Butão

Texto de Sergi Ramis

Butismo tibetano num ambiente selvagem de floresta. O Butão é um pequeno reino no Sudeste dos Himalaia que revela a conta-gotas os seus segredos. País singular, com costumes e crenças arreigados e onde a televisão só chegou em 1999, o Butão parece um território que resulta da imaginação mais fértil.

A neve abre-se, desenhando um buraco oval. Depois, surge um pequeno castelo branco e dourado, fixo na beira do precipício. Os pinheiros dos Himalaia enredam-se na bruma e as bandeirolas de oração amontoam-se sobre o abismo tremendo. Um fantasmagórico tilintar dos pequenos sinos guia o viajante até à porta de Tagktsan. 

Os diferentes edifícios que compõem o mosteiro situado na mais bela localização do mundo distribuem-se pelo estreito caminho de acesso. À semelhança do país de Alice, o visitante passa para o lado de lá do espelho e, a partir desse momento, mergulha num país que parece imaginado, cheio de fantasias e de personagens inesperadas. O Butão encontra-se definitivamente no outro lado do espelho.

Embora próxima da capital, só se acede a Tagktsan a pé. Existem três trilhos distintos que propõem o mesmo: uma caminhada enérgica subindo sem descanso através de um bosque sombrio, que assume tons de esmeralda. Os monges fazem pouco caso dos escassos visitantes e rezam na semipenumbra, num ambiente fresco e húmido.

O mais bonito e fotogénico mosteiro do Butão é conhecido popularmente como Ninho do Tigre. Foi construído no século XVII e encaixa na caverna onde durante três anos, três meses e três dias meditou Padmasambhava, o herói místico do país, cuja pegada o visitante irá encontrar em muitos outros locais. Diz-se que chegou até aqui vindo da Índia voando no dorso da sua consorte Yeshe Tsogyel, transformada em tigre.

 

A monção começa a fazer-se sentir a meio de Outubro e, com a humidade, reforça-se em Thimphu a imagem de pequena cidade de província, com ruas silenciosas e escasso tráfego. A cidade, capital do país, é a única no mundo onde os semáforos não são necessários. Conta-se que há alguns anos foram instalados, mas o equipamento parecia um adereço desnecessário e as autoridades retiraram-nos. Para lá do espelho, as maravilhas sucedem-se.

butão

Thimphu desenvolve-se na margem esquerda do rio Wang, que em território indiano se une ao Bramaputra. As principais sedes governamentais deste país de 40 mil quilómetros quadrados encontram-se aqui, embora poucos edifícios de escritórios sejam necessários para administrar as necessidades de pouco menos de oitocentos mil habitantes. O dzong Trashi Chhoe, o mosteiro-fortaleza instalado sobre uma colina que proporciona perpectivas majestosas do vale, chama de imediato a atenção. O Butão não tem apenas a dimensão da Suíça: parece a Suíça, um país alpino envolto em nuvens. 

A palavra dzong tornar-se-á familiar ao visitante nos dias seguintes. Em tibetano, designa a construção pensada para albergar uma comunidade monástica mas edificada à semelhança de um castelo para desta forma se defender dos atacantes e dar abrigo à população. O Butão organiza-se em torno deles, pois são os dzong que delimitam as províncias e contam a história dos vizinhos agressivos, como o Tibete, a China ou o Império Britânico. Com frequência, estes vizinhos conduziram os butaneses ao campo de batalha. 

Nos espaçosos parques de Thimphu, é muito habitual encontrar campos de batalha. O desporto preferido dos butaneses, sem qualquer margem de dúvida, é o tiro com arco. A qualquer hora do dia, o viajante pode tropeçar em praticantes que acertam num alvo disposto a distâncias que ultrapassam o comprimento de um campo de futebol. Existem pontuações, vencedores e vencidos. Mas as competições desenrolam-se num ambiente de fair-play. Quando um arqueiro atinge o centro do alvo, os rivais agitam os lenços em sinal de reconhecimento. Os homens vestem-se com uma bata às riscas e as mulheres com saia e blusa. Apesar disto, utilizam arcos de tecnologia moderna como os que o visitante provavelmente só terá visto na televisão durante os Jogos Olímpicos.

Nestes momentos, o tempo pára e não há rasto do coelho de Alice no País das Maravilhas a olhar para o relógio. Quando o Sol descansa por trás do Jhomolhari e as luzes da cidade se ligam, o viajante começa a ver fantasmas nas esquinas. São jovens que aproveitam o amparo da noite para se livrarem dos trajes tradicionais. Envergam então T-shirts e calças de ganga e frequentam os bares onde bebem cerveja e ouvem música ocidental. Não estão a violar nenhuma proibição mas sim a zelar pela tradição. É por este motivo que anualmente só são concedidos vistos de entrada a 100 mil turistas. As autoridades temem que se altere uma forma de vida que parece ter ficado retida nestas montanhas.

 

A maioria dos dzong e mosteiros do Butão celebra, no início de Outubro, os tsechu. São os mais importantes festivais do ano em que os monges e habitantes mascaram-se e disfarçam-se para representar uma peça teatral que tem, pelo menos, quatro dias de duração e que reproduz a vida e os milagres de Padmasambhava, o Guru Rimpoche, responsável pela introdução do budismo no país no século VIII. Nessa altura, o alojamento escasseia e os restaurantes e transportes públicos estão invulgarmente cheios de butaneses que celebram o momento. Todavia, nem estes pequenos transtornos incomodam face à exuberância das celebrações.

Os cães deitam-se a dormir onde lhes apetece, embora ocupem metade da calçada. Os butaneses respeitam-nos, pois consideram-nos animais capazes de reencarnar em seres humanos. Talvez por isso, ou simplesmente porque a pressa não existe aqui, os veículos avançam a passo de caracol. 

As estradas não são más, mas houve quem se desse ao trabalho de calcular o número de curvas por cada quilómetro: 17. As viagens na montanha fazem-se devagar.

O dzong de Punakha encontra-se sobre uma praia de seixos na confluência dos rios Mo (mãe) e Pho (pai). Juntamente com o de Trongsa, talvez seja o mais belo do país. O local recorda igualmente ao viajante que se encontra ainda dentro do espelho. Os dois rios têm águas de cores radicalmente diferentes. O primeiro é negro e o segundo cor de jade. Durante centenas de metros, as águas não se misturam, formando uma cortina líquida. De repente, surpreendentemente, a cor verde impõe-se e engole o rio tenebroso.

O Butão tem nos rios o seu principal capital de exportação. O país vende energia hidroeléctrica à Índia  e, com isso, alimenta uma economia que fundamentalmente se baseia no cultivo de arroz e trigo e na exploração florestal controlada. 
O governo aceita o debate sobre se deverá ou não alargar o número de turistas que trazem investimento mas simultaneamente novos problemas. Num país onde o monarca teve de convencer os súbditos a votar nas eleições que lhe retiraram parte dos seus privilégios para os ceder à câmara de representantes, qualquer desenlace é possível. Até é possível cruzarmo-nos com a Rainha de Copas que poderá dizer que aqui a medida estatística de referência não é o Produto Interno Bruto mas sim a Felicidade Nacional Bruta.

Por vezes, o vale de Phobjikha não corresponde às expectativas. Já houve ocasiões em que os grous-de-pescoço-negro, que aqui procuram refúgio no Outono, fugindo às baixas temperaturas da China e da Mongólia, só apareceram no Inverno. 

Ainda assim, esta anomalia meteorológica não trava o espectáculo da chegada destas aves que aterram nos campos de cultivo. Também por aqui, com um pouco de sorte, se consegue ver o animal nacional, o takin-dourado. Os butaneses poderiam ter escolhido o esquivo leopardo-das-neves ou o brincalhão panda-vermelho, mas preferiram este herbívoro que parece um puzzle: cabeça de cabra, nariz de alce, orelhas de cavalo e corpo de vaca. 

panda butão

É necessário atravessar as montanhas Negras para chegar ao que é considerado o coração tradicional do Butão, a província de Bhumtang. Para trás, fica Trongsa, a antiga capital do reino, com um dzong que rivaliza em beleza com o de Punakha. Aqui, qualquer cume ultrapassa os três mil metros e oferece uma boa panorâmica da secção oriental do território, a menos desenvolvida. A norte, montanhas nevadas delimitam a paisagem, o Gangkhar Puensum com 7.570m, o tecto do país, é a montanha mais alta do mundo nunca escalada. Rumo a sul, as terras baixas de cultivo elevam-se apenas 100 metros acima do nível do mar. São os duars (portas), várzeas aluviais deixadas como herança à Índia pelos britânicos.

 

O Butão é uma região notável para o trekking. As agências de montanhismo e escalada estão bem preparadas quer em termos de equipamentos quer em termos humanos. 
Existem dezenas de circuitos à escolha. Um dos mais bonitos aproxima-se da base do Jhomolhari (7.326m), a noiva do Kanchenjunga (8.586m). Ao contrário do Nepal, estas zonas são pouco povoadas e escasseiam as aldeias. O terreno é mais íngreme, o que permite maior isolamento para os visitantes e rotas mais longas. Em compensação, o viajante por vezes pode tropeçar na bonita papoila azul dos Himalaia e, com sorte, com o elusivo migoi, o ieti do Butão, que tem um santuário próprio na reserva de Sakteng. 

Em Bhumtang, existe o templo Kurjey Lakhang. Situa-se numa zona florestal tão densa que quase converte o dia em noite. Para chegar à porta do monumento, é preciso deslizar por um estreito passadiço de rocha. Ao raspar o corpo contra a rocha, contorcendo-se para vencer o caminho, o viajante limpa-se dos seus pecados. 

Dizem os monges, no inglês cristalino que praticamente todos os habitantes do Butão dominam, que neste local Guru Rimpoche, o segundo buda, o indiscutível campeão das proezas nacionais, introduziu o budismo no vale depois de vencer a poderosa divindade local. A sua pegada pode ver-se na parede da caverna onde meditou.

Perto, em Membartsho, que na realidade não é um lago como indica o topónimo mas sim um desfiladeiro do rio Tang Chhu, as comunidades locais deitam-se por tradição de barriga para baixo na beira do precipício para conseguirem ver as águas negras e lançarem nelas notas de ngultrum, a moeda oficial do país, como oferenda. Quase todos os visitantes o fazem... e o local convida a isso pelo seu ambiente inquietante e até um pouco tenebroso.

Voltando a cruzar o país em sentido inverso, o viajante está próximo de abandonar o reverso deste espelho, talvez com alguma tristeza por não se ter cruzado com o Chapeleiro Louco. Não sabe que ainda lhe resta uma oportunidade.

Phuentsholing é uma cidade fronteiriça que tem um monumento característico: um arco de madeira de estilo butanês que faz de fronteira. Do lado norte, tudo está ordenado, limpo e silencioso. Na encosta sul, a violenta Índia: ruidosa, caótica, sem normas a cumprir, maravilhosamente excessiva. O Chapeleiro Louco!

Os butaneses alertam os visitantes para os “perigos” que os esperam se cruzarem a fronteira. Todos sabemos que sair implica sair do espelho e regressar ao mundo real. De facto, a excentricidade é butanesa. É o país mais estranho, raro e belo do mundo.  

A GASTRONOMIA BUTANESA

A cozinha butanesa não é nem muito variada nem muito requintada, mas é picante, ainda mais do que a gastronomia indiana e tailandesa. Todos os pratos incorporam pimentos picantes, as malaguetas, e o campeão absoluto é o ema datse, diabólico pela sua simplicidade. Trata-se de um prato composto por pequenos pimentos verdes fritos ou assados no forno acompanhados de queijo de iaque derretido. Juntamente com os cereais (arroz, cevada e trigo), a carne é um ingrediente habitual, embora o Butão seja um país fervorosamente budista. O porco estufado com rabanetes (phakshalaphu), o frango com manteiga semelhante ao indiano (bja sha maroo) e o estufado de vaca com espinafres (no sha huentseu) são três ofertas muito comuns nos restaurantes, juntamente com os clássicos tibetanos como momo (ravioli) e thukpa, uma sopa revigorante. 

ESCONJURAR OS DEMÓNIOS

Presentes em todo o território mas multiplicando-se em Bhumtang em cada fachada, beiral, porta de templo ou de estabelecimento comercial, o viajante é surpreendido com as pinturas de falos erectos, rodeados por símbolos auspiciosos do budismo e, frequentemente, ejaculando. Os butaneses recordam desta forma que um monge do século XVI, Drukpa Kuenleg se livrou de demónios particularmente incómodos usando os seus poderes tântricos, veiculados neste caso através do seu pénis. Hoje, os genitais, juntamente com a característica pintura negra junto das janelas, impede o acesso dos espíritos malévolos ao interior das habitações. A cultura tibetana apresenta também as suas singularidades neste reino meridional dos Himalaia. 

LUGARES EMBLEMÁTICOS NO BUTÃO

Bhumtang. Nesta região, coração identitário do país, conserva-se o estilo de vida tradicional.

 Jhomolhari. A zona mais popular para caminhadas encontra-se em redor deste cume com 7.326m. 

 Punakha. Antiga capital do país, o seu dzong (mosteiro fortificado) situa-se na confluência de dois rios.

 Tagktsan. O mosteiro conhecido como Ninho do Tigre finca-se a uma fenda vertical, lugar de peregrinação por ter sido morada de Padmasambhava. 

 Trongsa. Alberga aquele que é considerado o dzong mais impressionante do país, construído em 1647.

 Thimphu. A capital do Butão vive ao ritmo de uma pequena cidade. Aqui está localizada a Biblioteca Nacional e o Instituto de Medicina Tradicional.

 Vale de Phobjikha. Habitat do urso dos Himalaia, do leopardo, do veado muntjak e dos grous-de-pescoço-negro, que ali passam o inverno.

tigre butão

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