Tóquio

Um passeio a pé pelas fabulosas texturas da vibrante megacidade do Japão.

Texto: Neil Shea  

Fotografias: David Guttenfelder 

Numa madrugada fria de Junho, dei por mim no meio da escuridão junto da margem ocidental do rio Sumida, em Tóquio, olhando os turistas que vestiam coletes garridos. Era como se aquelas setenta pessoas oriundas da África do Sul, da China, da Malásia, de Espanha e da Rússia, tiritando de frio, tivessem feito longas viagens para correrem atrás de bolas na frente ribeirinha da cidade.

Faltavam uma ou duas horas para a alvorada e, na verdade, estávamos a vestir-nos para uma visita ao Tsukiji Shijo, então o maior mercado de peixe do mundo. Tsukiji era um labirinto de armazéns, congeladores, áreas de carga, pontos de leilão e bancas de venda. Alimentava a cidade há quase um século e tornara-se, para grande tristeza de alguns dos seus trabalhadores, uma atracção turística, divulgada em numerosos artigos e programas de culinária de todo o mundo.

Quando o visitei, no ano passado, o mercado histórico estava prestes a fechar portas. As bancas arejadas e o solo pedregoso e rachado atraíam os turistas, em busca de autenticidade. Porém, na hipermoderna Tóquio, o vintage tende a ser considerado uma parte insalubre do passado desregrado. Estava previsto o encerramento de Tsukiji no Outono e a transferência dos vendedores do centro da cidade para novas e desinteressantes infra-estruturas a sudeste. 

Fizemos fila para entrar. Escamas de peixe reluziam em poças aos nossos pés e o ar cheirava a óleo e a maré baixa. Empilhadoras e carros de gelo ruidosos movimentavam-se em todas as direcções, como aves em pânico. 

 

Apercebi-me então de que os nossos coletes serviam, em parte, para a nossa segurança – para não sermos esmagados pelo trânsito – mas também para não nos esgueirarmos, colhendo os frutos das lucrativas actividades de Tsukiji.

Todos os dias, cerca de 1.500 toneladas de peixe, algas marinhas e invertebrados, provenientes de todo o mundo, chegam às bancas do mercado. Ao final do dia, essa enorme carga, com um valor aproximado de 13,3 milhões de euros, é escolhida, cortada em pedaços e remetida para os revendedores. Quando lá cheguei, às 4h30, o mercado já rugia há várias horas.

Centenas de homens corriam entre a névoa, rindo-se e gritando, de cigarro preso nos dentes. Agentes de segurança de luvas brancas conduziram-nos ao longo de uma pilha de caixas de esferovite, algumas do tamanho de caixões, com o interior manchado de sangue. Mais à frente, num gigantesco armazém, lâminas de serra guinchavam ao cortarem o peixe congelado.

A maior parte dos turistas viera assistir aos famosos leilões de atum, onde peixes gigantescos pescados em águas distantes são, por vezes, vendidos por centenas de milhares de euros. No entanto, comparado com o circo que acabáramos de presenciar, o leilão em si (quando lá chegámos) foi um tédio: os licitadores, calados, sinalizavam por gestos a sua oferta para refeições de haute cuisine que seriam servidas em Tóquio, Moscovo e Nova Iorque.

Às 10 horas, o leilão acalmou e eu escapei-me, sozinho, pelo mercado, conversando com os peixeiros que lamentavam o iminente encerramento das instalações. Horas mais tarde, só se ouvia o motor das carrinhas de entregas, enquanto as empilhadoras depositavam o peixe na área de carga.

Perto da meia-noite, vagueei até um pequeno santuário xintoísta, onde uma fileira de monumentos de pedra honrava várias espécies de criaturas marinhas comestíveis. Tsukiji fora gótico, excitante, obsceno – um raro local onde o verniz moderno e elegante da cidade estalava, revelando um apetite bruto. Sentia-me exausto.

Um gato roçou-se aos meus pés. A pedra diante de mim tinha a inscrição sushi-zuka, “o monumento ao sushi.” Daqui por algumas horas, tudo começaria novamente. 

Se concordar com o economista Edward Glaeser, de Harvard, segundo o qual as cidades são a maior invenção da humanidade, Tóquio é possivelmente o exemplo máximo: uma metrópole deslumbrante, lar de mais de 37 milhões de pessoas e um dos centros urbanos mais ricos, seguros e criativos do mundo.

Mesmo que não nos interesse muito a maneira como as megacidades moldam o comportamento humano, Tóquio não pode ser ignorada porque já mudou a nossa vida. A cidade é o derradeiro modelo social, o ponto de ligação entre o mundo e a cultura japonesa.

O engenho criativo da cidade deve-se, em parte, ao facto de ter sido arrasada duas vezes nos últimos 100 anos: primeiro pelo grande terramoto de Kanto, em 1923, e, uma geração mais tarde, pelos bombardeamentos aéreos durante a Segunda Guerra Mundial. As duas catástrofes obrigaram os japoneses a sepultar sucessivamente a sua história e a reconstruir a cidade, reimaginando bairros, sistemas de transporte, infra-estruturas e, até, dinâmicas sociais. O próprio mercado de Tsukiji foi construído após o terramoto de Kanto para substituir aquele que existira no centro da cidade durante trezentos anos.

Na década de 1950, Tóquio reergueu-se e adquiriu uma enorme densidade demográfica. Segundo Edward Glaeser, essa foi uma razão para o seu sucesso: a agitação criativa que acontece quando se juntam pessoas de perfil etário e antecedentes distintos, eliminando as barreiras ao comércio e às ideias. Nesta edição dedicada às cidades, não poderíamos ignorar Tóquio. Jane Jacobs, escritora com enorme influência no planeamento urbano, disse que a melhor maneira de conhecer uma cidade, de sentir a força da sua mistura de influências, é percorrê-la a pé.

Foi o que eu e o fotógrafo David Guttenfelder fizemos. Durante várias semanas, atravessámos Tóquio de uma ponta a outra, por vezes juntos, frequentemente separados, por vezes em linha recta, frequentemente saltando de uma zona para outra, cruzando lentamente os bairros, as zonas industriais, as cidades universitárias, as estações de comboio, os mercados, os cemitérios, os templos e os santuários. 

Já tínhamos os dois vivido no Japão e ambos sabíamos que Tóquio talvez estivesse escondida debaixo dos superlativos usados para descrevê-la. Conversámos com quase todas as pessoas que encontrámos, tomámos nota de parte das suas rotinas e rituais. Não conseguimos registar tudo, mas tentámos observar mais profundamente a cidade, ligando-a às pessoas que lhe dão força com as suas vidas. 

SUGAMO

UM ANIMADO BAIRRO PARA OS IDOSOS

Algumas dinâmicas mantêm-se há 20 anos. Os polícias patrulham as ruas em bicicletas brancas, crianças pouco maiores do que as suas mochilas viajam sozinhas, em segurança, no metropolitano. E a maioria dos habitantes de Tóquio ainda vive seguindo ritmos de código Morse, correndo entre casa e o trabalho em linhas de comboio e metropolitano supereficientes. O mapa do sistema de transportes públicos faz lembrar um diagrama neuronal do cérebro humano. Há mais estações em Nova Iorque, onde vivo, mas todos os dias cerca de dez milhões de pessoas usam o metro de Tóquio.

 Tóquio

Multidões acorrem a Omotesando, uma agitada rua comercial em Tóquio, centro da área metropolitana mais povoada do mundo. Com mais de 37 milhões de habitantes, Tóquio é uma das cidades mais seguras, limpas, dinâmicas e inovadoras do mundo.

Numa manhã límpida de sábado, passeei por Hachiyamacho, Uguisudanicho e Ebisunishi, entrei no comboio da linha Yamanote em Shibuya até Ikebukuro, onde saí e continuei a andar. No bairro norte de Sugamo, trabalhadores corriam para ocupar mesas e varões para pendurar roupa no passeio de Jizo-dori, na esperança de atraírem clientes de um fluxo de peões, maioritariamente composto por mulheres idosas. As bancas vendiam camisolas e colares, equipamentos de cozinha, dispositivos ortopédicos, bengalas, joelheiras e fraldas para incontinentes. No entanto, era a roupa interior que se destacava – cuecas vermelhas, bem embaladas, organizadas por tamanho. Na cultura japonesa, o vermelho está associado à sorte, à saúde e à longevidade. 

Mulheres em grupos de duas ou três caminhavam juntas, examinando as roupas, fazendo uma pausa para sentir a textura de uma cinta, verificar um preço, comprar uma peça. Os mais jovens passavam a correr junto das bancas ou deslizavam para o interior de um café, mas a multidão era sobretudo idosa, ojii-sans e obaa-sans, avôs e avós.

As cidades falam frequentemente de si próprias referindo-se à vida, ao crescimento, à juventude – mas a terceira idade e a morte também estão sempre presentes, mesmo quando são altamente ignoradas ou tratadas como mais um encargo aborrecido. O antropólogo Ted Bestor falou-me em Sugamo porque, aqui, a morte está praticamente em exposição. O bairro revela uma característica definidora de Tóquio: a sua enorme população idosa, em rápido crescimento. 

“Tóquio não tenta esconder os idosos”, disse o meu interlocutor. “É impossível. Há demasiados. Por isso, os idosos têm o seu próprio bairro e criam as suas próprias diversões.”

Na maior parte dos países industrializados prósperos, a taxa de natalidade diminuiu substancialmente, mas o Japão é o país com mais idosos. Quase 30% da sua população de 126 milhões de habitantes tem mais de 65 anos. Os óbitos superam os nascimentos. E embora Tóquio esteja a envelhecer a um ritmo mais lento do que o resto do país, a sua quota deste ónus será enorme e a cidade sente dificuldade em decidir como irá cuidar, sustentar e alojar as gerações que a construíram.

Prevê-se que o envelhecimento esgote a economia. Mas existe também um custo psicológico, mais dramaticamente ilustrado pelo kodokushi, um fenómeno frequentemente traduzido como “morte solitária”, em que um ser humano morre e o seu corpo permanece por descobrir durante dias ou meses. Até 2035, mais de um quarto da população de Tóquio terá mais de 65 anos e muitas dessas pessoas viverão sozinhas.

Em Sugamo, contudo, não reparei em qualquer sentimento de tristeza ou desalento. À porta de uma loja, um homem e uma mulher olhavam para a montra, falando de robots. O governo japonês, que enfrenta o problema da falta de mão-de-obra, está a subsidiar o desenvolvimento de prestadores de cuidados robóticos.

“Será que já podemos comprar um para tratar de ti?”, disse ele suavemente. A seu lado estava uma elegante mulher idosa, com um chapéu de aba larga para se proteger do sol matinal.

“Vais ter de aguentar sozinho”, disse ela. “Estas coisas são demasiado assustadoras.”

SENDAGAYA

UM PEDAÇO DE SILICON VALLEY EM TÓQUIO  

Masanori Morishita é alto e magro, de cabelo escuro, espesso e encrespado. Parece que vibra um pouco mais rápido do que os outros. Dedicado ao sector tecnológico, Masanori funda empresas em série: vendera recentemente uma jovem empresa por si criada, a Everforth, a uma empresa tecnológica de maior dimensão, por um valor considerável. 

Depois da venda, manteve-se na empresa para desenvolver o seu produto e, no dia em que me encontrei com ele, no bairro de Sendagaya, na zona centro-oeste da cidade, estava a dar o seu melhor no desempenho de outro papel: o de um director-geral visionário suficientemente descontraído para organizar um churrasco para a empresa.

O churrasco tinha lugar na casa nova de Masanori Morishita, um edifício estreito e isolado de quatro pisos num pequeno aglomerado de casas junto de um cemitério antigo. O empresário arrendara a casa planeando transformá-la num local capaz para viver e trabalhar, onde os seus engenheiros, equipas comerciais e outros colaboradores pudessem estar juntos. Os escritórios estavam equipados com quadros brancos e havia quartos para os trabalhadores, uma adega e uma biblioteca, com as prateleiras praticamente vazias.

No terraço da cobertura, o empresário virava frangos sobre carvão em brasa e conversava sobre o seu plano para substituir os valores tradicionais japoneses por outros mais tecnológicos. Começou pela sua própria casa. “Gosto da cultura de Silicon Valley”, disse. “Tento fazer isso aqui, mas é difícil.” 

Abanou os instrumentos da grelha e apontou para a cidade.

“A cultura japonesa é muito rigorosa, sabe? Ordenada. Organizada. As pessoas gostam de receber ordens.” Desse ponto de vista, a casa e as novas formas de viver e de trabalhar ali simbolizadas eram revolucionárias.

Contemplámos a linha do horizonte, a leste, onde se viam gruas sobre o novo Estádio Nacional do Japão, no bairro adjacente de Kasumigaokamachi. Esta peça central e icónica do esforço de reconstrução de Tóquio como anfitriã dos Jogos Olímpicos de 2020, terá lugar para 68 mil espectadores. 

O bairro sossegado talvez venha a transformar-se, devido à proximidade do estádio, mas Masanori Morishita não se mostra preocupado. Estava demasiado ocupado a separar o seu trabalho da infra-estrutura física e social que manteve Tóquio unida durante décadas: os comboios sobrelotados, as estradas engarrafadas, as saídas obrigatórias para beber álcool a seguir ao expediente, as tradições restritivas que, na sua opinião, impediram o Japão de criar o seu próprio Silicon Valley. 

“Aquilo que eu quero realmente é liberdade”, resumiu.

ASAKUSA

UM NOVO TIPO DE DESIGN URBANO 

Algumas semanas mais tarde, num bairro chamado Asakusa, no outro lado da cidade, encontrei-me com o arquitecto Kengo Kuma, projectista do novo Estádio Nacional. É um dos mais importantes talentos do Japão e pertence à geração anterior a Masanori Morishita, mas ambos partilham o desejo fundamental de refazer a cidade.

Sentámo-nos numa sala do Centro de Informação Cultural e Turística de Asakusa que, como quase todos os edifícios desenhados por Kengo Kuma, é hipermoderno, mas revestido com materiais naturais. Neste projecto, o arquitecto usou madeira, uma escolha que pretende transmitir calor e presença, ao mesmo tempo que homenageia a construção tradicional do Japão.

Era um dia quente e húmido e eu queria falar sobre a densidade urbana, no meio da qual andava a passear. Por vezes, Kengo Kuma é rotulado como antiurbanista por se opor ao aspecto rígido e massificado das cidades, mas rejeita rapidamente esse epíteto.

“Dizem que sou um crítico das cidades”, disse, abanando a cabeça. “Eu quero remodelar a cidade. Quero dividir o espaço e recuperar uma escala mais pequena.” Essa escala mais pequena foi, em tempos, uma característica definidora da vida japonesa e permitia a existência de mais árvores, jardins, parques e mais ligações humanas. 

Como é óbvio, será o gigantesco estádio oval que talvez venha a defini-lo para as gerações vindouras. No entanto, até nisso, a estrutura reflecte a visão do arquitecto – a visão de um futuro no qual as estruturas são construídas para serem utilizadas de maneiras diferentes ao longo da sua vida útil, sem serem demasiado pesadas para a paisagem. Depois dos Jogos Olímpicos, o complexo transformar-se-á num estádio de futebol. Ficará no centro de um bosque e vários pisos serão revestidos com mais vegetação, plantada em passadiços ao ar livre. A cobertura do estádio também é aberta, permitindo a entrada de luz natural no interior.

“Temos efectivamente um problema de densidade”, disse Kengo Kuma. “Até ao presente, o nosso design urbano consistiu em escolher um terreno e construir um edifício enorme em cima dele… O método asiático tem sido destruir tudo para arranjar espaço para arranha-céus e centros comerciais.”

A densidade demográfica intensificou-se após o terramoto de Kanto e novamente após a destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. Muitas das grandes cidades do mundo são aglomerados antigos, registos tridimensionais do comportamento humano, edificados ao longo de muitos séculos. Em contrapartida, a Tóquio contemporânea foi construída rapidamente e ao acaso, com edifícios, auto-estradas e linhas férreas instalados nos espaços vazios criados pelas bombas e pelos incêndios.

As consequências são reflectidas por alguns dos mais sombrios problemas de Tóquio, incluindo o kodokushi, a morte solitária. O arquitecto esticou o braço e tocou num pilar de betão ao seu lado. “Hoje, os meus alunos preferem viver em casas partilhadas. Eis uma novidade… Esse tipo de estilo de vida foi abandonado depois da guerra. Temos vivido em espaços isolados, separados por betão. As pessoas não querem isso. Sabem que lhes faz mal.”

Kengo Kuma mostrou-se animado, desenhando com as mãos enquanto descrevia Tóquio. Muitas das ideias que defende (desde a sustentabilidade ambiental a programas que pretendem “devolver a natureza à cidade”) estão lentamente a ganhar terreno. Mais tarde, quando subimos ao terraço do Centro de Informação, o arquitecto descreveu o Japão como uma “sociedade madura”, rica, tecnologicamente avançada e em envelhecimento. Por outras palavras, está pronta para crescer de forma mais responsável.

“O melhor que podemos fazer é dar o exemplo… Mostremos como se pode agir de outra forma”, resumiu.

No terraço, havia turistas a fotografar a linha do horizonte de Tóquio ou a contemplar o Senso-ji, o amplo complexo de um templo budista que em nada fica a dever à cidade em termos de superlatividade: é visitado anualmente por milhões de peregrinos e turistas. Vimos multidões a entrar no templo através de Kaminarimon, a “porta do trovão,” do outro lado da rua. A leste, havia um edifício escuro implantado na margem oposta do rio Sumida. O prédio, que integra a sede mundial da Asahi Breweries, é encimado por uma enorme pluma dourada que representa uma chama. Muitas pessoas chamam-lhe simplesmente “o cagalhoto dourado”, brinca Kengo Kuma, fazendo uma careta. Sugeriu que todos os edifícios têm uma vida e devemos tentar viver em harmonia com eles.
“A posição [deste] é muito importante, pois fica em frente ao portão Kaminarimon. Ao projectá-lo, quis demonstrar respeito pela porta, pela rua… Muitas pessoas pensam que a história tem pouca relevância. Na verdade, podemos viver numa época diferente, mas ainda dialogamos com o passado.”

tóquio

Restaurantes Yakitori e pubs chamados izakaya aglomeram-se sob uma ferrovia no sobrelotado bairro de Yurakucho. Muitos bairros dedicados à diversão em Tóquio baseiam-se em tradições da cultura empresarial japonesa, na qual são comuns os encontros para beber álcool depois do trabalho: os nomikai. 

MINAMISENJU

ONDE SE SOFRE PARA TER SORTE

Toshio Tajima estava sentado nos degraus do santuário xintoísta de Minamisenju, um bairro despretensioso da zona centro-leste de Tóquio. Observava a sua equipa de carregadores de espíritos. Era uma sexta-feira quente de Junho, época festiva, e ouvia-se música tradicional bem alto, projectada por altifalantes instalados em postes telefónicos. Toshio, um homem grande e sério, estava aborrecido. Cerca de duzentos homens deveriam reunir--se sob as árvores altas de ginkgo no pátio, mas apenas cerca de uma dezena apareceu e o espírito local, uma divindade chamada Susanoo, o deus da tempestade, vira-se obrigado a esperar.

Toshio e os outros apresentavam-se vestidos de forma tradicional e para trabalhar em conjunto, com casacos happi idênticos feitos de algodão leve e jika-tabi brancos, os sapatos típicos do trabalhador japonês. Preparada para trabalhar arduamente, a maioria vestia calções, embora alguns tivessem preferido o tradicional fundoshi, um misto de coquilha e tanga.

Toshio segurava um megafone numa das mãos e a outra estava cerrada num punho. Tinha cabelo escuro curto, bigode cuidadosamente aparado e uma faixa branca atada à volta da cabeça. Quando finalmente se levantou, inquieto, reparei numa estranha protuberância no seu pescoço que abanava. Toshio captou o meu olhar e tocou no alto. 

“É o meu mikoshi-dako”, disse, demonstrando um orgulho evidente.

Um homem mais velho aproximou-se e admirou-o. “É enorme!”, exclamou. Depois, virou-se e apontou para a protuberância, ligeiramente mais pequena. “Só os homens dedicados ficam com estes altos.”

Eu nunca ouvira falar num mikoshi-dako. Toshio Tajima explicou tratar-se de uma palavra composta pelos termos “santuário portátil” e “calo” – embora aquelas protuberâncias em nada se assemelhassem aos calos que eu vira antes. São moles. Um pouco repugnantes. Enquanto tentava imaginar o que poderia tê-los causado, o homem mais velho, Teruhiko Kurihara, riu-se e apontou para algo que parecia uma casa de bonecas enorme montada sobre traves compridas e grossas.

“Aquilo é o mikoshi”, disse. “Ficamos com o dako por carregá-lo.” Deu uma palmada satisfeita no seu calo.

O mikoshi era quase do tamanho de um Mini Cooper, enfeitado com acessórios dourados, pintado com uma camada de laca negra e vermelha. Persianas de papel cobriam as janelas e havia postes esculpidos à mão diante de portas gravadas à mão sob um telhado muitíssimo inclinado. Era quase uma réplica do santuário que estava atrás de nós, mas reduzido a uma escala portátil. Todos os bairros na zona tinham o seu mikoshi portátil e, para o festival, os sacerdotes xintoístas haviam feito uma transferência cerimonial da divindade de cada bairro para o seu mikoshi.

Pouco depois, já com cerca de quarenta homens no local, todos envergando o mesmo traje, Toshio decidiu que seriam suficientes para começar. Reuniram-se em torno do mikoshi e colocaram as mãos sobre as traves macias. Quando surgiu a ordem, dobraram os joelhos, prepararam os ombros e ergueram o mikoshi.

Estes festivais são comuns no Japão e, nessa tarde, eu já vira outros grupos transportarem mikoshi pelas ruas, bloqueando o trânsito, fazendo pausas aqui e além para beber uma cerveja e comer. Durante vários dias, o mikoshi flutuaria pelos respetivos bairros, num ritual comunitário para atrair a sorte e renovar a fé ancestral. No último dia, todos os mikoshi são carregados de volta para o santuário local. Há uma grande festa. Susanoo e os outros espíritos regressam ao templo e as pessoas regressam, literalmente, a coxear para casa.

O mikoshi em frente de Tajima oscilava para cima sobre os ombros dos fiéis e eles deslocavam-no pelo pátio, marchando num movimento ensaiado. Quando chegaram a determinado local sagrado, a procissão parou. Toshio berrou algumas instruções e o mikoshi começou a abanar, primeiro suavemente, enquanto os homens cantavam e o empurravam. Lentamente, o santuário ganhou impulso e, de repente, caiu ao solo. Os homens que o carregavam pareciam prestes a ser esmagados, mas o desastre foi, inexplicavelmente, evitado e o santuário foi atirado para o outro lado. Abanando de um lado para o outro, o santuário parecia uma embarcação num mar furioso, castigando os pescoços e os ombros debaixo dele.

Toshio ria-se sempre que quase acontecia um desastre. “Mais depressa!”, gritou.

Sob o santuário, os homens sorriam, gemiam e levantavam-no. A gravilha a seus pés ficou escura com o suor. A meu lado, Teruhiko Kurihara disse: “O nosso deus gosta das coisas difíceis!” Depois perguntou-me: “Queres chorar?”

Fez sinal a um homem para abandonar o posto e eu substituí-o. Mesmo com a ajuda de todo o grupo, o fardo parecia pessoal. O mikoshi encaixou-se na minha coluna. Pesando à vontade meia tonelada, era capaz de esmagar ossos e espetava-se em mim como o poste de uma vedação. Passados alguns minutos, tinha uma ferida do tamanho de uma maçã em cima das vértebras cervicais que me doeria durante uma semana. Teruhiko fez-me sinal para sair. Senti-me muitos centímetros mais pequeno.

“O que está no interior?”, perguntei.

Teruhiko encolheu os ombros. Era dono de uma florista nas proximidades e partilhava o sofrimento e a alegria desta tradição há mais de 20 anos.

“É o espírito”, disse-me. “É mesmo pesado.”

O grupo de Toshio Tajima marchou para fora do pátio, saindo para as ruas de Minamisenju. Polícias de luvas brancas interrompiam o trânsito. Pouco depois, havia uma multidão reunida em redor do santuário, emergindo de casas e lojas, gritando palavras de apoio ou assumindo um turno como carregadores. A cada meia dúzia de minutos, paravam e abanavam o santuário, ganhando impulso até ele quase cair e dezenas de mãos se esticarem para cima para evitar a queda.

CHUO

NO CORAÇÃO DA CIDADE, UM APELO À DIVERSIDADE 

A governadora da prefeitura de Tóquio, Yuriko Koike, admitiu que, por vezes, sente falta do caos. Primeira mulher nomeada governadora de Tóquio, frequentou a universidade noutra grande metrópole – o Cairo. É difícil imaginar dois sítios mais opostos, mas, para a autarca, isso fazia parte do encanto.

“O que atrai no Cairo é o seu caos”, disse, sorrindo ao recordar as ruas frenéticas e o antigo souk. “Mas, como é óbvio, a atracção de Tóquio é ser tudo controlado.”

Estávamos a caminhar sobre uma estrada de gravilha, nos Jardins Hama-rikyu, um refúgio sereno com relvados bem cuidados e secções floridas com pinheiros-negros, arbustos de flor-
-de-merenda e cerejeiras e o rio Sumida ao fundo.

Yuriko Koike fora apresentadora de um telejornal. Na década de 1990, transitou para a política e passou 24 anos como deputada no Parlamento nacional, período durante o qual cumpriu funções no gabinete de dois primeiros-ministros e, embora por pouco tempo, foi a primeira mulher a ocupar o cargo de ministro da Defesa do Japão. Foi eleita governadora por uma maioria esmagadora em 2016. A dimensão da sua vitória sugeriu que o monopólio masculino do poder poderia estar, finalmente, a aproximar-se do fim.

Frequentemente rotulada como conservadora, a governadora tem passado grande parte do seu mandato a combater, ou pelo menos a discutir, aquilo a que chamou o “tecto de ferro” do Japão. Uma vez empossada, decidiu defender causas ambientais e a sustentabilidade urbana e, à semelhança do arquitecto Kengo Kuma, ela parece achar que Tóquio atingiu uma espécie de meia-idade, a partir da qual poderá dar início a um segundo acto.

Segundo afirmou, tem capacidade tecnológica e financeira para se tornar mais ecológica e preparar os pormenores técnicos para enfrentar problemas do futuro como a subida do nível do mar. As questões sociais, porém, são mais escorregadias.

“Falta agora a diversidade em Tóquio”, afirmou. “E um dos pilares de uma cidade diversificada é contar com a participação de mais mulheres.”

Sendo eu oriundo de Brooklyn, achei a ausência de diversidade de Tóquio uma característica regular e marcante da minha viagem. Populações consideráveis de coreanos e chineses vivem em Tóquio e muitas dessas famílias estão lá há muitas gerações. O número de “residentes internacionais” também tem aumentado ao longo do tempo: em 2018, um em cada dez habitantes de Tóquio com cerca de 20 anos não era japonês. No entanto, numa cidade tão grande, esses grupos esbatiam-se rapidamente e a diversidade, sob que forma seja, continua a ser um tema desconfortável no Japão.

A célere reinvenção do país após a Segunda Guerra Mundial tem sido frequentemente atribuída à aparente homogeneidade local, uma crença generalizada de que o Japão está unido étnica e linguisticamente, que todo o povo valoriza a harmonia acima de tudo, com boas medidas de obediência, fidelidade e auto-sacrifício. 

São conceitos arriscados e a lista de comportamentos talvez fosse mais adequada a um desenho animado sobre samurais. Contudo, alguns japoneses consideram-nas qualidades sagradas e até vulneráveis: os bens que um fluxo de estrangeiros diluiria ou destruiria. 

“A nossa maior dificuldade é saber como lidar com a população em envelhecimento”, disse. “Em contrapartida, Tóquio é um dos melhores centros para enfrentar grandes desafios. A resiliência não é apenas de Tóquio, é uma característica japonesa. Os japoneses são muito sérios e levam a vida a sério.”

Uma brisa fresca proveniente do mar sopra para longe, por instantes, o ar pesado e húmido e agita as agulhas dos pinheiros. Lá ao fundo, navios de carga fazem soar os avisos sonoros.

A governadora confidenciou que o seu dia fora, até ao momento, consumido pelo encerramento do mercado de Tsukiji. Havia problemas. Era complicado: mais um projecto superlativo na cidade superlativa.

Voltámos a atravessar o parque até ao local onde se encontrava estacionada a pequena carrinha branca da governadora. Cidadã activa de Tóquio há quase 40 anos, Yuriko Koike preside actualmente a uma enorme transformação, talvez menos dramática do que a guerra ou um incêndio, mas igualmente profunda. As cidades tendem para o caos e, de certa forma, o trabalho da governadora é recordar a forma como o caos consumiu tão recentemente Tóquio. Reconhecendo essa fragilidade, tem de passar os dias a mantê-a à distância.

Perguntei-lhe como achava que a cidade mudara durante o seu tempo de vida. Pergunta típica de jornalista, provavelmente já ouvida muitas vezes. A governadora riu-se. “Eu sei que mudou, mas por vezes é como se não tivesse mudado”, disse. “Quando fazemos parte da história, às vezes é difícil percebermos isso.” 

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