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Londres

Com dores de crescimento e o Brexit a espreitar, conseguirá a capital da velha albion manter a relevância?

Texto: Laura Parker

Fotografias: Luca Locatelli

O Real Jardim Botânico de Kew é um cenário bucólico onde os londrinos se refugiam dos fumos de escape.

No jardim, encontram-se milhares de plantas recolhidas nos confins do império britânico. Uma caminhada entre mantos de rododendros dos Himalaia também permite compreender o âmbito das ligações entre a Grã-Bretanha e o mundo.

No entanto, mesmo em Kew, nem sempre se consegue escapar ao tumulto da vida moderna. O jardim situa-se sob o canal de aproximação do trânsito aéreo que aterra em Heathrow. Enquanto admirava um enorme carvalho antigo, transferido do Irão durante o reinado da rainha Vitória, um fluxo de aviões a jacto começou a descer. Com 27 a 40 segundos de intervalo – os jardineiros de Kew conhecem bem a temporização –, formavam uma fila para aterrar num dos aeroportos mais concorridos do planeta.

A certas horas do dia, “são como abelhas em torno de um frasco de mel”, afirma um piloto de aviação comercial que descreve em pormenor os engarrafamentos de tráfego aéreo de Heathrow no livro com testemunhos orais sobre a Londres contemporânea escrito por Craig Taylor. “De regresso, vindos de França, o ambiente é agradável e descontraído… Depois, entramos na frequência de rádio de Londres e, de repente, estão todos a falar uns por cima dos outros. São mil e uma vozes e o controlador não tem cinco segundos para respirar… Está complicado, vai ter de esperar. Toda a gente quer entrar em Londres.”

Abelhas à volta de um frasco de mel: Londres está maior e mais rica do que nunca, com mais de 8,8 milhões de habitantes. Até 2050, ganhará mais dois milhões. Três décadas de crescimento demográfico mudaram Londres, transformando-a de uma grande senhora em decadência numa proeminente cidade global, com uma das economias de mais rápido crescimento.

Este crescimento alimentou um surto imobiliário explosivo, no qual se incluem vários dos maiores projectos de recuperação urbana da Europa. As canalizações sob o Tamisa vão ser reformadas com um “super-esgoto” para impedir que os resíduos urbanos poluam os pântanos criados pela maré. A linha do horizonte será reconfigurada com mais de quinhentos edifícios de grande altura. Poucos se lembram já de que a cidade durante muito tempo mostrou-se relutante em acolher arranha-céus.

A Crossrail, uma ferrovia subterrânea de alta velocidade que custará 17,2 mil milhões de euros, construída para aliviar o congestionamento do metropolitano de Londres – o mais antigo sistema de metropolitano do mundo – prevê inaugurar a Linha Isabel no próximo ano. Destina-se a garantir melhores ligações entre as zonas ocidental e oriental de Londres, actualmente em crescimento, unindo-as com 41 estações, dez das quais totalmente novas.
O tempo de viagem será reduzido, por vezes para metade. Sectores da zona central da cidade estão a ficar de novo articulados entre si, à medida que antigas zonas industriais são transformadas em bairros projectados para o futuro, concentrados nos peões, no espaço público e num regresso ao pequeno comércio em detrimento das grandes cadeias retalhistas.

Após duas décadas de remodelações, King’s Cross, um ponto de transferência ferroviária de carvão e cereais entregue ao abandono e mais recentemente conhecido pela prostituição e pela droga, está quase remodelado. A reconversão imobiliária inclui renovações das estações de comboio de King’s Cross e Saint Pancras (esta última é o ponto de partida do comboio Eurostar para Paris), uma nova cidade universitária para a faculdade de Artes e Design, auditórios para concertos musicais, fontes e habitação quer a preços comportáveis quer de luxo. No Outono passado, a Google iniciou a construção de um “arranha-terra” com 11 pisos que será mais comprido do que o edifício mais alto de Londres, o Shard, com espaço para cerca de sete mil trabalhadores. O Facebook tem planos para se instalar num espaço de escritórios alargado para seis mil pessoas.

A cerca de sete quilómetros de distância, na margem sul do Tamisa, a Apple ocupará a sala das caldeiras da histórica Central Electroprodutora de Battersea, reconstruída na zona central do bairro de Nine Elms. A embaixada dos EUA também se deslocará para a zona, que terá um parque construído à semelhança dos jardins suspensos da High Line de Nova Iorque e, com a ajuda do Mercado Novo de Covent Garden, posicionar-se-á como o “bairro dos restaurantes” da cidade. O investimento feito pela Google e pela Apple nestas áreas, tão vastas e tão famosas, é visto como um voto de confiança na importância de Londres como centro tecnológico.

A prosperidade de Londres chegou acompanhada do habitual leque de preocupações urbanas e, à medida que estas se agravam, muitos londrinos interrogam-se se a sua grande cidade estará a perder parte do seu encanto. O trânsito é horrível. A poluição atmosférica é apontada como culpada pelo crescimento acentuado do número de mortes por asma em crianças e idosos. A valorização dos terrenos fez subir os preços da habitação para patamares que afastam os londrinos de classe média, obrigando até profissionais altamente remunerados a fazerem as malas e procurarem lugares onde consigam viver com as suas famílias.

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