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Malásia - Frutos de palmeira-dendém, colhidos à mão, são transportados de camião até uma fábrica para transformação na Malásia. As palmeiras-dendém rendem mais óleo por hectare do que qualquer outra cultura, mas a crescente procura pelo óleo vegetal mais popular do mundo causou desflorestação generalizada e perdas de vida selvagem na Indonésia e na Malásia, os dois maiores produtores.

O apetite do planeta por óleo de palma asiático afecta o ambiente e a vida selvagem. No Gabão, procura-se demonstrar que é possível construir uma indústria ao mesmo tempo que se preservam as florestas.

Texto: Hillary Rosner

Fotografias: David Guttenfelder e Pascal Maitre

Sudoeste do Gabão, a floresta de crescimento antigo estende-se por centenas de quilómetros. Numa manhã de Janeiro, desço de um barco estreito e desembarco na margem do rio Ngounié, acompanhado por alguns colaboradores da Olam, uma empresa agro-industrial sediada em Singapura. Seguindo trilhos de elefantes, mergulhamos na floresta. Passamos por árvores antigas e altíssimas, ninhos de chimpanzés e pilhas de excremento de gorila com menos de 24 horas. Os macacos fogem de nós nas copas. Um jovem vigilante da natureza da Olam arranca as botas e trepa por um tronco, de pés descalços, regressando com as mãos cheias de frutos cor-de-rosa, semelhantes a ameixas.

Mais adiante, encontramos pelo caminho mangas selvagens, nozes e casca de árvore que cheira a alho. Numa clareira pintalgada de manchas de sol, vêem-se peixes a chapinhar numa poça de água. As árvores em redor foram arranhadas por presas de elefante. 

Estar aqui, iluminada por esta luz filtrada pelas copias, e imaginar que tudo isto possa ser arrasado corta-me o coração.

Este lugar não é um parque, nem faz parte de qualquer reserva, mas integra a plantação de palmeiras oleaginosas gerida pela Olam. Se estivéssemos na Indonésia ou na Malásia (os dois maiores produtores mundiais de óleo de palma) os madeireiros e os bulldozzers poderiam estar prestes a deitar abaixo a floresta e a plantar filas uniformes de palmeira-dendém.

A palmeira-dendém, com cachos gigantes de frutos vermelhos refulgindo sob as copas desordenadas, é uma antiga cultura de subsistência. Durante milénios, os seres humanos ferveram e esmagaram os seus frutos para extraírem óleo alimentar, queimaram as cascas que envolvem as sementes para gerarem calor e teceram as folhas para produzirem tudo – de telhados a cestos.
Nas últimas duas ou três décadas, porém, o consumo de óleo de palma aumentou explosivamente, em parte devido à versatilidade e textura cremosa do óleo e em parte devido à produtividade das árvores. Precisam apenas de metade do solo exigido por outras culturas como a soja para produzir a mesma quantidade de óleo. 

O óleo de palma é hoje o óleo vegetal mais popular em todo o mundo, representando um terço do consumo global. É um óleo de cozinha vulgarmente utilizado na Índia e noutros países. Como ingrediente, é quase impossível evitar a sua omnipresença. Encontra-se presente, sob múltiplas formas, em bolachas, massa para
pizza, pão, batons, loções e sabões. Existe mesmo no biodiesel supostamente amigo do ambiente: em 2017, 51% do óleo de palma consumido na União Europeia destinou-se aos motores de automóveis e camiões. 

A nível mundial, a procura de óleo de palma continua a crescer. A Índia é o maior consumidor, com 17% do total mundial, seguida pela Indonésia, a União Europeia e a China. Neste momento, os Estados Unidos ocupam a oitava posição. Prevê-se que, em 2018, o consumo mundial atinja 65,5 milhões de toneladas. Ou cerca de nove quilogramas de óleo de palma por pessoa.

Para satisfazer esta procura há que pagar um preço elevado. Desde 1973, 41 mil quilómetros quadrados de floresta virgem do Bornéu, a ilha partilhada pela Malásia, pelo Brunei e pela Indonésia, foram abatidos, queimados e arrasados para abrir caminho à palmeira oleaginosa. Esta representa um quinto do total desflorestado no Bornéu desde 1973 e 47% da desflorestação ocorrida desde 2000. 

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