dalai lama

O Dalai Lama medita nos seus aposentos privados. Ele descreve esta prática diária como “sobretudo meditação analítica”, concentrando o espírito de maneira  a afastá-lo de emoções nocivas como o medo,  a ira e a inveja, de  forma a “aumentar o amor e a bondade”.

Seis décadas após a sua fuga do Tibete, o Dalai Lama mostra-se optimista em relação à humanidade, mas o seu povo receia o dia em que o líder desaparecer.

Texto: Ann Curry
Fotografias:  Saumya Khandelwal

“Não interrompam as suas orações”, sussurram os monges tibetanos antes de abrirem as grandes portas de madeira que conduzem aos aposentos privados do Dalai Lama. Ali, ele medita três a quatro horas todas as manhãs, antes da alvorada. 

No interior do palácio de exílio do Dalai Lama, em Dharmsala, na Índia, somos escoltados até aos seus aposentos, subindo um lanço de escadas e percorrendo um corredor. A sala é escura e a única luz existente provém das janelas. Podemos avistar a cordilheira dos Himalaia cenário de um episódio épico de há 60 anos, quando o jovem líder espiritual e político escapou temendo que os chineses estivessem prestes a detê-lo.

O espaço está frugalmente mobilado. Do outro lado da sala, encontra-se o Dalai Lama, imóvel, silencioso e de pernas cruzadas, sentado sobre uma cadeira maciça.

Damos passos suaves na sua direcção, preparados para um raro vislumbre de Sua Santidade, o 14.º Dalai Lama, manifestação do bodhisattva de compaixão do budismo. Subitamente, os seus olhos abrem-se. 

“Olá, olá!”, diz, sorrindo. 

Faz-nos um aceno. Segundo o protocolo tibetano, chegou a altura de unirmos as mãos em oração e inclinarmos a cabeça na sua direcção, um gesto que ele repete. Não sendo eu budista nem tibetana, tenho tendência a fazer uma vénia desajeitada e levanto frequentemente a cabeça cedo demais, precisamente no instante em que Sua Santidade se inclina para a frente e tenta encostar a sua testa à minha, no gesto tradicional de amizade e respeito.

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O Dalai Lama reuniu-se com tibetanos em Dharmsala em Agosto de 2018. Os budistas tibetanos acreditam que ele é a manifestação da divindade Avalokitechvara, o bodhisattva da compaixão, e fazem  fila para lhe falarem sobre o seu sofrimento e pedirem bênçãos.

De forma embaraçosa, sem me aperceber, também lhe apertei a mão e até o abracei em encontros anteriores, despertando apreensão entre os seus colaboradores. Desta vez, porém, venho decidida a comportar-me como manda o protocolo. No entanto, quando dou um passo em frente para fazer a vénia, o Dalai Lama avança com um brilho nos olhos e pega-me na mão direita, puxa-me para perto de si até as nossas testas acabarem por tocar uma na outra. De seguida, solta um risinho.

Por norma, o Dalai Lama prescinde das formalidades. Embora seja venerado pelos budistas tibetanos como um ser sagrado, costuma dizer: “Sou um simples monge budista.” Quando trava conhecimento com outro interlocutor, costuma fazer de imediato um comentário para transmitir que não existem barreiras que o separem, nem nenhum ser humano, do seu irmão mais próximo.

Quando o interlocutor é careca, o Dalai Lama poderá tocar-lhe no topo da cabeça e na sua própria cabeça rapada, em simultâneo, e depois rir com alegria. Se for alguém com cabelo abundante, pode fazer o mesmo e dizer, em jeito de brincadeira, que o interlocutor tem mais cabelo do que ele. Por vezes, põe a sua mão na nossa durante algum tempo e fita-nos, inquisitivamente, com um sorriso sereno inundando-lhe o rosto. 

É difícil evitar uma retribuição do sorriso. 

Passada a barreira dos 80 anos, o Dalai Lama discute com franqueza nesta entrevista o seu passado e o seu futuro, abordando a sua fuga épica, o seu relacionamento com os funcionários chineses, o seu ponto de vista sobre o azedume que define a actualidade, a forma como lida com o envelhecimento e a razão pela qual sente esperança pelo futuro da humanidade. 

Nas seis décadas decorridas desde a sua fuga, o Dalai Lama visitou mais de sessenta países numa demanda destinada a preservar a cultura, a religião e a identidade tibetanas. A facilidade com que se relaciona com os outros, ao nível humano, é uma das razões pelas quais é profundamente admirado em muitas regiões do mundo, embora outrora fosse mal compreendido fora do Tibete. Ali, no seu reino situado no topo do mundo, os tibetanos prostrar-se-iam no solo mal o vissem, por crerem que ele é a reincarnação dos 13 Dalai Lamas anteriores: uma linhagem que existe desde o século XV. 

Sempre que saía do Potala, o seu “palácio de Inverno de 1000 salas,” como mais tarde escreveria nas suas memórias, o Dalai Lama era escoltado por um séquito de “centenas de pessoas”, incluindo “cavaleiros envergando o colorido vestuário tradicional e bandeiras na mão” e monges segurando faixas “decoradas com textos sagrados”.

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O Dalai Lama incentiva  o estudo das ciências  (na imagem, os monges examinam uma amostra  de água) e apoia a investigação científica das práticas budistas, incluindo a forma como a compaixão afecta o cérebro humano.

Tinha apenas 2 anos em 1937, quando um grupo de busca, constituído por monges conceituados, seguiu os augúrios até à casa da sua família numa pequena povoação agrícola. Segundo relataram, ao mostrarem-lhe um conjunto diversificado de objectos, a criança identificou correctamente aque-
les que tinham pertencido ao Dalai Lama anterior, incluindo uma bengala e um rosário. O rapaz até pareceu reconhecer os monges, dirigindo-se a um deles pelo nome. Depois de receber aprovação em mais testes, foi conduzido, ao longo de uma jornada de três meses, através de “montanhas gigantescas ladeadas por extensas planícies”, até à capital do Tibete, Lhasa, onde “multidões sem fim” lhe deram as boas-vindas antes de ser formalmente empossado, no “enorme e cravejado de jóias” Trono do Leão, como Chefe Espiritual do Tibete. Tinha 4 anos de idade. 

O seu destino seria alterado por Mao Tsé-Tung, cujas forças invadiram o Tibete em 1950, um ano depois de o dirigente iniciar a revolução comunista que fundou a República Popular da China. O Tibete não estava preparado para se defender das dezenas de milhares de soldados chineses que invadiram a capital. O governo tibetano retirou o Dalai Lama da cidade e levou-o para um refúgio, mas ele sentiu-se preocupado com o destino do seu povo e decidiu regressar, na esperança de conseguir negociar a paz. 

Tinha 19 anos quando se reuniu pessoalmente com Mao, em Pequim. Hoje, passadas várias décadas, diz que, após os seus encontros, Mao pareceu suavizar a maneira de falar e surpreendeu-o mesmo com conselhos, aparentemente generosos, sobre liderança. Ao regressar a Lhasa, conta, sentiu-se “cheio de confiança, expectativas e esperança” de que a paz fosse possível. 

No entanto, os tibetanos sufocavam sob o jugo da China. Segundo um relatório de 1960, apresentado por uma Comissão Internacional de Juristas à Organização das Nações Unidas (ONU), “a tortura e o tratamento cruel e desumano foram infligidos aos tibetanos em grande escala”. O mesmo relatório referia igualmente: “Há uma tentativa de erradicação da antiga cultura do Tibete e da sua religião.”

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Monges estudantes brincam, a caminho do almoço, no Mosteiro de Namgyal.

Quando os tibetanos se insurgiram, as autoridades chinesas começaram a deter os lamas e funcionários dos níveis hierárquicos superiores. No dia 10 de Março de 1959, milhares de tibetanos, temendo que o Dalai Lama fosse igualmente detido, cercaram o Palácio de Verão em Lhasa e formaram um enorme escudo humano para protegê-lo. Recusaram-se igualmente a dispersar. 

“Dei o meu melhor para tentar acalmar a situação”, recorda o Dalai Lama, mas esta tornava-se “cada vez mais tensa”. 

Os chineses anunciaram a intenção de colocar tropas para proteger o palácio, mas o Dalai Lama assegura que existiam dúvidas sobre as suas intenções – iriam protegê-lo ou atacá-lo? Cargas de morteiro explodiram junto do edifício. Por esse motivo, no dia 17 de Março, ele decidiu que “não havia outra alternativa senão fugir”.

Disfarçado de soldado, vestindo um casaco preto comprido e carregando uma espingarda sobre o ombro direito, o Dalai Lama esgueirou-se para fora do palácio “nessa mesma noite”, não sabendo se veria nascer um novo dia. 

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Delek Wangmo, que fugiu do Tibete a pé, é monja e professora em Dolma Ling. O convento, oficialmente inaugurado pelo Dalai Lama junto de Dharmsala, em 2005, ministra educação budista a raparigas e mulheres de todas as tradições. Cerca de 250 monjas vivem no local.

Assim se iniciou uma fuga épica, através da cordilheira dos Himalaia. Inicialmente, o mundo não soube que o líder espiritual estava em fuga. Só depois de ele ter transposto a portela coberta de neve próxima de Lhasa, a 4.694 metros de altitude, numa pequena caravana onde também se encontrava a sua mãe, os funcionários chineses compreenderam que ele abandonara a cidade.

 As fronteiras foram encerradas e as autoridades enviaram tropas para procurá-lo. Uma patrulha chinesa quase o apanhou na noite em que a comitiva atravessou o rio Lhasa.

Os olhos do Dalai Lama abrem-se ligeiramente quando relata esse episódio. O Exército Popular de Libertação encontrava-se na margem oposta do rio, tão perto dos guardas que “era possível falarmos com eles”, diz. “Era Inverno, por isso o rio estava baixo. Perigo muito, muito grave. Não sei como escapámos. Sobrevivemos.”

Passados 14 dias a enfrentar nevões seguidos de chuvas torrenciais, combatendo o medo e a fadiga, o Dalai Lama transpôs a fronteira e entrou na Índia, no dia 31 de Março de 1959, “alcançando a liberdade”, nas suas palavras. Com 23 anos, foi bem acolhido pelo primeiro-ministro Jawaharlal Nehru e começou uma vida no exílio. No entanto, a tragédia estava apenas no princípio.

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As orações da manhã,  na Aldeia das Crianças Tibetanas em Dharmsala, na Índia, ajudam a preservar uma cultura sob ameaça. A maior parte dos alunos são descendentes de refugiados tibetanos que fugiram para a Índia, seguindo o Dalai Lama.  O mural por trás do palco apresenta o imponente palácio de Potala, que  era a residência de Inverno do Dalai Lama  em Lhasa, no Tibete.

Em Lhasa, cerca de dois dias após a sua fuga, as tropas chinesas bombardearam o Palácio de Verão e dispararam metralhadoras sobre uma multidão. “Em 1976, o património cultural e religioso do Tibete, incluindo quase todos os mosteiros, jazia em ruínas”, relatou a Comissão Internacional de Juristas em 1997. “Dezenas, senão mesmo centenas, de milhares de tibetanos foram assassinados.” Escrituras budistas foram queimadas. Murais foram apagados. A imigração chinesa para o Tibete aumentou de forma dramática, segundo a Comissão. Grande parte da vida selvagem do Tibete e muitas das suas florestas foram destruídas. O idioma tibetano foi cada vez menos falado. Qualquer pessoa detectada com uma fotografia do Dalai Lama poderia ser detida.

Tudo isto contribuiu para um tal estado de desespero no Tibete que, em 2011, registou-se uma vaga de auto-imolações: segundo as notícias, mais de 150 monges e outros tibetanos pegaram fogo a si próprios em sinal de protesto.

A eliminação daquilo que torna o Tibete único está “totalmente errada”, afirma o Dalai Lama, levantando a voz. “Eles não podem fazer isso. Têm de respeitar a cultura tibetana.” E, acrescenta, os próprios arqueólogos da China descobriram provas de que o planalto tibetano é habitado por seres humanos desde a Idade da Pedra. 

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Estudantes aproveitam  um momento de diversão enquanto esperam pelo início das orações da manhã na Aldeia das Crianças Tibetanas.

Apesar do sofrimento acumulado por observar à distância tudo o que vai acontecendo no Tibete, o líder espiritual tem recusado constantemente o encorajamento da violência. Quando lhe perguntam como é possível não reagir com ira e amargura, ele explica que os monges tibetanos são “formados de acordo com a tradição Nalanda e… tornamo-nos mais realistas… Todos os seres humanos [são] nossos irmãos e irmãs”.

Enquanto deambulava pelo mundo em busca de uma solução diplomática, o Dalai Lama dirigiu apelos à ONU. Em 1987, apresentou um plano de paz em Washington e, em 1988, dirigiu-se ao Parlamento Europeu. Teve reuniões com vários líderes mundiais, entre os quais presidentes e membros do Congresso dos EUA e o papa João Paulo II, em prol do povo tibetano. Em 2001, visitou Portugal, proferindo uma conferência na cidade do Porto.

Numa das suas propostas à China, apresentou a “Via Intermédia”, renunciando ao sonho da independência do Tibete em troca de uma autonomia mutuamente benéfica que preservasse a cultura tibetana. Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1989, mas não tem conseguido proteger o Tibete. 

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Crianças alinham-se  para a formatura matinal na Aldeia das Crianças Tibetanas, em Dharmsala. O Dalai  Lama tem encorajado  os jovens a treinar  o espírito e a praticar  a compaixão para poderem criar um “século mais feliz”.

Quando lhe pergunto se a abordagem da Via Intermédia foi um erro, o Dalai Lama responde que ainda acha que pode resultar. Na sua opinião, o actual presidente da China, Xi Jinping, demonstrou coragem ao lidar com a corrupção no seu país e está a optar “por uma nova maneira de pensar [após] 70 anos [de] política de linha dura… Vamos ver: mais um ano, dois anos, acho que algo poderá mudar”.

Passados todos estes anos, o Dalai Lama ainda sente saudades do mundo que deixou para trás, embora acredite que as antigas tradições budistas do Tibete não teriam sobrevivido se ele não tivesse partido. 

Tem desenvolvido esforços para espalhar a sabedoria dessas tradições em todo o mundo, partilhando conhecimentos sobre a maneira de os seres humanos procurarem a felicidade e reduzirem o sofrimento. Refere-se frequentemente às ligações entre o budismo e a ciência moderna, citando trabalhos das duas disciplinas e demonstrando que a compaixão é benéfica para o nosso cérebro. Actualmente, o espírito tibetano “não está a morrer”, diz. “Espírito tibetano muito forte.” E, afirma, embora “tenha perdido uma casa pequena,” ele “encontrou uma casa grande.” 

“Que casa?”, perguntei. 

Ele respondeu: “Todo o mundo.”

Esse mundo talvez o veja menos no futuro. 
O seu corpo já não o deixa manter o mesmo ritmo. “Tenho cada vez mais a sensação de cansaço. É perfeitamente compreensível, por causa da idade”, diz. Vai voar menos vezes, pois reconhece que “é muito longe e... agora muito difícil”. 
Os joelhos incomodam-no quando sobe ou desce. No ano passado, as visitas à América do Norte foram canceladas, mas viajou até à Europa. 
O seu programa anunciado para 2019 mantê-lo-á mais próximo de casa, na Índia.

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Crianças tibetanas no exílio em Dharmsala põem roupa a secar antes de caminharem para a escola.

Há alguns anos, fez tratamentos para o cancro da próstata e os médicos asseguram que goza de boa saúde. Quem o veja e quem o ouve acha-o muito mais novo do que é. Mesmo assim, os seus colaboradores impõem-lhe limitações ao programa de actividades diárias. As audiências com dignitários e outras pessoas, que outrora se prolongavam até às cinco da tarde, são agora agendadas de modo a terminarem antes do almoço, embora ele tenda a trabalhar mais do que os seus colaboradores desejariam. Em certos dias, chega a haver uma fila com mil pessoas de todo o mundo à espera de serem recebidas. 

Ele desce um caminho íngreme, na direcção do murmúrio suave da multidão. Quando avista a fila de pessoas, detém-se e acena, revelando um sorriso caloroso, e depois sobe cuidadosamente vários degraus até à ampla cadeira de madeira onde se senta, para cumprimentá-las uma a uma. Um bebé com deficiência é levado, escadas acima, pela mãe, que irrompe em lágrimas. Uma mulher de meia-idade pede-lhe uma bênção de cura, soprando-lhe para dentro da boca. Ele acede. Um idoso que caminha balouçando-se nas canadianas fala-lhe das suas dores físicas.

“Todos nascemos para morrer”, responde o Dalai Lama.

Alguns tibetanos preocupam-se com o que acontecerá ao seu povo quando o Dalai Lama morrer. Há mais de cem mil pessoas que vivem fora do Tibete e cerca de seis milhões de residentes que ainda se encontram no território. Num pequeno jantar semanal em Dharmsala, um grupo de poetas, investigadores, artistas, políticos tibetanos e activistas discutem abertamente essa eventualidade.

Sentado por baixo de cartazes de Gandhi e Martin Luther King, Tenzin Tsundue é o primeiro a falar. “Nós somos os seus filhos… Nenhuma comunidade possui um líder como ele”, diz. “Mas este é um combate pela liberdade… Temos de fazer mais. Chegou o momento de sermos nós a agir.”

Mesmo assim, não têm a certeza do que fazer e discutem se a abordagem da Via Intermédia do Dalai Lama será suficiente. Um político levanta a seguinte questão: será que, depois de tudo o que a China fez ao Tibete, é sequer possível que o país adira à postura de não-violência defendida pelo Dalai Lama?

No Mosteiro de Namgyal, o mosteiro pessoal do Dalai Lama, o líder religioso Thamthog Rinpoche exprime-se com solenidade, ao ponderar a questão. “Quando Sua Santidade falecer, vai ser uma catástrofe. Não há líderes como ele.”

No mosteiro, o som dos monges entoando orações budistas eleva-se no céu, momentos antes da alvorada. As vozes pertencem a cerca de cem rapazes, alguns dos quais com 6 anos, debruçados sobre livros numa sala de aula com enormes janelas. 

Quando os primeiros raios de luz se erguem atrás das montanhas e entram na sala de aula, a luz quente e amarela desliza pelas paredes, iluminando um retrato do Dalai Lama com um metro de comprimento, banhando depois os rostos jovens. A memorização destas antigas orações, uma das quais pode demorar um dia inteiro a recitar, “estabiliza a mente, fortalece a memória e aumenta a consciência”, diz o mestre. Eles rezam pela compaixão, cantando em uníssono: “Possa eu atingir o estado de Buda para bem de todos os seres sencientes.”

Quando lhe pergunto o que pensa sobre abraçar a humanidade em todos os lugares, em justaposição ao azedume que divide o mundo, o Dalai Lama faz uma pausa. “Acho que as pessoas que ocupam o poder, por vezes, ainda pensam como no século XX e, sempre que encontram dificuldades, pensam como hão-de resolvê-las pela força.” Após quase oito décadas como Dalai Lama, ele afirma que os seres humanos estão a “amadurecer”.

Pressente que “hoje existe um mundo mais esperançoso, em termos gerais”, mas sugere que comecemos a compreender que todos fazemos parte de “um todo de sete mil milhões de seres humanos” no mundo. Afirma que “dar um contributo, ainda que pequeno” para a melhoria dos seres humanos o fez “sentir-se muito, muito feliz”.

Quando lhe pergunto pelos seus contributos, ele olha-me surpreendido e censura-me: “É errado” pensarmos na nossa própria reputação. Qualquer indivíduo deve preocupar-se exclusivamente em contribuir durante o máximo de tempo possível, afirma. “Todos os dias são as minhas orações, a minha determinação… o meu corpo, o meu discurso, o meu espírito dedicado ao bem-estar de todos os seres sencientes… até ao meu último sopro. E mais além. Enquanto o espaço existir, enquanto o sofrimento dos seres sencientes perdurar, eu estarei ali, para servir. Essa é a minha principal oração.” 

Depois, levanta-se da cadeira. Há mais pessoas à espera das suas audiências. Os monges, sussurrando, olham para o relógio, preocupados. No exterior, as montanhas desapareceram, escondidas por uma pesada neblina branca. O Dalai Lama levanta-se, ainda com alegria, mas caminhando um pouco mais devagar. Começou a chover. Um automóvel aguarda-o para o conduzir de volta aos seus aposentos privados, no topo da colina. Despede-se, acenando. É hora de descansar, antes de voltar a levantar-se para dissipar o sofrimento da humanidade. 

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