Num monumento megalítico de Vila Nova de Paiva, encontraram-se vestígios de rituais funerários que implicaram uma gigantesca fogueira sobre o sepulcro. O que nos pode ensinar a orca do picoto do vasco sobre o neolítico final?

Texto e fotografia: Pedro Sobral de Carvalho    Ilustração: Anyforms

Popularmente conhecido por orca, num relevo denominado como “Picoto do Vasco”, entre as freguesias de Pendilhe e Vila Cova à Coelheira, encontra-se um dos mais fantásticos e singulares monumentos megalíticos do nosso país.

Os trabalhos arqueológicos de que foi alvo entre 1995 e 1996 por Domingos Cruz, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, permitiram perceber que este não era um dólmen qualquer. Logo no início dos trabalhos, foram identificadas massas líticas, com efeitos de vitrificação, integradas no tumulus e sobretudo em torno do dólmen e do corredor de acesso. 

Este facto inédito obrigou à colheita de amostras petrográficas, analisadas por Manuel J. Abrunhosa, do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, e António A. Huet de Bacelar Gonçalves, do Instituto de Antropologia Dr. Mendes Corrêa, da mesma instituição. Os estudos então desenvolvidos comprovaram que as massas vitrificadas resultaram de um efeito térmico potente e intenso que atingiu uma temperatura superior a 1.225°C durante tempo suficiente para afectar toneladas de blocos de rocha, fundindo-os. Tratava-se de um dado completamente novo e inédito que demonstrava claramente que as comunidades humanas do Neolítico Final realizaram neste monumento rituais relacionados com a morte que implicaram acender uma gigantesca fogueira sobre o sepulcro.

picoto4

A história deste monumento tem início há seis mil anos, quando as primeiras populações de agricultores e pastores da região edificaram, numa localização dominante sobre vales e cursos de água, um dólmen com uma câmara funerária com cerca de 2,20m de altura e um pequeno hall, ou vestíbulo, marcado por dois esteios deitados sobre a base maior. Construíram também um longo e possante corredor de acesso, aberto e forrado de lajes que se ligava a um grande átrio onde eram realizados os cerimoniais fúnebres.

O tempo de utilização deste sepulcro foi curto – não mais de duzentos ou trezentos anos. Foi possível determinar que, no final deste período, ter-se-á acendido uma grande fogueira sobre o monumento que terá ficado activa durante muito tempo. Tratou-se certamente de um ritual relacionado com o encerramento do sepulcro. Após esta grande fogueira, todo o espaço do átrio e do corredor de acesso, o “corredor intratumular”, foi coberto de pedras ficando completamente selado para a posterioridade. 

No interior da câmara funerária, ficaram conservados os objetos depositados junto dos mortos: um machado de pedra polida, duas facas e cinco pontas de projéctil de sílex e alguns vasos cerâmicos.
Um destes vasos estava decorado com um círculo raiado, que evoca um motivo solar, muito semelhante ao que se encontra gravado num dos esteios da câmara funerária. 

Outro aspecto fascinante deste monumento é a arte gravada e pintada que ostenta em alguns dos esteios da câmara funerária. Um destes enigmáticos motivos foi produzido no esteio 4, com percussão directa, pouco profunda e larga, que aproveita a superfície escura do esteio para criar um contraste cromático representando uma figura antropomórfica.

O megalitismo é um extraordinário fenómeno cultural que se define pelo polimorfismo arquitectónico e pelas múltiplas soluções funerárias que se divulgaram pela Europa Ocidental durante o Neolítico Médio e Final, ou seja, entre os inícios do quinto e o terceiro milénios antes de Cristo. A região do Alto Paiva, no centro de Portugal, alberga alguns dos mais extraordinários exemplos deste fenómeno que se assumem como os primeiros marcos do homem na paisagem.

Algumas destas manifestações estarão expostas no Museu Arqueológico do Alto Paiva, em Vila Nova de Paiva, que será inaugurado no próximo mês de Março.

O QUE O DÓLMEN TINHA PARA CONTAR

picoto1

1 - Câmara funerária; 2 - Hall ou vestíbulo; 3 - Corredor intratumular; 4 - Átrio

picoto2

1 - Esteio 4.Motivos gravados que representam um antromorfo e figuras geométricas; 2 - Fragmento de esteio com motivo reticulado pintado a vermelho; 3 - Esteio de cabeceira. Motivo pintado que poderá representar um antropomorfo esquemático; 4 - Esteio 6. Motivo solar gravado

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar