etc.) O “ouro de Ammaia” são as bases de colunas de mármore fino. Contra as expectativas, resistiram à erosão e à pilhagem e aqui permanecem há quase dois mil anos.

Para além do trabalho arqueológico e das vicissitudes da geofísica, a Fundação Cidade de Ammaia tem concentrado esforços para aumentar a massa crítica sobre todo o tipo de materiais que aqui afloram. “Passe a presunção, mas queremos fazer uma espécie de biblioteca de rochas ornamentais aqui encontradas, na esperança de mapear a sua proveniência e perceber melhor a articulação da cidade com o Império Romano.” O mármore é um desses casos. Por tradição, a sua proveniência tem sido associada às pedreiras de Estremoz, ainda hoje activas, mas não tem necessariamente de ser assim. “Uma dissertação de mestrado defendida em Espanha no mês passado propôs que alguns mármores de Ammaia poderiam afinal provir de Almadén de la Plata, na Sierra Morena. E esse conhecimento muda a compreensão do espaço.” Menos nobres do que o ouro das moedas ou jóias, os estudos sobre bronzes romanos, sobre zonas de lixeira do Fórum ou até sobre zooarqueologia são igualmente fundamentais para integrar a cidade na sua época.

A Fundação concentrou esforços na formação de competências entre a equipa que aqui trabalha. Ammaia já alimentou a tese de doutoramento de Vítor Dias sobre cerâmicas comuns da cidade e provenientes das necrópoles, a tese de mestrado de Maria Inês Cardososobreargamassasea dissertação de doutoramento de Devi Taelman sobre a importação de rochas para a cidade. Outros trabalhos sobre joalharia (de Graça Cravinho), vidro (Mário da Cruz), cerâmicas finas (José C. Quaresma), numismática (José Ruivo), estruturas arquitectónicas e técnicas de construção também já brotaram. Detemo-nos num último espaço – a impressionante Porta Sul, escavada na década de 1990 e cenário improvável de um recente festival musical nocturno. Estas e outras ruínas de Ammaia mereceram da Fundação Calouste Gulbenkian o prestigiado Prémio Vilalva em 2009, tendo na altura o júri destacado “a grande relevância histórica, patrimonial e técnico-científica do projecto de recuperação e valorização”. De alguma maneira, tantos séculos depois, a cidade voltou a ser colocada no mapa.

Pedra a pedra, a equipa de restauro utiliza argamassas produzidas à imagem das originais após análises do Laboratório Hercules, da Universidade de Évora, outro dos parceiros deste ressurgimento de Ammaia. Foi uma piscadela de olho à história e à serra que, ao fundo, vigia a antiga cidade romana, e a constatação de que Ammaia será, afinal, o que quisermos fazer dela. 

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