Amesterdão

A beleza de Amsterdão assenta na riqueza criada pelo comércio durante a Idade de Ouro e, no entanto, esta é uma cidade contestatária e revolucionária. A mistura de conservadorismo e inovação faz de Amsterdão uma das capitais europeias mais acolhedoras. 

Texto: Sergi Ramis

Basta deitar uma olhadela ao mapa da Holanda para perceber que a cidade de Amsterdão se encontra no local mais protegido das águas do mar do Norte e dos seus ventos frequentes. Daí nasce a lenda de que a cidade foi fundada por dois pescadores e o seu cão que chegaram ali para se refugiarem de uma tempestade. É verosímil, embora os documentos históricos se mostrem menos precisos e falem de uma aldeia composta por homens do mar que ali se fixaram um pouco antes de 1275. Nessa data, assinaram um documento que certificava que eram construtores de uma ponte sobre uma represa no rio Amstel, o que os libertava do imposto de portagem.

O Singelgracht serpenteia e desenha uma meia-lua. Este canal é um antigo fosso que separava a Amsterdão medieval das zonas “novas” até ao momento em que a capital holandesa se abriu ao mundo, conquistou riquezas de países distantes e se converteu no primeiro centro financeiro do Velho Continente. Aqui se fundou a primeira bolsa de valores da história e os seus comerciantes enriqueceram em pouco tempo. Entre os séculos XVII e XIX, a Holanda baseou a sua prosperidade económica no comércio de cravo e noz-moscada trazidos da Indonésia, canela do Ceilão, ouro e prata do Japão e sedas e porcelanas da China.

A beleza de Amsterdão deve muito a esse período dourado. Os comerciantes começaram a competir entre si construindo casas junto dos canais que conquistavam terreno às zonas pantanosas da baía de Markerwaard. A moral protestante, que impede a ostentação de riqueza, exigia fachadas austeras, onde a única transgressão permitida eram os frontões. Hoje esses remates arquitectónicos maravilham os visitantes que deambulam sem bússola pelos cinco principais canais que dão a forma de um croissant à zona medieval de Amsterdão.
Aqui podem ver-se casas estreitas e altas, geralmente de tijolo à vista, com discretas decorações em molduras e peitoris que se reflectem na água próxima. A água define esta cidade. A que se tem sob os pés em forma de canais e a que possa cair sobre a cabeça dos turistas... proveniente do céu.

Amsterdão não atinge o milhão de habitantes. Para uma grande capital europeia, é até bastante pequena. E no entanto compete no ranking das cidades europeias preferidas dos viajantes, embora se distinga de todas em quase tudo.

Cada viajante visita a capital holandesa com motivações e objectivos muito distintos, embora todos encontrem nela o bom humor e a vitalidade. A sucessão de edifícios burgueses dos canais alterna com o ar jovial conferido pelas cerca de 800 mil bicicletas que circulam pelas suas ruas. Os museus encontram-se entre os mais modernos da Europa. O Rijksmuseum possui a maior colecção de pintura holandesa do mundo e só por ele vale a pena a viagem. No interior, acumulam-se Rembrandts, Vermeers, Van Dycks, Bruegel, Claesz... 

A quantidade de beleza e pormenor nas incontáveis obras de pintura deslumbra o visitante. E, no entanto, a maioria dos visitantes da cidade é atraída em pé de igualdade pelo seu mais feroz concorrente, o Museu van Gogh, dedicado à vida e obra do génio desequilibrado que nos fez ver de outra forma uma noite estrelada, um campo de trigo ou um simples quarto desenhado com traços histriónicos e uma perspectiva diferente. 

A par desses centros de arte pictórica, em Amsterdão convivem pequenas maravilhas em alfarrabistas, bruine cafés, ou cafés “castanhos”, o nome que os habitantes locais atribuem aos locais onde se servem infusões para os diferenciar dos que vendem outras plantas, os mercados ou os antiquários...

Nessa mistura perfeita com um mundo ordenado que é o pressuposto de uma sociedade protestante, burguesa e moderadamente rica, surge um universo alternativo que seduz igualmente o visitante. Trata-se do Bairro Vermelho (o Red Light District), bairro que em tempos foi frequentado por pessoas de má fama. Num país onde a prostituição é legal e está regulada em termos sanitários, laborais e fiscalmente, as prostitutas exibem-se em montras viradas para a rua. Quando um cliente toca à campainha, limitam-se a correr as cortinas, tapando a visão aos voyeurs ocasionais.

O Bairro Vermelho é o território das coffeeshops, cujas enormes cartas oferecem cigarros, bolinhos, bolachas, pirolitos ou bombons de marijuana. Muitos dos viajantes viverão a sua primeira e única experiência transgressora neste campo e contá-la-ão como uma piada, enquanto outros, mais experientes nestas lides, aproveitam a venda livre desta valiosa colheita, sempre no âmbito do consumo individual e numa quantidade inferior a cinco gramas. Nos últimos anos, o Bairro Vermelho converteu-se numa atracção turística tal que a criminalidade quase desapareceu e os forasteiros passeiam hoje por ali a qualquer hora do dia ou da noite sem medo de encontros com personagens indesejáveis. 

A par destas duas transgressões, Amsterdão oferece ao visitante sensações igualmente fortes.
Se o visitante decidir copiar o comportamento local e optar por ultrapassar as suas próprias fronteiras, poderá beber numa igreja convertida em bar, comer um arenque cru num dos quiosques próximos da Estação Central, saborear alcaçuz salgado comprado numa loja com quase 300 anos de existência como a Jacob Hooy, beber uma kopstoot (cabeçada), uma cerveja com gin, passar a noite numa barcaça de carga convertida em hostel ou visitar o único mercado flutuante de flores que existe na Europa, o Bloemenmarkt.

Os holandeses, já se sabe, são apaixonados por flores, especialmente por tulipas. Não há rua, esquina, ou mercado onde não se encontrem à venda bolbos. Aos “hereges” será difícil acreditar que daqueles feios bolbos nasçam flores tão belas. Os habitantes de Amsterdão pelo contrário procuram com ansiedade novas combinações de cores, talos e folhas, numa febre que dura há séculos.

Entre tanta dispersão diletante, haverá espaço para alguns momentos mais sérios. Quase ninguém falha a visita à casa-museu Anne Frank, onde se conta a invasão nazi da Holanda e o medo vivido pelos membros da comunidade judaica reflectido no diário desta rapariga. Outra relíquia das perseguições é a Igreja de Nosso Senhor, em Oudezijds Voorburgwal. Oculto no último piso de uma casa burguesa, o templo acolheu os católicos do século XVII que não podiam professar em público a sua religião.

Amsterdão está repleta de surpresas que aconselham o visitante a regressar no futuro à cidade porque há sempre algo mais a descobrir.
Ao passar pela Praça Dam, é fácil não reparar no monólito que guarda terra proveniente de todas as províncias dos Países Baixos, assim como da Indonésia e Brasil, países distantes onde os habitantes da cidade fizeram fortuna, ou não ver a planta original de café localizada no Jardim Botânico cujos pés, levados para a Indonésia, deram origem aos cafezais orientais.

Boa parte da história de comércio e viagens desta cidade conta-se no Museu Marítimo, que foi renovado a fundo e reabriu as portas em 2012. A compreensão da idade gloriosa da Holanda não dispensa a visita ao distante Tropenmuseum, o Museu dos Trópicos. Esta instituição vital, que se renova sempre com grande originalidade, exprime as diferentes culturas do mundo através de exposições e actividades de um esmero irrepreensível. O museu situa-se no extremo oriental da cidade velha, junto ao Oosterpark.

As distâncias curtas são um convite irresistível para sair da cidade e conhecer os arredores conquistados ao mar. Para admirar uma vez mais a capacidade inventiva destes europeus atlânticos, que souberam construir um país onde apenas havia pântanos, vale a pena a viagem de comboio que, em 20 minutos, transporta o viajante para Zaanse Schans. Este bairro de Zaandam é um museu ao ar livre. Se o visitante ainda não teve a oportunidade, tem aqui o momento ideal para andar de bicicleta neste país onde as duas rodas a pedal são a imagem de marca.

Praticamente alinhados em frente do mar, esperam-no uma vintena de moinhos com mais de duzentos anos de idade que ilustram as funções tradicionais: moer sementes de mostarda, pigmentos para pintura e sementes de girassol para óleo, fazer funcionar uma serração ou simplesmente afastar a água que vem do mar. O estalido da madeira proveniente dos mecanismos transporta os visitantes para um mundo arcaico. Além disso, o bairro conserva a sua estrutura medieval feita de casas tradicionais.

Antes de regressar a Amsterdão, vale a pena aproximar-se de Volendam, poucos quilómetros a norte da capital. É uma cidade que conserva a traça urbana medieval e onde algumas mulheres ainda calçam as socas tradicionais de madeira e envergam as blusas bordadas e as saias negras à semelhança das antepassadas. 

Muito próximo fica Edam, a pátria do queijo. Para alguns, o Edam será sempre “o queijo”. Coberto com uma fina capa de cera vermelha para suportar a exportação ou cera amarela para o queijo destinado à Holanda, é um dos produtos que mais facilmente se associam a este país. O mercado de rua deste produto remonta a 1526 e continua a ter lugar todas as quartas-feiras de manhã. É uma mistura de espectáculo para turistas e de espaço de verdadeiras transacções. É a forma ideal para passar um momento agradável no mundo “rural” antes de mergulhar no ambiente cosmopolita de Amsterdão, regressando aos canais para continuar a descobrir recantos inesperados de uma das mais surpreendentes cidades do mundo. 

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