conímbriga

O peristilo e o ninfeu da Casa de Cantaber.

Cento e vinte anos depois da primeira escavação metódica em Conímbriga, as ruínas desvendam segredos e desfazem mitos.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa e Hugo Marques
Fotografias: Hugo Marques

Pelo dedo, vê-se o gigante. Pelo mais ínfimo pormenor, apreende-se uma cidade.

Com a segurança de quem sabe os terrenos que pisa, José Ruivo, director do Museu Monográfico de Conímbriga (MMC), caminha por um pomar. Mede as distâncias por referências discretas no terreno até parar num ponto específico. Satisfeito, anuncia: “Estamos provavelmente no que teria sido o centro do anfiteatro.” É uma afirmação estranha face ao contexto que nos rodeia e que a esmagadora maioria dos visitantes das ruínas nunca conhece. Na cidade antiga de Conímbriga, porém, nos últimos 120 anos frases como esta passaram a fazer sentido: Conímbriga não é só a área já escavada e restaurada. Como um icebergue, há um sétimo da área total à vista. O resto permanece sob a superfície, aguardando melhores dias.

Da fase de maior monumentalidade da vida da cidade, conhecem-se muitos dos edifícios principais. O Fórum foi amplamente escavado e é hoje um dos ex-líbris das ruínas. As termas testemunham também a sofisticação desta pequena cidade de província. As casas dos mais abastados proprietários (a Casa de Cantaber e a Casa dos Repuxos) sinalizam ao visitante a falsa percepção de opulência – real no mundo romano, sim, mas à disposição de uma escassa percentagem da população. O arqueólogo Virgílio Hipólito-Correia, especialista deste território, costuma brincar: “Muitos visitantes vêem os mosaicos e suspiram: ‘Como seria bom morar no mundo romano!’ Costumo contrapor e dizer: ‘Sim... Se fizesse parte da fatia de 3% dos privilegiados.’”

Em contraponto face aos espaços arqueológicos que os cerca de cem mil visitantes anuais das ruínas conhecem, os três arcos do anfiteatro, em plena Condeixa-a-Velha, constituem uma experiência mais íntima com o mundo que os gerou. Chegaram a servir de abrigo para pessoas e curral para animais, protegidos do calor e do frio durante gerações pela arte dos engenheiros romanos. Desentulhados nas grandes intervenções da década de 1930, a sua articulação com a cidade só foi devidamente estabelecida nos anos 1970, pois a estrutura ficava fora da muralha da Antiguidade Tardia. O restante anfiteatro está ainda soterrado, colonizado por árvores de fruto, ervas e silvas. Até ao dia em que seja possível escavar e conservar este edifício, resta usar a imaginação e, aos poucos, as figueiras e cerejeiras vão desaparecendo da paisagem, o latido dos cães esbate-se, o solo argiloso vai dando lugar à areia e, na nossa mente, começa lentamente a emergir um anfiteatro romano.

O viajante Gaspar Barreiros escreveu em 1561 no livro “Chorogragia”: “Acham-se ainda hoje no dito lugar de Condeixa muros, aquedutos, sepulturas, pedras escritas de letras romanas em que está o nome de Conímbriga (…)” Numa curiosa viagem de Coimbra a Roma, Barreiros usou os velhos itinerários romanos como mapa. Durante séculos, desde o abandono de Conímbriga, muitos eruditos tinham tomado a cidade referida nas crónicas clássicas como Coimbra, a Aeminium dos romanos. Barreiros mediu distâncias e intuiu que as ruínas que avistou deveriam corresponder à antiga Conímbriga abandonada, pilhada e sobretudo esquecida. 

“Do ponto de vista de conservação, Gaspar Barreiros foi um pioneiro”, acrescenta Pedro Sales, conservador-restaurador do MMC. “Ele aponta claramente no século XVI o problema da espoliação das pedras antigas e deixa explícito um pedido ao rei para que reúna as inscrições romanas dispersas pela paisagem.”

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O conservador restaurador Pedro Sales tenta identificar uma moeda de ouro.

Passaram séculos e “Conímbriga não deveria ser mais do que uma zona de passeio para eruditos, implantada numa zona rural”, diz Hipólito-Correia. Em 1838, Alexandre Herculano, na revista “Panorama”, faz eco igualmente das “gastas ruínas da Collimbria, Conimbrica ou Conimbriga dos romanos”. Ocasionalmente, o sacho de um agricultor esbarrava em tijolos, mosaicos ou pedras. Na segunda metade do século XIX, o antiquarismo, já activo em Itália, faz-se sentir também na zona de Condeixa. Algumas campanhas dispersas recuperam artefactos. Reutilizam-se materiais nobres.

Em 1899, precisamente há 120 anos, o bispo de Coimbra Dom Manuel Correia de Bastos Pina persuade a rainha Dona Amélia a financiar a primeira escavação oficial em Conímbriga. “Fizeram valas de sondagem dispersas, como então se fazia, e retiraram alguns mosaicos”, conta José Ruivo. “Mandaram também pintar uma bonita aguarela com o sítio e os pontos intervencionados, mostrando ao público o que se tinha feito.” A investigação prossegue assim, aos solavancos e ao sabor do dinheiro disponível.

Avançamos no tempo. Em 1906, um artigo na revista “Ilustração Portuguesa” dá conta do drama de um lavrador a quem o seu terreno não dá tréguas. “A seara ficava raquítica e o fruto enfezado”, queixava-se. Decidido a esclarecer o assunto, decidiu cavar. Encontrou tijolos com abundância e por fim uma camada espessa de pedra. Interpretou-a como “argamassa do tempo dos mouros – era ela a ladra” do seu terreno. Continuando a escavar, o lavrador encontrou sepulturas. Numa delas, estava uma garrafinha de vidro. Condeixa-a-Velha acudiu em peso ao local. “Deram-me cabo da seara. Remexeram os ossos, deram cabo de tudo. Salvou-se a garrafinha. Os quatro mil réis de perda são para entretenimento dos arqueólogos: é bom que saibam o que têm a pagar.”

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Após a primeira campanha metódica realizada em Conímbriga em 1899, foi encomendada uma aguarela a um artista francês para representar a área intervencionada. O objectivo era mostrar aos eruditos que visitavam o espaço a amplitude do trabalho que tinham pela frente.

Episódios burlescos como este foram comuns e documentam também a relação por vezes tumultuosa entre a população local e a comunidade científica. Em 1911, realizou-se mais uma campanha curta de escavações, mas a verdadeira oportunidade chegaria duas décadas depois. Vergílio Correia, arqueólogo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, coordenou os trabalhos, incentivados por um factor... externo. O Congresso Mundial de Arqueologia e Pré-História de 1930 teria lugar em Coimbra e a Universidade desejava ardentemente mostrar aos congressistas um espaço arqueológico capaz de rivalizar com Pompeia e Óstia, então os principais motivos de entusiasmo na arqueologia europeia. A Faculdade adquiriu uma parcela de terreno (ainda hoje conhecida como o “terreno da Faculdade de Letras”) e, apesar dos atritos entre as competências da Universidade e as da Direcção-Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), Vergílio Correia dispôs por fim de um campo de trabalho.

Entre 1930 e 1944, ano da morte acidental do coordenador dos trabalhos, Conímbriga viveu a primeira fase de actividade arqueológica intensa. “As escavações foram muito inspiradas no que se estava a fazer em Pompeia”, diz Virgílio Hipólito-Correia. “Planearam escavar toda a cidade até ao limite da muralha. Cometeram alguns atropelos – ainda hoje, temos muitos materiais recolhidos nesse período sobre os quais pouco mais sabemos para além da circunstância de terem sido encontrados em Conímbriga. Nas Termas do Sul, ainda nos anos 50/60, limitaram-se a desentulhar sem método, sem relatórios, nem perfis estratigráficos.” 

Ao abrirem um sector destinado ao parque de estacionamento das ruínas, os operários identificaram a Casa dos Repuxos. No “Diário de Coimbra”, Vergílio Correia anunciava as suas ideias. Algumas eram pitorescas, outras vingaram. “Foi ele que determinou que os mosaicos deveriam permanecer in situ em vez de serem transferidos e também foi o primeiro a propor a criação de um museu nas ruínas”, diz o arqueólogo.

A morte inesperada do coordenador das escavações interrompeu os trabalhos. Em 1952, uma equipa italiana visitou Conímbriga, a convite do director do Museu Nacional de Arqueologia, para iniciar o restauro dos mosaicos. Entre o grupo de entusiastas das ruínas, estava João Manuel Bairrão Oleiro, docente da Universidade de Coimbra, mas a colaboração com a DGEMN não ficou isenta de conflitos. Em 1962, Bairrão Oleiro, transferiu-se da Universidade para o recém-criado Museu Monográfico (situação a que não foi alheia a primeira crise estudantil de 1961). A missão da sua vida, identificada desde os tempos de estudante, tinha encontrado o local certo para o seu exercício.

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Na década de 1950, uma equipa italiana visitou Conímbriga para colaborar no restauro dos mosaicos. Cortesia do Museu Monográfico de Conímbriga

Um ano depois, num congresso, conhece Robert Etienne, da Universidade de Bordéus. Juntos, os dois homens vão programar uma campanha de trabalhos arqueológicos sem paralelos no país. As escavações luso-francesas duram até 1971, contando com a direcção da parte portuguesa por Jorge de Alarcão, e modificam o conhecimento da cidade e a prática da arqueologia em Portugal.
A obsessão com a conservação, o registo e a qualidade da publicação, marcam uma geração. A área conhecida da cidade multiplica-se. Identificam-se os monumentos principais da fase de apogeu da urbe. Conímbriga, cidade provincial vagamente enunciada por Plínio, entra no mapa europeu das cidades romanas. 

Na fase imperial, Conímbriga tem particularidades que a tornam um curioso estudo de caso no mundo romano. Arqueólogos como Virgílio Hipólito-Correia e José Ruivo, que trabalham nas ruínas há mais de duas décadas, descrevem o contraste entre esta cidade e as restantes que se conhecem na Península Ibérica. “Não tem uma malha regular como Ammaia, nem segue os planos de Vitrúvio”, diz Hipólito-Correia. “O cadastro de Conímbriga é o pré-romano. Isso significa que, quando os romanos aqui chegaram, não se registou uma expropriação e reordenamento radical do território. A estrutura de propriedade ter-se-á mantido, assim sugerem as inscrições que nos chegaram e que continuam a mostrar uma cidade essencialmente indígena com uma pequena percentagem de colonos e administradores romanos. Pensamos que a cidade adaptou-se ao modo romano, adoptando o latim, a maneira de vestir e técnicas de construção, mas mantendo a mesma estrutura indígena.”

As ideias feitas de legiões romanas irrompendo pelo território e reordenando o perfil étnico da cidade não fazem sentido numa cidade provincial no extremo ocidental do império. “É mais provável que apenas um punhado de administradores e altas patentes viesse de fora”, acrescenta José Ruivo. “Será afinal tão diferente do modelo de administração que Portugal levou para as suas colónias africanas no século XX?”

Virgílio Hipólito

O arqueólogo Virgílio Hipólito Correia junto da porta da muralha do baixo império.

Tão importante como a arquitectura monumental é a arquitectura doméstica e a gestão do espaço público. No final do século I, regista-se uma fase de grande investimento e é provável que até existissem dois fóruns. No período flaviano, a cidade foi verdadeiramente um município. O Fórum transformou-se num santuário de culto imperial. Haveria então cerca de cinco mil almas na urbe. “Deveriam existir outros templos espalhados pela cidade, tal como hoje qualquer vila tem mais do que uma igreja. Temos referência de um culto a Marte Neto, divindade indígena. Quem sabe se um dia não encontramos esse templo na vasta área residencial ainda por escavar?”, diz Hipólito-Correia.

O sistema de canalizações de chumbo perdurou até aos nossos dias. A cidade dispôs também de um bom sistema de evacuação de resíduos. “Não encontramos lixeiras do século I ou do século II, o que significa que existiria uma solução prática para escoar os resíduos. Em contrapartida, no século IV, temos a cidade repleta de lixeiras. Qualquer canto servia para abrirem um buraco e verem-se livres do lixo – é o melhor indício de que então o espaço urbano está a degradar-se.” Na fase correspondente ao final do Império Romano, algumas casas alargam e passam por cima de ruas. O governo da cidade desagrega-se. 

Impressionado com as casas senhoriais e com a grandeza do Fórum, o visitante perde a perspectiva mais importante de Conímbriga. Existiram sete ocupações diferentes deste território e a cidade romana corresponde apenas a um quarto do tempo de vida – um período rico, marcado por uma monumentalidade que resiste melhor à passagem do tempo, mas que durou apenas cerca de cinco dos vinte séculos em que o coração da cidade pulsou. 

Quantas Conimbrigas, afinal, existem? A resposta foi variando com o tempo. Hoje sabe-se que existiu certamente um povoado do Bronze Final. Há depois um povoado da Idade do Ferro, identificado nas escavações de 1911, e certamente muito importante, mas ainda mal conhecido. Testemunha uma fase durante a qual o território beneficiou do acesso fácil ao Mondego e ao interior para escoar minérios e receber produtos importados do Oriente distante. O topónimo Conimbriga terá surgido na transição entre estes dois momentos.

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O assistente operacional Manuel Santo a trabalhar na única oficina de conservação e restauro de mosaico do país.

A Conímbriga romana é inquestionável, provavelmente dividida em duas fases – uma de apogeu e expansão e outra de declínio progressivo. O verdadeiro ponto de discórdia ideológico e programático ocorreu no debate sobre o abandono da cidade – teria ocorrido com a transferência da sede do bispado da cidade para Coimbra, em meados do século VI, como sugere o “Parochiale Suevicum”, documento que regista o número de paróquias pertencentes a cada diocese? Ou teria permanecido durante mais séculos?

Robert Etienne chegara a Portugal pouco depois de publicar a sua tese sobre o culto imperial nas províncias ibéricas, defendendo a premissa de que as cidades hispânicas teriam sido municipalizadas à época Flávia. O interesse do eminente arqueólogo francês e dos seus discípulos foca-se quase exclusivamente no período imperial. Mesmo nas publicações tardias, as camadas estratigráficas correspondentes a períodos posteriores ao romano são designadas por “camadas bárbaras” e pouco valorizadas no pensamento histórico sobre a cidade. Por maioria de razão, a informação sobre estas fases é pouco valorizada nas publicações.

Na década de 1990, as campanhas arqueológicas revelaram informação complementar. Vários materiais cerâmicos tidos como romanos foram reavaliados como medievais. As datações de carbono 14 revelaram uma ocupação mais duradoura do que o século V, a data até então apontada como a do provável abandono. “Hoje é seguro falar-se de uma Conimbriga suévico-visigótica e não restam dúvidas de que, mesmo após a invasão muçulmana de 711, a cidade (ou o que dela restava!) continuou a ser ocupada”, diz José Ruivo. “Só as convulsões entre cristãos e muçulmanos nos séculos IX e X, altura em que a fronteira entre as duas civilizações oscilou para norte e sul do Mondego, com conflitos militares regulares, terá ditado o abandono.” Na “Crónica Albeldense”, refere-se que Afonso III das Astúrias reconquista Coimbra, erma a região e reforça Coimbra e Viseu. Terá sido esse o momento, em pleno século IX, em que o coração de Conímbriga deixou de bater.

Em termos de cultura material, a fase pós-romana é uma das mais bem representadas. O acervo documenta aliás uma transição menos violenta do que a historiografia romântica idealizara. Naturalmente, as invasões suevas de 465 e 468 contribuíram para reestruturar a elite de poder na cidade, mas tudo indica que a vida prosseguiu.
A decadência das instituições urbanas também não se deve necessariamente às hordas bárbaras. Em meados do século V, as elites já teriam abandonado o espaço urbano, trocando-o pelo conforto e segurança das suas villae campestres.
Os edifícios públicos estariam desactivados desde o século V ou VI. 

Entretanto, o que ainda funcionava prosseguiu ao serviço, tal como mais tarde, quando o domínio muçulmano impuser novas reestruturações de poder, a população prosseguirá a sua vida. Os suevos trocam rapidamente a espada pelo arado, escreve Paulo Orósio, cronista do século V.

A Conímbriga do período muçulmano é igualmente uma caixa de surpresas, embora a investigação nos próximos anos possa acrescentar mais informação a um período mal compreendido. Sabe-se porém, pela análise de fauna, que continuou a ser consumido porco como anteriormente – um indício claro de continuidade cultural. “A região já seria muito setentrional para os muçulmanos. Para aqui, teriam vindo as linhas avançadas do exército, mas não uma população colonizadora. A vida continuou”, diz Virgílio Hipólito-Correia.

mosaico conímbriga

A mitologia grega foi amplamente aculturada pela civilização romana. O tema do labirinto do minotauro num mosaico no peristilo da casa dos Repuxos foi replicado em todo o Império romano.

Como qualquer instituição cultural portuguesa, o MNC equilibra-se entre o muito que gostaria de fazer e os recursos disponíveis, reconhecendo sempre que, por cada metro quadrado adicional de área escavada, nascem novos problemas de conservação. A prioridade será dada à expansão para o anfiteatro através da aquisição das propriedades que ainda se encontram em mãos de privados. O conhecimento da cidade continua a ser como um dos mosaicos da Casa dos Repuxos: a figura de fundo está perfeitamente identificada, mas faltam tesselas que permitam ver todas as nuances da longa história de uma cidade que sobreviveu durante dois mil anos, entre o Bronze Final e a Alta Idade Média. Nem todas encaixarão na visão românica que temos da história, mas aprendemos em Conímbriga que o mínimo fragmento pode ter significados inesperados. 

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