Londres

Com dores de crescimento e o Brexit a espreitar, conseguirá a capital da velha albion manter a relevância?

Texto: Laura Parker

Fotografias: Luca Locatelli

O Real Jardim Botânico de Kew é um cenário bucólico onde os londrinos se refugiam dos fumos de escape.

No jardim, encontram-se milhares de plantas recolhidas nos confins do império britânico. Uma caminhada entre mantos de rododendros dos Himalaia também permite compreender o âmbito das ligações entre a Grã-Bretanha e o mundo.

No entanto, mesmo em Kew, nem sempre se consegue escapar ao tumulto da vida moderna. O jardim situa-se sob o canal de aproximação do trânsito aéreo que aterra em Heathrow. Enquanto admirava um enorme carvalho antigo, transferido do Irão durante o reinado da rainha Vitória, um fluxo de aviões a jacto começou a descer. Com 27 a 40 segundos de intervalo – os jardineiros de Kew conhecem bem a temporização –, formavam uma fila para aterrar num dos aeroportos mais concorridos do planeta.

A certas horas do dia, “são como abelhas em torno de um frasco de mel”, afirma um piloto de aviação comercial que descreve em pormenor os engarrafamentos de tráfego aéreo de Heathrow no livro com testemunhos orais sobre a Londres contemporânea escrito por Craig Taylor. “De regresso, vindos de França, o ambiente é agradável e descontraído… Depois, entramos na frequência de rádio de Londres e, de repente, estão todos a falar uns por cima dos outros. São mil e uma vozes e o controlador não tem cinco segundos para respirar… Está complicado, vai ter de esperar. Toda a gente quer entrar em Londres.”

Abelhas à volta de um frasco de mel: Londres está maior e mais rica do que nunca, com mais de 8,8 milhões de habitantes. Até 2050, ganhará mais dois milhões. Três décadas de crescimento demográfico mudaram Londres, transformando-a de uma grande senhora em decadência numa proeminente cidade global, com uma das economias de mais rápido crescimento.

Este crescimento alimentou um surto imobiliário explosivo, no qual se incluem vários dos maiores projectos de recuperação urbana da Europa. As canalizações sob o Tamisa vão ser reformadas com um “super-esgoto” para impedir que os resíduos urbanos poluam os pântanos criados pela maré. A linha do horizonte será reconfigurada com mais de quinhentos edifícios de grande altura. Poucos se lembram já de que a cidade durante muito tempo mostrou-se relutante em acolher arranha-céus.

A Crossrail, uma ferrovia subterrânea de alta velocidade que custará 17,2 mil milhões de euros, construída para aliviar o congestionamento do metropolitano de Londres – o mais antigo sistema de metropolitano do mundo – prevê inaugurar a Linha Isabel no próximo ano. Destina-se a garantir melhores ligações entre as zonas ocidental e oriental de Londres, actualmente em crescimento, unindo-as com 41 estações, dez das quais totalmente novas.
O tempo de viagem será reduzido, por vezes para metade. Sectores da zona central da cidade estão a ficar de novo articulados entre si, à medida que antigas zonas industriais são transformadas em bairros projectados para o futuro, concentrados nos peões, no espaço público e num regresso ao pequeno comércio em detrimento das grandes cadeias retalhistas.

Após duas décadas de remodelações, King’s Cross, um ponto de transferência ferroviária de carvão e cereais entregue ao abandono e mais recentemente conhecido pela prostituição e pela droga, está quase remodelado. A reconversão imobiliária inclui renovações das estações de comboio de King’s Cross e Saint Pancras (esta última é o ponto de partida do comboio Eurostar para Paris), uma nova cidade universitária para a faculdade de Artes e Design, auditórios para concertos musicais, fontes e habitação quer a preços comportáveis quer de luxo. No Outono passado, a Google iniciou a construção de um “arranha-terra” com 11 pisos que será mais comprido do que o edifício mais alto de Londres, o Shard, com espaço para cerca de sete mil trabalhadores. O Facebook tem planos para se instalar num espaço de escritórios alargado para seis mil pessoas.

A cerca de sete quilómetros de distância, na margem sul do Tamisa, a Apple ocupará a sala das caldeiras da histórica Central Electroprodutora de Battersea, reconstruída na zona central do bairro de Nine Elms. A embaixada dos EUA também se deslocará para a zona, que terá um parque construído à semelhança dos jardins suspensos da High Line de Nova Iorque e, com a ajuda do Mercado Novo de Covent Garden, posicionar-se-á como o “bairro dos restaurantes” da cidade. O investimento feito pela Google e pela Apple nestas áreas, tão vastas e tão famosas, é visto como um voto de confiança na importância de Londres como centro tecnológico.

A prosperidade de Londres chegou acompanhada do habitual leque de preocupações urbanas e, à medida que estas se agravam, muitos londrinos interrogam-se se a sua grande cidade estará a perder parte do seu encanto. O trânsito é horrível. A poluição atmosférica é apontada como culpada pelo crescimento acentuado do número de mortes por asma em crianças e idosos. A valorização dos terrenos fez subir os preços da habitação para patamares que afastam os londrinos de classe média, obrigando até profissionais altamente remunerados a fazerem as malas e procurarem lugares onde consigam viver com as suas famílias.

 

Londres

E naquilo que pode classificar-se como um revés da sorte, o tormento conhecido como brexit – a saída de Inglaterra da União Europeia – alimentou avaliações sombrias de que o surto de crescimento chegou ao fim.

“Ainda não sabemos que forma o brexit assumirá e que efeitos terá em Londres”, afirma Richard Brown, director de investigação do Centre for London, um centro progressista de reflexão. “Surgindo numa época de significativa instabilidade mundial, o brexit veio gerar níveis de incerteza naquilo que parecia ser uma suave trajectória de crescimento.”

Irá a bolha rebentar? Conseguirá Londres mostrar-se à altura dos desafios e permanecer a mais importante cidade comercial do planeta e um lugar agradável para se viver? A noção de que Londres se aproxima de um desenlace infeliz parece inimaginável, sobretudo porque as gruas da construção civil continuam a girar nos quatro pontos cardeais da grande capital, e todos os dias há chegadas maciças de gente ao aeroporto internacional de Heathrow e às estações ferroviárias. Esse pessimismo subvaloriza igualmente os pontos fortes históricos embutidos no DNA de Londres e que têm guiado este conglomerado de aldeias ao longo de dois mil anos.

Os londrinos gostam de falar sobre a resiliência da sua cidade. Como é natural, sublinham a sua sobrevivência às pestes, ao grande incêndio de 1666 e aos bombardeamentos aéreos da Segunda Guerra Mundial como provas de que a cidade prevalecerá sobre os desafios actuais, incluindo o divórcio da Europa.

“Londres ocupa uma posição privilegiada, como se fosse intocável”, acrescenta Peter Griffiths, editor de conteúdos do programa sobre cidades da London School of Economics. “Leva tanto avanço em relação a outras cidades, que consegue escapar de situações a que as outras cidades não escapam.”

O inglês é a língua franca mundial. As ligações criadas quando o império era a capital de um quarto do planeta ainda existem. Essas ligações, em especial com a Ásia, dão a Londres vantagem sobre os concorrentes que aspiram a ocupar o seu lugar se a cidade tropeçar.

E que ninguém subestime o facto de terem sido os britânicos a descobrir como medir a longitude, permitindo aos marinheiros cartografarem os fusos horários globais. Londres encontra-se no centro do mundo porque se pôs a si mesma nesse lugar ao definir o primeiro meridiano, onde o Oriente se encontra com o Ocidente.

A última vez em que Londres atingiu uma dimensão tão grande como a actual foi em 1939, quando a sua população era de 8,6 milhões de habitantes. Durante grande parte do século anterior, fora a cidade mais populosa do mundo.

A guerra deixou a cidade em escombros. Muitos dos habitantes que escaparam ao Blitz (responsável pela morte de 43 mil civis e pela obliteração de mais de setenta mil edifícios) fugiram depois ao caos da reconstrução que se seguiu. Reinstalaram-se em “cidades-jardim” que se transformaram nos subúrbios de hoje e encolheram-se enquanto o país se arrastava durante quase cinco décadas de altos e, sobretudo, de baixos.

Quando a indústria fabril se desmoronou, as docas daquele que fora o maior porto mundial soçobraram à modernização da indústria naval e foram encerradas. A morte de Winston Churchill, o primeiro-ministro durante grande parte da guerra, em 1965, assinalou “a última vez em que Londres foi capital do mundo”, escreveu o Observer. A população de Londres continuou a diminuir, atingindo o seu ponto mais baixo em 1988, com 6,7 milhões de habitantes.

A sorte de Londres, porém, mudara dois anos antes, com a desregulação da indústria dos serviços financeiros e a adopção das transacções electrónicas em bolsa. As duas rupturas permitiram à cidade rivalizar com Tóquio e Nova Iorque. Um novo bairro financeiro nasceu das ruínas das Docas das Índias Ocidentais, uma área pantanosa que irrompe pelo Tamisa. A zona de Canary Wharf, como o bairro passou a chamar-se, tornou-se o primeiro projecto moderno de regeneração em grande escala em Londres.

Os imigrantes e o investimento estrangeiro afluíram em massa e o crescimento transformou-se na principal história de Londres nos 30 anos que se seguiram. Actualmente, a zona de Canary Wharf emprega mais de cem mil pessoas e Londres é um pólo de atracção para profissionais de todos os cantos do mundo, que modificaram o rosto da cidade. Quase 40% dos moradores de Londres nasceram fora do Reino Unido e falam-se trezentos idiomas nas suas ruas.

Londres é o lar de cerca de trezentos mil indianos e bem mais de cem mil pessoas provenientes do Paquistão e do Bangladesh. Centenas de milhares deslocaram-se para Londres quando a União Europeia foi alargada. Na cidade vivem aproximadamente 177 mil polacos e, uma vez que as restrições aos trabalhadores da Roménia e da Bulgária – os países mais pobres do bloco – foram levantadas em 2014, o seu número cresceu para cerca de duzentos mil. Oficialmente, vivem na cidade 82 mil franceses, embora segundo outras estimativas esse número atinja os 250 mil. Quando Boris Johnson era presidente da câmara de Londres, gabou-se de que a sexta maior cidade de França podia ser encontrada em Londres.
A comunidade italiana da cidade talvez seja ainda maior. Londres ultrapassou oficialmente o seu máximo de 1939 no início de 2015, quando a cidade registou a chegada do seu 8.615.246.º habitante. Essa pessoa nunca foi identificada, mas é mais provável que o recém-chegado tenha aparecido numa maternidade do que num posto fronteiriço – a população imigrante desencadeara um surto de natalidade.

Para obter uma visão panorâmica da linha do horizonte da cidade, famosa pela sua evolução constante, subi ao alto do Ralador de Queijo – os londrinos têm tendência a dar alcunhas aos seus arranha-céus – com o arquitecto Peter Murray, director do New London Architecture, um fórum de design. Londres ainda é, em grande medida, uma cidade pouco alta, com uma das mais baixas densidades urbanas da Europa. Quando as cidades começaram a construir arranha-céus na década de 1880, Londres não se deslumbrou. Os londrinos nem sequer utilizam o termo. A palavra preferida no sector da arte é “edifícios altos”, para significar prédios com pelo menos 20 andares.

O Ralador de Queijo, cujo nome formal é Leadenhall Building, retira a sua alcunha do formato do topo, angular e em forma de cunha, uma característica de design destinada a respeitar as “vistas protegidas” de Londres – é formalmente proibido obstruir a perspectiva de monumentos históricos. Com 52 pisos, é o segundo edifício mais alto da Milha Quadrada, o bairro financeiro original da cidade, igualmente conhecido como City of London. Contemplamos o Gherkin, o Walkie-Talkie e, ao virar da esquina, a Catedral de São Paulo, durante mais de duzentos anos o edifício mais alto de Londres.

O Gherkin foi construído contra as objecções da população, substituindo um edifício histórico, danificado por um atentado do IRA em 1992, que muita gente queria ver reconstruído. A coluna em forma de pickle de pepino é agora um dos símbolos mais facilmente identificáveis de Londres. A sua popularidade ajudou a abrir caminho aos outros arranha-céus existentes na cidade. Infelizmente o Walkie-Talkie, minúsculo com os seus 36 andares, não conquistou a mesma aclamação, embora a sua venda a uma empresa sediada em Hong Kong, no ano passado, lhe tenha granjeado algum respeito.
O Walkie-Talkie é mais famoso por uma falha dos projectistas, entretanto corrigida: a luz solar, reflectida pelas janelas do edifício, fez derreter o emblema e o espelho retrovisor de um Jaguar estacionado na rua.

Cerca de 115 dos 510 edifícios altos em projecto encontram-se em construção e, até 2020, o grupo de torres com alcunhas irá incluir a Flor, o Vaso e a Lata de Fiambre.

Ao olharmos em redor, avistamos a cidade em toda a sua extensão, rasgada pelos meandros do Tamisa. Peter Murray aponta para leste: 252 dos novos edifícios estão a crescer em Londres Oriental. Só um punhado irá realmente arranhar o céu: na sua maioria, terão 20 a 30 andares. O futuro, segundo o meu interlocutor, irá empurrar a construção imobiliária para os municípios periféricos, reunidos em torno das estações de comboio e de metropolitano, criando múltiplos centros onde as pessoas poderão viver, trabalhar, fazer compras e abandonar as longas viagens diárias até ao centro de Londres para trabalhar.

Aquilo que não conseguimos avistar do alto do nosso poleiro, mesmo atrás da linha do horizonte, é a enorme Cintura Verde criada na década de 1930 para controlar o crescimento físico de Londres e agora três vezes maior do que a cidade em torno da qual existe. No entanto, o sector da construção imobiliária foi obrigado a saltar por cima dessa cintura protectora. Embora o território em causa abranja terras florestadas, também inclui campos de golfe, explorações agrícolas e até instalações industriais abandonadas ou em ruínas. Apenas escassos 9% estão disponíveis para o público.

Mesmo assim, as sugestões que apontam para a Cintura Verde como solução para o problema de habitação de Londres são tão abundantes como a típica chuva londrina. No entanto, a construção imobiliária encontra-se proibida – outras infra-estruturas, como estradas, foram autorizadas – e quaisquer esforços destinados a abri-la aos construtores conduzirão a um suicídio político. Peter Murray gostaria de ver aquilo a que chama “planeamento sensato” em torno da Cintura. “Mas isso não significa destruí-la”, esclarece de imediato.

Filho de um motorista de autocarros paquistanês, Sadiq Khan foi eleito presidente da Câmara de Londres em 2016, quando o crescimento da cidade se desenvolvia ao dobro da velocidade do resto do país. O brexit foi aprovado um mês mais tarde, com a maioria esmagadora dos eleitores londrinos a opôr-se à saída da UE. No resto da Inglaterra e no País de Gales, os votos reflectiram uma reacção contra a imigração e um ressentimento pelo facto de a prosperidade de Londres não se ter alargado ao país. Londres não é capaz de competir em nível de crescimento com as megacidades da Ásia e de África. Mesmo assim, o plano de Khan para Londres em meados do século prevê a entrada de cerca de 70 mil novos habitantes por ano.

Khan ataca em todas as frentes as ameaças à qualidade de vida em Londres. Para cumprir o objectivo climático de Londres, ou seja, atingir o nível de emissões “carbono zero” até 2050, o autarca planeia uma cidade com menos automóveis, mais bicicletas e mais peões. Tenciona converter os autocarros à energia eléctrica e proibir a venda de carros novos a gasóleo.

Os seus esforços também incluem formas mais seguras de as crianças irem a pé para a escola e melhor protecção para as mulheres durante a noite. Khan até tem um plano para salvar os pubs históricos de Londres, que estão actualmente a encerrar a um ritmo alarmante devido ao aumento das rendas, aos impostos sobre as empresas e à mudança dos hábitos de consumo.

 

Londres

Khan aderiu a uma campanha para que Londres seja nomeada a primeira Cidade-Parque Nacional do mundo. Este projecto é acarinhado por Daniel Raven-Ellison, geógrafo e explorador da National Geographic. A ideia, diz Raven-Ellison, não é sobrecarregar a cidade com regulamentos novos, mas incentivar os londrinos a darem mais importância ao ambiente da cidade. “Uma em cada sete crianças não visitou um espaço verde no último ano”, afirma. “Refiro-me a uma viragem cultural, questionando os conceitos das pessoas quanto à maneira como devem encarar a sua relação com a natureza.”

A tarefa mais desafiadora de Khan é a habitação. A sua campanha apoiou-se na premissa de que a eleição seria igualmente um referendo à habitação a preços acessíveis: depois de eleito, anunciou que Londres precisa de mais 66 mil casas novas por ano, só para acompanhar o crescimento, e prometeu que 50% dessas casas teriam “preços genuinamente acessíveis”, embora na realidade a maioria dos bairros aponte para 35%. Khan obteve do governo cerca de cinco mil milhões de euros em fundos para construir 116 mil casas a preços acessíveis até 2022. Muitos londrinos admiram as metas habitacionais de Khan, embora sublinhem as limitações da presidência: o presidente da câmara fixa metas estratégicas para a cidade, mas são os 33 concelhos municipais que aprovam as propostas de construção imobiliária no seu território.

“Apesar dos sucessivos planos para construir mais habitação, o ritmo de construção está muito longe de acompanhar o crescimento da população”, afirma Tony Travers, responsável pelos estudos governamentais na London School of Economics. Jules Pipe, um dos dez vice-presidentes de Khan, explica o motivo pelo qual é tão importante tentar. “Se grandes parcelas da população não puderem viver e viajar de maneira barata na capital, a capital começará a fracassar em todas as áreas, desde manter-se limpa a ter médicos suficientes no hospital”, diz.

A zona central de Londres é vista como uma ilha para turistas, oligarcas russos e príncipes sauditas, que passam escassas semanas por ano nas suas habitações milionárias. Simon Jenkins, antigo presidente do conselho de administração do National Trust e jornalista veterano, assegura que Londres é cada vez mais um mercado de investimento do que um lugar de residência. “Eles querem investir o seu dinheiro e ir-se embora, como se a cidade se tivesse transformado num banco”, explica. “Estes apartamentos de luxo são meros lingotes de ouro.”

Segundo Trevor Abrahmsohn, agente imobiliário dos muito ricos, um dos efeitos colaterais de se ser uma cidade global é a atracção de riqueza. A família real do Qatar possui mais imóveis em Londres do que a família real britânica. As suas propriedades incluem o centro comercial Harrods, a maior parte do Shard, o antigo edifício da embaixada dos EUA em Grosvenor Square, 20% do aeroporto de Heathrow e uma quota do Canary Wharf.

“Quando o xá do Irão foi deposto, o seu primeiro porto de escala foi Londres”, afirma. “Quando os nigerianos ganhavam dinheiro com o petróleo, faziam compras em Londres. Quando os indianos ganhavam dinheiro com os nigerianos, faziam compras em Londres. Quando o muro de Berlim caiu, os russos vieram às compras e, agora, são os chineses.”

O projecto Battersea-Nine Elms, que ocupa mais de duzentos hectares ao longo da margem sul do Tamisa, é considerado, de maneira justa ou injusta, uma acumulação das maiores contas bancárias das ilhas. Agora chamam-lhe Dubai-do-Tamisa depois de a primeira leva de apartamentos ter sido vendida sobretudo a compradores estrangeiros. Este projecto também ajuda a perceber por que razão as metas de habitação de Khan podem ser difíceis de cumprir. A central eléctrica, um dos maiores edifícios de tijolo do mundo, é um dos monumentos mais adorados da linha do horizonte. “Uma catedral de São Paulo industrial”, diz Jenkins. A central figurou na capa de um disco dos Pink Floyd e vários filmes com sucesso de bilheteira utilizaram-na como cenário.

A central foi encerrada em 1983, mas a sua fama também a salvou da demolição, deixando por resolver o custo gigantesco da sua remodelação. Inúmeros promotores imobiliários sucederam-se. Em 2012, um consórcio malaio pegou no projecto e transformou-o num espaço comercial e residencial, recuperando as quatro chaminés. Os promotores também contribuíram para a construção de duas novas estações de metropolitano, melhorando os acessos. Essas despesas permitiram-lhes obter uma redução do número de unidades de habitação a preços comportáveis para menos de 20%.

Segundo Ravi Govindia, presidente do Concelho Municipal de Wandsworth, que abrange o bairro de Nine Elms, as infra-estruturas e a recuperação compensaram a redução. “Cada empreendimento pode dar um contributo limitado para a melhoria dos serviços públicos”, diz. “A habitação a preço acessível é uma componente.”

A urbanização vai também incluir um novo parque, duas docas, duas escolas primárias, dois centros de saúde e melhores vias para a circulação de bicicletas. “O maior desafio em qualquer espaço urbano é conciliar a renovação de uma área com os serviços que tornam a vida na cidade suportável e desejável”, diz. “Não é possível fazê-lo apostando numa só coisa grande. É preciso fazer muitas coisas pequenas.”

Mais oportunidades podem surgir no local onde se realizaram os Jogos Olímpicos de 2012, terrenos públicos pertencentes a uma empresa imobiliária sob controlo da autarquia. Depois dos Jogos, o local foi convertido no Parque Olímpico da Rainha Isabel, com um complexo de piscinas, um velódromo e um estádio. A aldeia olímpica foi remodelada e transformada em três mil apartamentos. Com metade pagando renda à taxa do mercado, os restantes tiveram descontos para se qualificarem como de preço acessível e muitos têm quartos suficientes para albergar uma família.

Em Junho, Khan delineou um plano de expansão que inclui mais habitação, um teatro, novas cidades universitárias para o London College of Fashion e para o University College London, bem como uma sucursal do Museu Victoria e Albert.

No processo de candidatura aos Jogos, o então presidente da câmara Ken Livingstone sublinhou que o interesse em acolher o evento tinha menos que ver com os Jogos Olímpicos em si e mais com o potencial de incentivar a recuperação de zonas abandonadas e empobrecidas da zona oriental de Londres. Ricky Burdett, director do programa das cidades da London School of Economics e assessor durante os Jogos, afirma que estão colocadas as peças necessárias para um processo de recuperação que se prolongará por várias décadas.

“Quando inspeccionámos pela primeira vez o local, tememos a loucura da empreitada. Havia pneus a arder no lugar onde o estádio olímpico seria construído. Demos depois uma volta pelo parque.” Uma das primeiras tarefas consistiu em ligar o local à zona adjacente, por meio de cerca de 30 pontes, viadutos, passeios pedonais e ciclovias. “Nada disto teria sido feito se não fossem os Jogos Olímpicos”, explica. “Na verdade, trata-se de um projecto de 35 anos.”

O nosso passeio termina junto das Tower Hamlets, um dos cinco municípios que bordejam a cidade olímpica e um dos que poderá melhor representar as mudanças e as contradições de Londres. É minúsculo, abrangendo apenas 21 quilómetros quadrados, em antigas zonas industriais de acostagem. É o município de Londres que mais depressa cresce: ali vivem cerca de 308 mil pessoas. Contém alguns dos bairros mais pobres da cidade e alguns dos mais ricos.

Há três séculos que este município serve de ponto de desembarque aos imigrantes recém-chegados. O mais famoso edifício de Tower Hamlets, hoje incluído na maioria dos guias turísticos, abrange essas camadas de história: foi uma casa de reuniões para os huguenotes franceses no século XVIII, depois sinagoga para os judeus fugidos da Europa de Leste e é agora uma mesquita. As ruas vizinhas receberam o nome de Banga Town, em homenagem aos cidadãos do Bangladesh, hoje o maior grupo imigrante de Tower Hamlets.

O município também abrange Canary Wharf, o terceiro maior contribuinte para a economia do Reino Unido. Entre os edifícios altos que crescem por toda a cidade de Londres, 85 estão a erguer-se em Tower Hamlets, mais do que em qualquer outro município. Muitos fazem parte de uma zona de expansão que transformará Canary Wharf numa comunidade residencial. É aqui, naturalmente, que há mais incertezas quanto ao efeito do brexit sobre a próspera indústria de serviços financeiros. A construção de alguns edifícios de Canary Wharf foi interrompida. Correm boatos sobre a possibilidade de os postos de trabalho na banca serem transferidos para Paris ou para Frankfurt. Em Julho, os responsáveis do município criaram a Comissão do Brexit para tratarem das consequências caso os empregos desapareçam e sejam impostos limites à imigração. John Biggs, presidente do município de Tower Hamlets (um dos quatro com presidente próprio), classifica o brexit como “a mais significativa mudança ocorrida no nosso país numa geração”.

Talvez isto não diga o suficiente. Quando o Reino Unido deixar a União Europeia, será a primeira vez em muitos séculos que Londres estará sozinha no mundo, defende Richard Brown, do Centre for London. “A Inglaterra passou de potência imperial, com uma longa história como império comercial, a cidade principal da União Europeia”, afirma Brown. “A transição para esta nova situação é bastante dramática.” Mesmo assim, continuam a surgir recém-chegados.
A construção não parou.

Ancorada à base do edifício do HSBC, encontra-se uma estação ferroviária para o futuro. Os seus sete pisos estão repletos de lojas, cafés, uma sala de cinema e um ginásio. Lá em cima, o Jardim do Meridiano prolonga-se por cerca de trezentos metros, com “jardins do hemisfério” oriental e ocidental plantados com flora nativa dos países visitados pelos navios das Docas das Índias Ocidentais. Fiz uma pausa no meio, sobre a linha divisória onde os dois hemisférios se encontram. Estamos a curta distância de Greenwich, onde se localiza o ponto de Longitude Zero, no Observatório Real. Uma réplica do primeiro meridiano encontra-se aqui. É outro lembrete de que, aconteça o que acontecer, Londres continua a estar no centro do mundo. 

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