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apetite china

Utilizando woks ultra-aquecidos, estes estudantes da Escola Técnica Superior de Shandong Lanxiang aprendem a saltear alimentos. Os futuros 5.500 chefes de cozinha são ensinados a preparar os alimentos da forma tradicional, bem como a adaptá-los ao paladar chinês.

A natureza fragmentada e a pequena dimensão das explorações agrícolas chinesas constituem diferenças cruciais relativamente às quintas ocidentais e resultam de uma antítese dos métodos utilizados na maior parte do mundo industrializado para produzir géneros alimentares. Se a China deseja satisfazer o seu apetite com géneros produzidos no país, “precisa de conduzir várias alterações”, afirma Huang Jikun, perito em economia agrícola da Universidade de Pequim.
O regadio tem de ser aperfeiçoado e a tecnologia e a mecanização precisam de ser alargadas. No entanto, a primeira missão será seguramente alargar a dimensão das pequenas explorações agrícolas.

A solução pode parecer simples: substituir a manta de retalhos por um manto que possa ser colhido numa só passagem. Contudo, avisa Huang, grande nem sempre significa melhor. As culturas essenciais da China, como o milho, o arroz e o trigo, apresentam o melhor rendimento por hectare em propriedades de dimensão modesta: segundo um estudo, a dimensão mais favorável situa-se entre dois e sete hectares. “Em explorações agrícolas demasiado pequenas, o agricultor anda no campo a eliminar as ervas daninhas e a trabalhar de maneira muito intensa”, observa Fred Gale, economista do Ministério Norte-Americano da Agricultura. Naturalmente, os rendimentos por hectare das culturas reflectem essa prática, sendo muitas vezes mais elevados do que se o trabalho fosse feito por equipamento mecânico de grandes dimensões. O plano da China não consiste em emparcelar as quintas de pequenos agricultores como Jiang e Ping, transformando-as em explorações agrícolas gigantes. Isso seria praticamente impossível em termos logísticos e provocaria perturbações sociais, ao desenraizar milhões de agricultores. Pelo menos por agora, a ideia é agrupar campos adjacentes em explorações agrícolas com a dimensão aproximada de sete hectares.

Depois de passar alguns dias com Jiang e Ping, era-me difícil imaginar que a China pudesse possuir algumas das mais sofisticadas explorações agro-industriais do mundo. O melhor exemplo encontra-se nas indústrias da carne e dos lacticínios, concebidas pelos funcionários do Estado à imagem e semelhança das ocidentais. Para ver com os meus próprios olhos, tive de viajar até ao Leste da China, onde visitei uma fábrica de lacticínios fundada há quatro anos mas maior do que a maioria das existentes nos EUA.  

Para percorrer a pé a vacaria e a unidade de transformação da Quinta de Agricultura Moderna de Bengbu, a maior exploração leiteira da China, demorei quase cinco minutos. A atmosfera era obscura e sentia-se um cheio adocicado que não era totalmente desagradável. As vacas, de raça Holstein, estavam sossegadas. Ao longo do corredor de betão, as suas cabeças espreitavam pelas frinchas das vedações metálicas para alcançarem a comida e olhavam, moderadamente interessadas, para mim, um intruso todo vestido de branco – bata, galochas, boné e máscara facial completamente esterilizados. A quinta, com quase 240 hectares, é composta por quatro estábulos gigantes, construídos para alojar 2.880 vacas leiteiras cada um. Noutros estábulos e barracões, encontram-se os vitelos e as vacas prenhes, elevando a população bovina máxima da exploração para 40 mil animais. Parte do encanto da agricultura industrial é a sua enorme dimensão, à qual a China sucumbiu ao expandir a sua produção de carne e lacticínios. 

A China sempre valorizou a carne de porco nos seus hábitos alimentares e, por tradição, os porcos eram criados em explorações pequenas: até 2001, as quintas com mais de cinquenta porcos representavam apenas um quarto do mercado. Em 2015, cerca de três quartos dos porcos da China já eram criados em unidades destas.
O apetite crescente por carne de galinha e ovos tem sido satisfeito por explorações industriais. No entanto, talvez o mais surpreendente processo de industrialização tenha ocorrido nas explorações de lacticínios, como a que visitei em Bengbu.
A produção tradicional baseava-se em explorações familiares, tal como a suinicultura, mas, após um escândalo de segurança alimentar ocorrido em 2008, envolvendo leite para bebés mortalmente contaminado, a China forçou a indústria a modernizar-se. Em 2008, quase uma em cada seis explorações alojava pelo menos duzentas vacas. Em 2013, isso acontecia em mais de uma em cada três. 

É difícil exagerar a importância que a segurança alimentar tem para os consumidores chineses. Além dos níveis mortais de melamina contidos no leite para bebés, outros escândalos incluíram feijão-verde tratado com um pesticida proibido e carne de raposa adulterada vendida como carne de burro. Em 2016, um estudo da firma McKinsey & Company apurou que três quartos dos consumidores chineses se preocupavam com os riscos de saúde resultantes de alimentos ingeridos. O enorme número de pequenas explorações agrícolas torna o sistema alimentar da China “quase impossível de gerir em termos de segurança alimentar”, afirma Scott Rozelle, perito em assuntos do mundo rural chinês. As fábricas de lacticínios e os matadouros industriais viabilizam a rastreabilidade e a responsabilização e isso é algo desejado pelos consumidores chineses. Com efeito, um coloquialismo tradicionalmente utilizado para significar estar sossegado, “acalmar o coração”, foi redefinido. Vezes sem conta, os agricultores garantiram-me que eu podia acalmar o coração relativamente aos alimentos por eles produzidos: por outras palavras, era seguro ingeri-los. 

Na unidade leiteira da Modern Farming, os funcionários públicos apresentaram-me a um colaborador, Zhang Yunjun, cuja casa de família outrora se localizava onde agora se encontram os escritórios da fábrica. A quinta de Bengbu obrigou à deslocação de cerca de cem aldeãos e o Estado transferiu-os para um lugar situado um pouco mais abaixo, junto da estrada. Os habitantes da aldeia colaboraram de livre vontade quando os funcionários públicos lhes prometeram postos de trabalho na fábrica, novas habitações e aumentos regulares da taxa de arrendamento paga pela sua terra. Antes da instalação da fábrica de lacticínios, Zhang trabalhava cerca de 2,5 hectares de terra com dois parentes, cultivando amendoim e trigo. Hoje com 55 anos, é responsável pelas camas dos animais nos estábulos e ganha o dobro do que ganhava na agricultura. “As pessoas estão satisfeitas”, diz. “Era duro o trabalho de agricultor. Agora consigo ganhar muito mais.”

Praticamente todos os defensores das explorações agrícolas de grande dimensão me contaram histórias deste tipo, afirmando que as quintas de grande escala são soluções eficazes para a pobreza nas zonas rurais. 

Segundo este raciocínio, os agricultores podem trabalhar para as grandes explorações e arrendar as suas terras, beneficiando de dois rendimentos em vez de um. Mas a realidade nem sempre corresponde ao argumento de venda. “É verdade que geram emprego, mas é limitado”, diz Ye Jingzhong, especialista em sociologia rural da Universidade Agrária da China. “Quando querem lucro, a primeira medida que tomam é cortar nos custos com pessoal. E só podem empregar um número reduzido de trabalhadores mal remunerados.”

Ao aproximar-se o pôr do Sol, visitei os aldeãos deslocados e achei o seu entusiasmo pela fábrica de lacticínios muito menor do que o de Zhang. Vivem num conjunto de edifícios de apartamentos com dois andares e telhado plano, dispostos em forma de grelha, rodeados por campos de amendoim e de milho. Do outro lado da estrada, os campos de alfalfa da fábrica estendem-se a perder de vista. Uma mulher que pendurava roupa contou-me que, agora, a água tinha um cheiro esquisito. Várias pessoas relataram que a fábrica não contratava muitos trabalhadores, que as casas estavam a desfazer-se e que o rendimento proveniente do arrendamento não aumentava há quatro anos. Todos se queixaram de um fedor que emanava do estrume espalhado nos campos. Nenhuma das pessoas com quem falei se mostrou satisfeita com a mudança de casa, mas ninguém se mostrou assim muito zangado. O sentimento dominante era, simplesmente, de resignação.

Para a maioria destes habitantes da China rural, estes projectos agrícolas são, na melhor hipótese, facas de dois gumes, à semelhança do que sucede no resto do mundo. As grandes unidades de produção pecuária podem proporcionar a alguns chineses uma fuga aos trabalhos penosos da vida camponesa, mas produzem igualmente importantes riscos ambientais e de saúde. Segundo um levantamento do estado da poluição em 2010 promovido pelo governo chinês, a agricultura era o maior poluidor da água – mais ainda do que a indústria. E com todos os desafios de poluição que a China enfrenta, é difícil de imaginar como será possível à produção pecuária de grande escala evitar problemas de poluição e de saúde pública como aqueles que são atribuídos, por exemplo, às fábricas de lacticínios da Califórnia, muito mais pequenas do que as mega-explorações da China. 

O governo diz reconhecer os perigos e sublinha a importância de tratar os resíduos animais de maneira sustentável. Estas preocupações são partilhadas por muitas empresas agro-industriais na China, incluindo a Modern Farming. Em Bengbu, a empresa instalou um digestor de biogás para transformar o estrume em energia para satisfazer um terço das necessidades da fábrica e utiliza os subprodutos para adubar os seus campos. “Quase não há resíduos”, diz Liu Qiang, o guia que me levou a visitar a quinta. “As instalações são um exemplo para o país”, diz.

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