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Londres

E naquilo que pode classificar-se como um revés da sorte, o tormento conhecido como brexit – a saída de Inglaterra da União Europeia – alimentou avaliações sombrias de que o surto de crescimento chegou ao fim.

“Ainda não sabemos que forma o brexit assumirá e que efeitos terá em Londres”, afirma Richard Brown, director de investigação do Centre for London, um centro progressista de reflexão. “Surgindo numa época de significativa instabilidade mundial, o brexit veio gerar níveis de incerteza naquilo que parecia ser uma suave trajectória de crescimento.”

Irá a bolha rebentar? Conseguirá Londres mostrar-se à altura dos desafios e permanecer a mais importante cidade comercial do planeta e um lugar agradável para se viver? A noção de que Londres se aproxima de um desenlace infeliz parece inimaginável, sobretudo porque as gruas da construção civil continuam a girar nos quatro pontos cardeais da grande capital, e todos os dias há chegadas maciças de gente ao aeroporto internacional de Heathrow e às estações ferroviárias. Esse pessimismo subvaloriza igualmente os pontos fortes históricos embutidos no DNA de Londres e que têm guiado este conglomerado de aldeias ao longo de dois mil anos.

Os londrinos gostam de falar sobre a resiliência da sua cidade. Como é natural, sublinham a sua sobrevivência às pestes, ao grande incêndio de 1666 e aos bombardeamentos aéreos da Segunda Guerra Mundial como provas de que a cidade prevalecerá sobre os desafios actuais, incluindo o divórcio da Europa.

“Londres ocupa uma posição privilegiada, como se fosse intocável”, acrescenta Peter Griffiths, editor de conteúdos do programa sobre cidades da London School of Economics. “Leva tanto avanço em relação a outras cidades, que consegue escapar de situações a que as outras cidades não escapam.”

O inglês é a língua franca mundial. As ligações criadas quando o império era a capital de um quarto do planeta ainda existem. Essas ligações, em especial com a Ásia, dão a Londres vantagem sobre os concorrentes que aspiram a ocupar o seu lugar se a cidade tropeçar.

E que ninguém subestime o facto de terem sido os britânicos a descobrir como medir a longitude, permitindo aos marinheiros cartografarem os fusos horários globais. Londres encontra-se no centro do mundo porque se pôs a si mesma nesse lugar ao definir o primeiro meridiano, onde o Oriente se encontra com o Ocidente.

A última vez em que Londres atingiu uma dimensão tão grande como a actual foi em 1939, quando a sua população era de 8,6 milhões de habitantes. Durante grande parte do século anterior, fora a cidade mais populosa do mundo.

A guerra deixou a cidade em escombros. Muitos dos habitantes que escaparam ao Blitz (responsável pela morte de 43 mil civis e pela obliteração de mais de setenta mil edifícios) fugiram depois ao caos da reconstrução que se seguiu. Reinstalaram-se em “cidades-jardim” que se transformaram nos subúrbios de hoje e encolheram-se enquanto o país se arrastava durante quase cinco décadas de altos e, sobretudo, de baixos.

Quando a indústria fabril se desmoronou, as docas daquele que fora o maior porto mundial soçobraram à modernização da indústria naval e foram encerradas. A morte de Winston Churchill, o primeiro-ministro durante grande parte da guerra, em 1965, assinalou “a última vez em que Londres foi capital do mundo”, escreveu o Observer. A população de Londres continuou a diminuir, atingindo o seu ponto mais baixo em 1988, com 6,7 milhões de habitantes.

A sorte de Londres, porém, mudara dois anos antes, com a desregulação da indústria dos serviços financeiros e a adopção das transacções electrónicas em bolsa. As duas rupturas permitiram à cidade rivalizar com Tóquio e Nova Iorque. Um novo bairro financeiro nasceu das ruínas das Docas das Índias Ocidentais, uma área pantanosa que irrompe pelo Tamisa. A zona de Canary Wharf, como o bairro passou a chamar-se, tornou-se o primeiro projecto moderno de regeneração em grande escala em Londres.

Os imigrantes e o investimento estrangeiro afluíram em massa e o crescimento transformou-se na principal história de Londres nos 30 anos que se seguiram. Actualmente, a zona de Canary Wharf emprega mais de cem mil pessoas e Londres é um pólo de atracção para profissionais de todos os cantos do mundo, que modificaram o rosto da cidade. Quase 40% dos moradores de Londres nasceram fora do Reino Unido e falam-se trezentos idiomas nas suas ruas.

Londres é o lar de cerca de trezentos mil indianos e bem mais de cem mil pessoas provenientes do Paquistão e do Bangladesh. Centenas de milhares deslocaram-se para Londres quando a União Europeia foi alargada. Na cidade vivem aproximadamente 177 mil polacos e, uma vez que as restrições aos trabalhadores da Roménia e da Bulgária – os países mais pobres do bloco – foram levantadas em 2014, o seu número cresceu para cerca de duzentos mil. Oficialmente, vivem na cidade 82 mil franceses, embora segundo outras estimativas esse número atinja os 250 mil. Quando Boris Johnson era presidente da câmara de Londres, gabou-se de que a sexta maior cidade de França podia ser encontrada em Londres.
A comunidade italiana da cidade talvez seja ainda maior. Londres ultrapassou oficialmente o seu máximo de 1939 no início de 2015, quando a cidade registou a chegada do seu 8.615.246.º habitante. Essa pessoa nunca foi identificada, mas é mais provável que o recém-chegado tenha aparecido numa maternidade do que num posto fronteiriço – a população imigrante desencadeara um surto de natalidade.

Para obter uma visão panorâmica da linha do horizonte da cidade, famosa pela sua evolução constante, subi ao alto do Ralador de Queijo – os londrinos têm tendência a dar alcunhas aos seus arranha-céus – com o arquitecto Peter Murray, director do New London Architecture, um fórum de design. Londres ainda é, em grande medida, uma cidade pouco alta, com uma das mais baixas densidades urbanas da Europa. Quando as cidades começaram a construir arranha-céus na década de 1880, Londres não se deslumbrou. Os londrinos nem sequer utilizam o termo. A palavra preferida no sector da arte é “edifícios altos”, para significar prédios com pelo menos 20 andares.

O Ralador de Queijo, cujo nome formal é Leadenhall Building, retira a sua alcunha do formato do topo, angular e em forma de cunha, uma característica de design destinada a respeitar as “vistas protegidas” de Londres – é formalmente proibido obstruir a perspectiva de monumentos históricos. Com 52 pisos, é o segundo edifício mais alto da Milha Quadrada, o bairro financeiro original da cidade, igualmente conhecido como City of London. Contemplamos o Gherkin, o Walkie-Talkie e, ao virar da esquina, a Catedral de São Paulo, durante mais de duzentos anos o edifício mais alto de Londres.

O Gherkin foi construído contra as objecções da população, substituindo um edifício histórico, danificado por um atentado do IRA em 1992, que muita gente queria ver reconstruído. A coluna em forma de pickle de pepino é agora um dos símbolos mais facilmente identificáveis de Londres. A sua popularidade ajudou a abrir caminho aos outros arranha-céus existentes na cidade. Infelizmente o Walkie-Talkie, minúsculo com os seus 36 andares, não conquistou a mesma aclamação, embora a sua venda a uma empresa sediada em Hong Kong, no ano passado, lhe tenha granjeado algum respeito.
O Walkie-Talkie é mais famoso por uma falha dos projectistas, entretanto corrigida: a luz solar, reflectida pelas janelas do edifício, fez derreter o emblema e o espelho retrovisor de um Jaguar estacionado na rua.

Cerca de 115 dos 510 edifícios altos em projecto encontram-se em construção e, até 2020, o grupo de torres com alcunhas irá incluir a Flor, o Vaso e a Lata de Fiambre.

Ao olharmos em redor, avistamos a cidade em toda a sua extensão, rasgada pelos meandros do Tamisa. Peter Murray aponta para leste: 252 dos novos edifícios estão a crescer em Londres Oriental. Só um punhado irá realmente arranhar o céu: na sua maioria, terão 20 a 30 andares. O futuro, segundo o meu interlocutor, irá empurrar a construção imobiliária para os municípios periféricos, reunidos em torno das estações de comboio e de metropolitano, criando múltiplos centros onde as pessoas poderão viver, trabalhar, fazer compras e abandonar as longas viagens diárias até ao centro de Londres para trabalhar.

Aquilo que não conseguimos avistar do alto do nosso poleiro, mesmo atrás da linha do horizonte, é a enorme Cintura Verde criada na década de 1930 para controlar o crescimento físico de Londres e agora três vezes maior do que a cidade em torno da qual existe. No entanto, o sector da construção imobiliária foi obrigado a saltar por cima dessa cintura protectora. Embora o território em causa abranja terras florestadas, também inclui campos de golfe, explorações agrícolas e até instalações industriais abandonadas ou em ruínas. Apenas escassos 9% estão disponíveis para o público.

Mesmo assim, as sugestões que apontam para a Cintura Verde como solução para o problema de habitação de Londres são tão abundantes como a típica chuva londrina. No entanto, a construção imobiliária encontra-se proibida – outras infra-estruturas, como estradas, foram autorizadas – e quaisquer esforços destinados a abri-la aos construtores conduzirão a um suicídio político. Peter Murray gostaria de ver aquilo a que chama “planeamento sensato” em torno da Cintura. “Mas isso não significa destruí-la”, esclarece de imediato.

Filho de um motorista de autocarros paquistanês, Sadiq Khan foi eleito presidente da Câmara de Londres em 2016, quando o crescimento da cidade se desenvolvia ao dobro da velocidade do resto do país. O brexit foi aprovado um mês mais tarde, com a maioria esmagadora dos eleitores londrinos a opôr-se à saída da UE. No resto da Inglaterra e no País de Gales, os votos reflectiram uma reacção contra a imigração e um ressentimento pelo facto de a prosperidade de Londres não se ter alargado ao país. Londres não é capaz de competir em nível de crescimento com as megacidades da Ásia e de África. Mesmo assim, o plano de Khan para Londres em meados do século prevê a entrada de cerca de 70 mil novos habitantes por ano.

Khan ataca em todas as frentes as ameaças à qualidade de vida em Londres. Para cumprir o objectivo climático de Londres, ou seja, atingir o nível de emissões “carbono zero” até 2050, o autarca planeia uma cidade com menos automóveis, mais bicicletas e mais peões. Tenciona converter os autocarros à energia eléctrica e proibir a venda de carros novos a gasóleo.

Os seus esforços também incluem formas mais seguras de as crianças irem a pé para a escola e melhor protecção para as mulheres durante a noite. Khan até tem um plano para salvar os pubs históricos de Londres, que estão actualmente a encerrar a um ritmo alarmante devido ao aumento das rendas, aos impostos sobre as empresas e à mudança dos hábitos de consumo.

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