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apetite china

Mesmo ao lado destes prédios de apartamentos suburbanos, a norte de Kunming, na província de Yunnan, as  estufas protegem culturas de rendimento elevado. Neste clima relativamente temperado, há colheitas todo o ano.

Na baía de Hangzhou, na margem oposta à de Xangai, à beira de uma enorme extensão de pântanos, um conglomerado empresarial tailandês da indústria de rações animais está a construir uma mega-exploração orientada por preocupações de sustentabilidade. A troco de uma isenção de renda e de um contrato de 20 anos, o Charoen Pokphand, ou Grupo CP, está actualmente a converter 2.600 hectares de lodaçais situados nos arredores da cidade de Cixi em território para produção de géneros alimentares. O seu objectivo é “criar valor para a sociedade em todas as direcções”, afirma Wang Qingjun, vice-presidente sénior.

É assim que se apresenta também o futuro agrícola da China: uma empresa multinacional a investir milhares de milhões de yuan num complexo agro-industrial constituído por campos agrícolas, quintas, fábricas, edifícios de escritórios e até unidades de habitação para os trabalhadores. No Verão de 2017, os arrozais abrangiam 1.450 hectares. Destes, 47 hectares eram de cultura biológica, aprovisionados com caranguejos vendidos para fins alimentares. O complexo possui estufas de produção, campos de brócolos, veículos aéreos não-tripulados para aplicação de produtos químicos, uma fábrica quase pronta de ravioli chineses e uma unidade fabril de ovos com um milhão de galinhas cuja dimensão se prevê venha a triplicar. Será tão grande que justificará a instalação de um robot termossensível que elimina automaticamente as aves mortas. O Grupo CP espera igualmente recolher estrume de galinha em quantidade suficiente para produzir, todos os anos, 22 mil toneladas de adubo biológico.

Em 2017, a empresa construiu uma exploração agrícola vertical, uma caixa arejada e translúcida composta por torres de dez metros de altura com prateleiras rotativas de leitos para plantas, semelhante a uma roda-gigante. 

Quando a visitei, havia nas prateleiras couve bok choy, amaranto e cebolinho. O ambiente controlado permite a aplicação localizada de adubo, elimina a necessidade de quantidades maiores de pesticida e produz o quádruplo de um campo com as mesmas dimensões, afirma Wang. Esta quinta vertical é altamente promissora, sobretudo num país com escasso solo arável, onde os agricultores agravam as preocupações de poluição nacionais ao utilizarem três vezes mais adubo do que o necessário. 

O complexo é, em grande medida, um exercício de aplicação da lógica fabril aos géneros alimentares e Wang encara-o como paradigma da integração vertical. “O relacionamento entre os seres humanos e a terra deve ser harmonioso”, diz. Ele considera este sistema de produção uma forma de concretizar o objectivo. Para o sector dos ovos, isso significa cultivar cereais para fabrico de ração avícola, criar as galinhas e, por fim, abatê-las e transformá-las depois de serem abatidas. A massa dos ravioli chineses será produzida com o trigo cultivado pelo Grupo CP e recheada com carne e produtos fabricados pela empresa. A empresa possui lojas para a venda dos seus produtos. Trata-se de uma visão impressionante… se tudo correr bem. Se ocorrer um surto de listeriose na fruta, por exemplo, a contaminação poderá disseminar-se com mais rapidez do que num sistema descentralizado. 

Praticamente todas as explorações agrícolas de grande dimensão da China são dirigidas pelo Estado, por sociedades cooperativas e por empresas, mas também travei conhecimento com Liu Lin, um agricultor da Mongólia Interior que ficou rico ao cultivar alfalfa para a indústria dos lacticínios. Na adolescência, Liu ouviu um programa radiofónico sobre a agricultura norte-americana e a utilização de equipamento mecânico para lavrar a terra. A solução parecia-lhe melhor do que arrotear o solo à enxada. Passado algum tempo, Liu convenceu os órgãos públicos locais a arrendarem-lhe cerca de mil hectares. Comprou maquinaria agrícola sofisticada no estrangeiro e, em quatro horas, passou a conseguir realizar tarefas que, antes, requeriam 30 trabalhadores e 20 dias. 

Quando me encontrei com Liu, no Verão de 2017, já a sua exploração agrícola possuía sete celeiros gigantes, dormitórios para os trabalhadores, um conjunto de escritórios e garagens e uma moradia de dois andares. Assisti, impressionada, ao funcionamento de uma enfardadeira de silagem deslocando-se pelo campo. Em 89 segundos, sugava a alfalfa, comprimia-a num cilindro, envolvia-a em plástico e descarregava-a no campo.

Pensei em Liu durante a minha visita ao parque e escritórios empresariais do Grupo CP, onde é fácil intuir outro argumento de venda menos referido das explorações agrícolas gigantes: o dinheiro. Os peritos bem podem discutir o tamanho ideal que produz mais alimento por hectare, mas as explorações industriais continuam a gerar lucro muito mais depressa do que as pequenas.
O Grupo CP esforça-se nesse sentido: contratou especialistas universitários em economia, bem como consultores internacionais para contribuírem para o seu êxito. 

Quando visitei o parque de Cixi, em Agosto de 2017, a atmosfera estava quente e húmida e Wang conduziu-me a uma sala de reuniões refrescada por um potente equipamento de ar condicionado para assistir a uma apresentação em PowerPoint. Depois, passámos ao almoço, numa sala de jantar para executivos, com paredes de vidro e vista para o terreno. Éramos cerca de uma dúzia de comensais sentados em torno de uma pesada mesa de madeira com um centro rotativo. Foi-me atribuído o lugar de honra, à direita de Wang, e saboreámos os 27 pratos dispostos sobre o prato rotativo, incluindo uvas e pitaias cultivadas nas estufas do parque. Wang serviu-me vinho tinto e, respeitando o costume chinês, elogiou-me calorosamente. Foi a refeição mais sumptuosa que comi na China. 

No instante em que a China se esforça por aumentar a escala da sua agricultura, muitos habitantes ricos das cidades mostram-se desconfiados da agricultura industrial. Um exemplo eloquente deste facto pode encontrar-se a norte de Pequim, onde Jiang Zhengchao, filho de Jiang e de Ping, ajuda a renovar o futuro agrícola da China. Por  trás de dois edifícios baixos de betão, ele cultiva dois hectares que compõem o seu pedaço da manta de retalhos agrícola da China. 

Há quase cem culturas na terra de Jiang, como melancia, beringela, taro e milho. Vende algumas nos mercados grossistas, mas o seu negócio principal consiste em convencer a classe média de Pequim a pagar-lhe, em prestações semestrais, a entrega semanal de alimentos seguros e frescos ao domicílio. Também arrenda lotes a outras pessoas para cultivarem géneros alimentares e, por um montante suplementar, trata-lhes da terra.
Depois de começar o seu negócio sem pesticidas nem adubos, agora utiliza-os em pequena quantidade: os clientes olhavam com desagrado os legumes com a casca picada e a fruta de pequena dimensão. “Tenho uma ligação afectiva” à agricultura, afirma Jiang, licenciado em assistência social. Trabalhou três anos num escritório e odiava esse trabalho. Acabou por regressar à agricultura para desgosto dos pais, para os quais o trabalho no campo é escravatura. “Não posso levar uma vida de luxo”, diz. Mas sente-se bem assim. 

Jiang faz parte de um fenómeno caracterizado por chineses nascidos no campo e com estudos universitários que regressam à terra. Embora ainda pequeno em escala, já é suficientemente vulgar para aqueles que nele participam serem classificados como fanxiang qingnian (jovens regressados ao campo). Têm agora uma organização dedicada a apoiar os seus interesses, o Centro de Desenvolvimento Wotu para a Agricultura Sustentável, e uma revista própria sobre agricultura sustentável. Na China, o sector da agricultura biológica tem registado um crescimento acelerado. As vendas multiplicaram-se cerca de trinta vezes desde 2006, segundo uma análise recente da indústria. Os investigadores afirmam que surgiram pelo menos 122 projectos de agricultura com apoio comunitário (AAC), no mesmo modelo de Jiang, mas o movimento reivindica a existência de várias centenas. A nível nacional há alguns mercados de agricultores ao estilo ocidental a funcionar, todos em grandes cidades.

Para os consumidores, as pequenas explorações agrícolas possuem dois atractivos: por um lado, a confiança de que a quinta fornecerá alimentos seguros; por outro, segundo Wen Tiejun, um especialista universitário sobre a China rural, as quintas mais pequenas reflectem as tradições agrícolas do país e isso agrada aos chineses. “Temos quarenta séculos de agricultura na Ásia”, afirma Wen. “Não só gera alimento suficiente para esta enorme população, como também tem um ambiente muito bom.” As pessoas sabem disso. Em 2008, Wen ajudou a fundar uma quinta biológica modelo em Pequim. No ano seguinte, dedicou-se à AAC, depois de uma das suas alunas de pós-graduação regressar do Minnesota, onde estudara com activistas da alimentação.

Na China, este tipo de alimentos continua a representar uma percentagem minúscula do mercado, mas isto mostra que muitos chineses ainda não estão rendidos a um futuro de refeições industriais. Jiang Zhengchao compreende a razão que leva os seus pais a quererem deixar para trás a sua quinta e não tem qualquer vontade de passar pelas mesmas provações que eles sofreram. No entanto, sente-se igualmente céptico quanto à necessidade das explorações agro-industriais.

Quando o visitei, Jiang levou-me, com outros colegas seus, a jantar numa churrasqueira. Sentámo-nos ao ar livre, numa mesa de plástico, observando uma mulher gorducha de avental apertado a cuidar de uma grelha metálica estreita empoleirada sobre dois cavaletes. Uma ventoinha industrial rugia sobre o churrasco, libertando colunas esvoaçantes de fumo no ar da noite. A mulher trouxe-nos pedaços de carne de porco caramelizada e espetadas de corações de galinha, cogumelos enoki fibrosos, regados com molho e sementes de sésamo pretas, cabeças de alho grelhadas, beringela a escorrer óleo e vinagre e amendoins cozidos salteados em molho de soja. Era mais carne do que Jiang alguma vez comera na infância, mas muito menos do que a quantidade típica ingerida pelos norte-americanos. Enquanto a luz do dia esmorecia e caía o crepúsculo, velhos agricultores conversavam a um canto, vendendo os seus excedentes de chalotas. 

Jiang contou-me que gostava da sua vida e, mais tarde, recitou um poema para ilustrar aquilo a que chamaríamos uma vida simples: uma casa velha, mas confortável, nada de muito espalhafatoso, um espaço bonito no meio do bosque. “Não acho que fosse mau as pessoas conseguirem sustentar-se com a sua própria terra de antigamente”, diz. “Na China, quando se é agricultor, as pessoas olham-nos com desprezo, mas eu gosto de sê-lo. A vida é curta e faço aquilo de que gosto.”

Jiang já compreendeu as vantagens proporcionadas pelas alterações introduzidas no sector agrícola da China ao longo das últimas quatro décadas. Segundo ele, a nossa refeição, integrando grandes quantidades de carne de porco e de galinha, fazia parte dessas vantagens. A sua própria vida fazia parte disso: uma espécie de viagem no tempo, saltitando entre a rural província de Gansu e a hipermoderna Pequim. Mas não tinha a certeza de que continuaria na AAC: rendia muito pouco e exigia tanto trabalho. Talvez, disse-me, um dia voltasse a Gansu e tentasse criar uma grande exploração agrícola. 

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