Abrigo da Pala Pinta

Texto de Gonçalo Pereira

Coimbra, 1921. Numa aula do Curso de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade local, Vergílio Correia, reputado arqueólogo e historiador, fala de arte pré-histórica, mostrando aos alunos alguns dos poucos exemplos conhecidos à data de pinturas e gravuras rupestres pós-paleolíticas da Península Ibérica. Um dos alunos, Horácio de Mesquita, dirige-se ao professor, dando nota de que, na sua terra, Carlão, no concelho transmontano de Alijó, num abrigo granítico conhecido quase exclusivamente por caçadores ao qual davam o nome de Pala Pinta, se podiam observar desenhos pintados a vermelho semelhantes aos que lhe acabara de mostrar.

O docente desafia o aluno a reproduzi-los por decalque. Pouco depois, publicam na revista “Terra Portuguesa” um artigo conjunto noticiando o achado, o que tornou a Pala Pinta o segundo local conhecido com arte rupestre pré-histórica na região, que contava já com as famosas pinturas do Cachão da Rapa, publicadas por Jerónimo Contador de Argote em 1734.

Embora reconhecendo não ser um especialista, Horácio de Mesquita não deixou de sugerir algumas hipóteses de interpretação para os grafismos que viu pintados. “Será um acto de magia?”, perguntava. “Relacionar-se-á, como tantos outros, com alguma cerimónia fúnebre?” Ou seria “a documentação da passagem de algum cometa?” A curiosa referência de Horácio Mesquita a um cometa talvez não seja alheia à expectativa criada em 1910 em torno da passagem, nesse ano, do cometa Halley pela cercania da Terra.

“Não sabiam o que era. Mas era mau de certeza…”

Tal como José Leite de Vasconcelos testemunhou na sua recolha etnográfica, a passagem despertou receios latentes, recordando antigos dizeres das populações transmontanas. “Em Alvações do Corgo, o povo andava aterrado, porque dizia que o cometa era um homem muito alto e muito mau, com as barbas [ou seja, a cauda] muito grandes, que tinha devorado a mulher e os filhos e vinha agora devorar-nos todos”, notou. “Em Baião, explicavam que a cometa era uma mulher, que tinha comido os filhos e, como não tinha nem céu nem inferno, andava errante pelo ar e deixava cair objectos cortantes, como facas, machados, picaretas (…)” João Fernandes, astrónomo da Universidade de Coimbra, resume, com graça, o espírito da época: “Não sabiam o que era. Mas era mau de certeza…”

A uniformidade cromática, a ausência de sobreposições e a uniformidade estilística entre os signos são indícios que levaram os arqueólogos a admitir precocemente que o dispositivo figurativo da Pala Pinta teria resultado de uma só fase de execução. Também o carácter celeste dos motivos mais expressivos foi consensual, sendo mesmo referido pelo reputado Henri Breuil como um curioso precedente das personagens solares divinizadas que irá mais tarde emergir nas civilizações da Mesopotâmia. Com base no seu aspecto circular, muitas das vezes concêntrico  ou raiado, a tradição da disciplina tem encarado estes motivos como associados de alguma forma a evocações da nossa estrela.

O assunto parecia não dar origem a grandes debates até que, em 2008, o arqueólogo Paulo Lima, então estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, visitou o abrigo na companhia de colegas. A evocação celeste de alguns motivos pareceu-lhe evidente, mas a sua associação ao Sol, pelo contrário, afigurava-se ambígua. Tal como a Horácio de Mesquita, alguns motivos pareciam evocar mais a aparência que um cometa pode desenvolver durante um avistamento. Contudo, o estado delido de algumas figuras da Pala Pinta não permitiu uma leitura muito clara.

“Juntos, somos como o radiologista que faz o exame ao paciente para o médico poder depois traçar o diagnóstico”, brinca Luís Bravo Pereira.

Na impossibilidade de viajar ao passado, Luís Bravo Pereira e Hugo Pires trouxeram-no para o presente. O primeiro é responsável pela fotografia multiespectral, que resulta da conjugação numa única imagem, para além das bandas RGB que o olho humano naturalmente processa, de imagens captadas em diferentes comprimentos de onda do espectro electromagnético. O segundo lida com a fotogrametria e a digitalização tridimensional. “Juntos, somos como o radiologista que faz o exame ao paciente para o médico poder depois traçar o diagnóstico”, brinca Luís Bravo Pereira. “No fundo, prolongamos os sentidos humanos para que, com base numa acuidade visual melhorada, se possa chegar mais perto dos contornos iniciais dos motivos, mitigando o efeito de milénios de erosão natural. ”

As vantagens para o estudo da arte pré-histórica com a adopção deste tipo de tecnologias são substanciais, pois passa a ser possível dispor e manipular dados numa plataforma 3D interactiva, permitindo estabelecer a correcta articulação espacial entre os motivos. “Durante o século XX, o registo ficou muito ligado à capacidade de interpretação do investigador que a estudava, decalcando-a e retirando dela informação”, diz Hugo Pires. Ora, o decalque é subjectivo e depende do que o observador consegue ver. Num caso como o da Pala Pinta, o pigmento usado nas pinturas é muito semelhante a pigmentos naturais existentes na rocha e a erosão danificou algumas áreas. “A nossa parte do trabalho visa limpar ao máximo a sujidade dos ‘óculos’ do observador. Com radiação não visível (infravermelha e ultravioleta), detectamos e contrastamos pormenores não visíveis a olho nu”, diz.

A vantagem não é despicienda. Há uma década, o mesmo equipamento ocupava a área de uma sala e tinha reduzida aplicação numa encosta como a de Carlão. “Agora, levamos tudo o que precisamos numa mochila e demorámos apenas uma hora para recolher dados para a fotografia multiespectral e a modelação 3D”, diz Luís Bravo Pereira. Para a elaboração do modelo tridimensional, acrescenta Hugo Pires, “foram realizadas três dezenas de fotogramas que, após um processo de cálculo fotogramétrico para reconstituição da origem e direcção de cada raio de luz captado, originaram cerca de dez milhões de pontos medidos sobre a superfície do abrigo”.

“E, pela primeira vez na Pala Pinta, dispusemos de meios para integrar numa plataforma 3D todo o dispositivo figurativo que se distribui por locais e superfícies afastadas”.

Associando estes pontos através de uma malha de triângulos reconstruiu-se digitalmente a morfologia do abrigo com um elevado grau de detalhe e fiabilidade. “Temo que muitos investigadores não estejam preparados para tirarmos o véu do tempo aos objectos e já nos aconteceu especialistas considerarem que estas imagens pudessem ter sido manipuladas”, conta Hugo Pires.

Com imagens dos motivos inseridas numa plataforma 3D interactiva, Paulo Lima pôde fundamentar a sua proposta interpretativa para os painéis. A tradição da arqueologia em trabalhar estatisticamente conduziu à eleição do painel como unidade estatística, o que acabou por gerar uma fragmentação do registo, dificultando correlações entre motivos da mesma composição. “Ora, uma composição vive do conjunto, não é fragmentável”, diz. “E, pela primeira vez na Pala Pinta, dispusemos de meios para integrar numa plataforma 3D todo o dispositivo figurativo que se distribui por locais e superfícies afastadas”.

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