Níger

Uma caravana de carrinhas, carregada de migrantes, inicia uma viagem de três dias até à Líbia, atravessando o Saara. Estes homens planeiam refazer a vida noutro país.

Localizado numa das regiões mais complexas do planeta, o Níger agarra-se à estabilidade. Durante quanto tempo?

Texto: Robert Draper
Fotografias: Pascal Maitre

Pouco antes  do crepúsculo,  as primeiras carrinhas de caixa aberta passam pelo posto de controlo e estacionam no deserto, nos arredores de Agadez, no Níger.

Os passageiros amontoam-se nos veículos. Cada carrinha leva 25 passageiros e estes não transportam mais do que uma mochila. Usam óculos escuros e lenço ao pescoço para se protegerem da areia, além de casacos grossos para as noites geladas da viagem de três dias até à Líbia. 

Vê-se bem que são jovens. Apertados uns contra os outros, no meio de estranhos, mexem as mãos com o nervosismo e contemplam apaticamente a paisagem vazia que os aguarda. Vendedores empurrando carrinhos de mão ferrugentos apregoam casacos em terceira mão, cana-de-açúcar, sacos de plástico com água, cigarros e cajados para servirem de apoio contra a possibilidade de caírem da carrinha em andamento e ficarem isolados no Saara, ermo e sem lei, vendo ao longe a caravana impiedosa desaparecer no horizonte. 

As carrinhas continuam a chegar. Mais de cem estarão aqui reunidas quando o desfile começar. Duas viaturas militares avançam resolutamente: uma para assumir a liderança da coluna e a outra para guardar a retaguarda. Ao cair da noite, um enxame de motocicletas surge do nada e transpõe o posto de controlo da cidade, com uma vaga de frenéticos aspirantes a viajantes de última hora, que pretendem negociar um lugar dentro das carrinhas sobrelotadas. No turbilhão de areia e da caótica integração dos retardatários, uma motocicleta desliza sobre a areia até se deter. Mesmo sentado, o condutor é uma figura grande e imponente. De barba desgrenhada e palito entalado nos lábios, examina a multidão com um sorriso beatífico.

Ri-se com vontade e proclama: “Arroz e feijões!”

O Patrão (nome pelo qual este homem é conhecido por todos em Agadez) não está a descrever alimentos. Está a referir-se à composição da caravana. Há o arroz: as muitas centenas de passageiros que integram esta caravana semanal, rumo à Líbia, em busca de trabalho. Depois, há os outros, os feijões (não mais do que talvez sete por carrinha) oriundos de outros lugares, a caminho de destinos diferentes, cada qual com as suas motivações. Eis a receita do Patrão. Ele é, poderíamos dizê-lo, um exportador de feijões. Milhares incontáveis de feijões desde que começou a dedicar-se ao negócio em 2001 e mesmo depois de o governo do Níger o ter tornado ilegal em 2015.

O fluxo de viajantes não tem parado e não cessará. A instabilidade crescente da África Ocidental assim o garante. O trabalho do Patrão consiste em gerir este fluxo. Na qualidade de passador, ele posiciona-se no topo de uma rede obscura, talvez a maior de Agadez, composta, no mínimo, por uma centena de motoristas e outros tantos angariadores, que tratam dos preparativos. 

Antes de chegarem ao posto de controlo, as carrinhas obtêm documentos de autorização na estação de autocarros de Agadez, recebendo-os de um funcionário da cidade, que, por acaso, é o Patrão. Pagamentos feitos. Documentos assinados. Olhos virados para o outro lado. E a viagem começa.

“Conhecem-me em todo o lado”, declara. “Até na Internet se encontram fotografias do Patrão com imigrantes.” Ele facilita a viagem tran-saariana de Agadez à cidade líbia de Sabha. De seguida, contrata um homólogo na Líbia para guiar a comitiva de Sabha a Trípoli e outro ainda para os transportar pelo Mediterrâneo até ao Ocidente. Seja em Itália, nos Estados Unidos, numa cela prisional, abandonados à morte no deserto ou afogados no mar, o destino final destes homens já não compete ao Patrão. 

Ainda assim, creio que não pressinto apenas gabarolice quando o escuto evocar, com orgulho, a cliente que viajou dos Camarões a Agadez e chegou à Alemanha em menos de duas semanas. Considerado um criminoso por alguns, o Patrão – que não quis revelar o nome, devido à ilegalidade do negócio – prefere considerar-se um funcionário público altamente empreendedor.

Acima de tudo, o Patrão é um estabilizador numa região onde poucos desempenham esta função. Para os não iniciados, a situação observada no posto de controlo parece descontrolada. Mas não está. Há um sistema a funcionar – um sistema compreendido por todos e que beneficia muitos. Sendo ilegal, não é o melhor sistema. Mas é uma solução criativa para um facto inevitável: o Níger vive rodeado pelo caos. 

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Este adolescente coberto de areia, devido ao trabalho numa mina, é um dos muitos nigerinos que entraram na corrida ao ouro. É a última esperança para quem ficou desempregado depois do colapso do turismo, do declínio da mineração do urânio e de uma lei que criminalizou o transporte de migrantes.

Embora seja um país afligido por inúmeros problemas, como a pobreza profunda, o crescimento demográfico, a escassez de solo arável agravada pela desertificação e um sistema político instável, o Níger não é uma incubadora de violência, ao contrário dos seus vizinhos. É um país atravessado por pessoas em fuga e não um país do qual as pessoas fogem. O destino do Níger depende da sua capacidade para travar o caos, mantendo uma aparência de ordem, ou sucumbir por completo a esse caos.

O papel desempenhado pelo Patrão no drama do Níger só se tornou evidente para mim num domingo de manhã quando eu e ele viajámos durante várias horas através dos “guetos” de migrantes de Agadez. Trata-se de uma cidade antiga, de edifícios baixos, com um palácio de sultões e uma mesquita com quinhentos anos no seu centro histórico. Os bairros periféricos são, em grande parte, compostos por lama e palha, com mais de 130 mil habitantes, sem contar com os numerosos clientes do Patrão que por ali andam, de passagem.

Encontrámos alguns deles atrás de muros construídos em terra, passando o tempo sossegadamente em quartos escondidos, aguardando a caravana de segunda-feira. Quatro rapazes, com 15 a 18 anos, provenientes do Burkina Faso, do Mali e da Costa do Marfim, concentravam a atenção num pequeno televisor. Um homem magro, de 50 anos, originário dos Camarões, esperançoso de se reunir à mulher na Alemanha, mas por ora aguardando numa sala sem luz, com as paredes forradas a graffitti de outros que por ali passaram: Ezekiel. Tala. Cherif Kante. Que Deus nos ajude a todos. Dois irmãos de uma aldeia do Burkina Faso, magros, mas com dentes impecáveis, impecavelmente ingénuos: não tinham frequentado a escola, não sabiam que idade tinham, tinham um irmão à espera na Argélia e só traziam uma ou duas mudas de roupa, na esperança de chegarem, de uma forma ou de outra, a um sítio chamado Europa.

Na manhã do dia anterior à partida da caravana, o Patrão conduziu-me ao interior de um pátio cheio de peças de automóvel enferrujadas, onde cerca de duas dezenas de jovens africanos – na sua maioria, mas não todos, do Níger – dormiam ou fumavam à sombra. Um jovem de 18 anos natural de Agadez, chamado Mohammed, reparava uma avaria no motor da carrinha. Regressara da Líbia com a caravana há escassas duas horas e estava visivelmente atordoado. No dia seguinte, partiria de novo para norte. Mohammed explicou que fazia este circuito todas as semanas desde os 15 anos. Viam-se buracos de bala no banco do passageiro e no guarda-lamas traseiro esquerdo da sua carrinha maltratada. Fora assaltado no deserto quatro vezes nos últimos três anos. Mohammed assegurou-me que essas experiências o tinham aterrorizado. Antes fora mecânico de automóveis e ainda fazia trabalhos de reparação, disse, antes de acrescentar: “Pagam mais aqui.”

O motorista da carrinha, os seus passageiros nervosos e até o Patrão – feitas as contas, as suas histórias convergem. A agitação é a narrativa duradoura da África Ocidental. Trata-se de uma região avassalada pelo desespero económico, um crescimento drástico da população, a degradação ambiental, a instabilidade política e a violência crescente. Está prestes a tornar-se ingovernável. Cercado como está por cinco das maiores incubadoras de grupos extremistas islâmicos do continente (Argélia e Líbia a norte, Mali a oeste, Chade a leste e Nigéria a sul), o Níger é mais pobre do que os restantes, mas, pelo menos por agora, é também o mais pacífico. Como nos disse cortesmente o embaixador dos EUA no país, Eric Whitaker: “O Níger é um bom país com má vizinhança.”

A preservação da distância de segurança relativamente ao perigo é uma missão difícil. No entanto, uma vez que o país tem o estatuto de “agente decisivo nos esforços regionais de combate ao terrorismo e promoção da estabilidade” (segundo o Departamento de Estado dos EUA), parece ter-se consolidado entre algumas potências ocidentais o seguinte entendimento: Se o Níger se perder – o único país, no seu “bairro problemático” que não se transformou num caldeirão de violência e de actividade dos extremistas – cessam as possibilidades de reforma na região. 

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Duas mulheres tuaregues socializam num bar de narguilé no centro histórico da cidade de Agadez.

Essa é a razão pela qual uma base aérea estava a ser construída pela Força Aérea dos EUA nos arredores de Agadez durante a minha visita. Isso explica também que as forças de operações especiais tenham participado em missões antiterroristas no Níger – uma das quais, em Outubro de 2017, causou a morte de quatro soldados norte-americanos, quatro soldados nigerinos e um intérprete nigerino, numa emboscada preparada por militantes islamitas. Eis a razão pela qual a ajuda externa representa 40 por cento do orçamento do Níger. Eis também a razão pela qual o Patrão, enquanto distribui africanos pelos quatro cantos do mundo, contribui à sua maneira paradoxal para manter unida uma região que poderia facilmente desagregar-se.

Certa manhã, o Patrão visitou-me no hotel em Agadez. Instalou-se confortavelmente numa cadeira do pátio, de óculos escuros e turbante, palito na boca, reflectindo em voz alta enquanto escutava um programa de rádio francês no seu telefone. Por fim, acabou por murmurar: “A Comunidade Europeia bloqueou tudo. O turismo, a migração, as minas. Pode fazer-se mais qualquer coisa para lá de dormir? É como alguém nos morder e dizer para não chorarmos.”

Num dia de dezembro passado, os habitantes da aldeia de Goofat,  a uma hora de automóvel de Agadez, reuniram-se. Um grupo composto por tuaregues semi-sedentários, em grande parte muçulmanos, preparava-se para eleger um chefe pela primeira vez. O acontecimento foi meticulosamente festejado, de acordo com uma rotina rigorosa. Matou-se uma vaca e um grupo interpretou canções folclóricas. As mulheres, de rostos tingidos de amarelo, colocaram jóias de ouro, enquanto permaneciam sentadas de pernas cruzadas sobre tapetes. Os homens usaram turbantes garridos e as melhores túnicas. Um a um, cada representante das cerca de 270 famílias da aldeia (em muitos casos, uma mulher) foi chamado pelo último nome para preencher um boletim de voto, a favor ou contra o único candidato, lançando-o num caixote de plástico. 

Passadas quase duas horas de votação e contagem dos votos, o vencedor, por maioria esmagadora, foi um homem esguio de meia-idade da família Kourouza, que deu ordeiramente um passo em frente, ocupou o seu lugar numa cadeira com um semblante compenetrado, enquanto os anciãos da aldeia envolviam solenemente a sua cabeça com um turbante roxo. 

Sob a pompa da cerimónia, contudo, ocultava-se uma realidade inquietante: as famílias elegeram Mohamed Kourouza como chefe porque decidiram que Goofat crescera demasiado para continuar a existir sem governo. Os bebés e as crianças pequenas ultrapassavam, de longe, o número de adultos. A população desta aldeia rural, com cerca de 2.300 habitantes, praticamente duplicara em menos de vinte anos. Com mais crianças, surge a necessidade de mais escolas, mais serviços sociais e mais território para pastagens. Surge então o potencial para mais conflitos. Em ponto pequeno, a história de Goofat é um alerta para o Níger.

Mesmo atendendo aos padrões de um continente em dificuldades, a situação do Níger é grave, ilustrada por duas estatísticas alarmantes: o PIB per capita é aproximadamente mil dólares, um dos mais baixos do mundo, e a taxa de fertilidade regista sete nascimentos por mulher, a mais elevada. Os dados demográficos não são suficientes para explicar a situação precária do Níger. País continental desértico, tem enfrentado secas terríveis, prevendo-se que as alterações climáticas possam agravá-las. A pobreza e a fragilidade ambiental, por sua vez, têm exacerbado a instabilidade política.

Desde que se tornou independente de França, em 1960, o Níger sofreu quatro golpes de estado militares, o último dos quais em 2010. Nos últimos 30 anos, também enfrentou duas rebeliões sangrentas dos tuaregues. A mais recente, extinta há uma década, deixou cicatrizes duradouras na maior das oito regiões do Níger: Agadez. Até então, a cidade de Agadez funcionara como porta de entrada para o Saara, chegando a receber 20 mil turistas por ano, muitos dos quais em voos directos provenientes de Paris. Os três anos de escaramuças violentas entre os rebeldes e o exército do Níger eclipsaram a actividade económica predominante. A indústria turística começou a considerar Agadez como zone rouge

Esse vazio foi preenchido pelo Patrão e por outras pessoas envolvidas no negócio da deslocação de migrantes. Devido à posição geográfica da cidade, Agadez (nome derivado da palavra tuaregue egdez ou “visitar”) fora durante séculos um ponto de passagem para as caravanas de sal e outros comerciantes nómadas que viajavam de camelo. Enquanto entreposto dos migrantes africanos, Agadez encontrava-se bem situada e, para o efeito, bem equipada com antigos guias turísticos e motoristas.

“Chegavam a passar por aqui trezentos mil migrantes por ano”, recordou o presidente da câmara da cidade, Rhissa Feltou. “Motoristas, hotéis, mercados, bancos, operadoras telefónicas… A cidade beneficiava.”

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Centenas de poços revestem uma mina de ouro no Norte do Níger, junto da fronteira com a Argélia. Equipas fazem girar as manivelas para descer os mineiros até às camadas auríferas, a 90 metros de profundidade. Os mineiros enviam para cima a pedra para ser triturada, libertando o tesouro.

Em 2011, o fluxo de migrantes transformou-se numa torrente, depois de a deposição do líder líbio, Muammar Kadhafi, ter rompido a fronteira do Níger com a Líbia. A partir de então, o tráfego rumo a sul passou a incluir armas desviadas dos arsenais do governo líbio. O fluxo migratório mal controlado exerceu mais pressão sobre os recursos sociais nos países europeus, gerando vagas humanitárias no deserto e no mar. A permeabilidade das fronteiras africanas suscitou preocupações quanto à disseminação do terrorismo, tanto mais que os esforços liderados pelos EUA no Afeganistão, contra a al-Qaeda, e no Iraque, contra o ISIS, tinham forçado esses grupos a procurar refúgios mais hospitaleiros.

Depois de a União Europeia oferecer incentivos, o governo do Níger criminalizou em 2015 o transporte de migrantes. Em Agadez, a polícia confiscou grandes quantidades de carrinhas de caixa aberta. Os angariadores e os motoristas foram detidos, juntamente com o Patrão, que passou três semanas na prisão. A maior fonte de receita da cidade foi oficialmente ilegalizada, empurrando a economia de Agadez para o mercado negro. 

Apesar da repressão movida contra o tráfico de seres humanos, a localização de Agadez assegura que a cidade continua a ser um ponto de trânsito para os viajantes estrangeiros. Hoje, tem um novo tipo de hóspede. Conhecida como Base Aérea 201, trata-se de uma instalação militar pertencente ao Estado nigerino, mas arrendada aos EUA e habitada por cerca de 550 funcionários da Força Aérea norte-americana. Dificilmente se pode afirmar que a sua existência seja um segredo, mas os ocupantes norte-americanos são uma presença discreta. Aparecem em Agadez para reconstruir uma escola ou numa aldeia vizinha para construir um poço de água, mas permanecem na base durante a maior parte do tempo. Quando a visitei em Dezembro, engenheiros militares construíam afanosamente uma pista de aterragem com um quilómetro e meio de extensão capaz de suportar condições desérticas. 
Aeronaves C-17 e C-130 servir-se-ão da pista, juntamente com veículos aéreos não tripulados MQ-9, equipados com armamento que permitirá ataques cirúrgicos contra grupos extremistas, bem como iniciativas de vigilância. 

Estas operações alargar-se-ão para lá da região de Agadez, entrando na “má vizinhança” que gerou os grupos extremistas. “O inimigo explora estas fronteiras permeáveis a tempo inteiro”, afirmou Samantha Reho, porta-voz do Comando Africano dos EUA, responsável pela supervisão do papel militar norte-americano no Níger. 

A missão antiterrorista acarreta riscos evidentes, comprovados pela emboscada de Outubro de 2017, mas a presença das forças armadas dos EUA não é um gesto de benevolência para com o estrangeiro. Segundo o Departamento de Estado, “a assistência estrangeira dos EUA ao Níger cumpre um papel decisivo na preservação da estabilidade, num país vulnerável à volatilidade política, ao terrorismo e à disseminação do extremismo violento, da insegurança alimentar e da instabilidade regional”.

A cidade de Agadez propriamente dita não tem sido mencionada nas recentes avaliações de ameaça realizadas pelos serviços de informação, segundo um funcionário da Defesa dos EUA. Contudo, a presença de uma base militar e a distância de Agadez relativamente às zonas de fronteira só permite proteger a cidade durante um tempo limitado. As conversas no interior das casas de adobe reflectem um descontentamento crescente. Homens jovens vêem que as suas opções estão quase esgotadas. Frequentaram a escola, procuraram trabalho, cumpriram as regras. Com poucos empregos disponíveis, encontraram um lugar no negócio de extorsão do Patrão. Quando viram os amigos presos e as carrinhas confiscadas, retiraram-se de cena. E agora aguardam por qualquer solução que possa aparecer.

Entretanto, ouviram falar de outros jovens que recrutavam funcionários. “Precisas de dinheiro para te casares? Nós pagamos.” Vídeos de YouTube e mensagens de WhatsApp do grupo jihadista Boko Haram circulam por aqui.

Certa noite, durante um fada – uma reunião informal de jovens nigerinos, em torno de chá quente e jogos de cartas – um indivíduo empreendedor que outrora tivera um bom estilo de vida, importando carrinhas de caixa aberta, agora pouco procuradas, ergueu os olhos do jogo e reflectiu sobre a sua vida. 

“As coisas não podem continuar assim”, disse com calma. “Isto vai transformar-se numa selva.”

Na fronteira meridional do Saara, está em curso uma corrida ao ouro oeste-africano. Milhares de homens atacam um território de arbustos e cascalho. Alguns brandem picaretas e usam pás. Outros dispõem de martelos pneumáticos. Outros não possuem quaisquer ferramentas: apenas pedras para soltar a terra à mão. 

De vez em quando, o solo estremece, acompanhado por um estrondo abafado e conclusivo: dinamite. É a maneira mais eficiente de escavar, embora perigosa e, por esse motivo, ilegal. De todo o modo, muitos destes homens (senão mesmo a maioria) já está a trabalhar aqui sem qualquer licença emitida pelo Estado.

Em redor, estende-se aquilo a que poderíamos chamar cidade de tendas, com a diferença de que estas tendas foram rasgadas pelo vento e transformadas em tiras esvoaçando sobre os mineiros que dormem sobre o solo. Este povoado chama-se Amzeguer e nem sequer existia há cerca de cinco anos. 

Numa daquelas contradições africanas infelizmente familiares, o Níger é rico em recursos minerais e o quinto maior produtor mundial de urânio, embora se posicione em último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. As suas três maiores minas são consórcios com multinacionais francesas e a queda acentuada do preço do urânio provocou o despedimento de trabalhadores nigerinos.

Em 2017, o governo encerrou a maior zona de mineração do ouro, no planalto de Djado, a norte, aparentemente devido a actividades terroristas, mas porventura justificado pela chegada de mineiros estrangeiros, vindos do Chade, do Sudão e da Líbia. Muitos mineiros nigerinos encontravam-se agora aqui, juntamente com outros homens de Agadez, desesperados para garantir um modo de vida quase razoável. 

“Se tenho esperança?”, pergunta um homem de 46 anos chamado Jamal, que de seguida retira o lenço, descobrindo o rosto coberto de areia. “Olhe para a minha barba. Está a esbranquiçar de tanto esperar…”

Jamal ergue-se sobre uma colina com buracos profundos. “Escavámos até 53 metros de profundidade e depois encontrámos água”, explica. “Agora precisamos de extraí-la. Existia uma só bomba, que todos partilhávamos, mas avariou-se.” 

Aponta, a vários metros de distância, para um mineiro magro de fato-macaco azul quase totalmente coberto com uma película de poeira. 
O homem, com 11 filhos (de idades compreendidas entre 12 e 30 anos), conseguira escavar um buraco com 60 metros de profundidade, encontrando vestígios do mineral precioso. “O ouro está aqui à espera”, afirma Jamal. “Precisamos apenas de algum dinheiro para reparar a nossa bomba.”

Amzeguer é o local de trabalho de Jamal há quase três anos. Antes disso, foi guia no deserto para migrantes residentes em Agadez, com seis motoristas sob sua supervisão. Depois de imposta a proibição da migração, a polícia confiscou duas das suas carrinhas de caixa aberta. Agora é um mineiro artesanal, sem um tostão furado. Vários colegas morreram em poços de mineração, atingidos por uma ferramenta caída ou soterrados pelo desabamento de uma mina. “Ambos os trabalhos são arriscados”, diz. “No entanto, se alguém na cidade me propuser o transporte de 50 migrantes, aceitarei.” A voz de Jamal é prática. “Se não conseguir encontrar ouro, volto ao negócio”, diz. “Se não for numa carrinha, vou numa caravana de camelos, à moda antiga.”

“Até há pouco tempo, não havia ladrões em Agadez”, afirmou o xeque Salahadine Madani, imã da escola islâmica ortodoxa Daroul Kouran. “Trabalhavam no turismo, ou com migrantes, ou iam para as minas à procura de ouro. Agora, quando visito a prisão, encontro pessoas que nunca imaginei ver lá. São pessoas honestas que se tornaram desesperadas.”

O imã, de visita ao meu hotel, beberricou uma Coca-Cola à sombra de um guarda-sol no pátio. Tinha a voz pesada de tristeza. No entanto, reagiu com aspereza quando lhe referi que o movimento ortodoxo islâmico de que faz parte, conhecido como Izala, tem relações históricas com o fundador do Boko Haram.

“O Alcorão não diz que se devem matar inocentes em nome do islão”, sublinhou. O xeque reconheceu, no entanto, que o caminho do desespero económico ao extremismo violento tem sido muito percorrido. “Sim, tenho visto isso”, afirmou. “Ouvimos os miúdos dizerem que não têm oportunidades. Ouvimo-los nas ruas, dizendo que talvez essa seja a única opção que resta.”

Ainda assim, esta opção parece um anátema aos olhos dos africanos ocidentais, que desenvolvem esforços inimagináveis para evitá-la. Seja o que for que possamos pensar sobre o Patrão e os seus clientes, a sua tenacidade é assombrosa. 

Certo dia de manhã, num abrigo de Agadez que ajuda os migrantes a regressarem às suas terras de origem, travei conhecimento com Mohamed, de 19 anos, oriundo da Costa do Marfim. Trazia ao pescoço um colar com uma lâmina de barbear pendurada. Chegara a Agadez há cinco dias. 

Sem entrar em pormenores, disse-me que tivera problemas na aldeia e que, apesar de tudo, o seu sonho sempre fora viver nos Estados Unidos. Por isso, em Agosto de 2018, Mohamed pagou para embarcar numa viagem de seis dias numa carrinha de caixa aberta até Gao, no Mali. Pelo caminho, ele e mais 19 passageiros foram roubados e várias das suas garrafas de água foram destruídas por bandidos. Percorreram a pé os últimos 110 quilómetros através do deserto da Argélia.

Mohamed passou um mês a trabalhar como mecânico na vila de Bordj Badji Mokhtar. De seguida, viajou a pé e à boleia até Marrocos, na esperança de descobrir um modo de fazer a travessia por mar até Espanha e dali para os EUA.

Em vez disso, as autoridades de imigração marroquinas prenderam-no durante cinco dias. Fugiu e regressou à Argélia, onde foi preso durante um curto espaço de tempo, não sem primeiro o aliviarem do pouco dinheiro que lhe restava. Por verem que já não lhes servia para nada, as autoridades argelinas puseram-no na caixa de um camião do lixo e recambiaram-no de volta ao Níger, abandonando-o no deserto. Após vários dias de caminhada, chegou a Agadez, quatro meses depois de iniciar a sua jornada infrutífera. 

Quando acabou de contar a sua história, o mecânico não parecia especialmente desencorajado. Antes que eu pudesse exprimir a minha solidariedade, atalhou bruscamente: “Não quero ir para casa. Já decidi o meu objectivo.”

Mohamed fizera um novo plano. Regressaria à Costa do Marfim, ganharia dinheiro, obteria um passaporte e embarcaria num voo directo para Marrocos, contornando o deserto. Depois iria para o mar. 

“Se Deus me der sorte e eu chegar à Europa vivo e saudável, acho que vou conseguir”, previu. No fim da linha, permanecia o objectivo de um dia chegar aos Estados Unidos, país com um milhão de veículos a precisar de um mecânico inteligente. 

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