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As reformas radicais introduzidas no fim da década de 1970 transformaram a China num gigante cada vez mais motivado pelas necessidades do mercado. A modernização agrícola e industrial gerou uma migração contínua para as cidades, o aumento dos rendimentos e um apetite crescente por uma alimentação mais ocidentalizada entre os 1.400 milhões de habitantes da China.

apetite china

Um casal saboreia um chá de fim de tarde num hotel de luxo em Xangai, com vista para o novo bairro financeiro. À medida que os chineses enriquecem, os seus gostos tornam-se mais ocidentalizados. O país consome mais carne, mais lacticínios e mais alimentos processados. 

Texto de Tracie McMillan

Sinto-me como se viajasse para o passado ao ver Jiang Wannian e Ping Cuixiang a colher a safra de rábano daikon.

Num vale seco de Gansu, no Centro-Norte da China, Jiang faz passar um tractor enferrujado sobre um monte de plantas secas que lhe dão pela altura da cintura. Enquanto estas são esmagadas, Ping, a mulher de Jiang, mergulha na palha uma forquilha de fabrico caseiro e revolve-a, preparando uma nova passagem do tractor. Por fim, Jiang e Ping acabam a trabalhar lado a lado. Faz calor, mas ambos estão envoltos em roupa, para se protegerem da poeira e do sol. Têm rostos bonitos, de pele esticada e vincada por longos anos de trabalho ao ar livre, voltando-os para o céu quando atiram a palha fina ao ar e vêem as sementes avermelhadas chover-lhes em cima. Este ritmo mantém-se horas a fio. Numa cantilena entoada, Ping encoraja o vento, murmurando: “Sopra, sopra!” Há máquinas capazes de realizar esta tarefa em poucos minutos, mas são demasiado caras para Jiang e Ping. Em vez disso, o casal ainda debulha o rábano à mão, tal como os agricultores de há muitos séculos.

Jiang e Ping representam uma história da China e das suas explorações agrícolas. Mais de 90% de todas as quintas chinesas tem menos de um hectare e a sua dimensão média é uma das mais pequenas do mundo. Mas esta não é a história completa. Nas últimas quatro décadas, a China conseguiu alcançar o desenvolvimento agrícola que o mundo ocidental demorou 150 anos a conseguir e, além disso, ainda o reinventou. Todos os tipos de agricultura estão neste momento em curso: minúsculas quintas familiares, enormes unidades industriais de carnes e lacticínios, explorações agrícolas sustentáveis com tecnologia avançada e, até, quintas urbanas biológicas.

A China debate-se com um quebra-cabeças colossal: como alimentar quase um quinto da população mundial com menos de um décimo da sua terra agrícola, ao mesmo tempo que se adapta às mudanças dos hábitos alimentares. Há trinta anos, cerca de um quarto da população do país vivia em cidades. Em 2016, esse número já ascendia a 57%. É a pegada de uma China mais rica e tecnologicamente mais avançada, com um regime alimentar cada vez mais parecido com o ocidental. Os chineses comem quase o triplo da carne que comiam em 1990. O consumo de leite e lacticínios dos cidadãos urbanos quadruplicou entre 1995 e 2010 e quase sextuplicou entre os habitantes rurais. E agora a China compra muitos mais alimentos processados, que aumentaram cerca de dois terços entre 2008 e 2016.

Dada a insuficiência dos seus recursos agrícolas, a China precisa de procurá-los no estrangeiro, o que tem levado o governo a incentivar empresas nacionais a adquirirem solos agrícolas em países como os Estados Unidos, a Ucrânia, a Tanzânia ou o Chile. No entanto, há muito que a China valoriza a sua auto-suficiência em matéria de cereais de primeira necessidade, como ideologia e resposta ao isolamento político, e isto também se repercute nos campos agrícolas. Em 2013, ao discutir a política alimentar com funcionários rurais, o presidente Xi Jinping disse-lhes: “A nossa tigela de arroz deve conter sobretudo alimentos chineses.” Isto levanta uma questão difícil: se os chineses quiserem alimentar-se e comer de maneira mais parecida com a dos norte-americanos, como se reflectirá isso na prática local da agricultura? 

O desfasamento entre a oferta e a procura agrícolas na China poderá parecer insuperável. Existem 135 milhões de hectares de solo arável, dos quais cerca de 15 milhões se encontram poluídos ou postos em pousio para recuperação. Há 1.400 milhões de pessoas para alimentar, mas as explorações agrícolas gigantes que asseguram o regime alimentar dos ocidentais são quase impossíveis de reproduzir neste país. 

Isto deve-se em parte ao facto de grande parte dos terrenos na China serem montanhosos ou desérticos, mas também ao facto de se encontrarem divididos em cerca de 200 milhões de explorações agrícolas. A paisagem agrícola da China parece-se menos com um manto verde do que com uma manta de retalhos.

Os retalhos de Jiang e Ping ficam mesmo colados à sua aldeia. A sua zona é conhecida como Equipa Sete, um resquício dos tempos do colectivismo da era de Mao Tsé-Tung, quando o Estado dizia aos agricultores o que deviam plantar e reservava para si grande parte das colheitas. Jiang e Ping viveram a grave crise de fome do fim da década de 1950 e início da década de 1960: Jiang ainda se lembra de comer casca de árvore cozida e cintos de couro quando os alimentos se esgotavam. Após o fim do sistema colectivista em 1981, o Estado ainda guardou para si a propriedade da terra, mas distribuiu os direitos de cultivo pelos aldeãos, de maneira igualitária.

Através deste processo, Jiang e Ping receberam menos de 1,25 hectares, distribuídos por quatro leiras. Pedem à filha de 36 anos, que trabalha para uma empresa turística e se encontra de visita aos pais, vinda de Kunming, a 1.900 quilómetros de distância, que me mostre a sua quinta. Vestindo calças de ganga brancas, sapatos de contrafacção e uma camisola cor de melão com os ombros expostos, Jiang Yuping conduz-me ao final da rua. Vejo um edifício minúsculo de adobe, junto de uma vala de irrigação, e pergunto-lhe por que razão a latrina está tão perto da água. Ela pestaneja. “É uma espécie de templo de culto”, afirma, olhando-me com ar céptico. Quando lhe peço desculpa, ela volta-se para os campos de cultivo da família, com stevia plantada. São cerca de quatrocentos metros quadrados destas plantas curtas, cor de esmeralda, utilizadas como adoçante. 

Caminhamos mais além e ela mostra-me o campo de linho da família, com 200 metros quadrados, situado sob a chaminé fusiforme de uma fábrica. Cerca de dois quilómetros mais abaixo, ao longo de uma auto-estrada com duas faixas de rodagem, ficam as leiras de daikon, alface e milho. Mais tarde, Jiang fala-me dos pais e de como gostaria que a sua quinta fosse mais parecida com uma quinta americana. “Olhe para a China: a maior parte do solo é difícil de gerir”, diz. “Há desperdício de mão-de-obra e de recursos.”

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