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El Salvador

Transeuntes rodeiam o cenário de um homicídio na baixa de São Salvador, a capital de El Salvador. A violência incita centenas de salvadorenhos a abandonarem todos os dias o país, rumo aos EUA, onde constituíram a quarta maior comunidade latina, depois da mexicana, da porto-riquenha e da cubana.

Texto: Jason Motlagh

Fotografias: Moises Saman

A guerra de gangues e a pobreza dizimam El Salvador. Muitos migrantes fugiram para os Estados Unidos, mas as alterações da política de emigração norte-americana poderão empurrar milhares de pessoas novamente para o caos. 

Deportados dos Estados Unidos descem dos autocarros em fila indiana, de cabeça baixa, sem cintos nem atacadores nos sapatos, como se fossem criminosos. 

Reunidos em centros de detenção de imigrantes no país, tinham sido transportados por um avião não identificado perto da fronteira entre o Texas e o México e voado mais de 1.870 quilómetros até um aeroporto nos arredores de São Salvador, capital de El Salvador. Em apenas quatro horas, fracassara a perigosa jornada que muitos desses migrantes tinham demorado anos a preparar e semanas a realizar.

“Bem-vindos”, diz-lhes um funcionário do departamento de emigração salvadorenho, num novo centro de recepção construído com ajuda do governo norte-americano. “Aqui, vocês são família.” Cento e dezanove rostos inexpressivos olham para ele. Um por um, os seus nomes são chamados e todos, homens e mulheres, apresentam-se para receber os seus objectos pessoais, sujeitarem-se a exames de saúde e recolherem bilhetes de autocarro de regresso a casa.

Um homem de 24 anos, bem constituído e de sorriso fácil, está sentado à retaguarda, vestindo uma T-shirt branca garatujada à mão com as palavras “Faith Hope Love”. À semelhança de muitos interlocutores em El Salvador, não quer revelar o nome. Quando era adolescente, na região rural de Usulután, uma das 14 províncias do país, foi pressionado para aderir ao Mara Salvatrucha, o maior gangue de El Salvador, também conhecido como MS-13, mas preferiu ingressar na academia de polícia. Quando o gangue soube, começou a receber ameaças de morte.

Fugiu para sul, para a Colômbia, onde encontrou trabalho como camionista e se apaixonou. A namorada obteve um visto de entrada nos EUA e viajou de avião para se juntar aos famliares. Ele pagou sete mil euros a um traficante e, no mês que se seguiu, atravessou sete fronteiras até finalmente se esgueirar pelo Texas e viajar até Atlanta. Ali, um familiar com residência permanente nos EUA deu-lhe um emprego. Tinha rendimentos de 2.600 euros por mês, mais de cinco vezes o rendimento médio de um agregado familiar em El Salvador. Todos os meses mandava 440 euros para El Salvador para ajudar a mãe e a avó.

Durante os cinco anos que passou na Geórgia, viveu com discrição. Trabalhava de segunda a sexta-feira, visitava parques e centros comerciais aos fins-de-semana. Aos domingos, frequentava a igreja. Não recebeu qualquer multa de trânsito nem teve encontros funestos com a autoridade. Numa manhã infeliz de Setembro de 2017, foi mandado parar numa operação de trânsito e foi detido por conduzir sem carta de condução.
A polícia entregou-o aos Serviços Aduaneiros e de Imigração, que o prenderam. 

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