alto da vigia

Nas imediações da praia das maçãs, em sintra, um sítio arqueológico desafia a imaginação dos historiadores há muito tempo – Mais precisamente há quinhentos anos…

Texto: Gonçalo Pereira Rosa

Fotografias: Mário Rio

Ilustrações: Anyforms

Em Agosto de 1505, Dom Manuel I foi informado de um estranho acontecimento produzido num morro sobranceiro à Praia das Maçãs.

Ao abrigo do processo em curso de fortificação da costa portuguesa, o rei mandara construir uma vigia no local, mas as pás e os ferros dos operários, ao revolverem o solo, abriram inadvertidamente um portal para a Antiguidade. A seus pés, jaziam agora três aras com estranhas frases gravadas.

O rei foi informado e visitou o local – sabemo-lo através de duas cartas que Valentim Fernandes, membro da corte que fora um dos responsáveis pela introdução da imprensa em Portugal, escreveu a amigos na Alemanha. Nelas, narra a visita do rei ao local e dá conta de um episódio ainda mais curioso: Cataldo Sículo, um siciliano que viera para o país em 1485 e que deverá ter trazido com ele os ventos do Renascimento, acompanhou o rei na visita. Erudito, leu as frases em latim, interiorizou o conteúdo e improvisou de seguida um epigrama neolatino, explicando ao rei embevecido que as aras homenageavam o império português, descrevendo a profecia das sibilas, que previa o dia em que as pedras se virariam sobre si próprias e surgiriam à superfície na era maravilhosa em que as riquezas dos rios Ganges e Indo entrassem pelo Tejo. 

Tudo isto seria decretado pelo Sol Eterno e pela Lua, mas só esta referência correspondia ao texto das inscrições. “O resto foi um golpe de marketing político”, diz, com uma gargalhada, o historiador José Cardim Ribeiro, fundador e primeiro director do novo Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (MASMO). “Tratou-se de uma interpretação erudita, mas certamente política para bajular o rei. Foi tão bem-sucedida que a profecia falsa foi repetida em livros do século XVI e do início do século XVII, incluindo no prefácio de Nostradamus. Já recolhi cerca de oitenta menções. Poderá parecer ridículo hoje, mas na época teve grande impacte.”

Na verdade, os operários de Dom Manuel tinham exposto vestígios de um velho culto da Antiguidade, praticado no Alto da Vigia e caído em esquecimento à medida que o paganismo romano dera origem ao monoteísmo do final do império.

Outros autores eruditos do século XVI não tomaram à letra a farsa de Sículo e, nos anos seguintes, deram-se ao trabalho de viajar até este ponto ermo do território para ver as inscrições. Na Antiguidade, note-se, o mundo conhecido terminava no cabo da Roca e no mar revolto que o rodeia.

No local, o ruído da rebentação constante embala o caminhante à medida que este perscruta o horizonte, abrangendo a reentrância do cabo da Roca à esquerda e o oceano infinito em frente.
À direita, um vale e a praia separam o Alto da Vigia das urbanizações da Praia das Maçãs. Girando para trás, avista-se a serra de Sintra, ou monte da Lua, como era conhecida no período romano.
A nossos pés, estende-se uma falésia quase vertical até ao mar. Gozando o momento, Cardim Ribeiro dispara: “Não encontra melhor local para implantar um santuário.” 

Era possível no século I d.C. navegar pelo esteiro que então corria na actual praia e ter acesso ao local por via marítima ou terrestre. Em noites límpidas, o Sol põe-se no oceano e a Lua por trás da serra, iluminando subitamente a região como se todos os interruptores do Palácio da Pena se ligassem. Para um romano, deveria parecer o local ideal para implantar um santuário de culto ao Oceano.

As aras permaneceram no local nos anos seguintes à descoberta de 1505. “Em certos aspectos, foi a primeira descoberta arqueológica portuguesa”, diz Cardim Ribeiro. “Embora acidental, foi documentada e o rei deu ordem para deixar as pedras inúteis, ou seja, para não as reutilizarem noutros contextos.” 

alto da vigia

O vale do rio de Colares terá atingido o máximo de água há cinco mil anos, altura em que a região também era povoada por comunidades pré-históricas. Existe aliás um monumento funerário neolítico junto da Praia das Maçãs. O esteiro navegável colocou problemas de segurança até ao século XVIII, altura em que a colmatação do vale criou a popular praia. A construção de uma vigia manuelina para garantir a segurança da costa desencadeou os achados de 1505.

O primeiro visitante de que há notícia foi o futuro bispo de Viseu e futuro embaixador de Dom Manuel I junto do papa, Dom Miguel da Silva. Recém-chegado de Itália em 1512, vinha imbuído do espírito do Renascimento e do culto das antiguidades clássicas. A curiosidade levou-o ao Alto da Vigia e ali reproduziu, com rigor, duas das três inscrições. “A terceira já estaria ilegível”, comenta a arqueóloga Teresa Simões, actual directora do MASMO. As duas inscrições reproduzidas davam conta de consagrações ao Sol e à Lua e ao Sol Eterno e à Lua, referências então desconhecidas no estudo da mitologia romana.

Tal como hoje qualquer visitante ilustre de Sintra sobe ao Palácio da Pena, os ilustres do século XVI desfilaram perante as aras romanas. O infante Dom Luís, o irmão erudito de Dom João III (sobre quem se dizia “Teve tudo, só lhe faltou ser rei”), foi uma dessas figuras. Visitou igualmente o local cerca de 1540 e conduziu lá outra figura notável da época, o jovem humanista Francisco de Holanda, regressado de Itália. Devemos a este talentoso escritor e desenhador uma peça fundamental do enigma da Praia das Maçãs.

Venha, vou mostrar-lhe o sítio exacto onde Francisco de Holanda se sentou para desenhar o santuário”, brinca José Cardim Ribeiro, enquanto nos conduz entre a vegetação quase rasteira mas densa do Alto da Vigia. O humanista não se contentou com a observação do sítio arqueológico: desenhou-o, implantando na paisagem um círculo de 16 aras, com um disco central e talvez a sugestão da Lua na margem e o Sol no horizonte. Naturalmente, Cardim Ribeiro não encontrou o local exacto da observação do humanista (embora não resista a brincar com a nossa equipa de ilustradores, lembrando-lhes a responsabilidade de serem os primeiros, depois de Francisco de Holanda, a reproduzirem o santuário romano), mas aponta para o local que permitiu a redescoberta do sítio, já no século XX. 

 alto da vigia

As crónicas vikings contêm um pequeno poema, descrevendo uma incursão violenta do rei Sigurd I em Sintra. Conjectura-se que o desembarque ocorreu na Praia das Maçãs. A confirmar-se, os vikings teriam certamente avistado o ribat islâmico no Alto da Vigia.

O recorte da costa na margem direita do desenho corresponde ao recorte actual da paisagem. Contrapondo a reprodução de Holanda à observação contemporânea, o arquitecto Jorge Segurado propôs, em 1970, que o Alto da Vigia corresponderia ao sítio onde apareceram as aras manuelinas. Não se conseguiu então fundamentar a hipótese, mas a conjectura pairou na mente de eruditos como o então estudante José Cardim Ribeiro. 

Tinham então passado quase cinco séculos desde a descoberta acidental e os peritos dividiam-se.
Para os epigrafistas, parecia evidente que as transcrições do bispo e, mais tarde, de André de Resende teriam de corresponder a achados concretos; para os historiadores de arte, os desenhos de Francisco de Holanda não eram necessariamente correspondentes a um sítio físico e palpável. Desde o século XIX que epigrafistas famosos como Emílio Hübner tinham vindo a Sintra com o propósito explícito de deslindar o mistério e identificar a fonte das aras. Regressaram a casa com as mãos vazias.

A memória colectiva é, aliás, um processo curioso – preserva alguns traços e esquece outros, sem um critério aparente. O sítio do Alto da Vigia continuou a ser visitado no século XVI, mas as aras foram desaparecendo. “As pedras andam”, brinca Teresa Simões. “Não damos por isso, mas elas são movimentadas pelas razões mais incríveis e avançam de aldeia em aldeia.” Quando André de Resende visitou o santuário, aproximadamente em 1540, já uma das aras fora deslocada para a ermida de Nossa Senhora de Melides, em Colares. Sabe-se que a outra terá sido levada em data incerta para o antigo convento da Pena e hoje deverá estar integrada algures nos alicerces do Palácio.

A terceira, a que estava quase ilegível no século XIX, foi encontrada por Teresa Simões na década de 1990 num jardim privado da Assafora a servir de pé de mesa. Foi recuperada para o MASMO e, graças ao Modelo Residual Morfológico do investigador Hugo Pires, tornou-se possível ler que também está consagrada ao Sol e ao Oceano.

No final do século XVI, caíra sobre o episódio de 1505 uma das típicas brumas sintrenses. O último viajante ilustre a observar as epígrafes deverá ter sido Honorato Juan, o preceptor de Dom Sebastião. Depois, desaparecem as referências concretas na documentação. Cardim Ribeiro tem uma explicação concreta para essa obscuridade: “Para compreender, tem de pensar na ‘História Natural’ de Plínio, o Velho”, diz. A obra relata um episódio ocorrido em meados do século I, durante o qual os cidadãos de Olisipo enviaram uma embaixada ao imperador Tibério, informando o soberano de que, numa grande gruta do litoral da cidade, aparecera um tritão a tocar búzio. O caso foi integrado nos chamados mirabilia, ou seja, as observações extravagantes de Plínio. “Mas e se não tiver sido uma extravagância?”, pergunta o historiador. “Certamente não existem tritões nem Tibério receberia uma embaixada de bacocos a falar de tritões. Inclino-me para a hipótese de a embaixada ao imperador ter incluído um cortejo alegórico, onde, aí sim, a figura de um tritão tocaria búzio. A representação teria agradado aos romanos e Plínio recordá-la-ia com um sorriso nos lábios, numa ironia que nos escapou vinte séculos depois.”

Fosse como fosse, o episódio do tritão foi recuperado por outro humanista, Damião de Góis. Na sua “Descrição de Lisboa”, Góis recupera o episódio, dando-lhe algum crédito e situando o acontecimento no Fojo, o grande algar que existe na praia da Adraga, a sul da Praia das Maçãs.
“É um algar monstruoso que se abre aos nossos pés e por onde o mar avança”, diz Cardim Ribeiro. “A partir da obra de Damião de Góis, o Fojo passou a ser o sítio de romagem dos eruditos, a ponto de, no primeiro mapa geral de Portugal (de Álvaro Seco, em 1570), a região de Lisboa se limitar aos topónimos de Lisboa, Cascais, Roca, Sintra, Colares e… ao minúsculo Fojo.” A memória do Alto da Vigia desvaneceu-se até Jorge Segurado publicar, em 1970, as gravuras de Francisco de Holanda, cujos originais permanecem no Palácio da Ajuda, propondo que o sítio seria real e corresponderia ao Alto da Vigia.

O uso do solo mudou na região de Sintra, mas, no Alto da Vigia, o tempo parece correr a uma velocidade mais suave. Há fotografias do início do século XX com ovelhas a pastar no local e, pouco depois, foram plantadas vinhas no terreno. Que se saiba, porém, o solo nunca foi revolvido por actividades humanas no último milénio. Na derradeira metade do século XX, as tentativas de mitigação da erosão levaram à plantação de vegetação rasteira. Quem adivinharia que ali se situaria um pedaço relevante da história imperial?

Um dia, na década de 1980, Cardim Ribeiro conduziu uma sondagem informal no local. “Foi uma pequena patifaria”, diz, com mais uma sonora gargalhada. “Num ponto muito próximo da vigia manuelina, fizemos uma sondagem de um metro por um metro. Hoje, sabemos que passámos a centímetros de um recinto islâmico.” Mais tarde, com uma retroescavadora disponível para uma obra municipal, conduziu-se nova sondagem informal noutro ponto, “que só deu areia”. As imagens posteriores de geofísica, realizadas em 2011, confirmam que uma vez mais a sondagem estivera a curta distância de encontrar provas da existência do santuário, como um médico realizando biopsias que falham por milímetros o tecido maligno.

O momento Eureka aconteceu nas instalações do Museu. Frustrada com a incapacidade para provar a existência real do santuário romano, a equipa recapitulou todos os fragmentos da história de que dispunha: as cartas de Valentim Fernandes, as transcrições dos eruditos, os desenhos de Francisco de Holanda. “Lembro-me de perguntar à Teresa o que andariam os trabalhadores de Dom Manuel a fazer naquele local quando encontraram as aras. Só poderiam estar a construir a vigia, embora se pensasse entre os historiadores que as vigias desta costa seriam filipinas. Colocámos por isso a hipótese de as aras terem aparecido precisamente no local escolhido para a implantação da vigia. Esse, portanto, deveria ser o primeiro local a escavar”, comenta Cardim Ribeiro.

aras

Fragmentos de cultos esquecidos. Os vestígios materiais encontrados até agora não abundam, mas as epígrafes em aras são particularmente relevantes. O Alto da Vigia contém metade de todas as inscrições conhecidas no Império Romano em honra do deus Oceano, o que sugere a singularidade deste culto e a importância do santuário da zona de Sintra. Algumas aras (como esta em baixo, à esquerda) expressam a erudição dos dedicantes, ora registando em grego a sua promessa, ora declinando, com tiques de perfeccionismo, a mensagem para a posteridade. O currículo dos dedicantes é impressionante: só os governadores da Lusitânia faziam oferendas no Alto da Vigia.

Em 2008, no contexto de trabalhos arqueológicos para viabilizar um passadiço previsto para o Alto da Vigia, a equipa do MASMO, dirigida por Alexandre Gonçalves, iniciou as escavações. Como nas matrioskas russas, encontrou uma surpresa dentro de outra surpresa. Desmontada a vigia de Dom Manuel, começaram a aparecer construções estranhas, de época islâmica. “Não percebemos logo o que era”, lembra o arqueólogo. “Quando identificámos uma mesquita, um segundo edifício anexo de função utilitária e uma necrópole associada com vários sepultamentos orientados pelo rito islâmico, fez-se luz: era um ribat, um posto de defesa da costa e de recolhimento espiritual.” Trata-se aliás do segundo ribat conhecido em Portugal e o terceiro na Península Ibérica.

Os arqueólogos envolvidos em trabalhos árduos, muitas vezes presos por arneses quase no limite da falésia, começaram a atrair curiosos. Certo dia, encontrou-se uma ara romana implantada na estrutura muçulmana. “Estava virada ao contrário”, lembra Alexandre Gonçalves. “Virámo-la e ficámos encantados. Dizia ‘Sol e Oceano’ na primeira linha.”

“Essa ara descodifica tudo”, prossegue Teresa Simões. “Contém uma inscrição claramente do santuário e está em contexto islâmico de reutilização.” A equipa acabara de comprovar que o Alto da Vigia fora de facto o local de implantação de um santuário romano e, meio milénio depois, acolhera um ribat islâmico. “Uma vez mais, faz sentido a escolha do local”, comenta Cardim Ribeiro.
“O oceano é, na época, um deserto, um espaço não franqueado, propício à reflexão e ao recolhimento espiritual. As estruturas que encontrámos estão no último local possível para edificações. Para a frente, só fica a falésia.”

alto da vigia

Em Agosto de 1505, movido pela curiosidade, Dom Manuel I deslocou-se a Colares para ver as aras recém-descobertas. O siciliano Cataldo Sículo interpretou-as criativamente, dando a entender
ao rei que as mensagens do subsolo louvavam o império português.

Nos últimos onze anos, as escavações avançaram no Alto da Vigia. Nos contextos romanos, emergiu uma edícula, um nicho oratório, bem com um fragmento de um extenso lintel e um bloco rusticado de construção, que indiciam a convivência, no morro, de pequenas construções com um grande templo. Com perseverança, a equipa de Alexandre Gonçalves encontrou mais inscrições dedicadas ao Sol e ao Oceano, consolidando a certeza de que, no extremo ocidental do império, existiu um culto destas divindades.

Uma das provas da singularidade deste santuário certamente sancionado pelo poder imperial são as quatro inscrições consagradas ao deus Oceano já encontradas. “Correspondem a metade de todas as conhecidas no império”, explica Cardim Ribeiro. “Há cultos do Oceano na Grã-Bretanha, no Reno e uma referência, na narrativa de Alexandre, o Grande, à consagração da divindade à chegada ao Indo. É portanto uma divindade rara dos limites do mundo conhecido.” A foz de Colares corresponderia ao limite ocidental do planisfério romano.

As oito aras conhecidas (que, com o lintel  e a placa com o carmen totalizam dez inscrições) distribuem-se entre a época de Adriano (no início do século II) e a de Aureliano ou Probo (em cerca de 275-280 d.C.). Sugerem que, durante cerca de um século e meio, praticou-se aqui um culto, sacrificando animais de características específicas ao Oceano, à Lua e ao Sol.
Às divindades masculinas, ofereciam-se machos e às femininas fêmeas. Existia também uma hierarquia dos animais a dedicar, com destaque para os cavalos (quando existiam) e para os bois.
Os animais dedicados a divindades celestes seriam brancos. Os deuses do submundo receberiam animais escuros. “Não sabemos em concreto o que sacrificariam em honra de Oceano, pois não há paralelos no império”, diz Cardim Ribeiro. “Ao Sol, seria seguramente um touro branco, com os cornos pintalgados de dourado.”

A informação das dedicatórias tem sido particularmente notável. Todas as epígrafes em honra de Oceano foram feitas por governadores da Lusitânia, representantes do poder imperial na província. “Há a hipótese, pela semelhança do nome de um dos ofertantes, de uma das aras ter sido dedicada por um legado, filho do governador do Pretorium (o corpo policial do imperador Cómodo) que, cinco anos depois da dedicatória, foi morto por conspiração contra o imperador. Como se vê, tivemos VIP aqui em Sintra!”, brinca Cardim Ribeiro.

O progressivo monoteísmo do império trouxe, naturalmente, mudanças para o santuário.
A conversão ao cristianismo desautorizava cultos pagãos oficiais, mas as dedicatórias tardias revelam que, nas franjas do império, uma teimosia nostálgica levava alguns nobres locais a manterem fidelidade ao velho culto. Há indícios mais tarde, talvez no século V d.C., de destruição propositada, provavelmente durante a fase de maior fanatismo religioso e de tensão entre monoteístas e politeístas. Como lembra Alexandre Gonçalves, “ainda só escavámos 4% da área total e teremos muito para descobrir. Gostaria particularmente de encontrar a cultura material que permitisse enquadrar os ritos romanos e, meio milénio depois, os islâmicos. Talvez um dia apareçam algumas estátuas e edifícios não tocados pelo ribat”.

Cardim Ribeiro acredita que as próximas campanhas revelarão mais inscrições e as provas do templo circular cujos restos Francisco de Holanda talvez tenha visto quando desenhou a sua estrutura circular. “E seria perfeito encontrar o depósito de objectos votivos, onde poderão estar os restos dos animais sacrificados e as lucernas ofertadas”, sonha. Depois, claro, ainda há a pista viking.

Em 1107, o rei nórdico Sigurd I percorreu a costa portuguesa, parando em algumas zonas para incursões devastadoras. As sagas nórdicas contêm um poema sobre o episódio. Relatam incursões na costa inglesa e na Galiza. Prosseguindo para sul, os homens de Sigurd detiveram-se em Sintra, onde encontraram em 1109 uma comunidade de “hereges” – certamente os muçulmanos que controlavam o território. O poema regista que Sigurd não deixou “nenhum herege” vivo. 

Desde o século XIX que se especula que o ponto de entrada em Sintra tenha sido a Praia das Maçãs, então navegável pelo esteiro de Colares. “A ser assim, Sigurd teria desembarcado aqui numa fase em que o ribat do Alto da Vigia estava activo, no século XII”, diz Cardim Ribeiro. É tentador pensar que o explorador nórdico terá visto as construções islâmicas, diz o historiador, olhando para o ponto onde alguns banhistas tardios desafiam o sol do Outono e aproveitam o calor, indiferentes às sagas dos homens do Norte.

 Não é comum encontrar um autarca que domine o latim, mas Basílio Horta, presidente da Câmara Municipal de Sintra, faz questão de ler e interpretar a inscrição cristianizada na gravura de Francisco de Holanda antes de iniciar a entrevista. 

O edil tem na mão a chave para o futuro do sítio arqueológico do Alto da Vigia, pois a totalidade dos terrenos afectados pertence a privados.

“Num concelho de grande riqueza arqueológica, o Alto da Vigia é uma das nossas prioridades, talvez a mais importante”, explica. “Existem algumas dificuldades porque as escavações só poderão prosseguir com uma licença de utilização ou com a expropriação, mas quero sublinhar que temos dinheiro para isso e avançaremos para cumprir o nosso dever. Não é admissível ter esta riqueza no subsolo, saber que ela lá está e não a podermos explorar. Chegou o tempo da arqueologia em Sintra.”

Os proprietários das faixas de terreno onde os monumentos estão implantados já foram informados da intenção da autarquia e está em curso uma avaliação independente para estimar um valor justo de expropriação. “Sabemos que as pessoas criaram expectativas com esses terrenos, mas o novo PDM não autoriza construções ali e a classificação do sítio como Imóvel de Interesse Público dará outro enquadramento ao local. Garanto que não vamos deixar cair este projecto, nem deixar a cultura do concelho amputada”, promete Basílio Horta.

Lá fora, apesar da noite cerrada, os últimos carros descem a serra depois de mais um dia de fruição cultural nos monumentos da Paisagem Cultural de Sintra, que comemorará em 2020 o 25.º aniversário da classificação da UNESCO como Património Mundial. Durante o dia, os turistas sentiram certamente na pele os inconvenientes de uma experiência de visita congestionada. “Sintra é vítima do seu próprio sucesso”, diz um dos comerciantes da vila. “Já não tem época baixa. Chegam a estar filas de carros durante uma hora para entrar na Pena.” 

Basílio Horta conhece bem esta realidade e sabe que a capacidade de carga em alguns dos principais ícones da vila está prestes a ser atingida. Apesar das medidas de mitigação desse impacte, com a construção de parques, implementação de slots de visita e tentativa de canalização dos turistas para outros monumentos da vila, o futuro poderá também passar pela arqueologia. “O Norte do concelho está por explorar do ponto de vista turístico”, diz. “Creio que o que ainda está debaixo da terra será o que vai alimentar o futuro. A arqueologia é a grande reserva que Sintra ainda tem.”

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