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Fotografias: Miguel Valle de Figueiredo

Num cenário em que tudo ardia, nem os espaços abertos pareciam seguros, como este campo de futebol. "Estive em duas guerras e passaram-me balas por cima", contou uma senhora ao fotógrafo. "Nunca tive então tanto medo como neste incêndio. Não havia por onde fugir, nem se via um palmo à nossa frente."

Talvez não exista pior maneira de tomar conhecimento de uma tragédia do que pelo noticiário seco e objectivo da televisão, mas foi assim que o fotógrafo Miguel Valle de Figueiredo ficou a saber que os concelhos de Tondela e Santa Comba Dão, região de onde é natural, estavam a arder. "Ouvi o relato na noite de 15 de Outubro e, como conhecia a região e o mapa de cor, tirei conclusões rápidas: se isto for exactamente assim, Tondela vai arder toda", conta.

Os sortilégios do acaso e o empenho dos moradores pouparam parte da cidade, mas o incêndio cobrou um preço terrível a toda a Beira Alta. "Existia a memória recente dos incêndios da serra do Caramulo com mais de 80 quilómetros quadrados queimados em seis dias. Agora, foi o dobro dessa superfície em meia dúzia de horas só no concelho de Tondela", conta. "O que choca não é o facto de arder – a serra sempre ardeu. Foi a escala e a velocidade de progressão. Isso e o facto de o Estado ter falhado àquelas populações. Falhado na prevenção, no combate e até no socorro. As pessoas foram deixadas à sua sorte", diz.

Dias depois, Miguel Valle de Figueiredo organizou, com um grupo de amigos radicados em Lisboa, a primeira de várias viagens para transporte de provisões e roupas para as populações afectadas. Já em Tondela, com o incêndio ainda em rescaldo, cirandou pela serra, sem preocupações fotográficas. "Captei três ou quatro fotografias como documento. Não tinha ainda a intenção de registo", conta. Ao atravessar paisagens que conhecia desde a infância, descobriu com horror a escala da destruição. "Quando vi o bairro da estação de Santa Comba Dão, no Vimieiro, a primeira imagem de que me lembrei mentalmente foi a de Dresden bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial."

Aos poucos, surgiu a ideia do Projecto Cinzas, um contributo para que a memória das consequências dos incêndios de 15 de Outubro não se apague e uma modesta ajuda para aqueles que mais directamente sofreram os seus efeitos. De Outubro a Dezembro de 2017, Miguel Valle de Figueiredo decidiu não ceder a impulsos de fotojornalismo, nem a concessões de pendor artístico, registando incansavelmente tudo o que viu.

A progressão de um incêndio não obedece a um guião, nem segue uma lógica própria. As chamas tanto consomem vorazmente uma habitação como poupam — sem motivo aparente — a construção vizinha.

A recolha de centenas de imagens no âmbito do Projecto Cinzas obedeceu, sobretudo, a um enfoque documental, na esperança de "transferir para quem observa uma consciência que permita mudar a forma de encarar determinados acontecimentos, prevenindo ou alterando comportamentos", diz. "Sem artifícios, sem efeitos fáceis, num olhar próximo que transmita a devastação do território, para que os vindouros possam ter a noção do que se passou aqui e com estas populações."

Em Fevereiro deste ano, foi apresentada em Tondela a primeira exposição resultante deste trabalho, com apoio logístico da autarquia da cidade. Várias empresas associaram-se e cederam materiais. A verba resultante da venda das fotografias foi depositada integralmente na conta solidária para apoio à reconstrução.

Em Lisboa, a exposição “Cinzas”, estará aberta ao público a partir do dia 16 de Outubro, na galeria da Atmosfera M (Rua Castilho, nº 5), com entrada  gratuita. Mais informações aqui:  Exposição “Cinzas”

 

 

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