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No Museu Nacional de Arte Antiga, os Painéis de São Vicente são analisados por uma câmara de reflectografia de infravermelhos. No monitor, o investigador tem acesso aos esboços prévios produzidos pelo autor da obra.

E se a ciência identificasse o DNA da lã utilizada nos tapetes de Arraiolos? A tecnologia existe em Évora e os projectos do Centro HERCULES estão a mudar o conhecimento sobre o património.

Texto e Fotografias: António Luís Campos

Ao entrar pela porta da sacristia da capela de Santo Aleixo, hoje uma ruína sombria quase engolida pela vegetação, perdidos na imensidão do montado alentejano, o assombro não poderia ser maior. Deparamo-nos com paredes repletas de elaboradas pinturas murais do século XVI. O cenário envolvente é quase apocalíptico: o tecto da nave principal já não existe, o chão está coberto de urtigas e uma fissura assustadora ameaça o que resta da abóbada na zona do altar. O avançado estado de degradação desta capela, e de muitas outras, aliado ao valor artístico e patrimonial dos frescos que teimam em resistir ao abandono, são os alvos de um projecto ímpar.

A iniciativa parte do Centro HERCULES, acrónimo para Herança Cultural, Estudos e Salvaguarda, uma estrutura da Universidade de Évora, parceira do Instituto dos Museus e da Conservação, que procura juntar tecnologia de ponta e uma equipa multidisciplinar para investigar e intervir no património, muitas vezes in situ, reescrevendo metodologias e apresentando resultados surpreendentes.

Constituído por uma equipa de dez cientistas e quatro alunos de doutoramento, o HERCULES está dotado de equipamento científico de topo, que inclui um microscópio electrónico de pressão variável com uma capacidade de ampliação de 300 mil vezes, permitindo a análise da constituição química e elementar de objectos de grande dimensões. O Centro disponibiliza a historiadores e arqueólogos dispositivos pouco comuns nas instituições nacionais. Sinal da dinâmica que o anima, poucos meses após o arranque das actividades, tornado possível pelo apoio financeiro do mecanismo EEA Grants, são mais de uma dezena os projectos em curso, cujo orçamento ultrapassa já 1,5 milhões de euros.

No laboratório, de jeans e botas de montanha, contrariando a ideia feita do cientista descabelado, o geólogo José Mirão, um dos responsáveis do HERCULES, assoma à porta com um estranho objecto nas mãos: é um fragmento de cerâmica da Idade do Ferro recolhido em Garvão, no concelho de Ourique, num dos mais importantes sítios arqueológicos deste período conhecidos na Península Ibérica. “Têm sido descobertos neste local pratos com uma forma específica de construção da base, que utiliza um tipo de barro diferente, menos gordo”, explica. “Analisaremos esta amostra para identificar a composição das argilas e a relação que possa existir com os demais achados. Talvez nos permita identificar a origem desta particularidade e nos dê outra perspectiva sobre o mundo naquela época e a relação da região com o resto da península e do Mediterrâneo.” Através da análise química, é possível destrinçar o processo de fabrico e a origem das matérias-primas. Esteticamente, identificaram-se já as influências estilísticas, nomeadamente celtas, mas também cartaginesas e fenícias. Mas falta a prova dos nove – a química. A descoberta deste sítio arqueológico em Garvão remonta à década de 1980. Obras de saneamento básico no local revelaram então múltiplos objectos de olaria. Os trabalhos foram suspensos e um arqueólogo foi chamado, identificando o local como um depósito votivo. Seria um depósito onde se arrumariam as oferendas a um templo que até hoje permanece desconhecido, provavelmente nas imediações. Aliás, quem visita o local encontra apenas um barracão que protege o sítio da escavação.

Para além do contributo para estudar os artefactos, o HERCULES tem outro desafio pela frente: identificar a necrópole perdida. Em breve, será utilizado um georradar, equipamento raro em Portugal que, sem necessidade de escavações prévias, sondará o solo em busca de edificações soterradas. Para já, porém, o trabalho de seriação do espólio está em curso, realizado no Centro Arqueológico Caetano de Mello Beirão, que funciona na fria cave do cineteatro de Ourique. Esse esforço tem sido orientado por Françoise Mayet, investigadora francesa que, aos 75 anos, vem nos tempos livres a Portugal, no seu próprio carro, tal a relevância e paixão por este património. O trabalho arqueológico, definitivamente, deixou de estar restrito ao campo.

Mais a norte, no interior da sacristia do Mosteiro da Batalha, classificado como Património Mundial pela UNESCO, andaimes preenchem o espaço. No topo de quatro pisos, junto ao tecto, Sara Valadas recolhe amostras de algumas das mais antigas pinturas murais conhecidas em Portugal – pintadas entre 1403 e 1433 – sob o olhar atento do responsável pela intervenção, o conservador-restaurador José Pestana, cuja tarefa é o tratamento do conjunto pictórico”. Para conhecer e respeitar ao máximo o trabalho original no restauro, realizar-se-ão no HERCULES análises fisíco-químicas às amostras retiradas, que permitirão aos conservadores identificar o tipo de tintas utilizadas, as alterações de cor sofridas e os tratamentos a aplicar para uma intervenção rigorosa.

Depois de concluída, qualquer obra artística parece definitiva, sem espaço para dúvidas, como se o autor tivesse começado e acabado a sua concepção sem hesitações. A realidade nem sempre corresponde a essa conjectura. E nada como viajar até ao coração da arte portuguesa para uma nova apreciação de uma das mais vibrantes heranças artísticas do país.

Com uma deslumbrante vista para o Tejo, em Lisboa, António Candeias, director do HERCULES e do Laboratório de Conservação e Restauro José de Figueiredo, unidade integrada no Instituto dos Museus e da Conservação, coordena um apaixonante projecto no Museu Nacional de Arte Antiga. Formado em Química de Superfícies, o investigador faz medições para a montagem do OSIRIS, uma câmara de reflectografia de infravermelhos desenvolvida pela National Gallery de Londres, que conta também com utilizações militares, pois “vê” através de cortinas de fumo. O engenho tem revolucionado a forma como são analisadas as obras de arte, motivando vivas discussões sobre a autoria de pinturas. Na década de 1990, por exemplo, um auto-retrato atribuído a Rembrandt foi analisado com esta técnica e motivou a conclusão de que o tipo de produção artística não corresponderia ao do pintor na grande maioria das suas obras conhecidas. Actualmente, esse quadro é atribuído a um dos alunos do mestre holandês.

A entrar na casa dos 40 anos, com os primeiros cabelos brancos a despontar, o investigador personifica o novo fôlego que a tecnologia veio dar ao estudo e conservação do património. Em frente aos Painéis de São Vicente, as mais emblemáticas pinturas da arte portuguesa, o dispositivo fotografa informação invisível ao olho humano. Lentamente, no ecrã do computador, começam a surgir os esboços subjacentes à pintura final, dando importantes indícios das técnicas que o pintor usou e das diversas experiências e arrependimentos pelos quais a obra passou até chegar à versão definitiva. No âmbito das comemorações do centenário da República, o museu vai receber uma exposição inédita: ao lado das mais importantes obras da pintura primitiva nacional, estarão reflectografias da própria pintura (fotografias obtidas com o OSIRIS), em tamanho real, que permitirão ao visitante comparar o resultado final e várias das fases que a obra atravessou (não só de pintura mas também de intervenções).

Dependendo do artista, as imagens subjacentes variam de simples esboços a um desenho completo. Esta tecnologia, que em poucas semanas já permitiu analisar mais de 160 obras, é de óbvia utilidade para os historiadores de arte, auxiliando a validação da identidade do autor através do tipo de esboço inicial e dos elementos não incluídos na última versão e permitindo a comparação com outros trabalhos a ele atribuídos.

Os estudos realizados até agora pelo Centro HERCULES em parceria com o Laboratório José de Figueiredo têm levantado várias questões sobre a atribuição de autoria de diversas pinturas portuguesas e representarão certamente uma nova etapa na historiografia de arte em Portugal.

António Candeias, que se refere com humor ao seu trabalho como “CSI ou Cultural Science Investigation [Investigação em Ciência Cultural]”, afirma que “as metodologias adoptadas no HERCULES aproximam-se em muitos aspectos às utilizadas nas ciências forenses, tanto nos procedimentos como nos equipamentos”. Dispositivos como um espectrómetro de fluorescência raio X, o cromotógrafo gasoso ou o microscópio Raman podem ser vistos regularmente em séries televisivas, apesar da pitada de ficção que nelas existe. É possível por exemplo analisar a estrutura do DNA da lã utilizada em tapetes de Arraiolos com centenas de anos, o que permitirá identificar que tipo de ovelhas eram criadas na época, identificar os corantes naturais usados para tingir a respectiva lã ou perceber a que fim estavam destinadas determinadas ânforas romanas (armazenamento de vinho ou azeite), dependendo do tipo de ácido (tartárico ou oleico, respectivamente) que se encontrar na argila. No fundo, o HERCULES fornece novas ferramentas para reanalisar património e debater conclusões previamente assumidas.

De volta ao Alto Alentejo, Milene Gil conduz-nos a mais uma das ermidas em risco de colapso. Estudante de pós-doutoramento, a investigadora detecta as ameaças a que as pinturas murais estão expostas, avaliando a biodegradação, propondo metodologias de actuação e lançando alertas para uma maior responsabilização pelo património. Perto da entrada, com olhar nervoso e passo ligeiro, antecipa a nossa pergunta e explica: “Aqui há gado bravo! Por vezes abriga-se no interior da capela, daí que alguém tenha de ficar de vigia à entrada para não sermos surpreendidos!” Mentalmente, o plano de fuga fica delineado: saltar por uma janela, onde certamente um touro teria dificuldade em passar, e esperar que lá fora não tenhamos companhia... Noutras circunstâncias o insólito da situação provocaria gargalhadas, não fosse sintomático da premência de intervenção nestes locais. Resta a expectativa de que a ciência permita efectivamente ajudar a salvar o valioso património artístico e arquitectónico que Portugal encerra.

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