mulheres

2018, Irão. Na província do Khuzistão, Masoumeh Ahmadi, de 14 anos, empunha a espingarda da mãe. Quando uma mulher se casa, recebe uma arma com a aprovação do marido e do pai. Muitas mulheres recebem-na, como presente, quando dão à luz o primeiro filho varão.

Imagine que tinha um arquivo com dezenas de milhões de imagens captadas em todo o mundo, desde o fim do século XIX.

Texto: Sarah Leen

As imagens de um arquivo constituem um registo único das épocas em que foram captadas. Quando pesquisámos pastas antigas em busca de fotografias publicadas nestas páginas, impressionou-nos a maneira restritiva como as mulheres eram então definidas. As fotografias são frequentemente belas, por vezes divertidas, tristes ou até chocantes, mas reflectem os preconceitos e hábitos de cada época.

No arquivo, guardamos mais de sessenta milhões de imagens recolhidas desde a fundação da National Geographic, em 1888: imagens publicadas e não publicadas, diapositivos, negativos e chapas de vidro, entre outros formatos. É quase de certeza um dos mais abrangentes registos visuais sobre as mulheres em diferentes sociedades e culturas a nível mundial. 

No início do século XX, as imagens da revista – moldadas pelas limitações técnicas da fotografia dessa época e por um ponto de vista muito marcado pelo colonialismo ocidental – retratavam frequentemente as mulheres como belezas exóticas, posando com trajes tradicionais ou em tronco nu. Isso revela a pessoa que estava por detrás da lente, naquela altura: homens brancos, principalmente. Com a evolução da tecnologia fotográfica, as nossas imagens das mulheres tornaram-se mais activas, embora permanecessem fortemente centradas nos arquétipos tradicionais: esposas, irmãs, mães. Só depois da Segunda Guerra Mundial é que as mulheres passaram a protagonizar outros papéis: contribuindo para o esforço de guerra através do seu trabalho na indústria, em hospitais ou nas forças armadas. No pós-guerra, a revista regressou a perspectivas mais domésticas: as mulheres continuam a sorrir passivamente durante mais algumas décadas, até à década de 1970 e à ascensão da fotografia que captava as facetas menos polidas da vida.

O arquivo também documenta a história das mulheres responsáveis pelas fotografias: as poucas fotógrafas e editoras fotográficas existentes nesses primeiros anos. A escritora e fotógrafa Eliza Scidmore foi pela primeira vez identificada como autora de uma fotografia em Abril de 1907. Crê-se ter sido a primeira mulher cujas fotografias a cores foram publicadas na revista, em 1914. A primeira fotógrafa do quadro da National Geographic, Kathleen Revis, foi contratada em 1953. As duas seguintes, Bianca Lavies e Jodi Cobb, só começaram a trabalhar na revista 21 e 24 anos mais tarde, respectivamente. Desde então, a revista tem procurado cada vez mais mulheres fotógrafas.

Eu fui uma dessas jovens fotógrafas. Comecei a trabalhar em 1988 para a National Geographic. Lembro-me da emoção que senti em 2000 quando publicámos um livro, “Women Photographers at National Geographic” [sem tradução portuguesa], com imagens de mais de quarenta profissionais. Quatro anos mais tarde, entrei para o quadro como editora fotográfica sénior. Em 2013, tornei-me a primeira directora de fotografia da revista. É um pouco como o cartaz da página seguinte: já fizemos um longo caminho!

Hoje, ao comemorarmos o 100.º aniversário da colecção de imagens da National Geographic, estamos a contar histórias reais sobre mulheres reais com imagens captadas por mais mulheres fotógrafas do que nunca. Incentivamos o “olhar feminino”: a ideia de que as mulheres talvez vejam o mundo de forma diferente da dos homens e escolham temas diferentes para explorar. Graças à visão das mulheres fotógrafas, temos a oportunidade de mostrar o mundo inteiro e não apenas parte dele.

As mulheres como modelos 

As primeiras imagens retratavam as mulheres em cenas tradicionais. 

Só várias décadas depois as mulheres começaram a ser apresentadas na revista como os homens o eram habitualmente: cientistas, exploradoras, aventureiras e líderes. Nos primeiros tempos, eram frequentemente representadas como belezas exóticas de seios descobertos. Da década de 1970 até à actualidade, as mulheres têm aparecido cada vez mais em reportagens tão diversificadas como as suas vidas.

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Pré-1918, Japão. Eliza Scidmore, que se pensa ter sido a primeira mulher fotógrafa da National Geographic, insistiu que se publicassem imagens a cores na revista. Aqui, enquadrou jovens japonesas com ramos de cerejeiras em flor.

As mulheres fotógrafas

Em muitos casos, os homens e as mulheres vêem o mundo de forma distinta.

Em 1907, a National Geographic publicou uma fotografia de Eliza Scidmore, que se crê ter sido a nossa primeira mulher fotógrafa e a primeira mulher a colaborar com a revista. As fotografias seguintes foram quase sempre captadas por homens. À medida que a situação mudava, a nossa maneira de ver o mundo evoluiu. Em 2018, as mulheres fotografaram quase três vezes mais reportagens da National Geographic do que uma década antes.

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