Banguecoque

O nome original de Banguecoque é tão longo que está inscrito no livro de recordes Guiness. Parece a metáfora de uma cidade intensa, caótica, sempre acordada e difícil de assimilar numa única viagem.

Texto: Josep M. Palau

A amabilidade dos tailandeses também se expressa nestes pormenores e, no quotidiano, o nome da cidade é abreviado para Krung Thep, a Cidade dos Anjos. 

O Skytrain atravessa o crepúsculo de Banguecoque como um suspiro. O viajante sobrevoa a cidade no interior de um bolha de ar condicionado oferecida pelo comboio que se desloca sobre carris elevados sobre pilares de betão enquanto se interna no bairro de Silom, repleto de arranha-céus que ameaçam com os seus dedos de aço e vidro um céu carregado de humidade e calor. Ao final do dia, o espectáculo completa-se quando a luz dos últimos raios de sol ilumina as cúpulas dos quatrocentos templos e mosteiros que se espalham pela cidade e faz brilhar as águas do rio Chao Phraya. 

Lá do alto, onde se movimenta este transporte público, que pára também em alguns dos grandes centros comerciais da cidade, torna--se evidente que se pode percorrer e conhecer a cidade por camadas: do solo ao seu ponto mais alto. Lá em baixo, destacam-se os ferries atulhados de pessoas e as embarcações que atravessam o rio em direcção às casas palafíticas. Em terra firme, o tráfego é congestionado a níveis inauditos. As moto-táxis e os tuk-tuks tentam encontrar uma rota entre carros e autocarros parados. 

As calçadas pulsam de vida, de bancas, cozinhas improvisadas e fumegantes e de venda de produtos de marca. Por cima disto, viaja o comboio, observando à distância o tumulto. E lá no alto, resplandecem as luzes que iluminam os terraços com jardim dos hotéis de luxo e de alguns felizes proprietários. Banguecoque é uma cidade de contrastes, como diz o título, um estereótipo que dificilmente poderia ser mais apropriado. Na cidade, misturam-se o moderno e o tradicional em doses iguais, convivendo numa caótica harmonia.

Para iniciar a visita a Banguecoque, o visitante deve começar pelo Palácio Real, a residência dos governadores do antigo reino do Sião há mais de duzentos anos. De facto, Banguecoque é uma cidade relativamente jovem, fundada em 1782 depois de os birmaneses terem destruído Ayutthaya. A mudança de capital concluiu-se na época de Rama I que, corrigindo a localização original prevista, decidiu que seria melhor edificar o seu palácio na margem ocidental do Chao Phraya, rodeado por um labirinto de canais ou khlong para o proteger. Isto é o que se conhece actualmente pelo nome de Ratanakosin que significa “ilha real”.

Por cima dos muros caiados do palácio, vêem-se telhados dourados cujos beirais terminam em pontas que se curvam em direcção ao céu, de forma muito semelhante ao movimento das mãos das bailarinas tailandesas. No interior, o tom dourado explode num brilho multicolorido, reflectindo-se nos milhares de vidros coloridos e gemas que formam complicadas decorações sobre o corpo dos guardiões de pedra que se erguem em frente dos templos. Os guerreiros e os chedis (pagodes dourados) multiplicam-se em redor do Wat Phra Kaew, o Templo do Buda Esmeralda. 

A imagem foi esculpida num único bloco de jade de 66 centímetros de altura, mas o fausto em seu redor quase faz parecer a escultura pequena. Foi encontrada no ano de 1432 no Norte do país. Quando Rama I o arrebatou aos laocianos, passou a ser símbolo de legitimidade da monarquia. O conjunto está rodeado por uma galeria coberta de murais com um quilómetro de comprido, onde através de imagens se narra a história do Ramakien, a versão tailandesa da epopeia hindu Ramayana.

Depois de abandonar o complexo real, o visitante deve seguir o interminável desfile de monges e fiéis que se dirigem com as suas oferendas até outro edifício, o Wat Pho. Ao entrar, descobre-se uma enorme estátua do Buda reclinado, tão grande que parece quase ultrapassar os limites das paredes. O ar está perfumado por uma nuvem de incenso que brota dos pauzinhos que os devotos acendem e colocam junto da escultura. Os pés da estátua dourada brilham ainda mais do que tudo o resto, já que muitos dos que aqui se deslocam colam ali finas folhas de ouro, como sacrifício ou oração. O ambiente é respeitoso, mas discretamente informal. 

O tailandês costuma ser cerimonioso, mas parece imune aos rituais demasiado complexos como se quisesse dar a entender que a fronteira entre o espiritual e o quotidiano é muito ténue na sua cultura.

Para os que se deslocaram até esta parte da cidade valerá a pena atravessar para o outro lado do rio, onde se vislumbra o perfil do Wat Arun, o Templo da Aurora.
Quando o ferry chega, uma multidão ruidosa com motos e bicicletas carregadas até cima desembarca e invade todas as vias possíveis.  A imagem que acorre à mente é a de um formigueiro atarefado, disparando em todas as direcções. 

Entre a multidão vêem-se crianças em uniforme escolar, mulheres que carregam cestos cheios de alimentos e um mar de gente que transporta todo o tipo de cargas. O mesmo sucede na direcção contrária com todos a apressarem-se a embarcar, pois estes meios de transporte zarpam escassos instantes depois de tocarem no cais. A navegação rápida não representa nenhum perigo e permite observar de perto as embarcações a motor que arrastam rio abaixo barcaças repletas de produtos exóticos e inesperados.

Uma vez do outro lado do rio, a prang ou torre do Wat Arun ainda parece mais imponente. É o templo mais antigo da cidade e os seus 82 metros de altura apenas se vencem à custa de suor e vertigens devido à inclinação da escadaria. No entanto, o esforço compensa. Lá em cima, a panorâmica excepcional da cidade faz Banguecoque parecer ainda maior.

Mesmo ao lado, erguem-se as palafitas de Thonburi, um extenso bairro de casas precárias sustentadas por postes e posicionadas rentes à água. É usual verem-se crianças a lançar canas de pesca à porta de casa, ou avós que ouvem televisão com o som bem alto. Num ápice, o viajante pode sentir que viajou até outra cidade, mas Thonburi foi de facto a primeira zona onde se implantou a futura capital antes de Rama I ter decidido mudar-se para Ratanakosin.

De regresso ao centro, é altura de voltar ao Skytrain e mergulhar no vórtice da Silom Road, a via comercial mais típica da cidade. Aqui, na primeira linha, situam-se grandes bancos, centros comerciais e hotéis. Todos têm à porta “casas dos espíritos”, pequenas casinhas que parecem gaiolas de pássaros mas que na verdade são refúgio para as almas.  

Nos sois ou becos laterais de Silom ou de Sukhumvit, há espaço para outro mundo:  muitos escondem quiosques precários onde trabalham os mestres tatuadores. Chamam-lhes ajahns e não se limitam a simples decorações mas sim a mensagens sagradas escritas sobre o corpo, tornando-as visíveis aos olhos dos deuses para que estes possam proteger os portadores.
O favorito da actriz Angelina Jolie é o ajahn Noo e o espaço onde este trabalha não é diferente dos seus concorrentes. O seu trabalho pouco tem que ver com as “modas” seguidas pelos farang, os estrangeiros. Esta palavra é a corruptela de farangset (francês), cunhada quando os franceses tentaram interferir na política do reino do Sião a partir da Indochina, desencandeando um triste processo de conflitos armados.

À noite, são precisamente os farang que rondam os becos vizinhos de Patpong 1 e 2, atraídos pelas luzes de néon e pelos espectáculos de gosto duvidoso. Depois de uma noite bem dormida, o visitante pode enfrentar o desafio de uma manhã intensa em Chinatown, o bairro chinês e um dos mais antigos de Banguecoque, onde convivem sem subterfúgios as lojas de bugigangas de plástico e joalharias que exibem, literalmente, pilha de colares e pulseiras de ouro.

Outra opção será uma visita ao mercado de rua de Chatuchak, a norte da cidade, onde convivem oito mil bancas de rua e onde não impera nenhuma lei para além da do regateio selvagem. O caprichoso traçado das ruas por onde se espalham as bancas reproduz de certa forma toda a cidade que, ao contrário de muitos outros locais asiáticos, não sofreu invasões coloniais, pelo que se desenvolveu sem um plano urbanístico baseado em quadrícula. 

Basta deitar uma olhadela ao mapa para perceber que se construiu sem reservas, fazendo jus ao nome de um povo que se autodenomina thai, livre.

No cruzamento de Soi 42, junto de Sukhumvit, fica a meca da comida de rua. É certo que a construção de um novo edifício forçou muitos vendedores tradicionais a deslocarem-se, mas ali perto ainda é possível comer até depois da meia-noite um bom wok de vegetais, temperado com molho de ostras, coentros ou erva-cidreira.

Com a taça na mão o visitante pode planear um passeio até ao mercado flutuante de Damnoen Saduak, a sudoeste da capital. Passear de barco numa praça onde os comerciantes se acercam remando ou passam as mercadorias com a ajuda de uma vara, parece apelativo. Para chegar até lá, basta alugar um táxi. O preço não é muito preocupante, uma vez que costumam ser baratos e se pode negociar o valor a pagar antes de iniciar a viagem. 

Outra opção será visitar Nakhon Pathom, a opção ideal para fugir ao bulício e poluição da cidade. Este bairro, a apenas 50 quilómetros de Banguecoque, terá sido o principal ponto de entrada do budismo na Tailândia, ou talvez até mesmo o local onde Buda descansou durante o seu périplo. Ali ergue-se a colossal stupa de Phra Pathom Chedi, uma cúpula que alberga relíquias sagradas. É a mais alta do mundo igualando em tamanho a Catedral de São Paulo em Londres. Os monges envergam túnicas cor de açafrão e passeiam em redor no sentido dos ponteiros do relógio enquanto recitam os mantras. Dão a nota de cor a este local inundado de uma tranquilidade difícil de encontrar noutro lugar do país. 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar