Índice do artigo

sacrifício

Um toucado de penas de arara ornamenta uma criança sacrificada que tinha o cabelo pelos ombros. Segundo  os investigadores, este toucado sugere que o jovem poderia pertencer a uma família da elite.  

Há mais de quinhentos anos, o povo Chimu, que viveu no actual Peru, sacrificou 260 rapazes e raparigas em rituais arrepiantes. As causas deste massacre ainda são um mistério.

Texto:  Kristin Romey
Fotografias: Robert Clark

A vítima jaz numa sepultura pouco profunda num lote desocupado, cheio de lixo.
É Sexta-Feira Santa e estamos em Huanchaquito, uma aldeia da costa setentrional do Peru. 

O ritmo da música de dança, que se eleva a partir dos cafés vizinhos, soa assombrosamente como um coração a pulsar. Vem acompanhado do ruído suave das pás utilizadas pelos operários para remover vidro partido, garrafas de plástico e cartuchos de caçadeira usados, revelando assim os contornos de um minúsculo poço de sepultamento escavado numa camada antiga de lama.

Dois estudantes universitários deitam-se de barriga para baixo, um de cada lado da sepultura, e começam a escavar. São arqueólogos ainda em formação. Vestem batas e máscaras hospitalares.

Do solo, acaba por aparecer a calota de um crânio infantil. Trocando as espátulas por trinchas, os escavadores varrem a areia solta, pondo a descoberto o resto do crânio e revelando os ossos do ombro a perfurar o fardo de algodão áspero que o envolve. Por fim, acabam por surgir os restos mortais de um minúsculo lama de pêlo dourado, enrolado ao lado da criança. 

Gabriel Prieto, professor de arqueologia na Universidade Nacional de Trujillo, espreita para o interior da sepultura e faz um sinal de assentimento com a cabeça. “Noventa e cinco”, anuncia. O investigador está a contar o número de vítimas e esta, identificada com a etiqueta E95, é a 95.ª escavada desde que ele começou a investigar este local de sepultamento colectivo em 2011. Esta triste contagem, feita aqui e num segundo local de sacrifícios nas imediações, contabilizou três adultos e 269 crianças, com idades compreendidas entre 5 e 14 anos. Todas as vítimas pereceram há mais de quinhentos anos, na sequência de actos cuidadosamente encenados de um sacrifício ritual que talvez não tenha precedentes na história mundial.

“Este achado é completamente inesperado”, exclama Gabriel Prieto, abanando a cabeça em sinal de perplexidade. Estas palavras tornaram-se uma espécie de mantra para este arqueólogo que tenta compreender o achado tenebroso no sítio arqueológico de Huanchaquito-Las Llamas. Nos nossos tempos e na nossa cultura, a morte violenta de uma única criança faz abalar o coração mais empedernido e o espectro de uma matança colectiva causa horror a qualquer mente saudável. Por isso, fazemos a pergunta: que circunstâncias desesperadas poderiam justificar um acto inimaginável?

Os arqueólogos têm descoberto vestígios de sacrifícios humanos em todas as regiões do mundo. As vítimas podem atingir as centenas e, muitas vezes, são consideradas prisioneiros de guerra, baixas provocadas por combates rituais ou vassalos abatidos após a morte de um chefe ou após a construção de um edifício sagrado. Os textos antigos, incluindo a Bíblia dos Hebreus, documentam a prática do sacrifício infantil, mas as provas de assassínios colectivos são raras no registo arqueológico. Até à descoberta de Huanchaquito, a maior matança colectiva de crianças conhecida no continente americano – e possivelmente no mundo inteiro – era a do Templo Mayor da capital azteca de Tenochtitlán (a actual Cidade do México), onde 42 crianças foram mortas no século XV.

Gabriel Prieto cresceu em Huanchaco, a cidade mais próxima da aldeia de Huanchaquito. Lembra--se de passar tardes inteiras no limite sul da cidade, a explorar as ruínas dos edifícios de adobe de Chan Chan, a antiga capital dos chimu. No seu apogeu, durante o século XV, Chan Chan foi uma das maiores cidades do continente americano, a sede de um império que abrangia cerca de quinhentos quilómetros de extensão ao longo da costa peruana. 

A matança de crianças e jovens lamas (bens muito preciosos para o reino) talvez fosse uma tentativa de persuadir os deuses a travarem as chuvas que tinham provocado o caos entre os chimu.

Essas experiências da infância inspiraram Gabriel Prieto a tornar-se arqueólogo. Após concluir o doutoramento em Yale, regressou à sua cidade natal para escavar um templo com 3500 anos. 

Foi então que, em 2011, o dono de uma loja de pizzas local trouxe notícias alarmantes: os seus filhos e os cães do bairro andavam a encontrar ossos humanos na areia de um terreno desocupado. O indivíduo implorou ao arqueólogo que investigasse a situação.

A princípio, Gabriel pensou que o sítio fosse simplesmente um cemitério há muito esquecido. No entanto, após recuperar os restos mortais de várias crianças envoltas em mortalhas (vestígios datados por radiocarbono de 1400 a 1450 d.C.), o arqueólogo compreendeu que tropeçara num achado muito mais importante. 

As sepulturas não eram típicas dos chimu. As crianças tinham sido enterradas em posições inusitadas – em decúbito dorsal, ou de lado, enroladas sobre si mesmas, em vez de sentadas, direitas, como era costume – e faltavam-lhes os adornos, objectos cerâmicos e outros artefactos funerários habitualmente encontrados em sepulturas desta cultura. 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar