laboratório hércules

José Mirão, do Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, ajusta cuidadosamente o equipamento para exames de fluorescência de raios X 2D, num dos vários esboços de teste da obra Cientistas/(Alma Mater), que Munch criou para a Aula da Universidade de Oslo.

Pintor disruptivo e perturbador, Edvard Munch legou à cidade de Oslo um conjunto de obras emblemáticas. Algumas carecem de urgente restauro. Uma equipa de cientistas portugueses colabora no projecto.

Texto e Fotografias: António Luís Campos

Ao percorrer as ruas cobertas de neve fresca, que caíra com intensidade durante a noite na margem do fiorde de Oslo, uma silhueta mal definida, com gruas, holofotes e contentores, emerge ao lado do fluido edifício da Ópera, numa reinterpretação arquitectónica da Bela e do Monstro. Tal como na metamorfose das borboletas, em breve a harmonia será restaurada: o Museu Munch terá ali a sua nova casa já em 2020, expondo o vasto espólio de Edvard Munch, o famoso pintor norueguês nascido em 1863 que se tornou uma das principais figuras do expressionismo.

Hoje, os visitantes vieram de longe: uma equipa de cientistas da Universidade de Évora, liderada por António Candeias, entra com confiança nas instalações. Manejando tecnologias de última geração e com uma reputação consolidada por intervenções de análise e diagnóstico de obras de arte em toda a Europa, a função deste grupo convidado é estudar as patologias que afectam algumas obras do pintor e ajudar a criar protocolos de conservação e restauro.

A vida pessoal de Edvard Munch foi particularmente traumática. Aos 5 anos, o futuro pintor perdeu a mãe e, oito anos depois, uma irmã. Uma segunda irmã foi internada brevemente num asilo psiquiátrico, completando uma sucessão dramática de eventos que deixou uma marca na sua arte, onde se encontram referências constantes a temas ligados às emoções negativas. Títulos como “Melancolia”, “Amor e Dor” ou “Ansiedade” são sugestivos do sombrio perfil psicológico do artista, mas o exemplo maior, naturalmente, é “O Grito”, a sua obra-prima, pintada sobre cartão e da qual existem quatro versões. Uma delas foi vendida pela leiloeira Sotheby’s em 2012 por um valor recorde de 106,7 milhões de euros!

Munch chegou a justificá-la como uma instrução recebida da natureza. “Toda a natureza estava a gritar”, anotou. A obra tornou-se tão famosa globalmente que deverá ser uma das escassas pinturas com direito a um emoji próprio! A arte de Munch, radical para a época, esteve sempre envolta em polémica, levando por exemplo ao encerramento de uma exposição no dia seguinte à inauguração, em Berlim, em 1892. Os trabalhos foram então considerados demasiado fracturantes. Mais tarde, durante a Segunda Guerra Mundial, os nazis removeram o espólio de Munch e de outros pintores do espaço expositivo, considerando-os de índole degenerativa.

Após vários anos a viver na Alemanha e em França, Munch regressou em 1909 a Oslo na sequência de um esgotamento nervoso a que o álcool e outros excessos não terão sido alheios. Entre alguma controvérsia, foi escolhido para criar as telas para a Aula, a principal sala da Universidade de Oslo, que ainda ostenta essas enormes pinturas, uma das poucas obras do artista conservadas no local original para onde foram criadas.

“O conhecimento é maior, mas os materiais não são eternos. Sabemos que, um dia, estas obras desaparecerão.”

Pintor profícuo que guardava a maior parte dos esboços e estudos preliminares, Munch “ajudou” bastante os futuros historiadores de arte. Quando morreu, em 1944, durante a ocupação nazi do seu país, a quantidade e diversidade de trabalhos existente era vastíssima. Todo esse espólio foi legado à cidade de Oslo, o que permitiu a criação do Museu Munch, que acolhe agora a maioria das 28 mil obras gráficas conhecidas do pintor.

Muitas das obras tiveram múltiplas versões, pois Munch experimentava diferentes técnicas, suportes, materiais e estéticas. Em contrapartida, pela dimensão e quantidade de telas, desenhos e litografias existentes, o artista criou vários “estúdios” ao ar livre. Num exemplo extremo, após a sua morte, os conservadores que recuperavam a sua obra encontraram uma bola de gelo nas traseiras de um dos estúdios, como resultado de um Inverno rigoroso. Quando descongelou, verificou--se que se tratava de um conjunto de sete telas – hoje ainda sobreviventes no Museu. Outras foram “bombardeadas” com excrementos de aves ou, de forma menos visível, acabaram deterioradas por fungos. Esses eram os desafios que se colocavam a um recente projecto de conservação e restauro da obra do pintor.

munch

Edvard Munch doou todo o seu espólio à cidade de Oslo, o que levou à criação do museu homónimo. Nas reservas do museu, são armazenadas várias paletas originais, deixadas ainda com tinta de óleo pelo pintor.

Apesar de o Museu Munch ter recursos técnicos e humanos invejáveis, o processo de deterioração da arte é inexorável. Erika Gohde Sandbakken, conservadora-restauradora, tem a seu cargo peças de arte avaliadas em milhões de euros e toda a ajuda científica é bem-vinda. Há alguns meses, Irina Sandu, cientista da conservação do Museu, convidou a equipa do Laboratório HERCULES, da Universidade de Évora, a colaborar no trabalho de preservação. Desde 2018, os investigadores portugueses cooperam para desenvolver metodologias de conservação e restaurar algumas das telas do pintor.

Escassas horas após aterrarem em Oslo, cinco investigadores lusos põem mãos à obra. Guiados pela enérgica Erika, personagem com uma história de vida assaz interessante (entre outras funções, trabalhou durante um ano numa fábrica de peixe do Norte da Noruega), António Candeias, Teresa Caldeira, José Mirão, Sara Valadas e Ana Cardoso percorrem corredores sinuosos até chegarem às reservas do museu. O acesso é limitado e só um grupo restrito tem autorização para entrar neste espaço onde a atmosfera é controlada, com 18ºC de temperatura constante e 50% de humidade. A luz apaga-se automaticamente quando não há pessoas no interior para preservar os trabalhos da exposição luminosa.

Após a validação das credenciais de segurança, uma maciça porta vermelha de aço abre-se e duas grandes salas ficam à vista. Câmaras de vigilância gravam e analisam todos os movimentos. É impossível não abrir os olhos de admiração à medida que Erika vai puxando as calhas onde as telas são armazenadas de forma sistemática, para, em conjunto com António Candeias e Teresa Caldeira, escolher as que serão alvo de análise.

O projecto do laboratório português e do museu norueguês, financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, foca-se no estudo das patologias das obras, sobretudo nas patologias biológicas (os bolores) e minerais (os sais). Com recurso a análises das pinturas com técnicas não invasivas e recolha de micro-amostras in situ, a equipa de químicos, bioquímicos, geoquímicos e conservadores-restauradores monta um hardware digno de um filme de ficção científica: num tripé negro, é montado o dispositivo de fluorescência de raios X 2D.

De olhar tenso, acusando o peso de trabalhar de perto em telas de valor incalculável, José Mirão aproxima de forma cautelosa a pesada caixa negra do gigantesco Cientistas/(Alma Mater), um dos esboços que levaram ao trabalho hoje exposto na Universidade de Oslo.
A milímetros de distância, dois feixes laser vermelhos “tocam” a obra. Os resultados da análise química começam a surgir no ecrã do computador. Os sais formados na superfície das pinturas, identificados pela equipa do HERCULES, são sulfatos de magnésio e os investigadores acreditam que a existência destes compostos, provavelmente produzidos pela produção de pasta de papel, se deve à composição atmosférica do local onde Munch, no início do século passado, trabalhava.

As condições em que as pinturas foram armazenadas e as características intrínsecas das tintas e técnicas que Munch utilizou contribuíram também para a acelerada degradação. O meio aglutinante parece ter sido a caseína, uma cola feita a partir do leite. Para validar esta tese, vão agora ser criados provetes em Évora.

No dia seguinte, com “O Beijo” encostado a um canto a vigiar os seus movimentos, António Candeias e Erika Sandbakken instalam num cavalete um novo quadro para exames por FTIR (Fourier Transformed Infrared), com módulo de reflexão. O objectivo é analisar pigmentos, sais e aglutinantes como óleos, proteínas ou resinas, com a vantagem de se conseguirem de imediato resultados com a informação do composto encontrado. Após a segunda campanha de recolha de amostras, Teresa Caldeira, especialista em microbiologia, explica: “Identificámos os microrganismos associados às patologias nas pinturas devido a colonização biológica. São múltiplos, mas destacam-se bactérias que degradam proteínas como a Paenibacillus vortex.”

Além das telas, o laboratório alentejano está a estudar todos os pastéis de Munch encontrados no seu atelier para compará-los com os materiais existentes em algumas das pinturas em que as tintas terão sido usadas. Após a análise final destes dados, os investigadores definirão novos protocolos de restauro e conservação.

A quantidade e diversidade de ameaças vai crescendo à medida que os anos passam. Ao analisar como evoluem as telas, a equipa pretende aplicar soluções que mitiguem os danos. Erika Sandbakken reforça esta ideia: “O clima controlado no museu ajuda à conservação e o conhecimento é hoje maior. Houve de facto muita aprendizagem, mas os materiais não são eternos. Sabemos que, um dia, estas obras desaparecerão. A nossa missão é adiar esse momento e desacelerar o processo de deterioração.”

Além dos inimigos naturais, as peripécias que o trabalho de Munch sofreu nas últimas décadas também não ajudam. À medida que o antigo renegado se tornou um pintor estimado, a sua obra tornou-se alvo de cobiça. Casper Caspersen é uma das personagens ligadas ao pintor pelos piores motivos: ficou famosa a fraude que este restaurador levou a cabo, ao falsificar telas de Munch. Mais tarde, em 2004, registou-se também um assalto ao museu. “O Grito” foi roubado. Os assaltantes fugiram com o quadro debaixo do braço, pela porta principal.
A obra viria a ser recuperada, mas com danos.

Alheia a tudo isto, a conservadora Emma Chan manuseia as novas caixas, especialmente adquiridas para o transporte e desenvolvidas para armazenamento e protecção de obras de arte, com materiais isentos de ácidos e outros químicos prejudiciais. De face pontilhada por sardas ruivas, com os grandes olhos azuis focados numa lupa binocular, a conservadora Lina Solheimv examina com minúcia secções milimétricas de um auto-retrato que já conheceu melhores dias, enquanto numa prateleira próxima várias paletas originais do pintor, de tintas de óleo há muito secas, com tonalidades sombrias, aguardam análise e limpeza.

Em breve Edvard Munch terá uma nova casa, de volumetria proporcional à sua obra. A presença do novo museu na zona nobre da cidade é um tributo da sociedade norueguesa ao pintor, 75 anos após a sua morte.
E nos bastidores, longe das filas de visitantes ávidos por ver esta arte disruptiva e no entanto tão actual, um grupo de cientistas portugueses contribui para a preservação de um património artístico que é universal.

museu munch

Em 2020, será inaugurado o novo Museu Munch, no fiorde de Oslo, num dos novos bairros nobres da capital. A construção do edifício está avançada.

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