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Palácio de Ussé. Os jardins desenhados por Le Nôtre e os terraços por Vauban transformaram a antiga fortaleza num belo palácio de recreio.

Reis, rainhas, nobres e artistas encontraram nas margens do grande rio francês um lugar bucólico para edificar sumptuosos castelos rodeados de jardins.

Texto: Sergio Delgado

Muito antes de Paris impor a sua centralidade na segunda metade do século XIX, quando França lutava ainda contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos, os reis, acompanhados das suas vastas cortes, instalaram-se no fértil e florestado vale do Loire.

O Loire, o maior rio de França, estende-se ao longo de mil quilómetros a partir da nascente, no monte Gerbier-de-Jonc (na região de Auvergne-Rhône-Alpes). Atravessa o país de sul a norte e de leste a oeste, traçando um curioso percurso em forma de L invertido. Inicialmente, dirige-se para norte, mas, num sobressalto, gira em direcção ao Atlântico. Nos meses mais secos do Verão, as amplas margens de areia e argila, como se fossem folhas de um livro, mostram o registo de conchas e fósseis marinhos, vestígios do leito de um antigo mar interior cujo calcário serviu para construir os castelos apalaçados mais bonitos de França.

Ao longo deste percurso com pouco mais de duzentos quilómetros entre as cidades de Orleães e Angers, as idades e os estilos arquitectónicos sobrepõem-se. Os monumentos que sobreviveram até à actualidade são um vestígio eloquente daquela época. A rudeza do Castelo de Chaumont, por exemplo, que apesar das várias remodelações conserva o aspecto de fortaleza medieval, convive com a delicada harmonia do Palácio de Chenonceau, que parece saído de um conto de fadas. O Castelo de Blois, no coração da cidade, exibe no seu pátio vestígios arquitectónicos góticos, mas também neoclássicos.

O Loire vira em direcção ao Atlântico perto de Orleães e é ali que nasce o famoso vale que foi baptizado com o nome do rio. Orleães é uma cidade dinâmica, embora virada sobre si mesma, com as costas voltadas para o rio, num gesto defensivo que provavelmente remonta à época do cerco inglês do século XV. Com uma fisionomia marcada por edifícios de telhados de ardósia e amplas avenidas ao estilo de Haussmann, exibe também uma moderna rua de comércio onde estão representadas as marcas da moda. A cidade não esquece as desventuras sofridas entre 1428 e 1429. 

A figura de Joana d’Arc, a jovem guerreira que, apesar da hostilidade de clérigos e militares, libertou a cidade da ameaça inglesa encontra-se omnipresente. Ruas e praças foram baptizadas com o seu nome, estátuas que a representam encontram-se nos mais diferentes espaços, existe uma casa-museu consagrada à sua memória e conservam-se alguns vestígios da muralha do forte de Tourelles a partir de onde foi disparada uma flecha que atravessou o ombro da “donzela de Orleães”. A catedral gótica alberga no seu perímetro uma capela dedicada à santa condenada por heresia a arder na fogueira.
O templo guarda ainda o registo de heróis anónimos, como a inscrição que assinala o ponto onde jazem os restos “dos dois William Douglas”, cavaleiros escoceses que “morreram por França lutando contra o invasor inglês”.

Saindo de Orleães, é conveniente atravessar o rio pela Ponte George V, tomar a Avenida Dauphine e de seguida enveredar pela estrada regional 951. Desta forma, chega-se ao Parque Floral de La Source, que apresenta uma colecção de plantas do mundo inteiro com especial destaque para os roseirais e o jardim de lírios. Ali encontra-se precisamente a nascente do Loiret, um afluente que desemboca alguns quilómetros mais à frente, no Loire.

Seguindo em direcção a oeste, subitamente no coração da floresta, surge o deslumbrante Castelo de Chambord. Supõe-se que esta jóia do Renascimento francês terá sido concebida por Leonardo da Vinci. O grande artista italiano residiu no vale do Loire nos últimos anos de vida e, embora tenha morrido antes do início das obras em 1519, é quase inevitável contemplar o conjunto e pensar na sua genialidade. 

Instalado junto do rio Cosson e rodeado por um parque e jardins de estilo francês, Chambord tem a particularidade de ter sobrevivido quase intacto à passagem dos séculos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os tesouros do Louvre, entre os quais a Mona Lisa de Da Vinci, foram transferidos para aqui, salvaguardando-os de uma possível destruição de Paris. Num misterioso jogo de bonecas russas, quis a história que uma obra de arte protegesse as outras. 

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Navegar pelo Loire. O rio representou para os habitantes do vale do Loire não apenas uma fonte de alimento, mas sobretudo uma via de comunicação para o transporte de pessoas e bens. Os diferentes nomes com que se denominam as embarcações (fûtreaux, gabarres, plates e tous cabanées…) são um exemplo que ilustra a utilização que lhes era dada (pesca, transporte entre margens, de carga). Actualmente, estas embarcações de fundo chato, conduzidas por navegadores experientes, permitem percorrer o rio durante algumas horas, desfrutar uma refeição ou passar uma noite. Os principais portos onde atracam são Possonnière, Thoureil, Montsoreau, Candes-Saint-Martin, Chaumont-sur-Loire, Saumur e Sigloy.

O Cosson junta as suas águas ao Beuvron, afluente do Loire, perto de Blois, outro dos tesouros do vale. É a cidade tricolor. Com fachadas brancas, coberturas de telha azul e chaminés de tijolo, alberga outro castelo deslumbrante  integrado num centro histórico encantador. Depois de uma manhã em Blois, o visitante deverá seguir pelas estradas regionais 33 e 751, que penetram entre colinas, ribeiros, florestas e campos de cultivo, até alcançar o castelo de Cheverny, a 15 quilómetros. 

Datado de 1640, a sua arquitectura clássica, simétrica e harmoniosa resplandece com a pedra de Bourré, rocha calcária famosa pela particularidade de endurecer e branquear com o tempo. Para muitos visitantes, a fachada parecerá familiar, praticamente igual à de Moulinsart, a mansão do capitão Haddock que Hergé desenhou nas Aventuras de Tintin. No interior, existe uma exposição permanente dedicada ao famoso herói de banda desenhada. 

De regresso à ribeira do Loire, o castelo de Chaumont introduz o visitante no jogo de inveja entre Catarina de Médicis, esposa de Henrique II, e Diana de Poitiers, a favorita do rei. À data da morte do soberano, Diana mudou-se para Chaumont até então a residência da rainha. Esta, por seu turno, recuperou a propriedade de Chenonceau, o palácio construído sobre as águas do rio Cher. 

Chaumont, com as suas torres de telhados cónicos de tijolo, é famoso por albergar exposições que combinam arte e paisagismo e por acolher, na Primavera, um espectacular Festival Internacional de Jardins.

O Castelo de Amboise, um dos mais célebres do vale, ergue-se sobre um promontório que domina o rio, 25 quilómetros antes de chegar a Tours. A construção foi iniciada por Carlos VIII e finalizada por Francisco I que estabeleceu ali a sua residência nos primeiros anos de reinado, conduzindo a corte a um período de fausto poucas vezes visto em França. O castelo teve os seus dias de glória em meados do século XV. Ali acorriam os aristocratas, sábios e artistas mais eminentes da Europa, entre os quais se contou Leonardo da Vinci. 

Francisco I foi admirador fervoroso do génio italiano e alojou-o no vizinho palácio de Clos Lucé. Diz-se que, graças a um passadiço subterrâneo, o soberano ia visitá-lo regularmente para conversarem e, seguramente, para lhe pedir conselhos. Esta pequena mansão conserva-se ainda, mas o castelo, pelo contrário, não teve a mesma sorte. Destruído e desmantelado em diferentes conflitos, serviu durante muitos anos como prisão.
O monumento hoje visitável, embora magnífico, é apenas uma vaga sombra do passado. No interior, a Capela de Saint-Hubert guarda o suposto túmulo de Da Vinci. 

Ao vale do Loire também se chama “o jardim de França” por ser uma das principais reservas agrícolas do país. O Loire abastece França de uvas das suas extensas vinhas, mas também ameixas, maçãs ou melões. É também um importante centro de floricultura e os seus legumes, como alcachofras, cebolas e alhos, gozam de uma fama inquestionável. É certo que os vinhos do Loire não têm o prestígio internacional dos de Bordéus, Borgonha ou Champanhe, mas sobressaem pela sua produção artesanal. A sua qualidade pode ser apreciada nos brancos, de delicado sabor frutado, produzidos com a variedade Pineau, e sobretudo nos tintos, principalmente os de Saumur, Chinon ou Sancerre, produzidos com uvas Cabernet Franc. Ao longo da viagem, várias adegas oferecem rotas e provas de degustação.

O viajante terá de desviar-se do curso do Cher para chegar a Chenanceau, denominado Castelo das Damas em honra das sucessivas mulheres que o embelezaram e ampliaram desde o século XII: Diana de Poitiers, Catarina de Médicis, Luisa de Lorena (esposa de Henrique III), Louise Dupin e Marguerite Pelouze. Chenonceau mantém um singular diálogo com a paisagem do rio Cher, a ponto de, segundo Flaubert, ser difícil saber se está “construído sobre a água ou no ar”.

Idealmente, o viajante chegará a Tours de noite, momento em que pode apreciar a magnífica perspectiva da cidade iluminada, com o castelo e as igrejas reflectidas nas águas do rio. Depois de deixar as malas no hotel, o visitante poderá perder-se pelas encantadoras ruas em busca de um restaurante para degustar um prato tradicional. Comece com uma entrada de rillons e rilletes, uma espécie de patê feito à base de carne de porco, acompanhado de uma garrafa de Coteaux de l’Aubance. A gastronomia da região é uma verdadeira instituição, as principais estrelas são os pratos de carnes frias e o delicioso peixe de rio. Para terminar a refeição, o visitante deverá aventurar-se numa viagem de descoberta pela riqueza dos queijos regionais apostando num Sainte-Maure-de-Touraine ou num Selles-sur-Cher.

Neste vale, quer numa viagem conduzida ao sabor do acaso ou planeada cuidadosamente, todo o viajante deve deixar margem para a surpresa. Além da paisagem e da arquitectura, a vida local e as actividades sazonais animam as viagens de descoberta, como a exploração da geometria dos jardins de Villandry ou a recriação da boda de Carlos VIII com Ana da Bretanha, feita com figuras de cera no castelo de Langeais. Esta estrutura mostra ainda as suas duas faces: a estrutura medieval, onde ressalta a ponte levadiça, e o refinamento próprio do Renascimento. 

O pequeno Castelo de Saché, a sudoeste de Tours, é o espaço perfeito para curiosidades literárias. Carece da espectacularidade de outros palácios do Loire, mas Balzac viveu aqui e situou nos arredores o cenário do seu livro O Lírio do Vale (1835). Neste romance, Félix de Vandenesse escolhia flores silvestres para os ramos que “tentavam pintar o seu sentimento” por Henriette de Mortsauf. Para perceber a intenção da personagem, convém saber que o lírio branco é símbolo do “amor puro”, embora o significado possa variar na complexa linguagem floral.

Um desvio, subindo as águas do Indre, conduz ao castelo Azay-le-Rideau, instalado numa ilha e rodeado por um extenso jardim inglês. Embora a sua construção só tenha terminado no século XIX, a sua silhueta é um dos melhores exemplos da arquitectura renascentista francesa.
O interior não defrauda: das esculturas da escadaria principal e a chaminé da sala grande ao mobiliário e tapeçarias dos séculos XVI e XVII, a decoração transporta o visitante até ao ambiente da corte de Francisco I.

A caminho de Angers, impõe-se um desvio para admirar castelos que oferecem panorâmicas sensacionais sobre o Loire. É o caso das fortalezas que dominam as cidades de Chinon ou Saumur, ou o de Ussé que se ergue sobre um penhasco com as suas torres fortificadas. Diz-se que Charles Perrault o utilizou como modelo para imaginar a história da Bela Adormecida no fim do século XVII.

A memória repousa e renova-se permanentemente no vale do Loire. Da Idade Média ao Renascimento, passando pelos séculos XVIII e XIX até à actualidade, aqui viaja-se no espaço mas também no tempo. E, depois de se descobrirem os seus castelos, comprova-se que os séculos passaram com a sua riqueza de acontecimentos, mas a pedra manteve a essência e o romantismo. 

10 castelos deslumbrantes

 Chambord. Os domínios deste palácio real incluem vinte quilómetros de trilhos.

 Blois. Composto por quatro sectores de diferentes épocas.

 Cheverny. Inspirou o castelo de Moulinsart de Hergé

 Chaumont. A visita inclui o castelo, os jardins e as cavalariças do século XIX.

 Amboise. O castelo está ligado a Clos Lucé, onde viveu Leonardo da Vinci.

 Chenonceau. Possui obras de Veronese, Tintoretto, Jordaens e Van Dyck.

 Villandry. Os jardins geométricos são considerados os mais belos do Loire.

 Langeais. Imprescindível pela colecção de tapeçarias.

 Azay-le-Rideau. Os quartos mantêm a decoração original.

 Ussé. Foi o castelo que inspirou o da Bela Adormecida de Perrault.

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