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A conservadora Emma Nichols examina um texto hebraico na Biblioteca da Universidade de Cambridge, onde se guardam cerca de duzentos mil manuscritos judaicos descobertos na sinagoga medieval no Cairo.

No mundo onde a religião e a arqueologia se encontram, cientistas, coleccionadores e oportunistas competem para encontrar textos sagrados.

Texto: Robert Draper
Fotografias: Paolo Verzone

Nas colinas áridas do deserto da Judeia, junto da costa do mar Morto, reina um calor impiedoso.

Em contrapartida, a temperatura é misericordiosamente fresca dentro da gruta onde Randall se encontra deitado de barriga para baixo, olhando fixamente para a fenda onde, no dia anterior, descobriu uma panela de bronze com dois mil anos.

“Esta gruta foi saqueada por beduínos há cerca de 40 anos”, explica este arqueólogo norte-americano, investigador e professor na Liberty University. “Felizmente para nós, não escavaram muito fundo. Temos esperança de alcançar o filão.”

Qualquer leitor que já tenha ouvido falar nestas afamadas grutas da antiga povoação judaica de Qumran sabe bem a que filão se refere Randall Price. Em 1947, jovens beduínos pastores espreitaram para o interior de uma gruta nas proximidades e fizeram uma das maiores descobertas arqueológicas do século XX: sete rolos de pergaminho escritos em hebraico antigo, os primeiros daqueles que se celebrizariam como Manuscritos do Mar Morto. Membros da seita separatista de Qumran tinham provavelmente escondido os manuscritos na gruta por volta de 70 d.C., quando as tropas romanas os cercaram para pôr fim à primeira rebelião dos judeus. Outra centenas de manuscritos foram descobertas no mesmo contexto. Remontando ao século III a.C., são os mais antigos textos bíblicos alguma vez encontrados. 

A Bíblia já foi integralmente traduzida para mais de 670 línguas. 
O Novo Testamento pode ser lido em mais de 1.500 idiomas adicionais.

As grutas de Qumran localizam-se na margem ocidental do rio Jordão, ocupada por Israel, e muitas pessoas consideram o trabalho de Randall Price ilegal ao abrigo do direito internacional. As críticas, porém, não dissuadem o arqueólogo nem o director israelita da escavação, Oren Gutfeld, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Ambos pretendem dar continuidade a uma agenda de investigação elaborada a partir de um exercício anterior e igualmente polémico.

Em 1993, depois de assinar os acordos de paz de Oslo – que criaram o enquadramento necessário para restituir os territórios em disputa ao controlo palestiniano – o governo israelita lançou a Operação Manuscrito, um levantamento urgente de todos os sítios arqueológicos que o país poderia perder. O inventário foi apressado e superficial e os investigadores não encontraram novos manuscritos. No entanto, cartografaram dezenas de grutas danificadas por sismos e possivelmente ignoradas pelos beduínos caçadores de tesouros. Uma delas, catalogada como Gruta 53, chamou a atenção de Randall Price em 2010 e, mais tarde, de Oren Gutfeld, que a descreveu como “recheada”.
“Encontraram muitos objectos de cerâmica datados de várias épocas – desde os primórdios do islão ao período do Segundo Templo e da era helenística”, comenta. “Há razões para crer que possa haver ali algo mais.”

Há dois anos, aquando da prospecção inicial da Gruta 53, os arqueólogos descobriram um pequeno rolo de pergaminho em branco e jarros de armazenamento quebrados, provas intrigantes de que a gruta poderia ter contido manuscritos. Agora, após quase três semanas de escavação, as suas descobertas estão dispostas sobre uma mesa no exterior da gruta. Incluem pontas de seta neolíticas, uma lâmina de obsidiana da Anatólia e a panela de bronze, mas nenhum manuscrito.
A escavação, entretanto, prossegue.

 Crentes de várias fés veneram relíquias religiosas. Contudo, para aqueles que acreditam que Deus comunica através das palavras escritas pelos profetas e apóstolos de tempos passados, os textos antigos são fundamentos da fé. Dos manuscritos medievais artisticamente ornamentados a humildes fragmentos de papiros, os textos venerados representam ligações tangíveis aos mensageiros nomeados por Deus – sejam eles Maomé, Moisés ou Jesus Cristo.

A reverência pelas Sagradas Escrituras é fundamental para a fé dos cristãos evangélicos, que se transformaram em força motriz da demanda por textos bíblicos há muito perdidos em grutas no deserto, mosteiros isolados e mercados de antiguidades no Médio Oriente. Os críticos argumentam que o apetite dos evangélicos por artefactos alimenta a procura de objectos saqueados, acusação até certo ponto comprovada por investigações recentes e por relatos de comerciantes legítimos.

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Copiado à mão por volta de 1400, um exemplar do Novo Testamento de Wycliffe, exposto num parque temático cristão na Florida, é manuseado com luvas brancas. O teólogo inglês John Wycliffe foi pioneiro na tradução da Bíblia de latim para vernáculo, inovação denunciada pelos responsáveis da igreja. Colecção Van Kampen em Exposição na Holy Land Experience, Orlando, Florida.

“Os evangélicos têm um impacte tremendo no mercado”, diz Lenny Wolfe, vendedor de antiguidades de Jerusalém. “O preço de qualquer peça ligada à época em que Cristo viveu é muito elevado.” 

Independentemente da sua filiação religiosa, os coleccionadores ricos e os filantropos abastados há muito que apoiam a busca de objectos exóticos. Entre os que contribuíram para a expedição de Randall Price e Oren Gutfeld a Qumran encontra-se uma fundação criada por Mark Lanier, um advogado de Houston que colecciona textos teológicos. Outra escavação arqueológica, realizada em Tel Shimron, em Israel, tem o apoio do novo Museu da Bíblia de Washington. O presidente executivo do museu, Steve Green, preside também a gigantesca cadeia de material de bricolage Hobby Lobby e é um dos maiores defensores de causas cristãs nos EUA. O seu entusiasmo pela caça bíblica é assumido.

“Há muito por descobrir. Imagine tudo o que poderá existir”, diz-me quando me encontro com ele no museu de 40 mil metros quadrados que custou a módica quantia de 500 milhões de dólares. “Sentimo-nos entusiasmados com cada pedra revirada.” Infelizmente, como Green descobriu em primeira mão, nem tudo é sagrado no negócio da caça bíblica. A remoção de rochas pode revelar manuscritos inéditos, mas também pode destapar cobras.

 Encontrar serpentes e outros perigos fazia parte do terreno pisado pelos caçadores bíblicos pioneiros do século XIX e do início do século XX. O Egipto era um dos seus destinos preferidos: o clima seco é ideal para a preservação de manuscritos frágeis. Muitos dos que desbravaram caminho foram universitários intrépidos e aventureiros e os relatos das suas viagens e descobertas fazem lembrar cenas do filme “Os Salteadores da Arca Perdida”. 

Veja-se, por exemplo, o académico alemão Konstantin von Tischendorf que, em 1844, empreendeu uma longa e perigosa viagem através do deserto do Sinai, no Egipto, para alcançar o mosteiro cristão continuamente habitado mais antigo do mundo, Santa Catarina. Ali, encontrou “o mais precioso tesouro bíblico que existe”. Era um códice, um texto antigo, com a forma de um livro e não de um rolo, datado de meados do século IV. Conhecido hoje como Codex Sinaiticus, é uma das duas bíblias cristãs mais antigas que sobreviveram desde a Antiguidade e o mais antigo exemplar completo do Novo Testamento.

Este achado fez de Tischendorf “o mais famoso e tristemente célebre especialista em textos da história”, nas palavras do biógrafo Stanley Porter. Segundo o seu próprio relato dos acontecimentos, o sábio alemão vislumbrou primeiro algumas páginas do códice num cesto de pergaminhos antigos que os monges planeavam queimar. Salvou as páginas e pediu autorização para levar o códice completo para a Europa e estudá-lo. Os monges, alertados pelo entusiasmo do académico, dispensaram-lhe apenas algumas dezenas de páginas.

Konstantin von Tischendorf empreendeu de novo a árdua viagem até Santa Catarina em 1853, mas voltou sem nada para mostrar. Em 1859, regressou uma terceira e última vez ao local depois de obter o apoio do czar russo, “defensor e protector” da Igreja Ortodoxa Oriental, à qual o mosteiro do Sinai pertence. Desta feita, a determinação do académico deu frutos. Depois de assinar um acordo, comprometendo-se a devolver o códice depois de fazer cópias exactas, entregou o artefacto ao seu real cliente em São Petersburgo.

Daí em diante, a cadeia de acontecimentos desenrola-se no meio de polémicas e acusações de jogos de poder imperialistas. Os monges acabaram por “doar” o códice ao czar, mas ainda hoje se discute se o terão feito de livre vontade ou sob coacção. Independentemente do sucedido, a inestimável Bíblia permaneceu em São Petersburgo até 1933, ano em que o governo de Estaline, enfrentando uma crise financeira e um surto de fome, a vendeu ao Museu Britânico por meio milhão de dólares.

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O padre dominicano Jean-Michel de Tarragon estuda fotografias de arquivo na École Biblique Française de Jerusalém. Os seus especialistas conduziram a investigação em busca dos Manuscritos do Mar Morto, os mais antigos textos bíblicos alguma vez descobertos.

Von Tischendorf não foi o primeiro caçador de manuscritos a visitar o isolado mosteiro no sopé do monte Sinai, nem seria o último. Entre os que lhe seguiram as pisadas, encontram-se as gémeas escocesas Agnes Smith Lewis e Margaret Dunlop Gibson, duas autodidactas que, em conjunto, dominavam mais de dez idiomas. Em 1892, as destemidas irmãs presbiterianas, à época viúvas de meia-idade, atravessaram o deserto do Egipto montadas em camelos e chegaram a Santa Catarina. Tinham recebido notícias sobre a existência de obras em siríaco antigo (um dialecto do aramaico, o idioma falado por Jesus) empilhadas num armário escuro. As irmãs estavam ansiosas por investigar.

Com autorização dos monges, examinaram vários volumes, incluindo um códice com pó incrustado que não era aberto há décadas ou mesmo séculos. Usando a sua chaleira de campismo para descolar as páginas encardidas com o vapor, descobriram que se tratava de uma biografia de santas datada de 778 d.C. O olhar aguçado de Lewis reparou então na escrita ténue sob a camada superior do texto e percebeu que se tratava de um palimpsesto, manuscrito parcialmente apagado e reutilizado. Estudando o texto sob o texto, ficou pasmada por descobrir que era uma tradução dos quatro evangelhos. Datado aproximadamente do início do século V, o Codex Sinaiticus Syriacus, nome pelo qual é actualmente conhecido, é um dos mais antigos exemplares dos evangelhos alguma vez descoberto.

Em vez de tentarem “pedir emprestado” o códice siríaco – que permanece em Santa Catarina até à data –, as irmãs fotografaram cada página com uma máquina fotográfica que tinham levado consigo para documentar os seus achados. Também recorreram a uma solução química, tentando (com sucesso) reavivar o esbatido texto subjacente do palimpsesto. O seu trabalho antecipou em mais de um século o uso da imagiologia multiespectral e de outras tecnologias na revelação de textos bíblicos antigos escondidos sob escritos mais recentes.

Os espectaculares manuscritos revelados ao mundo por Von Tischendorf e pelas irmãs escocesas tinham sido escritos em pergaminho ou velino, materiais dispendiosos. No entanto, a grande maioria dos textos dos primeiros séculos do cristianismo foi escrita em papiro, o papel do mundo antigo.

Em 1896, Bernard Grenfell e Arthur Hunt, arqueólogos principiantes da Universidade de Oxford, andavam à procura de artefactos na cidade egípcia de Oxyrhynchus, há muito enterrada, quando fizeram uma descoberta extraordinária: uma lixeira antiga, com camadas sobrepostas de papiros. Durante a década seguinte, Grenfell e Hunt escavaram um poço cheio de papiros com cerca de dez metros de profundidade e enviaram meio milhão de documentos para Oxford. Desde então, os investigadores têm vindo a recompor meticulosamente os fragmentos.

A maior parte dos papiros representava mera documentação prosaica do quotidiano – contas, cartas, avaliações fiscais, uma escritura da venda de um burro. Cerca de 10% do total, contudo, eram peças literárias, incluindo excertos de obras de autores clássicos como Homero, Sófocles e Eurípides. Algumas das descobertas mais dramáticas – como os evangelhos perdidos não incluídos no Novo Testamento – permitiram conhecer melhor os anos de formação do credo cristão. E passado mais de um século sobre a sua descoberta, ainda falta estudar pormenorizadamente milhares de fragmentos. Quantas mais revelações estarão à espera em todas aquelas caixas de lixo antigo?

Como drama inesperado, os Manuscritos do Mar Morto ultrapassam todas as outras descobertas bíblicas. Segundo uma versão da história, os pastores de cabras beduínos venderam os sete pergaminhos que encontraram a dois negociantes de antiguidades em Belém. Um académico de Jerusalém adquiriu três pergaminhos. Um negociante chamado Khalil Iskander Shahin, também conhecido como Kando, vendeu os quatro pergaminhos remanescentes a um arcebispo sírio em Jerusalém, que, alegadamente, lhe pagou o equivalente a 250 dólares por eles. Em 1949, o bispo contrabandeou os pergaminhos para os EUA, na esperança de os vender a um museu ou universidade. Não conseguindo arranjar compradores, publicou um anúncio no “The Wall Street Journal” de 1 de Junho de 1954. Um arqueólogo israelita, trabalhando através de um intermediário americano, organizou a aquisição dos pergaminhos pelo governo de Israel por 250 mil dólares. Os sete pergaminhos originais estão actualmente guardados numa ala do Museu Nacional de Israel, em Jerusalém.

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Um conservador da Autoridade das Antiguidades de Israel prepara um fragmento dos Manuscritos do Mar Morto para exposição. Invertido na imagem, o frágil documento está a ser fixado entre duas camadas de rede, presas com alfinetes e depois cosidas em redor das extremidades do fragmento.

Quando a notícia da descoberta dos pergaminhos se espalhou, uma equipa liderada pelo arqueólogo e padre dominicano Roland de Vaux dirigiu-se a Qumran em 1949. Em 1956, De Vaux e beduínos locais tinham encontrado mais dez “grutas de pergaminhos”, contendo dezenas de manuscritos, muitos dos quais desintegrados em milhares de fragmentos. Os estudiosos demoraram décadas, trabalhando isolados e em segredo, a reconstituir e a traduzir os pergaminhos esfarrapados. O longo atraso na sua publicação inspirou teorias de conspiração, segundo as quais alguém – o papa, os sionistas? – andava propositadamente a suprimir o conteúdo dos pergaminhos. 

Por fim, em meados da década de 2000, os tradutores publicaram finalmente a maioria das suas descobertas. Os pergaminhos incluíam textos legais, tratados apocalípticos e rituais, relatos da vida da seita de Qumran e vestígios de 230 manuscritos bíblicos. Os estudiosos ficaram entusiasmados por descobrirem entre eles um exemplar quase completo do Livro de Isaías da Bíblia Hebraica. O seu conteúdo era praticamente idêntico ao de outro exemplar de Isaías produzido cerca de mil anos mais tarde. O Grande Pergaminho de Isaías tornar-se-ia a prova principal para os especialistas que defendem a Bíblia contra quem afirma ter sido o texto corrompido por escribas que, ao longo de séculos de cópias feitas à mão, introduziram uma variedade de erros e alterações intencionais.

Na história da caça a artefactos bíblicos, não existem apenas tesouros escondidos, mas também o chamado ouro dos tolos. Quando os arqueólogos começaram a escavar as grutas de Qumran, outros beduínos fizeram as suas próprias escavações e venderam o que encontraram a Kando. A sua maior aquisição foi o Pergaminho do Templo, com quase oito metros de comprimento, o mais longo dos Manuscritos do Mar Morto. Em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, funcionários dos serviços secretos israelitas apreenderam o Pergaminho do Templo em casa de Kando, confiscando-o como propriedade do Estado. Após o incidente, Kando começou, alegadamente, a enviar os fragmentos de pergaminho remanescentes para parentes seus do Líbano e, mais tarde, para um cofre bancário na Suíça.

Em 2009, Steve Green começou a comprar bíblias e artefactos raros a um ritmo inaudito, acabando por adquirir cerca de quarenta mil objectos, uma das maiores colecções privadas de material bíblico do mundo. A sua maratona de compras no valor de vários milhões de euros conduziu-o, inevitavelmente, à porta de Kando. William, o filho de Kando, assumiu o controlo do negócio da família após a morte do seu pai em 1993.

“Steve Green veio ver-me várias vezes”, conta William Kando através de uma nuvem de fumo de cigarro na manhã em que nos encontrámos na sua loja, em Jerusalém. “É um homem honesto, um bom cristão. Ofereceu-me 40 milhões pelo meu fragmento do Génesis. Recusei. Algumas pessoas dizem que tem um valor incalculável.” Através de um assessor, Green contrapõe que Kando fixou o preço em 40 milhões de dólares e que, por isso, preferiu não o comprar. Em alternativa, comprou fragmentos mais baratos.

O mercador oferece-me mais café e depois vasculha um livro de registo. “Aqui podem ver”, diz, apontando para uma nota dizendo que vendeu sete fragmentos de Manuscritos do Mar Morto a Green em Maio de 2010.

Steve Green cometeu vários erros. O mais significativo foi a importação de milhares de tabuinhas de argila e outros artefactos que, segundo os especialistas, foram provavelmente saqueados no Iraque. Como resultado, foi multado em três milhões de dólares pelo Departamento da Justiça dos EUA e teve de devolver os objectos. “A verdade é que a maioria das antiguidades é saqueada e a maioria dos compradores não pergunta qual a sua proveniência”, confessa Eitan Klein, director-adjunto da divisão anti-saque da Autoridade das Antiguidades de Israel, quando nos encontrámos no seu gabinete em Jerusalém. “Do meu ponto de vista, quando estamos a lidar com antiguidades, temos de sujar as mãos de alguma maneira.”

Como os manuscritos do mar Morto autênticos são “o maior tesouro cultural de natureza judaica do mundo”, nas palavras do curador Adolfo Roitman, os documentos sagrados são preservados com requinte. Entretanto, vários outros manuscritos bíblicos ficam entregues ao bolor em armazéns académicos ou são consumidos pelo fogo, cheias, insectos, saqueadores ou pela guerra. A sua conservação antes que os seus segredos desapareçam para sempre é “literalmente uma corrida contra o tempo”, diz Daniel B. Wallace, director do Centro de Estudo dos Manuscritos do Novo Testamento, no Texas.

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Em busca de mais Manuscritos do Mar Morto, o arqueólogo israelita Oren Gutfeld espreita para o interior de uma gruta onde encontrou pedaços antigos de pergaminho. “Estava vazia, mas, para a próxima, talvez não esteja”, diz.

Daniel Wallace e outros especialistas em textos que percorrem todo o mundo acumularam dezenas de milhares de quilómetros viajando pelo planeta numa missão urgente: documentar digitalmente manuscritos bíblicos antigos de arquivos, bibliotecas monásticas e outros repositórios e torná-los acessíveis a académicos de todo o mundo através da Internet. É uma tarefa colossal. No caso do Novo Testamento, cujos autores escreveram em grego, já foram encontrados mais de 5.500 manuscritos e fragmentos gregos, um número superior ao de qualquer outro texto antigo. No total, há 2,6 milhões de páginas, segundo a estimativa e Daniel Wallace refere que a maior parte ainda não foi estudada pela academia. 

“Cerca de 80% dos manuscritos já conhecidos que seriam úteis para os estudos bíblicos sobre o Novo Testamento ainda não foram publicados”, diz o padre Olivier-Thomas Venard da École Biblique et Archéologique Française, um centro de investigação dominicano em Jerusalém. “É uma quantidade gigantesca de património”, acrescenta o padre Anthony Giambrone, colega de Venard. “Para falar com franqueza, a tarefa é impossibilitada pelos desafios da crítica textual: não há, pura e simplesmente, especialistas suficientes para trabalhá-los.”

O Instituto da Investigação Textual do Novo Testamento, em Münster (Alemanha), tentou reduzir as dificuldades do trabalho classificando os documentos bíblicos segundo passagens-chave, mas este sistema ignora por completo vários textos. Uma solução mais abrangente poderá ser tecnologicamente viável, prevê Daniel Wallace, que espera utilizar software de reconhecimento óptico de caracteres (ORC, na designação internacional) para digitalizar cada volume do Novo Testamento grego. “Neste momento, um académico demoraria 400 anos a ler e a compilar todos os documentos conhecidos”, afirma. “Com o ORC, cremos que esse trabalho pode ser conduzido em dez anos.”

Perdoar-nos-ão se neste momento fizermos uma pergunta constrangedora: será que isso é assim tão importante? Para quê tanto alarido em torno de bíblias antigas e pedaços ainda mais antigos de papiros egípcios? Para pessoas como Daniel Wallace, que lecciona num seminário evangélico, e Steve Green, que investiu grande parte da fortuna da família num museu dedicado à Bíblia, tudo se resume numa questão: a fé baseia-se em factos ou em ficção? “Quando os visitantes do nosso museu vêem um texto antigo, estão a ver provas de que aquilo em que acreditam não é apenas um conto de fadas”, diz Steve Green. 

Mas serão essas provas suficientemente claras? Partindo do princípio de que o Deus da Bíblia existe mesmo e que encontrou uma forma de comunicar com os autores dos documentos bíblicos antigos – será que temos agora nas mãos aquilo que eles escreveram na altura? Afinal, nenhum dos seus escritos originais, aquilo a que a comunidade científica chama as autografias, foi descoberto. As suas palavras só sobrevivem porque foram copiadas à mão inúmeras vezes até à invenção da imprensa no século XV. E até os académicos conservadores admitem não haver dois exemplares exactamente iguais.

Poucas editoras acreditariam que tais questões dessem origem a um êxito de vendas a nível nacional, mas foi isso exactamente que aconteceu em 2005, com a publicação da obra inteligentemente intitulada “Misquoting Jesus: The Story Behind Who Changed the Bible and Why”. O autor do livo, Bart Ehrman, argumenta que os “factos” sobre Jesus apresentados nas bíblias contemporâneas se baseiam em séculos de cópias, todas elas registando factos diferentes, pelo que não poderemos saber ao certo o que diziam os textos originais.

Em pessoa, o antigo evangélico de barbicha, entretanto tornado ateu, assume uma postura moderada, mas subversivamente cáustica. Enquanto bebemos café na Universidade da Carolina do Norte, onde ele lecciona estudos religiosos, Bart Ehrman recita uma série de passagens das Escrituras para as quais olha com algumas suspeitas académicas. Segundo ele, os últimos 12 versículos do Evangelho de São Marcos foram provavelmente acrescentados vários anos após os acontecimentos, assim como o Evangelho de São Lucas, prevendo o nascimento de Jesus em Belém.

Várias afirmações de Ehrman são rebatíveis, mas alguns académicos concordam que os escribas cristãos foram corrompendo propositadamente certas passagens ao longo do tempo. Esta questão acontece ao nível de corrupção textual.

“Em termos gerais, apoio o que Bart Ehrman diz sobre isto”, afirma Peter Head, investigador de Oxford que estuda manuscritos gregos do Novo Testamento. “Mas os manuscritos sugerem uma fluidez controlada. Há variantes, mas podemos mais ou menos perceber como e quando.
O problema é que não dispomos de dados suficientes sobre o período primitivo.”

O “período primitivo” referido por Peter Head começa com o nascimento de Cristo no primeiro século d.C. e acaba no início do século IV. E embora seja verdade que foram encontrados mais de 5.500 manuscritos gregos do Novo Testamento, quase 95% deles remonta aos séculos IX a XVI. Apenas cerca de 125 datam dos séculos II ou III e nenhum do primeiro.

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Autorizado pelo Estado de Israel a vender antiguidades, Khader Baidun visita um armazém por baixo das lojas da sua família na Cidade Velha de Jerusalém. Numa tentativa para travar a venda de objectos saqueados, os negociantes são agora obrigados a registar os artefactos numa base de dados digital. No entanto, continua a haver secretismo, diz um vendedor. “É um velho hábito não mencionar nomes nem valores.”

Nenhuma destas circunstâncias inquieta Daniel Wallace, o adversário de Bart Ehrman nesta discussão. “O Bart gosta de salientar que não temos nenhumas autografias, apenas cópias”, diz. “A verdade é que não temos autografias de nenhuma obra literária greco-romana, excepto possivelmente um fragmento de um autor clássico.”

Daniel Wallace reconhece que os milhares de manuscritos do Novo Testamento contêm inúmeras diferenças devido a erros dos escribas, mas argumenta que, como os estudiosos dispõem de tantos textos para estudar e comparar, conseguiram identificar esses erros e recuperar, em grande medida, a redacção original. Salienta também que boa parte da fiabilidade de qualquer documento histórico assenta na sua proximidade cronológica em relação aos acontecimentos que pretende relatar.

“Em média, as mais antigas cópias sobreviventes da literatura greco-romana encontram-se a meio milénio de distância da sua composição”, afirma. “No caso do Novo Testamento, porém, as cópias mais antigas estão a poucas décadas do sucedido. É uma diferença enorme.”

Apesar disso, a inexistência de escritos cristãos do primeiro século parece ser um argumento a favor da teoria de Bart Ehrman, argumento que Daniel Wallace se mostra desejoso de invalidar. Talvez demasiado desejoso. 

No decurso de um debate com Bart Ehrman, em Fevereiro de 2012, Daniel Wallace proferiu uma “bomba”. Um fragmento de manuscrito do Evangelho de São Marcos fora recentemente descoberto e oficialmente datado do século I. Por outras palavras, era anterior em mais de um século ao mais antigo texto conhecido do Evangelho de São Marcos. Seria o único documento do Novo Testamento do século I alguma vez descoberto e o mais antigo texto cristão sobrevivente. Um estudo desse manuscrito antigo seria provavelmente publicado em 2013, informou o teólogo texano.

A revelação alertou os caçadores de Bíblias de todo o mundo. Quem descobrira o manuscrito de Marcos? Onde estava guardado? Estaria disponível no mercado? Quantos milhões custaria? Passados cinco anos, porém, o documento ainda não vira a luz do dia.

Em Dezembro de 2017, comecei a fazer telefonemas. Um mês mais tarde, apareci na Biblioteca Sackler, na cidade universitária de Oxford, que aloja a maior colecção de papiros antigos do mundo. Uma mulher italiana vestida com uma bata de laboratório conduz-me através de uma área segura. O seu nome é Daniela Colomo, investigadora associada de Oxford e curadora da lendária colecção de papiros de Oxyrhynchus.

Daniela mostra-me um pedaço de papel alcalino, dobrado como se fosse um sobrescrito. Lá dentro, vejo um fragmento acastanhado de papiro, pouco maior do que o meu polegar. Semicerrando os olhos, 30 centímetros acima dele, consigo discernir uma série de riscos no fragmento antigo.

“Isto é de São Marcos”, diz a minha interlocutora. “Data provavelmente de finais do século I ou início do III. Nunca tencionámos tomar uma posição oficialmente, mas anda por aí muita gente a escrever em blogues e a espalhar boatos. Por culpa de toda a publicidade anónima, teremos de publicá-lo em breve.”

Daniela Colomo e o seu colega Dirk Obbink, um papirologista norte-americano e professor de Oxford, publicaram as suas conclusões em Maio. Catalogado como P.Oxy. LXXXIII 5345, este era um dos milhares de fragmentos desenterrados por Grenfell e Hunt ainda não plenamente estudado. A Egypt Exploration Society, patrocinadora da escavação em Oxyrhynchus e proprietária da colecção, emitiu uma declaração que inclui o seguinte excerto: “Este é o mesmo texto que o Professor Obbink mostrou a alguns visitantes de Oxford em 2011/12, referido por alguns deles em conversas e nas redes sociais, dizendo que poderia datar do final do século I d.C., com base numa datação provisória feita à época da catalogação do texto, há muitos anos.”

As expectativas criadas em torno do famoso fragmento de São Marcos, e a subsequente desilusão, obscureceram a importância da descoberta. Na verdade, conhece-se a existência de apenas dois outros fragmentos de São Marcos anteriores a 300 d.C. Daniela Colomo atribui este frenesi à obsessão pelo século I de alguns investigadores que sonham descobrir um evangelho, ou epístola, escritos por um apóstolo.

“Entre os especialistas no Novo Testamento, sobretudo nos EUA, existe uma tendência para procurar os documentos mais antigos, na esperança de encontrar uma autografia da autoria de pessoas que conheceram Jesus”, diz a investigadora. “Tendem a atribuir datas muito antigas aos papiros, baseando-se em semelhanças aleatórias. Isto não é um comportamento científico.”

Daniel Wallace pediu entretanto desculpas a Bart Ehrman por anunciar uma descoberta não verificada. “Assumo toda a responsabilidade. Não fiz a verificação adequada. Foi uma atitude ingénua”, acrescentou.

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Quando uma vaga de artefactos bíblicos apareceu no mercado após a crise de 2008, Steve Green, fundador e director executivo do Museu da Bíblia, em Washington, empreendeu uma maratona de compras. Não tardou a descobrir o lado escuro do comércio de antiguidades e pagou três milhões no âmbito de um acordo judicial por ter importado objectos que alegadamente teriam sido roubados do Iraque.

Talvez fosse ingenuidade esperar que um único pequeno fragmento resolvesse um longuíssimo debate sobre a Bíblia. “Iria mudar a maneira de vermos as coisas?” pergunta Bart. “Tenho quase a certeza de que não. Já disse várias vezes que só se encontrarmos três ou quatro manuscritos antigos em sítios diferentes e todos disserem a mesma coisa teremos um argumento defensável. Só que isso não me parece provável.” 

 Randall Price, o homem que escavou Qumran, também terá de resignar-se e aceitar estas fracas probabilidades. Só nos casos mais raros é que os feitos arqueológicos proporcionam filões em vez de aumentos graduais do conhecimento. A equipa constituída por alunos, amigos e familiares de Price e Gutfeld estava a acabar o trabalho na Gruta 53 certa manhã, em finais de Janeiro, quando alguém deu um grito. Beverlee, a mulher de Price, emergiu de uma câmara natural, não uma gruta propriamente dita, descoberta recentemente pela equipa. Trazia na mão um objecto de argila com cerca de cinco centímetros de comprimento.

Price examina-o. “Sim”, murmura lentamente. “É um rebordo.” Ou seja: o rebordo do que poderá ter sido o recipiente de um manuscrito. O mais provável é que, independentemente da proveniência do fragmento, o resto tenha sido levado pelos beduínos. No entanto, a Bíblia que Price lê – e na qual acredita – ensina a ter fé, acima de tudo. 

“Eh, fora daí!”, grita ele, para dentro da Gruta 53. “Há muito ainda por escavar!”.

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