irão

Shirin Khodadadi, de 26 anos, prepara o chá com o filho. Passaram a noite ao relento, depois de um motorista contratado se ter recusado a transportá-los, expulsando-os do carro.

A vida moderna atrai as novas gerações para as cidades e alguns dos que ficam para trás interrogam-se: como será agora a vida?

Texto: Thomas Erdbrink

Os cumes da cordilheira de Zagros ainda estão polvilhados de neve. As estradas desenham linhas sobre os vales e as encostas da região ocidental do Irão. São trilhos antigos, pisados por pés e cascos ao longo de milhares de anos, no movimento repetido das migrações.

Na actualidade, são automóveis e camiões alugados, mais do que cavalos, que trazem os poucos nómadas que restam no Irão e os seus rebanhos até às pastagens de Verão, bem alto nas terras altas iranianas, perto da cidade de Chelgard. Em vez de caminharem um dia inteiro até ao abandonado centro de comunicações nómada para saberem notícias, os membros da tribo local dos bakhtiari transportam telemóveis e queixam-se de que o sinal é fraco.

Há longos milénios que os nómadas do Irão repetem a mesma migração. Na Primavera, encaminhavam-se para as pastagens mais frescas das montanhas de Zagros, onde a erva para os seus rebanhos de ovelhas e cabras era abundante. No final do Outono, regressavam à província iraniana do Khuzistão, rica em petróleo, com os animais bem fortes e alimentados para resistirem ao Inverno. 

Há muito que mais de um milhão de nómadas do Irão resistem à modernidade, graças ao isolamento inerente ao seu estilo de vida. Tradições profundamente enraizadas e o sistema patriarcal também contribuíram para manter as mudanças à distância. Todavia, a ocorrência combinada de secas persistentes, tempestades de poeira que dão ao céu uma cor alaranjada, o crescimento urbano generalizado, a Internet móvel e a disseminação do ensino superior reduziram o apelo do nomadismo. Os casais de anciãos que ainda montam as tendas nas encostas das Zagros reconhecem que talvez possam ser o capítulo final da história de uma das maiores comunidades de nómadas ainda existentes na Terra.

Ao longe, uma trovoada formava-se, enquanto um casal se acocorava no interior da tenda. Nuvens escuras pairavam sobre o vale, descarregando faixas de chuva grossa. Bibi Naz Ghanbari, de 73 anos, e o marido, Nejat, tinham montado a tenda no mesmo local para onde a sua família migra há duzentos anos. Antigamente havia dezenas de membros da família nas imediações. Agora via-se apenas uma tenda. Era a casa de um primo afastado. Segundo o casal, o frio e a chuva inesperados da Primavera tinham-nos enregelado até aos ossos, depois de conseguirem salvar a tenda por duas vezes, durante tempestades. Migraram cedo para se assegurarem de que o rebanho conseguia comer a erva primaveril, depois de um Inverno quase sem precipitação. Nenhum dos seus oito filhos os acompanhou. A bateria do telemóvel de Bibi Naz Ghanbari estava descarregada e, por isso, a matriarca nem sequer conseguia telefonar-lhes. 

“Agora vivem todos em cidades. De que nos valeu tê-los tido?”, lamentou, referindo-se aos filhos. Estes venderam os respectivos rebanhos e vivem agora em casas. “Mas que vida vem a ser esta?”, perguntou ela, apontando para os buracos na tenda. “Tivemos de dormir debaixo de três cobertores na noite passada e, mesmo assim, continuávamos com frio. Quem me dera viver também numa casa.” 

Com o número de nómadas em regressão, as maiores defensoras da sedentarização têm sido as mulheres. Zahra Amiri, de 61 anos, mãe de nove filhos, acorda de madrugada e vai buscar água a um poço, o que implica uma longa caminhada. Depois disso, coze o pão e prepara o pequeno-almoço. Muitas vezes vai ter com o marido, que anda a pastorear, ordenha ela própria as ovelhas e faz iogurte e queijo. Tem as mãos e o rosto escurecidos pelo sol. Se encontrar tempo disponível entre estas tarefas, trabalha num kilim, ou tapete. Para alcançar o seu destino de Verão, a filha, Forouzan, de 24 anos, teve de viajar a cavalo, guiando as suas duas irmãs e oito mulas carregadas com os seus bens e uma tenda. 

“Depois de tantos anos de trabalho duro, não fiquei com nada, excepto estes filhos e o sol”, afirmou Zahra. “A única alegria que temos é ao beber chá.” Oficialmente, o direito sucessório pelo qual se regem os nómadas nada tem de diferente daquele pelo qual se regem os restantes iranianos. Na prática, porém, as mulheres raramente herdam seja o que for. Segundo os costumes nómadas, as mulheres cedem os direitos de sucessão aos irmãos. 

O trabalho duro, a falta de direitos e o conhecimento de que outras mulheres levam vidas mais fáceis transformaram muitas nómadas em agentes de mudança. Mahnaz Gheybpour, de 41 anos, abandonou as tendas há uma década. Ela e o marido vivem entre duas casas, uma na província do Khuzistão durante o Inverno e a outra perto de Chelgard, durante o Verão. “Não deixarei que as minhas filhas se casem com um nómada”, afirmou. “Temos um estilo de vida horrível. Quero que elas vivam numa cidade e que estudem.”

Mahnaz casou-se aos 16 anos. “Era uma criança”, diz. “A minha filha de 17 anos não se quer casar. Diz-me: ‘Por que motivo hei-de tornar a minha vida miserável, como a tua?’”

As diferenças entre sexos são exacerbadas pela seca que dura há 15 anos e que esgotou a água em muitos dos principais rios e lagos, tornando difícil aos nómadas encontrar água para os seus rebanhos. A crescente construção imobiliária trouxe vedações, estradas e barragens que impedem agora a passagem.

No limite da cidade de Lali, um lugar onde antigos nómadas bakhtiari acabam por instalar-se em habitações simples, Mehdi Ghafari e o seu amigo Aidi Shams fumavam juntos um cachimbo de água.
O Sol preparava-se para repousar, enquanto eles recordavam o seu passado de nómadas. As suas mulheres estão agora mais felizes e os filhos frequentam a escola. “Tivemos de nos adaptar”, disse Mehdi.

Um dos últimos a viver na montanha, Nejat Ghanbari, de 76 anos, marido de Bibi Naz, insiste que os nómadas descendem dos reis iranianos pré-islâmicos. “Somos os descendentes do grande Kourosh Kabir”, afirmou, referindo-se ao lendário rei persa Ciro, o Grande, que governou um império em 550 a.C. Agora, ele e a mulher são os últimos. “E quando morrermos, será o fim de todos nós. Sinto-me triste quando penso nisso.”  

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar