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Soldados canadianos trepam para os destroços de um avião, aproximadamente a 1.600 quilómetros a sul do Pólo Norte, patrulhando a zona durante um curso de sobrevivência no Árctico, na ilha de Cornwallis. No momento em que o Árctico aquece e aumentam as tensões relativamente ao seu futuro, as forças armadas do Canadá e dos EUA intensificam operações na região.

À medida que o Árctico vai descongelando, os países apressam-se a controlar recursos e rotas de navegação enterrados sob o gelo. Eis como as alterações climáticas estão a preparar o terreno para um conflito no “topo do mundo”.

Texto: Neil Shea

Fotografias: Louie Palu

No final de uma manhã cinzenta de Novembro, de pé sobre o mar gelado nos arredores da cidade, Marvin Atqittuq, o recém-eleito comandante de patrulha da comunidade árctica de Gjoa Haven, convocou as tropas para uma reunião.

O vento gélido trazia neve de sul. Os termómetros registavam -30ºC. Estava frio, mas não tão frio como isso para o Árctico. O Grupo Inuit, formado por cerca de vinte homens e mulheres, juntou-se, com as armas a tiracolo, envergando casacos de pele de rena cosidos à mão ou calças feitas com peles de urso polar. Outros usavam roupas compradas em lojas, muito menos quentes, mas ainda assim namuktuk, suficientemente boas por agora.

Marvin calçou as luvas de pele de foca e definiu o plano do dia. 
O grupo pertencia aos Canadian Rangers, uma componente reservista das forças armadas do Canadá, e Marvin iria agora chefiá-los na sua primeira missão 
como comandante: uma patrulha semanal, em motos-de-neve, descendo a orla costeira da ilha do Rei Guilherme. 

Haveria formação em GPS, prática de tiro ao alvo ao estilo militar, simulacros de busca-e-salvamento e muita caça e pesca no gelo. 

De pé na orla do círculo, eu sacudia o gelo das pestanas. Observei os rostos e li as cicatrizes das queimaduras do gelo, pequenas medalhas de honra que nos falam de vidas passadas ao ar livre numa das paisagens mais implacáveis do planeta.

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Os soldados norte-americanos alimentam-se com rações de elevado teor calórico para ajudar o corpo a lidar com o frio no Centro Setentrional de Formação para a Guerra no Alasca, onde o Exército dá formação. Os soldados aprendem tácticas aprendidas na Guerra do Inverno, travada entre a Finlândia e a União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Pouco depois, os membros do grupo desfizeram a formação e começaram a fumar os últimos cigarros antes da longa viagem rumo à escuridão. Marvin veio ter comigo e perguntou-me se eu estava bem quente. Alto, de ombros largos e riso fácil, pertencera à patrulha de vigilantes. Com modos amigáveis, avisou-me que não adormecesse durante a viagem que se avizinhava. 

Acontece, disse-me. Por vezes, as pessoas caem das motos e desaparecem. Recordou-me que, naquele momento, não havia qualquer rede de telemóvel na ilha nem em qualquer outra parte do território de Nunavut. “Se te acontecer algo e nos separarmos, senta-te e espera que alguém volte atrás para te ir buscar”, disse. “E tenta não encontrares ursos-polares!”

Estes vigilantes são conhecidos como os “olhos e ouvidos do Canadá no Norte” e as suas unidades patrulham as regiões mais distantes do país desde a década de 1940. A maior parte dos vigilantes são voluntários indígenas e, ao longo dos anos, desempenharam funções como batedores, participaram em jogos de guerra e ajudaram soldados a aprender a construir igloos, a viajar pela tundra e, de um modo geral, a manterem-se vivos no meio do frio. O seu papel, tal como o do próprio Norte longínquo, não é bem conhecido e os vigilantes sempre conseguiram manter-se operacionais apesar dos orçamentos apertados e do equipamento obsoleto, incluindo espingardas de ferrolho fornecidas pelo Estado, fabricadas na década de 1940. 

Agora, o governo canadiano procederá a uma reavaliação dos vigilantes. Rumores de uma corrida internacional para apresentar novas reivindicações sobre o Árctico e os seus recursos desaproveitados tinham impulsionado os políticos em Otava a prometer aos vigilantes melhor equipamento e mais fundos para recrutar operacionais. Entretanto, funcionários das forças armadas dos EUA mostraram-se igualmente interessados no programa, tendo em vista a criação de algo semelhante no Alasca. 

Marvin Atqittuq ficou satisfeito com tanta atenção. Criado no Árctico e criando agora o seu próprio filho na região, compreendia bem as diferentes atitudes que o governo distante poderia assumir – presenciara actos de governação amigáveis, caprichosos e, sobretudo, esquecidos. Desta vez, após anos de ignorância sobre o facto de o Árctico estar a aquecer mais depressa do que qualquer outro lugar do planeta, o Canadá estava finalmente a reconhecer a situação. 

“Nós, os inuit, falamos nas alterações climáticas há muito tempo”, contou Marvin antes de nos dirigirmos à tundra. “Agora, o governo está a recuperar o tempo perdido e quer-nos como vigilantes. Muito bem, de acordo. Somos canadianos com orgulho.” E fazendo uma careta risonha: “Gostava só que fôssemos suficientemente canadianos para termos uma boa rede telefónica, o que acha?”

 

 

Cerca de quatrocentos soldados dos EUA praticam saltos com pára-quedas perto de Fort Greely, no Alasca. Este exercício militar multinacional, integrando soldados canadianos, prepara as tropas para o rigor de operações de grande envergadura em condições de frio muito intenso.

No início de Maio, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, deslocou-se a Rovaniemi, na Finlândia, para discursar perante o Conselho do Árctico, uma organização composta pelos oito países limítrofes do Árctico e por representantes dos povos indígenas da região. Ao longo de aproximadamente vinte anos, o conselho tem estimulado o debate colegial, a cooperação e a consolidação de uma perspectiva progressiva sobre as alterações climáticas. A comparência de Pompeo, como emissário de uma administração que se tem oposto a esta atitude, constituiu um momento de desconforto. 

“Esta é a altura de a América se erguer como país do Árctico e em prol do futuro do Árctico”, declarou Pompeo, num evento realizado na noite anterior à reunião oficial. “Ao contrário do que muitos julgavam ser apenas uma árida região remota… o Árctico está na vanguarda das oportunidades e da abundância.”

O discurso assinalou o final de uma verdadeiramente bizarra reformulação da marca do Árctico, em curso há mais de uma década. Aquilo que outrora se considerava um território gelado e árido é agora descrito, por norma, como fronteira emergente. O Árctico está aberto ao negócio.

Durante a maior parte da história da humanidade, o mundo acima da fronteira de 66 graus de latitude norte permaneceu em grande parte afastado do comércio de grande escala. Há muito que exploradores, especuladores e cientistas acreditam na existência de recursos e rotas de navegação ocultos sob o gelo e a neve do Árctico, mas a verdadeira natureza dessa riqueza manteve-se obscurecida pelo mesmo frio mortífero, pela escuridão debilitante e por enormes distâncias que impediam a sua exploração. 

Actualmente a paisagem árctica é mais verde, tem menos renas, mais mosquitos e verões mais quentes. A alteração mais perturbadora vem do mar, onde o gelo marinho de Verão (a extensão flutuante que reveste a maior parte do oceano glacial Árctico durante o breve degelo da região) tem estado a desaparecer a um ritmo alucinante. 

Embora esta camada flutuante recue sempre nos meses de Verão e volte a crescer com o regresso do frio, a actual escala da perda de gelo não tem precedentes e, na opinião de alguns investigadores, está a acelerar. Segundo cálculos da NASA, o Árctico perde, em média, 54 mil quilómetros quadrados de gelo por ano e os peritos que prepararam a Avaliação Climática Nacional de 2014 prevêem que o oceano Árctico se encontre sem gelo durante o Verão antes de 2050.

“Está tudo a acontecer muito mais depressa do que se pensava”, afirmou Michael Sfraga, director do Instituto Polar do Wilson Center, em Washington. “Há um oceano a abrir-se diante dos nossos olhos, em tempo real.”

A disputa ao longo da nova fronteira não consistirá em reivindicações de novos territórios. 
À excepção de um punhado de territórios, na sua maioria situados no leito marinho e que incluem o próprio Pólo Norte, as fronteiras do Árctico encontram-se definidas. Em contrapartida, os países e as empresas desenvolvem agora esforços no sentido de garantir para si uma fatia dos biliões de euros em minerais, incluindo ouro, diamantes e metais de terras raras, petróleo, gás natural e peixe, bem como o acesso às novas rotas de transporte naval de mercadorias, potencialmente mais baratas.

 

Os fuzileiros simulam a conquista de um edifício em Utqiaġvik, no Alasca, a cidade mais setentrional dos Estados Unidos. O general Robert Neller, comandante do Corpo de Fuzileiros, disse recentemente aos senadores que, depois de terem passado anos centrados no Médio Oriente e no Pacífico, os fuzileiros “tinham regressado ao tema do clima frio”.

A Rússia e a Noruega têm sido as nações mais activas no Árctico, despendendo milhares de milhões ao longo da última década em infra-estruturas para extracção de petróleo e gás natural, portos de águas profundas e navios capazes de atravessar as águas ainda geladas do oceano Árctico. Entretanto, a China tem procurado assegurar a sua presença na região, apoiando os projectos de gás da Rússia e oferecendo empréstimos para desenvolvimento a outros países do Árctico. Os chineses estão também a construir a sua própria frota de navios quebra-gelos, uma aposta clara no futuro por parte de um país situado a mais de quatro mil quilómetros do pólo. 

Em contraste, a maior parte dos países ocidentais, incluindo o Canadá e os Estados Unidos – que, em conjunto, controlam quase metade da orla costeira do Árctico – têm praticamente ignorado o Norte. Os EUA possuem apenas cinco quebra-gelos em funcionamento (comparados com os 51 da Rússia) e nenhum porto de águas profundas a norte do círculo polar árctico. A narrativa da nova fronteira tem sido acompanhada por outra, de conflito iminente e talvez mesmo a possibilidade de uma nova guerra fria. Estes receios, finalmente sentidos nos EUA, foram a verdadeira razão que motivou a comparência de Pompeo no Conselho do Árctico. “A região tem sido palco de poder e concorrência”, afirmou. “Estamos a entrar numa nova era de compromisso estratégico… completada por novas ameaças ao Árctico e ao seu património, bem como a todos os nossos interesses nessa região.”

O problema, evidentemente, é que se Pompeo queria pensar no Árctico como uma arena, onde poderia ser disputada uma corrida, alguns países já levam um grande avanço.

O Canadá e os EUA controlam quase metade da orla costeira do Árctico, mas até agora têm praticamente ignorado o norte.

Na ilha do rei Guilherme, os vigilantes viajaram para oeste, formando uma longa fila de motos-de-neve. Alguns traziam trenós de madeira a reboque, carregados de alimentos, equipamento de campismo e equipamento militar. Juntei-me à procissão, conduzindo uma moto emprestada. Após várias horas gélidas de condução, chegámos a um lago gelado chamado Kakivakturvik.

Sob feixes de luz brilhante projectados por lanternas e faróis, os vigilantes espalharam-se pelo lago e começaram a montar grandes tendas sobre o gelo. Arrastaram até ao local peles de rena e oleados, depois colchões de espuma, sacos-cama e geleiras carregadas de comida. 

Pouco depois, as tendas brilhavam com a luz das lanternas e escutava-se o som dos fogões de querosene. Chávenas de chá fumegantes eram passadas de mão em mão e contavam-se histórias sobre cães de trenó. Depois, regressámos ao exterior. Formando pequenos grupos, os vigilantes distribuíram-se pelo lago, abriram buracos com meio metro de espessura no gelo e lançaram redes de pesca na água negra. 

Em todo o Árctico canadiano, as patrulhas de vigilantes combinam os exercícios militares com actividades tradicionais como a caça e a pesca, que ainda constituem uma parte necessária da vida no Norte. Nos dias que se seguiram, o grupo de Marvin tentou conjugar estas actividades com tarefas militares como exercícios de navegação e formação em dispositivos de GPS.

Ventos fortes sopravam vindos do mar gelado. Um manto de nuvens pairava sobre a tundra. 
A temperatura subiu até ao ponto de congelação, mas depois precipitava-se para valores reduzidos. Tudo isto era típico dos finais de Novembro. 

Susie Hiqinit (à direita) e Andy Issigaitok (à esquerda), reservistas dos Canadian Rangers, prestam serviço militar ao lado de outros inuit. Partilham conhecimentos sobre a sobrevivência no Árctico com outros membros das forças armadas canadianas, ensinando-lhes técnicas tradicionais dos inuit, como a caça, a navegação e a construção de grutas de gelo.

Os dias começavam e acabavam junto das redes de pesca. A captura do iqalupik, o salvelino árctico, era tão abundante que, em pouco tempo, cada tenda passava a estar delimitada por um pequeno estendal de corpos cor-de-rosa rígidos, enterrados de cauda para baixo em montes profundos de neve. Quando ficávamos com fome, limitávamo-nos a estender o braço para fora da tenda e arrebanhávamos um peixe. Em certas ocasiões, cortávamo-lo em postas e fazíamos sopa. 
Na maior parte das vezes, porém, comíamo-lo cru, fatiando o salvelino para a boca. Sushi congelado, chamava-lhe Marvin: fresco e frio, quase insípido.

Para lá das redes, as nossas horas escoavam-se num poço de pequenas tarefas. Durante as poucas horas da fraca luz solar do dia, havia fogões a manter, gelo a derreter para obter água potável e tendas para mudar de sítio quando o gelo por baixo delas se transformava em lama. As motos-de-neve avariavam frequentemente devido ao frio implacável. Um dia, uma ursa apareceu perto do acampamento com duas crias, tornando o acto de sairmos da tenda para nos aliviarmos (já de si triste) uma perspectiva ainda mais sombria.

Durante a missão, partilhei a tenda com Marvin Atqittuq e com o pai, Jacob, que, aos 74 anos, era um dos mais famosos caçadores de Gjoa Haven. Jacob Atqittuq nascera num igloo e falava apenas o inglês suficiente para contar uma ou outra anedota de vez em quando. Sobrevivera a invernos brutais e a ursos esfaimados. Registara dolorosas queimaduras de gelo, acidentes de barco e, até, uma crise de fome que matara muitos inuit. Todas as manhãs acordava diante de nós e, aos pés do grande colchão que partilhávamos, cozinhava o bannock, um pão mole e doce, entoando antigos hinos de igreja em idioma inuktitut.

Certa noite, Marvin contou-me que tentara uma vez sair do Árctico. Encontrara uma escola de formação profissional no Sul do Canadá onde se leccionavam cursos de reparação de pequenos motores. Anos antes, porém, Jacob vira outro filho seu partir de casa e ser obrigado a frequentar um dos tristemente célebres colégios internos do Canadá, onde o conhecimento e as tradições indígenas eram cruelmente reprimidos. Pediu a Marvin que ficasse, aprendesse os costumes antigos e mantivesse a família unida. 

Marvin não lamenta a sua decisão. Era agora pai e bombeiro-voluntário em Gjoa Haven. Arranjara emprego numa empresa de manutenção de linhas telefónicas e, pouco a pouco, estava a aprender tudo o que podia com Jacob. No entanto, Jacob também parecia habitar um Árctico mais simples, mais antigo. 

O Árctico que Marvin conhecia era mais complexo. Havia menos oportunidades, mais droga. Havia redes sociais e Internet. Marvin percebia que este Árctico estava a transformar-se num novo território. Lera que o gelo estava a derreter, que outra guerra poderia dirigir-se para o Norte. 

Soldados norte-americanos treinam escalada com esquis calçados, no Centro de Formação para a Guerra Setentrional, no Alasca, onde as acções de formação ensinam a vestir de forma adequada nos climas frios, a caminhar na neve, a esquiar com a arma a tiracolo e a rebocar trenós com 90 quilogramas.

Quanto à corrida ao ouro de que estava sempre a ouvir falar, não conseguia vê-la. “Tudo isso deveria já estar a acontecer”, contou, referindo-se às previsões de que seriam criadas infra-estruturas e empregos para aproveitar as riquezas escondidas da região. “Na verdade, não sinto grandes mudanças. Definitivamente, não me sinto parte dessa mudança.”

 

Na manhã seguinte, saí do acampamento para uma expedição de localização de renas, na companhia dos Atqittuqs e de mais alguns homens. Quando uma tempestade de neve começou a soprar e engoliu o nosso grupo de caçadores, foi Jacob quem nos guiou de volta ao acampamento, recorrendo a uma combinação de GPS com outro mapa, o mapa interior. Conduzi a minha moto-de-neve lentamente atrás de Marvin, quase cego devido a uma película de gelo que se formou no interior dos meus óculos. Pouco depois, o mundo tornara-se tão intensamente branco que eu já não conseguia perceber onde acabava a terra e começava a tempestade.

A certa altura, o gorro que me cobria o rosto saiu um bocadinho do lugar, expondo alguns centímetros da minha pele. Senti uma espécie de queimadura, como se alguém tivesse pressionado uma moeda quente contra a minha bochecha, mas estava mais preocupado em não ficar para trás. Horas mais tarde, dentro da tenda, Jacob viu a queimadura. Pressionou-a com o polegar e disse: “Boa!”

Abertura da fronteira pode ter acontecido numa manhã calma de Agosto de 2007, quando dois submersíveis russos desceram ao longo de quatro mil metros até ao fundo do oceano glacial Árctico e cravaram uma bandeira de titânio no Pólo Norte. Imagens difundidas, mostrando o pavilhão tricolor russo sobre o leito marinho, rapidamente provocaram manifestações de condenação no Ocidente.

Um escasso mês mais tarde, os cientistas que monitorizam o oceano por satélite anunciaram que o gelo marinho encolhera para a menor extensão alguma vez observada. “Foi a maior perda de gelo no Árctico da história humana e não foi prevista pelos modelos climáticos mais agressivos”, comentou Jonathan Markowitz, da Universidade do Sul da Califórnia. “Este choque levou o mundo a aperceber-se de que o gelo estava a desaparecer rapidamente e alguns países decidiram começar a mexer-se.”

Hoje, a Rússia tornou-se, segundo a maioria dos critérios, a potência dominante no Árctico. Possui a maior frota do mundo capaz de operar durante todo o ano em águas setentrionais extremas e mantém dezenas de bases militares acima do círculo polar árctico. Os EUA mantêm uma base no Árctico e um campo de aviação, em terrenos emprestados na região setentrional da Gronelândia.

Pilotos treinam a utilização de sinalização, em caso de queda ou aterragem forçada. Com milhões de quilómetros quadrados de paisagem vazia e inóspita, o Árctico suscita enormes desafios às operações de busca-e-salvamento.

A Rússia posicionou novas tropas no Norte, aumentou a actividade dos seus submarinos e fez regressar aviões de guerra aos céus do Árctico, onde atravessam actualmente o espaço aéreo da NATO de forma rotineira. No entanto, segundo Jonathan Markowitz e outros investigadores, a actividade russa no Norte reflecte mais os seus planos internos do que eventuais ambições globais.

Dois milhões de russos habitam o território do país no Árctico, no qual existem várias grandes cidades, como Murmansk e Norilsk. As populações árcticas do Canadá e dos EUA somadas representam menos de um quarto desse valor. Os russos dependem da extracção de recursos. Consideram o Árctico “uma base estratégica de recursos no futuro”, acrescentou o especialista.

Segundo Yun Sun, membro sénior do Centro Stimson, em Washington, a expansão chinesa no Árctico segue uma estratégia semelhante, centrada nos recursos e não no território. Além dos investimentos no petróleo e gás russos, afirmou Yun Sun, a China está interessada em aceder às novas rotas marítimas que permitem reduzir os tempos de viagem entre os portos asiáticos e os mercados europeus, redução essa que por vezes chega a duas semanas. 

Em Janeiro passado, o governo chinês publicou um livro branco onde definiu em traços largos as suas intenções setentrionais. Nesse livro, a China descreve-se a si própria como “estado quase-árctico” que espera colaborar com outros países na construção de uma “Rota da Seda Polar” dedicada ao comércio e à investigação. 

Durante décadas, os EUA e o Canadá nunca se preocuparam em desenvolver os seus territórios setentrionais, nem em investir nos seus habitantes. Esta atitude é frequentemente insultuosa, senão mesmo dolorosa, para os povos indígenas do Árctico, em especial porque essas promessas de oportunidades quase sempre os excluíram. Joe Savikataaq, primeiro-ministro do Território Nunavut do Canadá, reiterou as palavras de Marvin Atqittuq, quando este me disse que os inuit tinham sido postos à margem dos planos para o Árctico. “Sentimo-nos felizes e orgulhosos por fazer parte do Canadá, mas somos o irmão pobre que só recebe restos”, disse.

Joe Savikataaq elaborou uma lista das categorias nas quais as comunidades do Norte estão atrasadas em relação às comunidades do Sul: cuidados de saúde, criação de empregos, tecnologia, obtenção de graus universitários. De seguida, apresentou uma lista dos poucos critérios em que o Norte é líder: perda do gelo, custo de vida, ritmo de aquecimento, taxa de suicídio. Seja lá o que vier desta vez, afirmou, vai atingir-nos em primeiro lugar. “Nós somos tão pequenos e os nossos recursos são tão limitados que somos meros espectadores”, disse. “Tudo o que podemos fazer é adaptarmo-nos o melhor possível.”

Decorrida cerca de uma semana após o início da missão dos vigilantes, o tempo finalmente melhorou e Marvin Atqittuq decidiu que chegara altura de… ir dar uns tiros aos russos. Ele e o sargento Dean Lushman, antigo militar de infantaria canadiano que se tornara instrutor do programa dos vigilantes, foram buscar alvos de papel acastanhado, espetaram-nos em paus e plantaram meia dúzia deles nas imediações do acampamento. Em cada um via-se a imagem de um soldado a investir, de boca aberta num grito, com a arma equipada com baioneta. 

O aviador canadiano Simon Jean estende-se dentro de uma trincheira de combate que começou a escavar cortando blocos de gelo. As trincheiras podem funcionar como abrigos básicos e os blocos de gelo também podem ser utilizados para construir igloos.

Os alvos tinham sido concebidos para as forças da NATO durante a guerra fria. Erguendo-se, lado a lado, no sopé de uma pequena colina, eram os objectos mais altos num raio de muitos quilómetros, destacando-se de tal forma contra a neve que parecia impossível não acertar neles. 

Marvin Atqittuq marcou uma linha na neve, a 100 metros de distância, e dispôs os seus soldados ao longo dela. Deu a cada um deles um punhado de balas e os vigilantes ajoelharam-se sobre peles de foca ou parkas e começaram a disparar as suas espingardas velhas e desajeitadas. Perguntei a Dean Lushman, participante em várias comissões de combate no Afeganistão, se achava que ocorreria uma nova guerra fria no Norte. Ele riu-se. 

“Olha para isto”, disse. Abriu os braços, abrangendo com eles a tundra, os vigilantes e os russos de papel. “O que viria alguém aqui fazer? Tanques a andar de um lado para o outro, soldados, aviões?” Voltou-se para Marvin Atqittuq. “O que achas? Estás pronto para combater os russos?” Levantando os olhos do bloco de notas, num sorriso irónico, Marvin retorquiu: “Daria muito trabalho.”

“Em termos militares, não faz sentido, não é?”, continuou Dean Lushman. “Já viste quanto tempo demorámos só para fazer estas actividades básicas? Já viste como os objectos estão sempre a avariar e quanto trabalho nos dá só para sobreviver? Não virá para aqui nenhuma guerra.”

Os Canadian Rangers foram criados durante a primeira guerra fria, quando os responsáveis pelo planeamento militar, preocupados com os mísseis balísticos e a corrida espacial, olharam para o Árctico e consideraram-no uma porta das traseiras vulnerável. Contudo, os próprios vigilantes nunca acreditaram que iriam travar  invasores.

Soldados das Forças Especiais e Fuzileiros dos EUA simulam a captura de uma estação de radar no Árctico em Point Barrow, no Alasca, o ponto mais setentrional do país. As estações de radar são instrumentos importantes para detectar lançamentos de mísseis e incursões de aeronaves russas.

Paul Ikuallaq, um dos vigilantes que integraram o pelotão dos praticantes de tiro ao alvo, ofereceu-se como voluntário há cerca de 30 anos, tendo ajudado a dar formação às tropas da NATO durante a era soviética. “Foi catastrófico”, contou. 

Homem volumoso e de gargalhada sonora, também não acreditava que viesse a acontecer uma guerra no Norte. Os soldados kabloona (brancos) que ele instruíra ao longo dos anos voltaram para casa com os dedos das mãos e dos pés dormentes devido ao gelo: uma recordação do horror que uma guerra travada no frio desencadearia. 

Embora nenhum dos funcionários da NATO com quem falei acreditasse que a Rússia pudesse desencadear uma guerra no Norte, vários sugeriram que um conflito poderia eclodir algures no Sul e alargar-se ao Árctico. Alguns referiram a forma violenta como a Rússia se apossou da Crimeia e as investidas da China no mar da China Meridional. 

A Rússia tornou-se a potência dominante no Árctico, com a maior frota de quebra-gelos e dezenas de bases militares.

Fora das forças armadas, porém, ainda há muitos que têm esperança num Árctico diferente, menos parecido com um campo de batalha da guerra fria e mais parecido com a Antárctida ou com o espaço. Nessas regiões, os acordos internacionais e a distância atenuam os combates políticos.

“Os países com dificuldades noutros domínios encontram-se numa situação em que são obrigados a cooperar em regiões frias, perigosas e dispendiosas”, resumiu Michael Byers, professor na Universidade da Colúmbia Britânica.

Na nossa última noite no acampamento, um pequeno grupo de jovens inuit surgiu empoleirado em motos-de-neve. Um dos recém-chegados irrompeu pela multidão, aos tropeções. Cheio de aflição, disse que havia um jovem a bordo do trenó que ele trazia a reboque. O passageiro desaparecera. Caíra provavelmente no meio da tundra. Ali estava o tipo de missão de busca-e-salvamento para o qual os vigilantes tinham treinado. Alguns vigilantes equiparam-se e partiram de moto.

Vimos as luzes dos faróis a afastarem-se na escuridão. Enfraqueceram e, por fim, desvaneceram-se. A maioria dos presentes regressou às tendas, aguardando e tentando escutar qualquer ruído que indiciasse o regresso das máquinas. Fizemos chá. Marvin parecia preocupado, mas não em excesso: o inuit desaparecido fora criado no Árctico e sabia o que fazer caso se encontrasse sozinho no gelo. Pensei nos ursos que avistara dias antes e tentei imaginar o que faria o jovem no meio da escuridão. Talvez estivesse a entoar cânticos.  

O submarino de guerra USS Connecticut ergue-se através de um bloco de gelo no mar de Beaufort. Durante décadas, as marinhas dos EUA e da Rússia disputaram o melhor posicionamento no Árctico. Agora, a China mostra-se pronta para entrar no jogo, investindo em quebra-gelos e noutras tecnologias, à medida que novas e potencialmente lucrativas rotas de transporte marítimo se vão abrindo.

A Riqueza do Árctico  

Outrora considerado quase impenetrável, o Árctico assume agora maior importância estratégica, à medida que as alterações climáticas derretem a sua couraça gelada e biliões de euros em recursos se tornam acessíveis. Os oito países que delimitam a região posicionam-se para defender as suas reivindicações sobre o Árctico, que continua a ser uma das mais intimidantes paisagens do planeta para as potências se digladiarem pelo poder. 

Esta reportagem fotográfica foi patrocinada pela Fundação John Simon Guggenheim Memorial e pelo Centro Pulitzer. 

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