chá

O Palácio de Potala, antiga residência do Dalai Lama, dominava a paisagem quando as caravanas se aproximavam de Lhasa, a capital do Tibete. Nos séculos XVIII e XIX, esta estrutura de 13 andares era um dos edifícios mais altos do mundo.

Durante muito tempo, trocou-se chá por cavalos ao longo de uma rota lendária. Ainda há vestígios desses caminhos milenares.

Texto: Mark Jenkins

Fotografias: Michael Yamashita

Nas profundezas das montanhas da região ocidental da província de Sichuan, vou abrindo caminho através de uma floresta de bambu, na tentativa de descobrir uma estrada lendária. Há 60 anos, quando grande parte da Ásia se deslocava a pé ou sobre cascos, a Estrada dos Cavalos e do Chá era a principal ligação entre a China e o Tibete. Naquele dia, porém, a minha busca poderia revelar-se vã: poucos dias antes, travara conhecimento com um homem que antigamente transportava pesadas cargas ao longo do trilho. Nessa ocasião, ele avisou-me que o tempo, as condições meteorológicas e as plantas invasoras poderiam ter destruído a Estrada dos Cavalos e do Chá. Mesmo assim, fiz-me ao caminho.

Depois de mais um bambu sucumbir ao golpe do meu machado, vejo à minha frente um caminho empedrado, com pouco mais de um metro de largura, ascendendo numa curva, escorregadio devido ao musgo e quase engolido pela vegetação. Algumas pedras estão crivadas de orifícios deixados pelos cajados com ponta metálica utilizados por centenas de carregadores que percorreram este trilho ao longo de um milénio.

Os restos do caminho empedrado duram apenas 15 metros, subindo um lanço de degraus quebrados e voltando a desaparecer, varridos por longos anos de dilúvio das monções. Sigo em frente, introduzindo-me numa passagem estreita cujas paredes são tão íngremes e escorregadias que preciso de me agarrar às árvores para não cair dentro do riacho pedregoso que corre lá em baixo, muito ao fundo. Tenho esperança de vir a atravessar Maan Shan, a portela que liga Yaan a Kangding.

Nessa noite, acampo acima do riacho. De manhã, prossigo a minha exploração durante mais 500 metros até ser definitivamente travado por uma muralha impenetrável de selva. Vejo-me obrigado a reconhecer que, pelo menos aqui, a Estrada dos Cavalos e do Chá se eclipsou.

A verdade é que grande parte deste caminho desapareceu mesmo. Abraçando temerariamente a modernidade, a China tem vindo a asfaltar velozmente o seu passado. Antes que o trilho seja arrasado, vim explorar o que resta dessa rota outrora famosa mas hoje quase esquecida.

O antigo itinerário estendia-se durante quase 2.250 quilómetros através da região central de Catai, unindo Yaan, na zona de cultivo de chá da província de Sichuan, a Lhasa, a capital do Tibete, a quase 3.650 metros de altitude. Era um dos caminhos mais altos e duros de toda a Ásia. Largava a subir dos vales verdejantes da China, atravessava o planalto do Tibete varrido pela ventania e pela neve, bordejava os cursos gelados do Yangtzé, Mekong e Salween, embrenhava-se nas montanhas de Nyainqentanglha, escalava quatro portelas mortíferas a 5.000 metros e, por fim, descia até à cidade santa tibetana.

estrada do chá

Em 1946, ainda se transportava chá em fardos pela estrada que levava ao Tibete. Fazendo pausas regulares, os carregadores precisavam de três semanas para percorrer os 225 quilómetros entre Yaan e Kangding. A partir daí, eram substituídos por animais de carga.

Muitas vezes, os nevões soterravam o trecho ocidental do trilho e as chuvas torrenciais devastavam o trecho oriental. Os bandidos eram uma ameaça constante. E contudo a rota foi intensamente utilizada durante séculos, apesar de as culturas instaladas em cada um dos seus extremos se desprezarem reciprocamente (e ainda se desprezem). O desejo de comerciar era a razão pela qual o itinerário existia, não o intercâmbio romântico de ideias e valores, cultura e criatividade associado à lendária Rota da Seda, a norte. A China possuía algo que o Tibete desejava: o chá. O Tibete tinha algo de que a China precisava desesperadamente: os cavalos.

Actualmente, a rota perdura nas recordações de homens como Luo Yong Fu, um homem de 92 anos que conheci na aldeia de Changheba, a oeste de Yaan. Quando visitei Sichuan pela primeira vez, disseram-me que já não havia carregadores de chá vivos. No entanto, ao longo da minha viagem pelos últimos troços de Chamagudao, nome chinês para a antiga rota comercial, consegui falar não só com Luo, mas também com mais cinco homens, todos desejosos de contar as suas histórias. Luo vestia um boné negro e um casaco azul, com um cachimbo no bolso. Trabalhara na Estrada dos Cavalos e do Chá como carregador, transportando chá para o Tibete entre 1935 e 1949. Cada carga nunca pesava menos de 60 quilogramas. Em contrapartida, na altura, ele pesava apenas 51.

“Havia grandes dificuldades e a dureza do trabalho era tremenda”, contou. “Era um emprego terrível.”

Luo atravessara inúmeras vezes, de um lado para o outro, Maan Shan, o ponto onde eu esperava chegar. Durante o Inverno, a neve atingia um metro de profundidade, com estalactites de gelo de dois metros de comprimento penduradas das rochas. Luo dissera-me que a portela fora cruzada pela última vez em 1966 e, por isso, duvidava que eu conseguisse fazê-lo.

Acabei por conseguir um vislumbre daquilo que teria sido viajar por aquela estrada. Em Xinkaitian, a primeira paragem do trajecto de 20 dias cumprido pelos carregadores de chá entre Yaan e Kangding, Gan Shao Yu, de 87 anos, barba escanhoada, e Li Wen Liang, de 78, barba por fazer, insistiram em reconstituir as suas vidas como carregadores.

De costas vergadas ao peso de enormes cargas imaginárias de barras de chá prensado, com as mãos de veias salientes apoiadas nos cajados, cabeça para baixo e olhos fixos nos pés, os dois velhos mostraram-me a maneira como progrediam em fila indiana, de andar cambaleante, num troço molhado e empedrado. Ao sétimo passo, Gan parou e bateu com o cajado no chão três vezes, cumprindo a tradição. Os dois homens voltaram o tronco para trás, pousando sobre os cajados a carga encaixilhada em madeira, antes de entoarem a canção dos carregadores:

Sete passos a subir – e tens de descansar. Oito passos a descer – e tens de descansar. Onze passos a direito – e tens de descansar. És tonto se não descansares.

barra de chá

Exemplo de uma barra que assinala o Ano do Cavalo.

Os carregadores de chá transportavam normalmente cargas com 70 a 90kg: os mais fortes conseguiam levar 135. Quanto mais se carregava, mais dinheiro se recebia: cada quilo de chá valia um quilo de arroz no final da viagem. Envergando andrajos e calçando apenas sandálias de palha, utilizavam crampons rudimentares para transpor as portelas nevadas.

“Claro que alguns morreram pelo caminho”, disse Gan com solenidade. “Quem fosse apanhado por uma tempestade de neve morria. Quem caísse do trilho morria.”

O transporte de chá por carregadores terminou pouco depois de Mao tomar o poder em 1949 e da construção de uma auto-estrada. Ao redistribuir a terra, Mao libertou da servidão os carregadores de chá. “Foi o dia mais feliz da minha vida”, exclamou Luo. Depois de receber o seu lote de terra, começou a cultivar o seu próprio arroz e “esse triste período ficou para trás”.

Reza a lenda que o chá foi trazido pela primeira vez ao Tibete quando a princesa Wen Cheng, da dinastia Tang, se casou com o rei tibetano Songtsen Gampo, em 641 d.C. Quer a família real quer os nómadas tibetanos aceitaram o chá por boas razões: era uma bebida quente, num clima frio, onde as alternativas eram a água do degelo, o leite de iaque ou de cabra, o leite de cevada, ou a chang (cerveja de cevada). Uma taça de chá com manteiga de iaque, com o seu sabor salgado, ligeiramente oleoso e pronunciado, proporcionava uma mini-refeição aos pastores que se aqueciam junto a fogueiras alimentadas a dejectos de iaque nas terras do interior.

O chá que viajava até ao Tibete pela Estrada dos Cavalos e do Chá era a forma mais rudimentar desta bebida. O chá faz-se com Camellia sinensis, um arbusto de folha perene. Porém, enquanto o chá verde é produzido a partir de botões e folhas não oxidadas, as barras de chá enviadas para o Tibete ainda são feitas com as folhas mais rijas, ramos e caules da planta. É o mais amargo e menos suave de todos os chás. Após ciclos de vaporização e secagem, o chá é misturado com água de arroz viscoso, prensado em moldes e seco. As barras pesam entre 500 gramas e três quilos e ainda se vendem no Tibete.

No século XI, as barras de chá tinham-se transformado na moeda de troca. A dinastia Song servia-se dele para adquirir no Tibete os corcéis utilizados depois nas batalhas contra as tribos nómadas oriundas do Norte, precursoras das hordas de Gengis Khan. Tornou-se a principal mercadoria de troca entre a China e o Tibete. Por 60kg de chá, os chineses obtinham um cavalo. Foi esse o câmbio estabelecido pela Agência do Chá e dos Cavalos de Sichuan, criada em 1074. Os carregadores transportavam o chá desde as fábricas e plantações em redor de Yaan até Kangding. Aí o chá era embalado em pacotes impermeáveis de pele de iaque e carregado em caravanas de mulas e iaques até Lhasa.

No século XIII, a China trocava milhões de quilos de chá por 25 mil cavalos por ano. Mas os cavalos não salvaram a dinastia Song, que caiu às mãos de Kublai Khan, em 1279.

Entretanto, a troca de chá por cavalos prosseguiu ao longo da dinastia Ming (1368-1644) e até meados da dinastia Qing (1645-1912). Quando a procura de cavalos por parte da China começou a diminuir, no século XVIII, o chá passou a ser trocado por outras mercadorias: couros vindos dos planaltos, lã, ouro e prata, e, acima de tudo, os produtos da medicina chinesa tradicional que só existiam no Tibete. Eram estas as mercadorias trazidas de regresso a Kangding por carregadores, como Luo, Gan e Li.

Do mesmo modo que a administração imperial chinesa costumava regular o comércio do chá em Sichuan, assim os mosteiros influenciavam o comércio no Tibete teocrático. A Estrada dos Cavalos e do Chá, conhecida entre os tibetanos como Gyalam, estabelecia a ligação entre os principais mosteiros. Ao longo dos séculos, as lutas pelo poder no Tibete e na China foram alterando a rota da Gyalam. Havia três ramificações mais importantes: uma a partir do Sul, em Yunnan; uma a partir do Norte e outra vinda de Leste, atravessando o Tibete pelo meio. Esta rota central era a mais curta e, por isso, aquela por onde circulava a maior parte do chá.

Na actualidade, a rota setentrional, designada por auto-estrada 317, está asfaltada. A metade ocidental da rota intermédia, porém, mantém-se, serpenteando através das montanhas tibetanas de Nyainqentanglha, uma zona tão acidentada e inóspita que foi fechada aos viajantes. Teria de encontrar maneira de me infiltrar nessas montanhas proibidas. Telefonei à minha mulher, Sue Ibarra, uma montanhista experiente, e pedi-lhe que viesse ter comigo a Lhasa em Agosto.

Começámos a nossa jornada no mosteiro de Drepung, na extremidade ocidental da Estrada dos Cavalos e do Chá, a menos de um dia a cavalo de Lhasa. Construído em 1416, o mosteiro possui uma enorme cozinha de chá. Sete caldeirões de ferro encontram-se embutidos num enorme forno de pedra alimentado a lenha.

Estrada do chá

O chá viaja à maneira antiga, a pé, como esta nómada que regressa ao acampamento carregando dois fardos adquiridos na cidade mercantil de Ganze, em Sichuan. Cada fardo pesa 9kg e leva quatro barras.

Debruçado sobre o caldeirão, em pé, Phuntsok Drakpa corta lascas de manteiga de iaque grandes como livros para dentro do chá fumegante. “Antigamente, viviam aqui 7.700 monges que bebiam chá duas vezes por dia”, diz. “Mais de cem monges trabalhavam nesta cozinha de chá.” Phuntsok é mestre de chá há 14 anos. “Para os monges tibetanos, o chá é vida”, diz.

Actualmente, vivem no mosteiro apenas 400 monges e só dois pequenos caldeirões estão em uso. “O caldeirão pequeno leva 25 barras de chá, 70kg de manteiga de iaque e três quilos de sal”, explica Phuntsok, enquanto mexe a sua receita para 200 pessoas com uma colher de pau do tamanho de um ser humano. “No caldeirão maior, utilizava-se uma dose sete vezes superior.”

Partindo do mosteiro, eu e Sue rumamos à cidade de Nagqu para assistir à feira anual do cavalo. Chegamos depois uma viagem de automóvel de cinco horas. Queremos ver os lendários cavalos que deram o nome à Estrada dos Cavalos e do Chá. Antigamente, este evento de uma semana era organizado em campo aberto, mas há dez anos foi construído um estádio de betão para que os funcionários chineses dispusessem de lugares sentados. Na manhã seguinte, ao chegarmos, os pavilhões estão apinhados. Dentro do campo, cavalos e cavaleiros parecem desafiar a gravidade. Um concorrente galopa quase descontrolado, inclinando o corpo todo até ao chão para apanhar um lenço branco de seda. Levantando bem alto o lenço, o cavaleiro tibetano faz recuar o cavalo em volteio para gáudio ruidoso da multidão.

A Feira Equestre de Nagqu é um dos últimos eventos organizados para comemorar a tradição equestre do Tibete. Ao longo de muitos séculos de criação selectiva, os tibetanos conseguiram apurar o Nangchen, um cavalo de primeira categoria, apreciado globalmente. Com grandes pulmões adaptados à vida a 4.500 metros de altitude no planalto do Tibete, onde o ar é rarefeito, os corcéis Nangchen são incansáveis e seguros na passada em portelas de montanha. Eram estes os cavalos cobiçados pelos chineses durante séculos.

Nagqu fica hoje junto à moderna auto-estrada 317, a ramificação setentrional da Estrada dos Cavalos e do Chá. Todos os sinais da antiga rota comercial se esfumaram, mas a um dia de viagem de automóvel para sudeste ficam as montanhas de Nyainqentanglha, outrora atravessadas pelo trilho primitivo. Atrai-me a possibilidade de, nas profundezas dos vales, ainda haver tibetanos a galopar nos seus cavalos infatigáveis ao longo da antiga estrada. Por outro lado, talvez o trilho tenha desaparecido, à semelhança do que aconteceu em Sichuan.

Numa manhã chuvosa e escura, a meio da feira, eu e Sue esgueiramo-nos num jipe para tentar descobrir o que sucedeu à Estrada dos Cavalos e do Chá em território tibetano. Viajamos todo o dia por estradas de terra batida, transpondo penosamente as portelas. Ao cair da noite, chegamos à aldeia de Lharigo, que outrora serviu de refúgio ao longo da Gyalam. Sub-repticiamente, andamos de porta em porta à procura de cavalos que nos levem até à portela de Nubgang, a 5.412 metros de altitude. Recomendam-nos um bar à saída da povoação. No interior, vaqueiros tibetanos bebem cerveja, jogam bilhar e fazem apostas num jogo de dados chamado sho. Riemse quando lhes pedimos cavalos. Já ninguém anda a cavalo.

No exterior do bar, em vez de corcéis musculados, encontramos corcéis de aço: pequenas e resistentes motos chinesas, decoradas com tapetes de lã tibetanos vermelhos e azuis a forrar o selim e borlas pendentes do guiador. Por um preço acordado, dois vaqueiros oferecem-se para nos conduzir ao sopé da portela: a partir daí, teremos de caminhar.

Largamos no dia seguinte de manhã, ainda escuro, com as mochilas afiveladas às motos como se fossem alforges. Os cavaleiros são tão exímios a conduzir as motos como os seus antepassados o eram à garupa de um cavalo. Cruzamos as turfeiras e chapinhamos através de riachos raiados de azul, submergindo ocasionalmente os tubos de escape que gorgolejam.

Mais acima no vale, passamos pelas tendas negras de nómadas tibetanos. Estacionados em frente de muitas das tendas fabricadas em lã de iaque avistam-se camiões e Land Cruisers. Onde conseguiram os nómadas o dinheiro? Não foi certamente com base na tradicional actividade económica da carne e manteiga de iaque.

Demoramos cinco horas a percorrer os 29 quilómetros que nos separam de Tsachuka, um acampamento no sopé da portela de Nubgang.

Após um almoço de tiras de carne seca de iaque e chá com manteiga de iaque, eu e Sue começamos a nossa escalada a pé. Para nossa delícia, a antiga estrada é bem visível, serpenteando entre prados pontilhados com iaques negros de chifres longos. Após duas horas de marcha dura encosta acima, passamos junto a dois lagos de montanha cor de safira. As caravanas de mulas carregadas de chá tinham deixado de cruzar esta portela há meio século, mas o trilho fora mantido durante mil anos, com rochedos deslocados e degraus talhados na pedra. Tudo isso ainda aqui está. Eu e Sue ziguezagueamos pelos escombros ao longo do trilho, caminhando até à portela.

A portela de Nubgang, em forma de sela, encontra-se claramente abandonada. As poucas bandeirinhas de oração que ainda ali esvoaçam mostram-se esgarçadas e os ossos postos sobre os montículos de pedra estão brancos, como se tivessem sido lavados a lixívia. Acompanho os olhos de Sue que seguem o resistente trilho que desce até ao próximo vale.

“Consegues vê-lo?”, pergunta.

Consigo. E na minha imaginação vejo uma caravana de mulas, caminhando na nossa direcção, com a poeira rodopiando em torno dos cascos, as cargas de chá balouçando e os cavaleiros atentos a possíveis emboscadas na portela.

Os nossos cavaleiros motorizados aguardam-nos na manhã seguinte, quando voltamos da portela. Saltamos para as motos e começamos a viagem de regresso, pelos vales abaixo.

Ao meio-dia paramos junto a duas tendas nómadas rodeadas de pilhas de bosta de iaque. Avista-se um grande painel solar pendurado sobre cada tenda; estacionados sobre a relva, estão um camião, um Land Cruiser e duas motos. Os nómadas convidam-nos a entrar e oferecem-nos taças de chá com manteiga de iaque a escaldar.

No interior da tenda, uma mulher faz rodar um moinho de orações enquanto murmura os seus mantras e um punhado de homens senta-se em cima de tapetes tibetanos. Pergunto aos homens como arranjaram dinheiro para comprar as viaturas. Depois de enchermos malgas de arroz com legumes e carne de iaque, o chefe da família rapa de uma caixa metálica azul, abre o cadeado e a tampa e convida-nos a espreitar. Lá dentro estão centenas de lagartas mortas.

“Yartsa gompo”, diz o nosso anfitrião. Cada lagarta seca será vendida por três a sete euros. Dentro daquela caixa fechada há talvez mais de sete mil euros em lagartas mortas. A yartsa gompo é uma lagarta infectada por parasitas que vive apenas em pastagens acima dos três mil metros de altitude. O parasita, uma espécie de fungo, mata a lagarta e alimenta-se do seu corpo.

Todas as primaveras, os nómadas tibetanos deambulam pelos prados dos seus iaques em busca destas lagartas. No entanto, as protuberâncias arroxeadas em forma de palito que o fungo faz crescer no corpo da lagarta e que emergem três centímetros a partir do solo são extremamente difíceis de detectar.

Nas lojas de medicamentos chineses, a mesma lagarta é vendida como remédio polivalente para problemas que vão da fadiga à expectoração ou cancro. As lagartas de melhor qualidade vendem-se a quase 60 euros por grama, ou seja, cerca de duas vezes o preço actual do ouro.

Enquanto nos afastamos, medito na ironia deste novo comércio ao longo da velha Estrada dos Cavalos e do Chá. Os tibetanos já não andam a cavalo e o chá deixou de ser a bebida principal no Tibete urbano. E contudo, tal como o chá ainda provém das regiões tradicionais da China, também a lagarta só se pode encontrar no planalto do Tibete. A China pode exportar vários produtos para o Tibete, mas este continua a ter uma valiosa moeda de troca. Actualmente, os chineses estão dispostos a pagar um preço tão elevado por lagartas mágicas como antigamente o faziam por cavalos invencíveis.

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