moedas

UMA CASA ARGENTÁRIA Os prestamistas e os seus clientes figuram no interior deste estabelecimento bancário romano. Pormenor de estela funerária. Século II d.C. Museu Romano, Treveris.

As primeiras moedas da história apareceram há cerca de 2.700 anos. Foram cunhadas no próspero reino de Lídia, na Ásia Menor, com uma liga de ouro e prata clamada electro e com apoio do Estado.

Texto: Fernando López Sánchez

Esqueci-me do mais delicioso: quando entro em casa com o salário, todos correm para abraçar-me, atraídos pelo aroma do dinheiro; de seguida, a milha filha lava-me, perfuma-me os pés e inclina-se sobre mim para me beijar; chama-me “papá querido” e pesca com a língua a moeda de três óbolos que levo na boca. Depois, a minha mulher, cheia de mimos e bajulações, apresenta-me um belo bolo, senta-se a meu lado e diz-me carinhosamente: “Come isto, prova aquilo”.» 

O autor destas palavras é Filocleon, o protagonista de As Vespas, comédia que o ateniense Aristófanes estreou em 422 a.C. E os três óbolos que menciona é o salário que a cidade de Atenas pagava aos juízes. Quando Aristófanes escreveu esta obra tinham passado apenas três séculos desde que apareceram as primeiras moedas, mas elas já faziam parte do quotidiano.

Antes da invenção da moeda, já há mil anos que os metais preciosos eram usados como «pré-moeda» no Próximo Oriente. Na Mesopotâmia, usava-se a prata: o rei Shinkashid, que governou Uruk no século XIX a.C., deixou-nos a primeira lista de preços conhecida, onde figura a quantidade de mercadoria que se podia obter com um shekel, uma quantidade fixa de prata. Nos códigos legais mesopotâmicos, aparecem as multas a pagar pelos delitos, expressas igualmente em shekels. Nessa altura, porém, era mais comum satisfazer dívidas e impostos em quantidades de cereal equivalentes à sua taxa em shekels.

A circulação de prata em lingotes ou barras como pré-moeda era limitada. Os mercadores cortavam esses blocos em pedaços pequenos, que pesavam numa balança para qualquer pagamento. Várias tabuinhas provenientes da cidade de Mari permitem intuir que os mercadores que usavam lingotes e fragmentos de metal se conheciam e confiavam nas respectivas reputações.
Assim, pelo Próximo Oriente e pelo Egipto, circularam pré-moedas metálicas e «anónimas», metais preciosos sem apoio explícito de um poder político. 

Em terras de Lídia

A prata e o ouro gozavam de múltiplas virtudes. Eram valiosos, podiam ser valorizados e trocados por outros bens e, ao contrário do cereal, não se deterioravam. A sua aceitação generalizada transformava-os num meio efectivo para fazer pagamentos. E embora o abastecimento de ouro e prata fosse limitado, era isto mesmo que lhes conferia valor.

As regiões que dispunham de uma fonte de prata ou de ouro gozavam de uma vantagem económica extraordinária. Era o caso do reino de Lídia, a oeste da Ásia Menor (na actual Turquia), onde vieram à luz do dia as primeiras moedas da história. Eram metálicas e, ao contrário das pré-moedas, tinham o apoio de um Estado: o reino lídio. Eram feitas de electro, uma liga de ouro e prata que se encontrava em estado natural no monte Tmolo; o rio Pactolo, que nascia nessa montanha e que corria por Sardes, a capital de Lídia, transportava muitas pepitas e grãos de electro. 

A lendária riqueza deste curso de água e dos soberanos lídios está reflectida no mito de Midas, rei de Frigia que se banhou nas suas águas para se desfazer da maldição que transformava em ouro tudo em que tocava; o poder nefasto passou do seu corpo para o rio, cuja corrente arrastou desde essa altura as pepitas áureas.

Os reis lídios emitiram as primeiras moedas aproximadamente no século VII a.C.
Cunhadas e não fundidas, têm o aspecto de pequenas pepitas ou grãos, e o electro de que são compostas era conhecido no Oriente como «ouro brilhante» ou «ouro branco», o leukos chrysos de que falava o historiador grego Heródoto.

cidade das moedas

A CIDADE DAS MOEDAS Em Éfeso, destacava-se o santuário de Artemisa, uma das Sete Maravilhas da Antiguidade. As moedas mais antigas apareceram no local onde este se erguia.

Face e reverso

Chamamos electro a esse ouro branco por influência de Roma. Os romanos designavam com esta palavra tanto a liga de prata e ouro como o âmbar, uma resina fóssil que possui a propriedade de se electrizar, razão pela qual o electro romano e o moderno vocábulo electricidade partilham a sua raiz. As moedas de electro mostram habitualmente uma aparência áspera e não se diferenciam particularmente dos fragmentos de lingote mesopotâmicos ou do cereal que se guardava nos armazéns dos palácios e templos, uma semelhança conscientemente requerida. 

A face destas pepitas estampadas por um selo oficial, redondas ou achatadas, adoptou inicialmente uma superfície irregular. Os reversos, em contrapartida, eram marcados com um, dois ou três golpes ou impressões. Isto sucedia para mostrar a qualidade do metal, tanto na superfície como no interior da pepita estampada. Com o tempo, determinadas imagens substituíram as estrias. As figuras que apareceram com maior frequência foram de animais: selvagens e domésticos, reais e mitológicos, mas também objectos inanimados e motivos florais e geométricos. 

Não se pode afirmar que essa variedade de motivos correspondesse a numerosos locais de fabrico ou cunhagem. Não há dúvida de que as primeiras moedas de electro foram cunhadas na Ásia Menor Ocidental e nas ilhas vizinhas. Os principais achados arqueológicos neste campo resultaram de uma missão britânica que, entre 1904 e 1905, escavou o templo de Artemisa em Éfeso, onde encontrou 93 moedas entre os depósitos de fundição – as oferendas que se faziam no início de uma obra. Uma expedição austríaca que ali trabalhou entre 1986 e 1994 fez novas descobertas. Estes achados geraram intenso debate sobre a data em que apareceram as primeiras moedas na Ásia Menor: perto de 675 a.C. para uns e em 600 a.C. para outros.

As moedas de electro mais antigas caracterizam-se pela precisão no peso e na liga de ouro e prata. Agregada ao suporte oficial simbolizado pela figura nelas impressa, pretendia conferir à moeda um valor fixo e superior ao do metal que continha. Por outras palavras, a moeda estava sobrevalorizada. Muitos peritos acreditam que a moeda teve origem na vontade de fazer circular lingotes ou fragmentos de ouro desvalorizado (branco ou com prata), criando a ilusão de uso de ouro puro (vermelho, sem prata).

As primeiras cidades-estado gregas que cunharam moeda foram as da Jónia, na costa ocidental da Ásia Menor, com as quais Lídia mantinha estreitas relações. De facto, as cidades gregas conseguiram obter benefícios ao cunhar moeda, fazendo-a circular no seu território com um valor superior ao valor do metal nela contido. Talvez isso explique que tantas cidades tenham cunhado moeda e que, no final do século VI a.C., a cunhagem de moedas de prata se disseminasse facilmente. Em troca da imposição da sua moeda no território, a polis encarregava-se da produção e cunhagem, apoio expresso nas figuras que apareciam sobre a superfície de metal.

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