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Ribāt da Arrifana 

Conforme sempre acontece em zonas de habitat, também o espólio exumado no Ribāt da Arrifana traduz aspectos da vivência dos seus ocupantes, comunitária e particular, os monges-guerreiros ascetas (os murābitūn), ali congregados em torno do líder espiritual e político. Predomina o acervo cerâmico relacionado com as actividades quotidianas como a confecção de alimentos, vasilhas de armazenamento, contentores de fogo, assim como outros recipientes .
A singeleza formal e decorativa responde aos ideais do sufismo, sendo raras as peças esmaltadas ou vidradas e coexistindo numerosos exemplares montados a torno lento. Estes materiais reflectem a prática contra o que o mestre chamou de “egoísmo do estômago”, ou seja o apelo à frugalidade alimentar, aos jejuns rituais e à ascese. 

Além dos recipientes mencionados, não identificámos peças específicas do ritual religioso, como pias de abluções, embora outras vasilhas pudessem ter sido utilizadas com aquelas funções, conforme verificámos em relação a um alguidar e uma panela, encontrados esmagados junto do acesso a uma das mesquitas. As cerâmicas oferecem uma cronologia centrada em meados do século XII, concordando com a datação do local, assim como com o seu período de maior actividade.

Outros artefactos ajudam à reconstituição do que seria a vida quotidiana no Ribāt, onde além de se prepararem as refeições, nas quais o pão teria papel central na dieta alimentar, também se manufacturavam tecidos ou consertavam armas de ferro, cotas de malha, de bronze. Pequenos rolos de chumbo, lucernas incluídas nas paredes de mesquitas e pequenas placas de pedra com inscrições de carácter religioso reflectem as actividades decorrentes das principais funções de um ribāt

É possível que os murābitūn fossem acompanhados por mulheres, talvez em parte encarregadas da alimentação e da tecelagem, embora pudessem também combater, conforme a tradição sobretudo difundida em tempos almorávidas, com antecedentes peninsulares.

Os vestígios de alimentos recuperados apresentam larga predominância de moluscos marinhos, a par de algumas peças osteológicas de mamíferos e de aves, onde se incluem raras espécies cinegéticas, designadamente de veado. Na caça e talvez na guerra, os murābitūn terão sido auxiliados por cães, cuja existência se encontra patente, nos restos faunísticos, através das marcas dos seus dentes.

Os testemunhos mencionados revelam uma economia de subsistência, pouco diversificada, certamente complementada por vegetais e, sobretudo, pão, resultante da exploração agrícola dos terrenos vizinhos, onde correm linhas de água, talvez da responsabilidade de parte da comunidade instalada no Ribāt

A partir das sepulturas escavadas integralmente e do que se conhece para o mundo islâmico peninsular, sabemos que os cadáveres, depois de lavados e envoltos em mortalhas, eram depositados na fossa funerária e orientados na direcção de Meca. A fossa funerária possuía dimensões estritamente necessárias à colocação do corpo. O estudo antropobiológico, da responsabilidade de Nathalie Antunes-Ferreira, dos restos de sete indivíduos, permitiu considerar que cinco eram adultos, do sexo masculino, um era uma criança, com aproximadamente 12 anos, cujo género não foi possível determinar, e o outro corresponde a uma mulher jovem. Em nenhum dos testemunhos osteológicos foram detectados sinais evidentes de violência física, capazes de provocarem a morte, traumas ósseos severos ou infecções que a causassem. A análise daquele espólio confirma a dieta alimentar pobre em vitaminas e ferro, facto que os restos alimentares amontoados no ribāt confirmam, tendo em atenção a pouca carne e peixe ali consumidos e o enorme peso de moluscos marinhos e estuarinos.

Das estelas associadas às sepulturas, encontradas in situ, facto raro na arqueologia islâmica do al-Andalus, duas ofereciam epígrafes. Uma delas continha texto em árabe cúfico, organizado em oito linhas que informam tratar-se da sepultura de Ibrāhīm ben ‘Abd al-Malik, falecido em 1069. A outra, também, em escrita cúfica simples, indica que ali foi sepultado um filho de Ibrāhīm ben Solaymān ben Hayyān, falecido em 1148. 

Ibn QAsī e a comunidade por ele criada situam-se no cerne do choque ideológico entre sufis, almorávidas e almoadas e menos no cenário de confronto entre cristãos e muçulmanos então em curso. A djihād pregada pelo mestre da Arrifana tinha como objectivo todos os inimigos da fé islâmica: cristãos, moçárabes, judeus e, principalmente, muçulmanos considerados hereges. A sua formação e origem social, sendo natural da kora de Silves e descendente de uma antiga família cristã (rumi), constituem uma herança cultural de um mundo que não deixou de o influenciar. 

Depois de ter sido chamado imām (chefe religioso e político) e mahdī (guia espiritual ou messias), Ibn Qasī foi cobardemente assassinado em Silves, a mando dos sequazes dos almoadas e às mãos de um discípulo próximo (Ibn Almúndir), em 1151. Tal teve como causa o pacto de não agressão que terá assinado com Dom Afonso Henriques, prevendo-se, assim, no actual território português, a existência de dois estados independentes, um a norte (cristão) e outro a sul (muçulmano). Quarenta anos depois, quando o cruzado Roger de Howden ali passou a caminho da Terra Santa, o Ribāt encontrava-se reconhecível, mas em ruínas.

O Ribāt da Arrifana foi, então, abandonado, talvez amaldiçoado, sendo perseguidos os seus correligionários e censurada a obra daquele mestre. Para além dos testemunhos literários e arqueológicos, a tradição popular conserva, próximo daquela península, o topónimo de Fonte Santa e ecoa ainda, vagamente, na memória colectiva, que a povoação de Aljezur foi fundada por um príncipe-poeta da Arrifana, não sendo este senão Ibn Qasī. Tal foi a repercussão que provocou a sua presença na região há mais de oito séculos e meio.

Embora tenha sido classificado como Monumento Nacional em Junho de 2013, o Ribāt da Arrifana, devido à incúria dos homens e, em particular, das entidades responsáveis pela Cultura, encontra-se totalmente abandonado. 

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