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As reformas radicais introduzidas no fim da década de 1970 transformaram a China num gigante cada vez mais motivado pelas necessidades do mercado. A modernização agrícola e industrial gerou uma migração contínua para as cidades, o aumento dos rendimentos e um apetite crescente por uma alimentação mais ocidentalizada entre os 1.400 milhões de habitantes da China.

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Um casal saboreia um chá de fim de tarde num hotel de luxo em Xangai, com vista para o novo bairro financeiro. À medida que os chineses enriquecem, os seus gostos tornam-se mais ocidentalizados. O país consome mais carne, mais lacticínios e mais alimentos processados. 

Texto de Tracie McMillan

Sinto-me como se viajasse para o passado ao ver Jiang Wannian e Ping Cuixiang a colher a safra de rábano daikon.

Num vale seco de Gansu, no Centro-Norte da China, Jiang faz passar um tractor enferrujado sobre um monte de plantas secas que lhe dão pela altura da cintura. Enquanto estas são esmagadas, Ping, a mulher de Jiang, mergulha na palha uma forquilha de fabrico caseiro e revolve-a, preparando uma nova passagem do tractor. Por fim, Jiang e Ping acabam a trabalhar lado a lado. Faz calor, mas ambos estão envoltos em roupa, para se protegerem da poeira e do sol. Têm rostos bonitos, de pele esticada e vincada por longos anos de trabalho ao ar livre, voltando-os para o céu quando atiram a palha fina ao ar e vêem as sementes avermelhadas chover-lhes em cima. Este ritmo mantém-se horas a fio. Numa cantilena entoada, Ping encoraja o vento, murmurando: “Sopra, sopra!” Há máquinas capazes de realizar esta tarefa em poucos minutos, mas são demasiado caras para Jiang e Ping. Em vez disso, o casal ainda debulha o rábano à mão, tal como os agricultores de há muitos séculos.

Jiang e Ping representam uma história da China e das suas explorações agrícolas. Mais de 90% de todas as quintas chinesas tem menos de um hectare e a sua dimensão média é uma das mais pequenas do mundo. Mas esta não é a história completa. Nas últimas quatro décadas, a China conseguiu alcançar o desenvolvimento agrícola que o mundo ocidental demorou 150 anos a conseguir e, além disso, ainda o reinventou. Todos os tipos de agricultura estão neste momento em curso: minúsculas quintas familiares, enormes unidades industriais de carnes e lacticínios, explorações agrícolas sustentáveis com tecnologia avançada e, até, quintas urbanas biológicas.

A China debate-se com um quebra-cabeças colossal: como alimentar quase um quinto da população mundial com menos de um décimo da sua terra agrícola, ao mesmo tempo que se adapta às mudanças dos hábitos alimentares. Há trinta anos, cerca de um quarto da população do país vivia em cidades. Em 2016, esse número já ascendia a 57%. É a pegada de uma China mais rica e tecnologicamente mais avançada, com um regime alimentar cada vez mais parecido com o ocidental. Os chineses comem quase o triplo da carne que comiam em 1990. O consumo de leite e lacticínios dos cidadãos urbanos quadruplicou entre 1995 e 2010 e quase sextuplicou entre os habitantes rurais. E agora a China compra muitos mais alimentos processados, que aumentaram cerca de dois terços entre 2008 e 2016.

Dada a insuficiência dos seus recursos agrícolas, a China precisa de procurá-los no estrangeiro, o que tem levado o governo a incentivar empresas nacionais a adquirirem solos agrícolas em países como os Estados Unidos, a Ucrânia, a Tanzânia ou o Chile. No entanto, há muito que a China valoriza a sua auto-suficiência em matéria de cereais de primeira necessidade, como ideologia e resposta ao isolamento político, e isto também se repercute nos campos agrícolas. Em 2013, ao discutir a política alimentar com funcionários rurais, o presidente Xi Jinping disse-lhes: “A nossa tigela de arroz deve conter sobretudo alimentos chineses.” Isto levanta uma questão difícil: se os chineses quiserem alimentar-se e comer de maneira mais parecida com a dos norte-americanos, como se reflectirá isso na prática local da agricultura? 

O desfasamento entre a oferta e a procura agrícolas na China poderá parecer insuperável. Existem 135 milhões de hectares de solo arável, dos quais cerca de 15 milhões se encontram poluídos ou postos em pousio para recuperação. Há 1.400 milhões de pessoas para alimentar, mas as explorações agrícolas gigantes que asseguram o regime alimentar dos ocidentais são quase impossíveis de reproduzir neste país. 

Isto deve-se em parte ao facto de grande parte dos terrenos na China serem montanhosos ou desérticos, mas também ao facto de se encontrarem divididos em cerca de 200 milhões de explorações agrícolas. A paisagem agrícola da China parece-se menos com um manto verde do que com uma manta de retalhos.

Os retalhos de Jiang e Ping ficam mesmo colados à sua aldeia. A sua zona é conhecida como Equipa Sete, um resquício dos tempos do colectivismo da era de Mao Tsé-Tung, quando o Estado dizia aos agricultores o que deviam plantar e reservava para si grande parte das colheitas. Jiang e Ping viveram a grave crise de fome do fim da década de 1950 e início da década de 1960: Jiang ainda se lembra de comer casca de árvore cozida e cintos de couro quando os alimentos se esgotavam. Após o fim do sistema colectivista em 1981, o Estado ainda guardou para si a propriedade da terra, mas distribuiu os direitos de cultivo pelos aldeãos, de maneira igualitária.

Através deste processo, Jiang e Ping receberam menos de 1,25 hectares, distribuídos por quatro leiras. Pedem à filha de 36 anos, que trabalha para uma empresa turística e se encontra de visita aos pais, vinda de Kunming, a 1.900 quilómetros de distância, que me mostre a sua quinta. Vestindo calças de ganga brancas, sapatos de contrafacção e uma camisola cor de melão com os ombros expostos, Jiang Yuping conduz-me ao final da rua. Vejo um edifício minúsculo de adobe, junto de uma vala de irrigação, e pergunto-lhe por que razão a latrina está tão perto da água. Ela pestaneja. “É uma espécie de templo de culto”, afirma, olhando-me com ar céptico. Quando lhe peço desculpa, ela volta-se para os campos de cultivo da família, com stevia plantada. São cerca de quatrocentos metros quadrados destas plantas curtas, cor de esmeralda, utilizadas como adoçante. 

Caminhamos mais além e ela mostra-me o campo de linho da família, com 200 metros quadrados, situado sob a chaminé fusiforme de uma fábrica. Cerca de dois quilómetros mais abaixo, ao longo de uma auto-estrada com duas faixas de rodagem, ficam as leiras de daikon, alface e milho. Mais tarde, Jiang fala-me dos pais e de como gostaria que a sua quinta fosse mais parecida com uma quinta americana. “Olhe para a China: a maior parte do solo é difícil de gerir”, diz. “Há desperdício de mão-de-obra e de recursos.”


 

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Utilizando woks ultra-aquecidos, estes estudantes da Escola Técnica Superior de Shandong Lanxiang aprendem a saltear alimentos. Os futuros 5.500 chefes de cozinha são ensinados a preparar os alimentos da forma tradicional, bem como a adaptá-los ao paladar chinês.

A natureza fragmentada e a pequena dimensão das explorações agrícolas chinesas constituem diferenças cruciais relativamente às quintas ocidentais e resultam de uma antítese dos métodos utilizados na maior parte do mundo industrializado para produzir géneros alimentares. Se a China deseja satisfazer o seu apetite com géneros produzidos no país, “precisa de conduzir várias alterações”, afirma Huang Jikun, perito em economia agrícola da Universidade de Pequim.
O regadio tem de ser aperfeiçoado e a tecnologia e a mecanização precisam de ser alargadas. No entanto, a primeira missão será seguramente alargar a dimensão das pequenas explorações agrícolas.

A solução pode parecer simples: substituir a manta de retalhos por um manto que possa ser colhido numa só passagem. Contudo, avisa Huang, grande nem sempre significa melhor. As culturas essenciais da China, como o milho, o arroz e o trigo, apresentam o melhor rendimento por hectare em propriedades de dimensão modesta: segundo um estudo, a dimensão mais favorável situa-se entre dois e sete hectares. “Em explorações agrícolas demasiado pequenas, o agricultor anda no campo a eliminar as ervas daninhas e a trabalhar de maneira muito intensa”, observa Fred Gale, economista do Ministério Norte-Americano da Agricultura. Naturalmente, os rendimentos por hectare das culturas reflectem essa prática, sendo muitas vezes mais elevados do que se o trabalho fosse feito por equipamento mecânico de grandes dimensões. O plano da China não consiste em emparcelar as quintas de pequenos agricultores como Jiang e Ping, transformando-as em explorações agrícolas gigantes. Isso seria praticamente impossível em termos logísticos e provocaria perturbações sociais, ao desenraizar milhões de agricultores. Pelo menos por agora, a ideia é agrupar campos adjacentes em explorações agrícolas com a dimensão aproximada de sete hectares.

Depois de passar alguns dias com Jiang e Ping, era-me difícil imaginar que a China pudesse possuir algumas das mais sofisticadas explorações agro-industriais do mundo. O melhor exemplo encontra-se nas indústrias da carne e dos lacticínios, concebidas pelos funcionários do Estado à imagem e semelhança das ocidentais. Para ver com os meus próprios olhos, tive de viajar até ao Leste da China, onde visitei uma fábrica de lacticínios fundada há quatro anos mas maior do que a maioria das existentes nos EUA.  

Para percorrer a pé a vacaria e a unidade de transformação da Quinta de Agricultura Moderna de Bengbu, a maior exploração leiteira da China, demorei quase cinco minutos. A atmosfera era obscura e sentia-se um cheio adocicado que não era totalmente desagradável. As vacas, de raça Holstein, estavam sossegadas. Ao longo do corredor de betão, as suas cabeças espreitavam pelas frinchas das vedações metálicas para alcançarem a comida e olhavam, moderadamente interessadas, para mim, um intruso todo vestido de branco – bata, galochas, boné e máscara facial completamente esterilizados. A quinta, com quase 240 hectares, é composta por quatro estábulos gigantes, construídos para alojar 2.880 vacas leiteiras cada um. Noutros estábulos e barracões, encontram-se os vitelos e as vacas prenhes, elevando a população bovina máxima da exploração para 40 mil animais. Parte do encanto da agricultura industrial é a sua enorme dimensão, à qual a China sucumbiu ao expandir a sua produção de carne e lacticínios. 

A China sempre valorizou a carne de porco nos seus hábitos alimentares e, por tradição, os porcos eram criados em explorações pequenas: até 2001, as quintas com mais de cinquenta porcos representavam apenas um quarto do mercado. Em 2015, cerca de três quartos dos porcos da China já eram criados em unidades destas.
O apetite crescente por carne de galinha e ovos tem sido satisfeito por explorações industriais. No entanto, talvez o mais surpreendente processo de industrialização tenha ocorrido nas explorações de lacticínios, como a que visitei em Bengbu.
A produção tradicional baseava-se em explorações familiares, tal como a suinicultura, mas, após um escândalo de segurança alimentar ocorrido em 2008, envolvendo leite para bebés mortalmente contaminado, a China forçou a indústria a modernizar-se. Em 2008, quase uma em cada seis explorações alojava pelo menos duzentas vacas. Em 2013, isso acontecia em mais de uma em cada três. 

É difícil exagerar a importância que a segurança alimentar tem para os consumidores chineses. Além dos níveis mortais de melamina contidos no leite para bebés, outros escândalos incluíram feijão-verde tratado com um pesticida proibido e carne de raposa adulterada vendida como carne de burro. Em 2016, um estudo da firma McKinsey & Company apurou que três quartos dos consumidores chineses se preocupavam com os riscos de saúde resultantes de alimentos ingeridos. O enorme número de pequenas explorações agrícolas torna o sistema alimentar da China “quase impossível de gerir em termos de segurança alimentar”, afirma Scott Rozelle, perito em assuntos do mundo rural chinês. As fábricas de lacticínios e os matadouros industriais viabilizam a rastreabilidade e a responsabilização e isso é algo desejado pelos consumidores chineses. Com efeito, um coloquialismo tradicionalmente utilizado para significar estar sossegado, “acalmar o coração”, foi redefinido. Vezes sem conta, os agricultores garantiram-me que eu podia acalmar o coração relativamente aos alimentos por eles produzidos: por outras palavras, era seguro ingeri-los. 

Na unidade leiteira da Modern Farming, os funcionários públicos apresentaram-me a um colaborador, Zhang Yunjun, cuja casa de família outrora se localizava onde agora se encontram os escritórios da fábrica. A quinta de Bengbu obrigou à deslocação de cerca de cem aldeãos e o Estado transferiu-os para um lugar situado um pouco mais abaixo, junto da estrada. Os habitantes da aldeia colaboraram de livre vontade quando os funcionários públicos lhes prometeram postos de trabalho na fábrica, novas habitações e aumentos regulares da taxa de arrendamento paga pela sua terra. Antes da instalação da fábrica de lacticínios, Zhang trabalhava cerca de 2,5 hectares de terra com dois parentes, cultivando amendoim e trigo. Hoje com 55 anos, é responsável pelas camas dos animais nos estábulos e ganha o dobro do que ganhava na agricultura. “As pessoas estão satisfeitas”, diz. “Era duro o trabalho de agricultor. Agora consigo ganhar muito mais.”

Praticamente todos os defensores das explorações agrícolas de grande dimensão me contaram histórias deste tipo, afirmando que as quintas de grande escala são soluções eficazes para a pobreza nas zonas rurais. 

Segundo este raciocínio, os agricultores podem trabalhar para as grandes explorações e arrendar as suas terras, beneficiando de dois rendimentos em vez de um. Mas a realidade nem sempre corresponde ao argumento de venda. “É verdade que geram emprego, mas é limitado”, diz Ye Jingzhong, especialista em sociologia rural da Universidade Agrária da China. “Quando querem lucro, a primeira medida que tomam é cortar nos custos com pessoal. E só podem empregar um número reduzido de trabalhadores mal remunerados.”

Ao aproximar-se o pôr do Sol, visitei os aldeãos deslocados e achei o seu entusiasmo pela fábrica de lacticínios muito menor do que o de Zhang. Vivem num conjunto de edifícios de apartamentos com dois andares e telhado plano, dispostos em forma de grelha, rodeados por campos de amendoim e de milho. Do outro lado da estrada, os campos de alfalfa da fábrica estendem-se a perder de vista. Uma mulher que pendurava roupa contou-me que, agora, a água tinha um cheiro esquisito. Várias pessoas relataram que a fábrica não contratava muitos trabalhadores, que as casas estavam a desfazer-se e que o rendimento proveniente do arrendamento não aumentava há quatro anos. Todos se queixaram de um fedor que emanava do estrume espalhado nos campos. Nenhuma das pessoas com quem falei se mostrou satisfeita com a mudança de casa, mas ninguém se mostrou assim muito zangado. O sentimento dominante era, simplesmente, de resignação.

Para a maioria destes habitantes da China rural, estes projectos agrícolas são, na melhor hipótese, facas de dois gumes, à semelhança do que sucede no resto do mundo. As grandes unidades de produção pecuária podem proporcionar a alguns chineses uma fuga aos trabalhos penosos da vida camponesa, mas produzem igualmente importantes riscos ambientais e de saúde. Segundo um levantamento do estado da poluição em 2010 promovido pelo governo chinês, a agricultura era o maior poluidor da água – mais ainda do que a indústria. E com todos os desafios de poluição que a China enfrenta, é difícil de imaginar como será possível à produção pecuária de grande escala evitar problemas de poluição e de saúde pública como aqueles que são atribuídos, por exemplo, às fábricas de lacticínios da Califórnia, muito mais pequenas do que as mega-explorações da China. 

O governo diz reconhecer os perigos e sublinha a importância de tratar os resíduos animais de maneira sustentável. Estas preocupações são partilhadas por muitas empresas agro-industriais na China, incluindo a Modern Farming. Em Bengbu, a empresa instalou um digestor de biogás para transformar o estrume em energia para satisfazer um terço das necessidades da fábrica e utiliza os subprodutos para adubar os seus campos. “Quase não há resíduos”, diz Liu Qiang, o guia que me levou a visitar a quinta. “As instalações são um exemplo para o país”, diz.


 

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Mesmo ao lado destes prédios de apartamentos suburbanos, a norte de Kunming, na província de Yunnan, as  estufas protegem culturas de rendimento elevado. Neste clima relativamente temperado, há colheitas todo o ano.

Na baía de Hangzhou, na margem oposta à de Xangai, à beira de uma enorme extensão de pântanos, um conglomerado empresarial tailandês da indústria de rações animais está a construir uma mega-exploração orientada por preocupações de sustentabilidade. A troco de uma isenção de renda e de um contrato de 20 anos, o Charoen Pokphand, ou Grupo CP, está actualmente a converter 2.600 hectares de lodaçais situados nos arredores da cidade de Cixi em território para produção de géneros alimentares. O seu objectivo é “criar valor para a sociedade em todas as direcções”, afirma Wang Qingjun, vice-presidente sénior.

É assim que se apresenta também o futuro agrícola da China: uma empresa multinacional a investir milhares de milhões de yuan num complexo agro-industrial constituído por campos agrícolas, quintas, fábricas, edifícios de escritórios e até unidades de habitação para os trabalhadores. No Verão de 2017, os arrozais abrangiam 1.450 hectares. Destes, 47 hectares eram de cultura biológica, aprovisionados com caranguejos vendidos para fins alimentares. O complexo possui estufas de produção, campos de brócolos, veículos aéreos não-tripulados para aplicação de produtos químicos, uma fábrica quase pronta de ravioli chineses e uma unidade fabril de ovos com um milhão de galinhas cuja dimensão se prevê venha a triplicar. Será tão grande que justificará a instalação de um robot termossensível que elimina automaticamente as aves mortas. O Grupo CP espera igualmente recolher estrume de galinha em quantidade suficiente para produzir, todos os anos, 22 mil toneladas de adubo biológico.

Em 2017, a empresa construiu uma exploração agrícola vertical, uma caixa arejada e translúcida composta por torres de dez metros de altura com prateleiras rotativas de leitos para plantas, semelhante a uma roda-gigante. 

Quando a visitei, havia nas prateleiras couve bok choy, amaranto e cebolinho. O ambiente controlado permite a aplicação localizada de adubo, elimina a necessidade de quantidades maiores de pesticida e produz o quádruplo de um campo com as mesmas dimensões, afirma Wang. Esta quinta vertical é altamente promissora, sobretudo num país com escasso solo arável, onde os agricultores agravam as preocupações de poluição nacionais ao utilizarem três vezes mais adubo do que o necessário. 

O complexo é, em grande medida, um exercício de aplicação da lógica fabril aos géneros alimentares e Wang encara-o como paradigma da integração vertical. “O relacionamento entre os seres humanos e a terra deve ser harmonioso”, diz. Ele considera este sistema de produção uma forma de concretizar o objectivo. Para o sector dos ovos, isso significa cultivar cereais para fabrico de ração avícola, criar as galinhas e, por fim, abatê-las e transformá-las depois de serem abatidas. A massa dos ravioli chineses será produzida com o trigo cultivado pelo Grupo CP e recheada com carne e produtos fabricados pela empresa. A empresa possui lojas para a venda dos seus produtos. Trata-se de uma visão impressionante… se tudo correr bem. Se ocorrer um surto de listeriose na fruta, por exemplo, a contaminação poderá disseminar-se com mais rapidez do que num sistema descentralizado. 

Praticamente todas as explorações agrícolas de grande dimensão da China são dirigidas pelo Estado, por sociedades cooperativas e por empresas, mas também travei conhecimento com Liu Lin, um agricultor da Mongólia Interior que ficou rico ao cultivar alfalfa para a indústria dos lacticínios. Na adolescência, Liu ouviu um programa radiofónico sobre a agricultura norte-americana e a utilização de equipamento mecânico para lavrar a terra. A solução parecia-lhe melhor do que arrotear o solo à enxada. Passado algum tempo, Liu convenceu os órgãos públicos locais a arrendarem-lhe cerca de mil hectares. Comprou maquinaria agrícola sofisticada no estrangeiro e, em quatro horas, passou a conseguir realizar tarefas que, antes, requeriam 30 trabalhadores e 20 dias. 

Quando me encontrei com Liu, no Verão de 2017, já a sua exploração agrícola possuía sete celeiros gigantes, dormitórios para os trabalhadores, um conjunto de escritórios e garagens e uma moradia de dois andares. Assisti, impressionada, ao funcionamento de uma enfardadeira de silagem deslocando-se pelo campo. Em 89 segundos, sugava a alfalfa, comprimia-a num cilindro, envolvia-a em plástico e descarregava-a no campo.

Pensei em Liu durante a minha visita ao parque e escritórios empresariais do Grupo CP, onde é fácil intuir outro argumento de venda menos referido das explorações agrícolas gigantes: o dinheiro. Os peritos bem podem discutir o tamanho ideal que produz mais alimento por hectare, mas as explorações industriais continuam a gerar lucro muito mais depressa do que as pequenas.
O Grupo CP esforça-se nesse sentido: contratou especialistas universitários em economia, bem como consultores internacionais para contribuírem para o seu êxito. 

Quando visitei o parque de Cixi, em Agosto de 2017, a atmosfera estava quente e húmida e Wang conduziu-me a uma sala de reuniões refrescada por um potente equipamento de ar condicionado para assistir a uma apresentação em PowerPoint. Depois, passámos ao almoço, numa sala de jantar para executivos, com paredes de vidro e vista para o terreno. Éramos cerca de uma dúzia de comensais sentados em torno de uma pesada mesa de madeira com um centro rotativo. Foi-me atribuído o lugar de honra, à direita de Wang, e saboreámos os 27 pratos dispostos sobre o prato rotativo, incluindo uvas e pitaias cultivadas nas estufas do parque. Wang serviu-me vinho tinto e, respeitando o costume chinês, elogiou-me calorosamente. Foi a refeição mais sumptuosa que comi na China. 

No instante em que a China se esforça por aumentar a escala da sua agricultura, muitos habitantes ricos das cidades mostram-se desconfiados da agricultura industrial. Um exemplo eloquente deste facto pode encontrar-se a norte de Pequim, onde Jiang Zhengchao, filho de Jiang e de Ping, ajuda a renovar o futuro agrícola da China. Por  trás de dois edifícios baixos de betão, ele cultiva dois hectares que compõem o seu pedaço da manta de retalhos agrícola da China. 

Há quase cem culturas na terra de Jiang, como melancia, beringela, taro e milho. Vende algumas nos mercados grossistas, mas o seu negócio principal consiste em convencer a classe média de Pequim a pagar-lhe, em prestações semestrais, a entrega semanal de alimentos seguros e frescos ao domicílio. Também arrenda lotes a outras pessoas para cultivarem géneros alimentares e, por um montante suplementar, trata-lhes da terra.
Depois de começar o seu negócio sem pesticidas nem adubos, agora utiliza-os em pequena quantidade: os clientes olhavam com desagrado os legumes com a casca picada e a fruta de pequena dimensão. “Tenho uma ligação afectiva” à agricultura, afirma Jiang, licenciado em assistência social. Trabalhou três anos num escritório e odiava esse trabalho. Acabou por regressar à agricultura para desgosto dos pais, para os quais o trabalho no campo é escravatura. “Não posso levar uma vida de luxo”, diz. Mas sente-se bem assim. 

Jiang faz parte de um fenómeno caracterizado por chineses nascidos no campo e com estudos universitários que regressam à terra. Embora ainda pequeno em escala, já é suficientemente vulgar para aqueles que nele participam serem classificados como fanxiang qingnian (jovens regressados ao campo). Têm agora uma organização dedicada a apoiar os seus interesses, o Centro de Desenvolvimento Wotu para a Agricultura Sustentável, e uma revista própria sobre agricultura sustentável. Na China, o sector da agricultura biológica tem registado um crescimento acelerado. As vendas multiplicaram-se cerca de trinta vezes desde 2006, segundo uma análise recente da indústria. Os investigadores afirmam que surgiram pelo menos 122 projectos de agricultura com apoio comunitário (AAC), no mesmo modelo de Jiang, mas o movimento reivindica a existência de várias centenas. A nível nacional há alguns mercados de agricultores ao estilo ocidental a funcionar, todos em grandes cidades.

Para os consumidores, as pequenas explorações agrícolas possuem dois atractivos: por um lado, a confiança de que a quinta fornecerá alimentos seguros; por outro, segundo Wen Tiejun, um especialista universitário sobre a China rural, as quintas mais pequenas reflectem as tradições agrícolas do país e isso agrada aos chineses. “Temos quarenta séculos de agricultura na Ásia”, afirma Wen. “Não só gera alimento suficiente para esta enorme população, como também tem um ambiente muito bom.” As pessoas sabem disso. Em 2008, Wen ajudou a fundar uma quinta biológica modelo em Pequim. No ano seguinte, dedicou-se à AAC, depois de uma das suas alunas de pós-graduação regressar do Minnesota, onde estudara com activistas da alimentação.

Na China, este tipo de alimentos continua a representar uma percentagem minúscula do mercado, mas isto mostra que muitos chineses ainda não estão rendidos a um futuro de refeições industriais. Jiang Zhengchao compreende a razão que leva os seus pais a quererem deixar para trás a sua quinta e não tem qualquer vontade de passar pelas mesmas provações que eles sofreram. No entanto, sente-se igualmente céptico quanto à necessidade das explorações agro-industriais.

Quando o visitei, Jiang levou-me, com outros colegas seus, a jantar numa churrasqueira. Sentámo-nos ao ar livre, numa mesa de plástico, observando uma mulher gorducha de avental apertado a cuidar de uma grelha metálica estreita empoleirada sobre dois cavaletes. Uma ventoinha industrial rugia sobre o churrasco, libertando colunas esvoaçantes de fumo no ar da noite. A mulher trouxe-nos pedaços de carne de porco caramelizada e espetadas de corações de galinha, cogumelos enoki fibrosos, regados com molho e sementes de sésamo pretas, cabeças de alho grelhadas, beringela a escorrer óleo e vinagre e amendoins cozidos salteados em molho de soja. Era mais carne do que Jiang alguma vez comera na infância, mas muito menos do que a quantidade típica ingerida pelos norte-americanos. Enquanto a luz do dia esmorecia e caía o crepúsculo, velhos agricultores conversavam a um canto, vendendo os seus excedentes de chalotas. 

Jiang contou-me que gostava da sua vida e, mais tarde, recitou um poema para ilustrar aquilo a que chamaríamos uma vida simples: uma casa velha, mas confortável, nada de muito espalhafatoso, um espaço bonito no meio do bosque. “Não acho que fosse mau as pessoas conseguirem sustentar-se com a sua própria terra de antigamente”, diz. “Na China, quando se é agricultor, as pessoas olham-nos com desprezo, mas eu gosto de sê-lo. A vida é curta e faço aquilo de que gosto.”

Jiang já compreendeu as vantagens proporcionadas pelas alterações introduzidas no sector agrícola da China ao longo das últimas quatro décadas. Segundo ele, a nossa refeição, integrando grandes quantidades de carne de porco e de galinha, fazia parte dessas vantagens. A sua própria vida fazia parte disso: uma espécie de viagem no tempo, saltitando entre a rural província de Gansu e a hipermoderna Pequim. Mas não tinha a certeza de que continuaria na AAC: rendia muito pouco e exigia tanto trabalho. Talvez, disse-me, um dia voltasse a Gansu e tentasse criar uma grande exploração agrícola. 

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