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grande guerra

Passendale, Flandres Ocidental, Bélgica - Com quase doze mil túmulos, Tyne Cot é o maior cemitério militar da Commonwealth em todo o mundo. Em 1922, o rei Jorge V de Inglaterra referiu-se-lhe nestes termos: “Interrogo-me, com frequência, se nos anos vindouros poderá existir um defensor da paz mais poderoso do que esta imensa multidão de testemunhas silenciosas da desolação da guerra.”

Texto: Victor Lloret Blackburn   
Fotografias: Michael St Maur Sheil 

Não é um assunto sobre o qual pensemos com frequência, mas deve ser complicado caminhar em solo europeu e, de súbito, deixar de o fazer, quando pisamos os restos mortais dos nossos antepassados.

Este pensamento, contudo, torna-se omnipresente em lugares como Thiepval, Vimy, Beaumont-Hamel ou Ypres, quatro povoações – três francesas e uma belga – que foram, entre 1914 e 1918, entre muitas outras, cenários de uma das guerras mais sangrentas que a humanidade travou contra si própria: a Grande Guerra. 

Na primeira destas localidades, uma aldeia na Picardia rodeada de prados ondulantes, bosques e ribeiros, detenho-me sob o arco de um grande monumento comemorativo que se ergue nos arredores. A distância não me permite ler os milhares de nomes gravados neste memorial de pedra e tijolo. Pertencem a mais de 72 mil homens que perderam aqui a vida durante a Grande Guerra, 72 mil soldados britânicos e sul-africanos enterrados sob a lama durante a sangrenta batalha do Somme. Os seus corpos não puderam ser recuperados e sepultados de maneira individual. Mesmo nos casos dos que foram recuperados, tornou-se impossível identificá-los. Por isso, os infelizes combatentes tiveram de descansar para sempre sob esta gigantesca lápide colectiva. 

Se o arco nos fornece os nomes de alguns corpos perdidos, o pequeno cemitério que se estende adiante oferece um complemento macabro: os restos mortais de trezentos ingleses que perderam a vida e o nome. Cada corpo anónimo repousa sob uma lápide que diz A soldier of the Great War / Known unto God (“Um soldado da Grande Guerra / cujo nome só Deus sabe”). Junto deste cemitério, outro quase idêntico acolhe os túmulos de 300 soldados franceses assinalados com cruzes, nas quais leio uma única palavra: Inconnu (“Desconhecido”). Da identidade de uns e outros sobreviveu apenas a nacionalidade, possível de distinguir graças aos uniformes dos tombados em combate. 

VESTÍGIOS DO CONFLITO. O rasto da Grande Guerra continua presente na paisagem e na memória de várias povoações que foram palco dos combates. 

Enquanto passeio entre as sepulturas dos soldados, envolto num misto de respeito e desassossego, vem-me à ideia que também eles se surpreenderiam se vissem o aspecto actual do lodaçal que os viu morrer. É tristemente irónico que a indústria da morte, que acabou com as suas vidas e arrasou o Nordeste da França entre 1914 e 1918, tenha dado lugar a estes refúgios, mausoléus ajardinados e impecavelmente ordenados: é uma paisagem que não pode estar mais distante da visão com que estes homens se despediram da vida: uma terra destruída pelas trincheiras e pelas bombas, juncada de cadáveres. 

O conflito bélico começara dois anos antes da batalha do Somme, atiçado pela crescente rivalidade económica e pela luta pela hegemonia política entre as principais potências europeias. A agressiva política externa do império austro-húngaro – e, sobretudo, da Alemanha –  acelerou o rearmamento. As tensões nos Balcãs não se fizeram esperar, culminando no assassínio, em Sarajevo, do arquiduque Francisco Fernando, herdeiro do trono austro-húngaro, no dia 28 de Junho de 1914. Uma série de declarações de guerra, iniciada em Agosto desse ano, conduziria à formação de dois blocos, os “aliados” (França, os impérios britânico e russo, a Sérvia, o reino de Itália e os Estados Unidos da América) e as “potências centrais” (os impérios alemão, austro-húngaro e otomano, e o reino da Bulgária), cujo confronto selou um desenlace inevitável: a primeira das guerras mundiais do século XX ceifaria mais vítimas do que qualquer outro confronto até então travado no continente europeu: morreram cerca de 18 milhões de pessoas entre 1914 e 1918, incluindo alguns milhares de portugueses depois de a Alemanha declarar guerra a Portugal no dia 9 de Março de 1916.

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