central parque

CENTRAL PARK. A grande zona verde nova-iorquina mede quatro quilómetros e ocupa 150 quarteirões. A fotografia oferece uma panorâmica até ao sul; à esquerda, figura o Museu Metropolitano.

De Downtown a Uptown, Manhattan seduz em todas as épocas do ano. A cidade dos arranha-céus ampliou a sua oferta com novos ícones, mais museus e actividades urbanas renovadas.

Texto: Jesús Ferrero

Há cerca de 450 milhões de anos, Manhattan era uma montanha, mas as eras geológicas reduziram-na a uma rocha em forma de esquife ancorado entre massas líquidas. Por aqui se vê que a tendência para a elevação de Manhattan é uma vocação antiga.

A melhor forma de compreender a natureza insular da Grande Maçã, às vezes tranquila, outras vezes abismal, é percorrer todo o seu perímetro no ferry Circle Line, com partida e chegada no cais em frente do rio Hudson na Rua 42. A Circle Line permite explorar as variadas margens de Manhattan, da Estátua da Liberdade, da qual se aproxima bastante, até às pontes que se vão cingindo como espartilhos metálicos ao corpo escorregadio dos três rios que cercam a ilha mais famosa da Terra. A Ponte de Brooklyn ou a ponte suspensa de Williamsburg são ícones da engenharia mundial – corpulentas como os sonhos surgidos da água que lhes deram lugar e mundialmente famosas.

Para muitos, são os totens metálicos que assinalam os locais onde numerosos operários perderam a vida. Depois desta travessia tão envolvente como hipnótica, o viajante está preparado para enfrentar a experiência da Grande Maçã e das suas três clássicas dimensões. Como no final do romance O Grande Gatsby Downtown, a torre de Babel de Nova Iorque (1925), Fitzgerald imagina que os primeiros holandeses que chegaram à ilha terão sustido a respiração perante aquele território arborizado e repleto de promessas. O mais desconcertante é que, quatro séculos e meio depois, Manhattan continua a ser proporcional à nossa capacidade de assombro.

Pode aperceber-se disso na primeira visita a Nova Iorque. Ao sair do táxi em plena Downtown ao contemplar aquele labirinto tão desmedidamente belo, entende-se o motivo pelo qual a escritora Rosa Chacel disse, em 1954, que as luzes da Broadway e as pessoas em Wall Street constituíam a verdadeira alma da cidade com muito mais intensidade do que qualquer filme. Quando se aborda Manhattan pela primeira vez, percebe-se que o cinema não representa a verdadeira medida das suas dimensões e da sua intensa paixão pela vida. É necessário percorrer as suas ruas e deixar-se envolver pelas suas luzes para entender o carácter mítico de Nova Iorque.

Se comparar Manhattan com um navio de granito de inúmeros mastros à procura do céu como torres de Babel resplandecentes, Downtown seria a figura de proa que olha, do seu ângulo privilegiado, para a Estátua da Liberdade. 

O traçado irregular das suas ruas, mais vivas do que um labirinto, repleto de formigas humanas, sugere que se trata da zona mais antiga da cidade, sobreposta agora àquela ilha rural que Edgar Allan Poe conheceu em 1884 e sobre a qual profeticamente disse: «Dentro de trinta anos, as falésias serão cais e terão desnaturalizado a ilha com sólidos blocos de tijolos.» É evidente que não se enganou.

Downtown é a zona mais excitante de Manhattan e a mais propícia para se perder e percorrer o milagre da vida em cada esquina. Da Ponte de Brooklyn, pode contemplar horizontes tão reais como oníricos. O Museu Nacional da América Indígena convida a um prólogo pela pré-história da cidade – escondida durante gerações, mas reabilitada no final do século Wall Street é um repositório da arquitectura do poder, espremida e demolidora, repleta de sonhos e pesadelos. O cristalino One World Trade Center, com a sua Floresta de Árvores e as duas piscinas artificiais, convidam o viajante a uma estranha melancolia.

Em alternativa, pode perder-se pelas ruas de Chinatown e almoçar no Great NY Noodletown, que se assemelha, do exterior, a uma modesta hospedaria, sem revelar de imediato o templo gastronómico que se esconde no interior. O actor Paul Giamatti já afirmou convincentemente que se trata do melhor restaurante chinês da cidade e tem razão. Pode até encontrar-se ali com Alan Gilbert, o director da Filarmónica de Nova Iorque, e perceber melhor por que motivo Noodletown é um local onde a comida  representa  para o paladar o mesmo que a música para a orquestra.

Little Italy é outro destino popular, sobretudo à noite e ao fim-de-semana. O Mulberry Street Bar atrai verdadeiras romarias: ali foram filmados episódios da série de televisão Os Sopranos, e a noite constitui uma pitoresca experiência de convívio com descendentes de italianos que cantam versões de canções de Frank Sinatra e dançam com vivacidade. E, claro, há o Soho, com as lojas imperdíveis; os bares de Greenwich Village, onde Bob Dylan, antes da ribalta, iniciou a sua carreira musical e onde sofreu igualmente os primeiros reveses.

É provável que Downtown seja o repositório da essência da cidade. Washington Square é provavelmente o seu cofre. É o bastião do monumento histórico mais glorioso de Nova Iorque, contando a história da época em que o poeta Walt Whitman celebrava as inúmeras ruas repletas de população ao entardecer, cercadas por vegetação, mas também por tijolos  e  ferro. A alegria brilhava, escreveu Whitman no século XIX. E ainda brilha.

Entre Downtown e Midtown, existe hoje um longo passadiço repleto de fragrâncias vegetais que une os dois territórios e os atravessa parcialmente. Trata-se da High Line, que junta a Rua Gansevoort à Rua 34, correndo no flanco elevado da antiga linha férrea de West Side. É um jardim linear cada vez mais arborizado e concorrido e que serve de fronteira para o Sul, quase no limite de Downtown, com orejuvenescido Museu Whitney de Arte Americana. Este edifício de 2015, desenhado pelo arquitecto Renzo Piano, exibe 21 mil obras de três mil artistas dos séculos XX e XXI, com destaque para Edward Hopper.

Midtown é o território mais fotografado da cidade e é onde se encontram alguns dos arranha-céus mais venerados do mundo. É igualmente a zona de Nova Iorque onde mais se manifesta a sua pretensão a capital do mundo.

Se decidir subir pela Quinta Avenida, encontrará o Flatiron, o arranha-céus da escola de Chicago que, visto de certos ângulos do jardim de Madison Square, se assemelha à proa de um transatlântico sobressaindo entre as árvores.

É um dos jardins mais frequentados e aquele que os nova-iorquinos elegem para ler o jornal durante as manhãs de fim-de-semana, entre esquilos que se aproximam mendigando por amendoins e transeuntes felizes com a perspectiva de lagos cobertos por folhas. Ao calcorrear Midtown, a paz bucólica do jardim pode ser perturbada por um remoinho de folhas ou por uma violenta chuvada. Faz parte dos humores da grande cidade.

Oito quarteirões para lá de Madison Square encontra-se o Empire State Building. É imprescindível subir ao seu terraço para apreciar a verdadeira grandeza de Nova Iorque e os seus limites indefinidos, embora, para a geração de Fitzgerald, o Empire tenha sido uma desilusão, pois foi ali, nas suas alturas, que foi possível constatar que Nova Iorque não era infinita.

A exaltação e o endeusamento que se sente do topo do Empire transformam-se de seguida numa experiência de vida e de morte. Pode vê-la de todos os seus ancos, cercada e partida pelos seus rios; podemos apreciar inclusive o seu ar apocalíptico, de «grande prostituta sentada sobre as águas», tal como São João chamou a Babilónia. Do tecto da cidade, todos os medos são possíveis ea cervejaria artesanal Heartland Brewery no piso térreo permite depois acalmar as vertigens. Continuando pela Quinta Avenida até à Rua 42 e ao bairro dos teatros, encontra-se à direita a Grande Estação Central e o célebre arranha-céus Chrysler, ambos muito focados pelo cinema e transformados em símbolos de Nova Iorque. Recomenda-se um passeio pela Estação Central em busca do fôlego dos velhos comboios e dos fragmentos de história que ali se conservaram.

O Oyster Bar, celebrizado pelas ostras de excelente qualidade a preços bastantes razoáveis, complementa o percurso do dia.

À esquerda da Quinta Avenida, figura a praça mais tumultuosa da cidade: Times Square, onde o espectáculo está sempre assegurado. Encontra-se no coração do bairro dos teatros que, ao anoitecer, se enche de palpitantes táxis enquanto os nova-iorquinos se precipitam para os espaços de diversão, envolvendo-se no seu frenesi. Antes do Central Park, é obrigatório parar no Rockefeller Center e no faustoso Hotel Plaza, que em dado momento da sua história pertenceu a Donald Trump e cujo actual proprietário está preso por fraude fiscal.

Há que reconhecer que o Central Park é uma invenção genial. Ocupa efectivamente o centro da  cidade e é reconfortante que o coração de uma urbe tão pétrea e tão populosa seja inteiramente verde, aberto a mudanças cromáticas das estações do ano na América. Deve perder-se pela sua labiríntica sucessão de arvoredos, lagos e lagoas, tal como se perdem as personagens de Paul Auster no romance Palácio da Lua (1989), sem guias nem planos.

Emersos no Central Park como um ser vegetal numa selva de cristal, pode dirigir-se para a direita e visitar o bairro de Upper East Side, onde a riqueza assoma por todo o lado e os porteiros vestem uniformes aparatosos. A zona que dá para a Quinta Avenida é uma ode à plutocracia, com lojas luxuosas como a joalharia Tiffany’s.

Sem abandonar a Quinta Avenida acede-se à verdadeira jóia da cidade: o Museu Metropolitano, uma das maravilhas do mundo, que constitui uma das fronteiras do Central Park. Vale a pena visitar Nova Iorque só pelo Metropolitano. É tão generoso em arte de todas as épocas que exige escolhas dolorosas. Um único dia não chega para assimilar todas as páginas da história humana ali expostas para deleite colectivo. Espantosamente, é permitida a entrada de cães e não é proibido fotografar.

Nas imediações, localiza-se o Museu Guggenheim Solomon, construído em 1959 por Frank Lloyd Wright, o arquitecto favorito de muitos e tema de uma exposição retrospectiva que o MoMA exibe em 2017, comemorando os 150 anos do seu nascimento. O edifício do Guggenheim é composto por uma sucessão de círculos que se vão abrindo de forma ascendente, como um copo prodigioso para albergar «as criações do espírito», e numerosos tesouros da pintura impressionista e surrealista.

Se virar à esquerda do parque, encontrará o edifício Dakota, com uma história tétrica. John Lennon foi assassinado em 1980 em frente da entrada e foi ali que se rodou o filme A Semente do Diabo. Entre os seus residentes mais conhecidos destacam-se Lauren Bacall, o compositor Leonard Bernstein, o actor Boris Karloff e a sombria e melancólica Carson McCullers.

O vizinho Museu de História Natural foi igualmente filmado assiduamente pelos muitos cineastas da cidade. As palavras-chave são os superlativos: os fósseis mais pujantes, os mais antigos, os mais remotos, os mais caros. Nova Iorque tem vocação planetária e essa predisposição para a espectacularidade faz parte do código genético da cidade.

Abundam neste bairro as galerias e as lojas de renome. O Museu de História Natural encontra-se em pleno Upper West Side, o bairro anqueado pelo parque e pelo rio Hudson. Não hesite em perder-se nas suas ruas de edifícios solenes e mais baixos do que os de Upper East Side, e surpreenda-se com a sua tranquilidade e com a ausência de bares. São poucos os locais em Manhattan que o invadirão com esta sensação estranha de paz.

Quando cai a noite, o melhor local da cidade é certamente a Ponte de Brooklyn. Ali, encontra-se a visão que supera todas as alucinações: o labirinto de luzes palpitantes reectindo-se na água e fechando como um alfinete de peito incandescente a travessia sobre Manhattan.

GUIA DE VIAGEM

Documentos: passaporte e ESTA (www.esta.us)

Transportes: o Metrocard é útil para os transportes públicos.

Os cartões do City Pass (http://pt.citypass.com/ new-york) e o New York Pass (https://www.newyorkpass.com/ Pt) são úteis se visitar mais do que um museu.

Mais informação: nycgo.com

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