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Londres

Khan aderiu a uma campanha para que Londres seja nomeada a primeira Cidade-Parque Nacional do mundo. Este projecto é acarinhado por Daniel Raven-Ellison, geógrafo e explorador da National Geographic. A ideia, diz Raven-Ellison, não é sobrecarregar a cidade com regulamentos novos, mas incentivar os londrinos a darem mais importância ao ambiente da cidade. “Uma em cada sete crianças não visitou um espaço verde no último ano”, afirma. “Refiro-me a uma viragem cultural, questionando os conceitos das pessoas quanto à maneira como devem encarar a sua relação com a natureza.”

A tarefa mais desafiadora de Khan é a habitação. A sua campanha apoiou-se na premissa de que a eleição seria igualmente um referendo à habitação a preços acessíveis: depois de eleito, anunciou que Londres precisa de mais 66 mil casas novas por ano, só para acompanhar o crescimento, e prometeu que 50% dessas casas teriam “preços genuinamente acessíveis”, embora na realidade a maioria dos bairros aponte para 35%. Khan obteve do governo cerca de cinco mil milhões de euros em fundos para construir 116 mil casas a preços acessíveis até 2022. Muitos londrinos admiram as metas habitacionais de Khan, embora sublinhem as limitações da presidência: o presidente da câmara fixa metas estratégicas para a cidade, mas são os 33 concelhos municipais que aprovam as propostas de construção imobiliária no seu território.

“Apesar dos sucessivos planos para construir mais habitação, o ritmo de construção está muito longe de acompanhar o crescimento da população”, afirma Tony Travers, responsável pelos estudos governamentais na London School of Economics. Jules Pipe, um dos dez vice-presidentes de Khan, explica o motivo pelo qual é tão importante tentar. “Se grandes parcelas da população não puderem viver e viajar de maneira barata na capital, a capital começará a fracassar em todas as áreas, desde manter-se limpa a ter médicos suficientes no hospital”, diz.

A zona central de Londres é vista como uma ilha para turistas, oligarcas russos e príncipes sauditas, que passam escassas semanas por ano nas suas habitações milionárias. Simon Jenkins, antigo presidente do conselho de administração do National Trust e jornalista veterano, assegura que Londres é cada vez mais um mercado de investimento do que um lugar de residência. “Eles querem investir o seu dinheiro e ir-se embora, como se a cidade se tivesse transformado num banco”, explica. “Estes apartamentos de luxo são meros lingotes de ouro.”

Segundo Trevor Abrahmsohn, agente imobiliário dos muito ricos, um dos efeitos colaterais de se ser uma cidade global é a atracção de riqueza. A família real do Qatar possui mais imóveis em Londres do que a família real britânica. As suas propriedades incluem o centro comercial Harrods, a maior parte do Shard, o antigo edifício da embaixada dos EUA em Grosvenor Square, 20% do aeroporto de Heathrow e uma quota do Canary Wharf.

“Quando o xá do Irão foi deposto, o seu primeiro porto de escala foi Londres”, afirma. “Quando os nigerianos ganhavam dinheiro com o petróleo, faziam compras em Londres. Quando os indianos ganhavam dinheiro com os nigerianos, faziam compras em Londres. Quando o muro de Berlim caiu, os russos vieram às compras e, agora, são os chineses.”

O projecto Battersea-Nine Elms, que ocupa mais de duzentos hectares ao longo da margem sul do Tamisa, é considerado, de maneira justa ou injusta, uma acumulação das maiores contas bancárias das ilhas. Agora chamam-lhe Dubai-do-Tamisa depois de a primeira leva de apartamentos ter sido vendida sobretudo a compradores estrangeiros. Este projecto também ajuda a perceber por que razão as metas de habitação de Khan podem ser difíceis de cumprir. A central eléctrica, um dos maiores edifícios de tijolo do mundo, é um dos monumentos mais adorados da linha do horizonte. “Uma catedral de São Paulo industrial”, diz Jenkins. A central figurou na capa de um disco dos Pink Floyd e vários filmes com sucesso de bilheteira utilizaram-na como cenário.

A central foi encerrada em 1983, mas a sua fama também a salvou da demolição, deixando por resolver o custo gigantesco da sua remodelação. Inúmeros promotores imobiliários sucederam-se. Em 2012, um consórcio malaio pegou no projecto e transformou-o num espaço comercial e residencial, recuperando as quatro chaminés. Os promotores também contribuíram para a construção de duas novas estações de metropolitano, melhorando os acessos. Essas despesas permitiram-lhes obter uma redução do número de unidades de habitação a preços comportáveis para menos de 20%.

Segundo Ravi Govindia, presidente do Concelho Municipal de Wandsworth, que abrange o bairro de Nine Elms, as infra-estruturas e a recuperação compensaram a redução. “Cada empreendimento pode dar um contributo limitado para a melhoria dos serviços públicos”, diz. “A habitação a preço acessível é uma componente.”

A urbanização vai também incluir um novo parque, duas docas, duas escolas primárias, dois centros de saúde e melhores vias para a circulação de bicicletas. “O maior desafio em qualquer espaço urbano é conciliar a renovação de uma área com os serviços que tornam a vida na cidade suportável e desejável”, diz. “Não é possível fazê-lo apostando numa só coisa grande. É preciso fazer muitas coisas pequenas.”

Mais oportunidades podem surgir no local onde se realizaram os Jogos Olímpicos de 2012, terrenos públicos pertencentes a uma empresa imobiliária sob controlo da autarquia. Depois dos Jogos, o local foi convertido no Parque Olímpico da Rainha Isabel, com um complexo de piscinas, um velódromo e um estádio. A aldeia olímpica foi remodelada e transformada em três mil apartamentos. Com metade pagando renda à taxa do mercado, os restantes tiveram descontos para se qualificarem como de preço acessível e muitos têm quartos suficientes para albergar uma família.

Em Junho, Khan delineou um plano de expansão que inclui mais habitação, um teatro, novas cidades universitárias para o London College of Fashion e para o University College London, bem como uma sucursal do Museu Victoria e Albert.

No processo de candidatura aos Jogos, o então presidente da câmara Ken Livingstone sublinhou que o interesse em acolher o evento tinha menos que ver com os Jogos Olímpicos em si e mais com o potencial de incentivar a recuperação de zonas abandonadas e empobrecidas da zona oriental de Londres. Ricky Burdett, director do programa das cidades da London School of Economics e assessor durante os Jogos, afirma que estão colocadas as peças necessárias para um processo de recuperação que se prolongará por várias décadas.

“Quando inspeccionámos pela primeira vez o local, tememos a loucura da empreitada. Havia pneus a arder no lugar onde o estádio olímpico seria construído. Demos depois uma volta pelo parque.” Uma das primeiras tarefas consistiu em ligar o local à zona adjacente, por meio de cerca de 30 pontes, viadutos, passeios pedonais e ciclovias. “Nada disto teria sido feito se não fossem os Jogos Olímpicos”, explica. “Na verdade, trata-se de um projecto de 35 anos.”

O nosso passeio termina junto das Tower Hamlets, um dos cinco municípios que bordejam a cidade olímpica e um dos que poderá melhor representar as mudanças e as contradições de Londres. É minúsculo, abrangendo apenas 21 quilómetros quadrados, em antigas zonas industriais de acostagem. É o município de Londres que mais depressa cresce: ali vivem cerca de 308 mil pessoas. Contém alguns dos bairros mais pobres da cidade e alguns dos mais ricos.

Há três séculos que este município serve de ponto de desembarque aos imigrantes recém-chegados. O mais famoso edifício de Tower Hamlets, hoje incluído na maioria dos guias turísticos, abrange essas camadas de história: foi uma casa de reuniões para os huguenotes franceses no século XVIII, depois sinagoga para os judeus fugidos da Europa de Leste e é agora uma mesquita. As ruas vizinhas receberam o nome de Banga Town, em homenagem aos cidadãos do Bangladesh, hoje o maior grupo imigrante de Tower Hamlets.

O município também abrange Canary Wharf, o terceiro maior contribuinte para a economia do Reino Unido. Entre os edifícios altos que crescem por toda a cidade de Londres, 85 estão a erguer-se em Tower Hamlets, mais do que em qualquer outro município. Muitos fazem parte de uma zona de expansão que transformará Canary Wharf numa comunidade residencial. É aqui, naturalmente, que há mais incertezas quanto ao efeito do brexit sobre a próspera indústria de serviços financeiros. A construção de alguns edifícios de Canary Wharf foi interrompida. Correm boatos sobre a possibilidade de os postos de trabalho na banca serem transferidos para Paris ou para Frankfurt. Em Julho, os responsáveis do município criaram a Comissão do Brexit para tratarem das consequências caso os empregos desapareçam e sejam impostos limites à imigração. John Biggs, presidente do município de Tower Hamlets (um dos quatro com presidente próprio), classifica o brexit como “a mais significativa mudança ocorrida no nosso país numa geração”.

Talvez isto não diga o suficiente. Quando o Reino Unido deixar a União Europeia, será a primeira vez em muitos séculos que Londres estará sozinha no mundo, defende Richard Brown, do Centre for London. “A Inglaterra passou de potência imperial, com uma longa história como império comercial, a cidade principal da União Europeia”, afirma Brown. “A transição para esta nova situação é bastante dramática.” Mesmo assim, continuam a surgir recém-chegados.
A construção não parou.

Ancorada à base do edifício do HSBC, encontra-se uma estação ferroviária para o futuro. Os seus sete pisos estão repletos de lojas, cafés, uma sala de cinema e um ginásio. Lá em cima, o Jardim do Meridiano prolonga-se por cerca de trezentos metros, com “jardins do hemisfério” oriental e ocidental plantados com flora nativa dos países visitados pelos navios das Docas das Índias Ocidentais. Fiz uma pausa no meio, sobre a linha divisória onde os dois hemisférios se encontram. Estamos a curta distância de Greenwich, onde se localiza o ponto de Longitude Zero, no Observatório Real. Uma réplica do primeiro meridiano encontra-se aqui. É outro lembrete de que, aconteça o que acontecer, Londres continua a estar no centro do mundo. 

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